A Canção de Morgana
31 Coup de Grâce
Notas iniciais
“O sangue por cima do qual se iam arrastando
era como um mensageiro que lhes tivesse vindo dizer:
— Eu era a vida, atrás de mim já não há nada.”
― José Saramago, Blindness
— Isso é uma cabeça?!
Bervely olhou para baixo. Do fundo da caixa, a cabeça decepada e sem vida de Thor Carmichael esperava por ela, seus olhos opacos lhe encarando.
— Ponha no chão — mandou Nymphadora, se levantando com a varinha em riste, na direção da caixa. — Bervely, ponha a cabeça no chão!
Bervely depositou a caixa no tapete, travando os dentes ao sentir uma náusea reativa nascer na boca do estômago. O corte no pescoço de Carmichael era limpo e preciso; daquele ângulo ela podia ver as camadas de pele, músculo e nervos, e a extremidade branco-amarelada onde as vértebras de sua coluna tinham sido separadas.
— Periculus revelio! — Tonks ordenou para a cabeça, que não lhe dignou resposta, a não ser por uma sacudida dentro da caixa quando o feitiço a atingiu. Ela não pareceu satisfeita. — Priori incantatem!
Dessa vez, obteve uma espécie de fantasma desgastado de um feitiço que se enrolou na área do pescoço de Carmichael como uma foice, reproduzindo o momento da separação.
Bervely não conseguia parar de encarar os olhos opacos de Carmichael. Quando, em Azkaban, ela arrancara fora os olhos do vaso que ele estava usando, o corpo do auror Olleant, de algum modo acabara cegando-o também. Mas agora, os olhos embaçados dentro da caixa de alguma forma pareciam capazes de olhar de volta pra ela.
— Como raios isso veio para aqui? — Remus se aproximou, analisando a cabeça com um misto de preocupação e curiosidade acadêmica. — Tem algum remetente?
— Não — Tonks já se abaixara para verificar, revirando a tampa da caixa e o laço de fita vermelha que a embalara. — Bervely, quem mandou isso pra você?
— Como eu vou saber? — Disse ela com a voz fraca. — Monstro colocou os presentes debaixo da árvore…
— Monstro! — Sirius chamou, aborrecido. O elfo estalou no meio da sala, e se pareceu surpreso com o conteúdo da caixa no meio do tapete, não demonstrou.
— O Black indigno chama Monstro para quê?
— Você colocou uma cabeça decepada na árvore de Natal — Sirius apontou com impaciência.
— Monstro não sabia do conteúdo do presente, e fica ofendido que filho indigno acha que Monstro iria espiar as caixas sem permissão — disse o elfo com sonsidão.
— Como a caixa chegou aqui, Monstro? — Regulus se adiantou, querendo evitar uma rinha fora de hora entre o irmão mais velho e a criatura.
— Monstro a achou na lareira junto com os demais presentes hoje de manhã. Só tinha o nome da senhorita Black, então Monstro adicionou à pilha dela.
— Os demais presentes vieram da Casa dos Gritos, eu os enviei mais cedo, mas essa caixa não estava entre eles — Remus garantiu.
— Obviamente alguém está querendo passar uma mensagem — Tonks disse, se agachando perto da caixa em busca de pistas em torno da cabeça de Carmichael. Os espaços entre o cabelo sujo e embaraçado do bruxo e as bordas da caixa fora preenchido com pétalas de rosa branca. A auror pegou uma delas e levou ao nariz. — Onde eu já vi isso antes?
Bervely se levantou do sofá de um rompante, indo para perto do piano, o ponto mais distante da caixa, os olhares dos demais lhe acompanhando. Yasi, que tinha se recuperado do choque inicial, agora lhe olhava curiosa:
— Era algum amigo seu? — Ela perguntou intrigada. Bervely a ignorou, olhando pela janela, os olhos queimando. A neve continuava a cair do lado de fora, indiferente.
— Quando foi a última vez que você viu Carmichael? — ouviu Tonks lhe perguntar, ainda remexendo a caixa em busca de qualquer pista.
— Em Azkaban — ela se forçou a responder. — Ele tentou me matar.
— Você foi a responsável por mandá-lo à Azkaban, imagino que ele quisesse se vingar — a prima concordou, olhando-a com preocupação. — Mas ele não deveria ter tido acesso à você na prisão. O que o impediu?
Ela abriu a boca para responder: Bellatrix tinha. Mas com quatro pares de olhos humanos, um vampiro e um élfico, todos curiosos na sua direção, ela sentiu que não queria entrar em detalhes sobre como a mãe, de alguma forma, a fizera reagir quando estava no limite de suas forças.
— Eu arranquei os olhos dele fora — ela disse com simplicidade. Viu pela visão periférica que Tonks e Remus trocavam um olhar, e ao seu lado, Yasi recuou como se achasse que os seus olhos podiam estar em perigo também.
— Tem certeza? Ele ainda os tem — Sirius comentou casual. Bervely evitou olhar para ele; não tinha lhe contado sobre a tentativa de Carmichael de desalmá-la usando o corpo do auror Olleant como vaso, porque na época ele já estava miserável o bastante com o que sabia que ela tinha passado na prisão.
— Vou ter que chamar quem quer que esteja de plantão no Esquadrão hoje — disse Tonks, se levantando e limpando as mãos nas pernas das calças. — Eles vão vir recolher a cabeça e vão querer recolher depoimentos…
— Ficou louca? — Sirius interviu. — Você não pode chamar aurores nessa casa hoje! O que eles vão dizer quando verem uma fugitiva de Azkaban dada como morta, um lobisomem, o Garoto que Sobreviveu e um ex-comensal da morte também dado como morto passando o Natal juntos numa casa de conhecidos suportadores de artes das trevas?
— Podemos esconder vocês nos andares de cima, ou então vocês voltam para a Casa dos Gritos antes que eles cheguem.
— Além do mais — Sirius continuou fervoroso, sem ouví-la. — Bervely não pode ser associada com essa cabeça, ela foi inocentada das acusações, mas receber os restos mortais de Carmichael com certeza vai contar como uma razão para reabrir as investigações!
Tonks olhou para o primo, abismada.
— O que você sugere, então? Que eu leve a caixa pra eles e diga que achei na esquina?
— Ou podemos enviar anonimamente para o Ministério — Sirius sugeriu. — Não importa, só precisamos tirar isso daqui o mais rápido possível.
— Mas isso é supressão de evidência! — Nymphadora retrucou. — Sabe Merlin o que Carmichael anda fazendo desde que escapou de Azkaban, e quem foi que cortou a cabeça dele fora, mas omitir informações não vai tornar a investigação mais fácil!
— Quem se importa com a investigação? — Sirius rebateu, irritado. — O mais fácil para eles será colocar Bervely de volta na prisão por cúmplice no assassinato, eles nem hesitaram da última vez!
— Eu também não quero ver Bervely em problemas — Tonks retrucou ofendida. — Mas não posso simplesmente fingir que não sei o que aconteceu aqui!
— Você não precisa se envolver, podemos pedir a Monstro para levar a cabeça e ordená-lo a não contar–
— Não vou confiar evidência de um crime a um elfo doméstico!
— Você fala como se alguém se importasse com a resolução deste crime — rosnou Sirius para ela. — Carmichael era um monstro desprezível e mereceu ser decapitado, pouco importa quem fez o favor!
— Não significa que não precisamos saber quem foi!
— Não se isso vai implicar a segurança de Bervely!
Ninguém mais na sala ousava respirar, acompanhando a discussão de Sirius e Tonks. Remus espiou Bervely, parada como uma estátua do outro lado da sala, e reconheceu a expressão espelhada nos olhos dela, quando a jovem, pega de surpresa, olhou direto para ele. Ele pigarreou.
— Eu sei como resolver esse impasse.
Sirius e Tonks pararam de gritar um com o outro, lhe dando atenção. Remus andou até onde a cabeça da discórdia se encontrava e a ergueu nos braços.
— Remus, o que você pensa que está fazendo? — Tonks estranhou, vendo que ele andava na direção da lareira acesa.
Ao invés de respondê-la, ele virou a caixa, deixando a cabeça e todas as pétalas de rosa caírem na mistura de fogo, cinzas e lenha com um baque surdo. Ela rolou para o lado desajeitada, a boca semi-aberta, cinzas grudando na ferida aberta na base do pescoço. Bervely prendeu a respiração, assistindo as chamas queimarem ao redor da cabeça, e os olhos irônicos de Thor ainda lhe encarando, mesmo daquela distância, mesmo mortos. Os demais ocupantes da sala assistiam com níveis diferentes de embasbacamento, com a exceção de Regulus, que mal conseguia ocultar um sorriso cômico.
— Ficou maluco?! — Tonks correu para a lareira, a varinha apontada a fim de apagar o fogo, mas Remus foi mais rápido:
— Incendium Maledictum! — disse ele, a própria varinha apontada para as chamas. O fogo explodiu, vermelho e vivo, envolvendo a cabeça morta, retorcida e macilenta de Thor Carmichael. Primeiro o cabelo se ascendeu em chamas, depois a pele borbulhou, e os olhos vazaram pelas bochechas retorcidas, emulando lágrimas leitosas. A pele derretida mostrou músculos e nervos e finalmente osso, cujo fogo maldito devorou com avidez. Em poucos minutos a cabeça de Carmichael foi consumida, deixando para trás apenas um pó escuro. O fogo maldito então devorou a si mesmo, deixando um fio de fumaça no ar.
Ninguém fez nenhum ruído por um longo tempo. O cheiro de rosas, churrasco e cabelo queimado que tomara a sala era nauseante.
— Bem, isso resolve — disse Sirius por fim, alegremente.
— Eu não acredito que você acabou de fazer isso — disse Tonks para Remus, mesmerizada. O bruxo colocou a varinha de volta no bolso e voltou a se sentar tranquilamente no sofá.
— Esse acontecimento não deve deixar esta sala — ele disse calmamente. — Alguém precisa ordenar ao elfo que guarde segredo.
Ele tinha olhado para Sirius, mas foi Regulus que se adiantou para Monstro, que ainda estava por ali, fazendo uma careta de desaprovação para o pó escuro na lareira.
— Monstro, você está proibido de falar para qualquer pessoa qualquer coisa sobre a cabeça, em qualquer tempo. Você não deve contar que a recebeu, nem que fim ela teve, nem quem estava presente. Entendido?
— Sim, mestre — Disse o elfo, desgostoso. — Monstro só acha que é um jeito muito ingrato de tratar um presente de Natal.
— Obrigado, Monstro — o vampiro suspirou. — Pode ir agora.
O elfo estalou para fora da sala com um último olhar feio para Remus. Bervely ainda estava parada perto da janela. Remus tentou pescar o olhar dela, mas ela estava distante demais para perceber, encarando a fumaça da lareira, a boca semi-aberta.
— Eu não vou contar a ninguém — Yasi quebrou o silêncio, firmando a voz. — Não acho que ninguém vai acreditar em mim, de qualquer forma.
— Ótimo — Remus assentiu para ela com aprovação. — Harry? Anne?
Harry deu de ombros. Ainda não estava convencido de que não estava tendo um sonho esquisito, e que ia acordar em sua cama em Hogwarts a qualquer momento e dar risada daquilo tudo com Rony.
— É óbvio que não vou contar — disse Anne, olhando para a irmã com preocupação. — Também acho que o Olho de Hórus mereceu…
— Essa não é a questão, pelo amor de Merlin — Tonks recomeçou. Remus se virou direto para ela, os olhos de âmbar cintilando com desafio.
— Dora?
— É óbvio que eu não vou contar nada, que diferença vai fazer agora? Vai ser só uma história–
— Sem pé nem cabeça? — Sirius completou, recebendo um olhar feio. — Cedo demais?
Ele conseguiu uma risadinha e Yas, mas Tonks o ignorou, cruzando os braços em frente ao suéter de “mamãe loba” e olhando feio pra ele.
— Regulus? — Remus chamou a atenção do irmão, que fez um aceno de complacência com a cabeça.
— Prometo levar o segredo para o túmulo — disse solene, com um leve toque de ironia.
— Ótimo, acho que isso resolve — disse Remus, satisfeito. — Bervely?
Ela aprumou as costas, finalmente afastando os olhos da lareira, o rosto pálido mas resoluto.
— Parece bom para mim. Agora se me dão licença, vou ver com o elfo a quantas anda o almoço.
***
Monstro serviu o almoço de Natal na sala de jantar, embora tivera de ser convencido a incluir um lugar para Sirius, o que ele fez com profunda infelicidade, porém incapaz de descumprir uma ordem direta de Regulus.
Apesar de Bervely estar decidida a fingir que o ‘presente’ não a perturbara, o clima tenso na sala poderia ser espetado com uma varinha.
— O cheiro está bom — comentou Harry, tentando sacudir os ânimos. — Não sabia que Monstro sabia cozinhar.
— Tem razão. Nem estou arrependida de não ter ficado em Hogwarts esse ano — Anne tentou colaborar.
Bervely alinhava o guardanapo de pano no colo com precisão centimétrica, evitando o olhar dos demais. Sirius ficava tentando checar se ela estava bem de cinco em cinco minutos, Yas e Regulus estavam conversando aos sussurros sobre a nova prataria, e Tonks, bem, ela parecia a mais puta da vida de todas. Era difícil saber se ela estava mais irritada por Remus ter queimado a cabeça, ou porque ele não tinha dito mais nada sobre a sua ‘revelação’ um segundo antes de Bervely ter aberto a caixa.
— Bom apetite à todos — pigarreou, erguendo o queixo acima da estranheza da mesa. — Monstro, pode começar a servir.
O barulho de talheres e pratos, e dos resmungos de Monstro (“servindo uma mesa de indignos, traidores de sangue, minha senhora engasgaria de vergonha, e mestre Regulus coadunando com a imundice… Monstro chora de decepção…”) preencheu a sala enorme, ecoando no teto alto e nos quatro ou cinco espelhos que cobriam a parede oposta à porta e duplicava cada aspecto daquela refeição.
— Pare de encher o saco, Monstro, ninguém se importa com o que a velha chata da minha mãe ia achar! — Sirius reclamou quando o elfo chegou do seu lado da mesa.
— Monstro não tem porque receber ordens do traidor de sangue — disse o elfo, rancoroso. — Monstro sabe que o verdadeiro herdeiro da casa é o mestre Regulus que retornou para reivindicar seu posto de herdeiro…
— Não foi por isso que ele voltou, elfo tonto — Sirius retrucou, zombeteiro. — Ou você não reparou que o seu “mestre” está um tanto, uh, como vou dizer, morto?
— Mesmo em sua condição, mestre Regulus tem mais direitos do que o sangue imundo de seu irmão — Monstro rebateu baixinho. — Monstro sempre vai ser leal ao sangue puro, na vida e na morte…
— Obrigado pela consideração, Monstro — Regulus disse com diversão. — Mas você deve obedecer às ordens de toda a família, já conversamos sobre isso.
— Monstro obedece o pedido de mestre Regulus, mas monstro está desgostoso…
— Sabe o que deixa um elfo menos desgosto, Monstro? — Sirius sugeriu maldosamente. — Uma temporada no forno com um pouco de sal e azeite…
— Monstro não é afetado pela provocação do filho indigno, Monstro não vai se punir por falar verdades…
— JÁ CHEGA, VOCÊS DOIS! — Bervely exclamou, fazendo todos na mesa pularem. Ela se recompôs, as bochechas ligeiramente tingidas de rosa. — Monstro, você já pode se retirar.
O elfo foi para a cozinha, resmungando. Sirius olhou feio para ela:
— O quê, é Natal e eu não posso nem me divertir?
— Pare de agir como uma criança mimada, pela graça de Circe — ela exalou, irritada.
— Ele só está revivendo os velhos tempos — disse Regulus com um sorrisinho provocativo. — Os jantares eram sempre mais divertidos quando ele e Monstro se engajavam em discussões acaloradas… que, é claro, terminava com Sirius indo para a cama de bunda quente, mas valia a pena, ah se valia. Pra mim, pelo menos. — Ele deu de ombros, ignorando o olhar atravessado do irmão.
— Se vocês já terminaram com as reminiscências do passado, a comida está esfriando — ela disse com azedume.
Garfos e facas começaram a fazer seu trabalho e logo todos estavam concentrados demais na comida para trocar farpas. Dora, que a essa altura estava cansada de tentar fazer Remus silenciosamente notar a sua indignação, se esticou para alcançar o vinho de fadas que estava sobre a mesa.
— Você não deveria — ele disse ao lado dela, em tom de advertência.
— Ah, é? Por quê? — Ela retrucou, sem ocultar sua irritação e mágoa pelo tratamento silencioso a que vinha sendo submetida por ele na última hora.
— Vamos conversar mais tarde, está bem?
— Qual o problema com agora?
— Só não quero envolver todo mundo nisso — ele disse em voz baixa.
— Engraçado você dizer isso, quando acabou de fazer todo mundo cúmplice num crime de destruição de evidência!
— Agora não — ele rosnou. — Mais tarde.
— Ou talvez nem precisemos conversar coisa alguma — ela decidiu, se levantando da mesa de uma vez, esbarrando na garrafa e a derrubando sobre a mesa. O vinho começou a sangrar através da toalha branca ao mesmo tempo em que ela deixava a sala de jantar, esbarrando na cadeira de Harry no caminho.
— Dora! Merda — Remus levantou a garrafa que ela derrubara, embora metade do seu conteúdo já tivesse se esvaído. — Desculpem por isso… Dora, espera aí.
Remus foi atrás dela, sob os olhares preocupados de Anne e Sirius, intrigados de Harry, Regulus e Yas, e resignado de Bervely.
— Bem, se alguém achou que estava faltando drama na programação... — Sirius assobiou, fazendo Yas, em frente a ele, ocultar um sorriso atrás do guardanapo, voltando a encarar o próprio prato.
Regulus conseguiu captar o olhar de Bervely através dos castiçais de prata no meio da mesa, mas ela desviou o rosto de volta para o próprio prato, resignada.
***
Remus achou Nymphadora no hall de entrada, metendo as mangas do casaco magenta nos braços, e percebeu que ela falava sério sobre estar indo embora.
— Dora, por favor — ele a alcançou perto da porta, falando baixo para não despertar a ira do retrato da Sra. Black. — Eu sinto muito, mas acho que fiz certo, aquela cabeça ia trazer problemas–
— Que se dane a maldita cabeça! — ela sibilou, os olhos se tornando brilhantes de lágrima quando olhou pra ele. — Você acha mesmo que é isso que está me incomodando?
Eles se encararam longamente, e por fim, Remus deixou os ombros caírem, silenciosamente admitindo o hipogrifo na sala. Ela meneou a cabeça, magoada.
— Me chame de louca, mas eu pensei que você ia ficar feliz com a notícia.
— Feliz? — Ele franziu o cenho, confuso. — Nymphadora, você tem alguma noção da gravidade dessa notícia?
— Não comece com a conversa de “velho-pobre-perigoso” — ela ameaçou, zangada —, ou eu juro pelas calças de Merlin, Remus, eu vou estrangular você!
— Não é isso! Bem, tem isso — Ele acrescentou com alguma resignação. — Mas eu não… porquê você acha que eu nunca tive filhos?
Era o tipo de pergunta para a qual ela tinha medo de pensar na resposta.
— Não sei… isso importa? Você vai ter um agora, então, se você puder parar de ser completamente obtuso a respeito e conversar comigo…
— Não! Não, eu não vou, não — Remus fez um sinal com a mão para que ela parasse de falar e lhe escutasse. — Dora, eu sou um lobisomem, se lembra? Eu não posso ter filhos!
— E daí que você é um lobisomem? Isso nunca fez ninguém infértil, que eu saiba! É decididamente seu, senhor lobisomem-Lupin. E se você está insinuando que haja a possibilidade de outra pessoa ser o pai, eu sinto lhe decepcionar, mas a possibilidade está fora da carruagem!
— Eu não estou insinuando nada — ele garantiu, a voz suavizando, os olhos claros ainda brilhando de receio. — Eu não duvido que seja meu, só estou dizendo… você não pode ser tão ingênua, certamente já leu o que acontece quando lobisomens tentam… procriar com humanas.
Ela o encarou com uma expressão vazia e confusa, enquanto que Remus estava transtornado que ela não tivesse considerado aquele detalhe. A auror exalou todo o ar dos pulmões e perguntou com condescendência.
— Me diga, o que é que acontece quando lobisomens decidem procriar com humanas?
Ele abriu a boca, mas perdeu a coragem no meio do caminho. Tonks ergueu as sobrancelhas com impaciência, e ele espremeu uma explicação meia-boca para fora.
— Gerar a prole de um lobisomem colocaria a sua vida estaria em perigo.
— Como assim? Você fala como se eu tivesse… nós sempre… eu estou grávida de você, não do lobo! — exclamou ela, exaltada.
— Exceto que se eu me lembro bem, da última vez que tivemos, você sabe, relações carnais, era lua cheia.
— Manhã de lua cheia — ela o corrigiu. — Você não estava transformado!
— Não importa, Dora. A maldição estava ativa, eu estava contagioso, e se foi naquele dia que você engravidou, é bem possível que…
— Que o quê? Eu não estou infectada! Eu saberia se estivesse, eu não tenho nenhum sintoma!
— Você não estaria se e não a mordi — ele disse sombrio. — Mas a prole…
E foi então que ela compreendeu. Uma sombra cobriu seus olhos, mas logo algo mais também surgiu em sua expressão; uma faísca de teimosia que Remus conhecia muito bem a essa altura.
— Acho que vamos ter que esperar pra ver, então — ela disse, simplesmente.
Ele negou com veemência.
— Não vou permitir que você corra o risco, nem em um milhão de anos. Não vou, Dora — avisou, pousando uma mão em seu ombro. Ela o encarou longamente, entendendo onde aquilo os colocava, e devagar, retirou a mão de Remus do seu ombro.
— Essa decisão não é sua.
Remus a assistiu terminar de vestir o casaco, e com isso, esbarrar no porta guarda-chuvas em formato de pé de troll, que se chocou contra o aparador. Um vaso de vidro em cima do móvel bambeou e caiu, se espatifando no chão entre eles. Nenhum dos dois esboçou reação até a voz estridente da Sra. Black preencher o silêncio:
— CONVIDADOS IMUNDOS DESTRUINDO A MINHA CASA, ESCÓRIA DESONRADA SOB MEU TETO! SAIAM, SAIAM, CRIAS DA SORDIDEZ, PAREM DE EMPORCALHAR A MINHA CASA…
Nymphadora deu as costas para ele e deixou a casa sob os gritos de Walburga Black, batendo a porta ao sair. Remus ficou parado no mesmo lugar, encarando os cacos afiados de vidro no chão, até que Sirius surgiu no corredor para ver o que estava acontecendo.
— Ok, mamãe querida, isso é o bastante, obrigado pelo lembrete! — Exclamou ele às costas de Remus, finalmente calando o quadro. Depois, Remus o ouviu diminuir a distância entre eles e sentiu a mão do amigo em seu ombro.
— Ela quer ter o bebê — ele murmurou, arrasado. Sirius lhe deu uma sacudidinha de encorajamento, fazendo o corpo de Remus balançar apático para frente e para trás.
— Meus parabéns, papai lobo.
* * *
Remus e Sirius se reuniram aos demais na sala de estar. As embalagens de presente tinham sido recolhidas de sob a árvore, e o cheiro de cabeça queimada fora, de alguma forma, purificado por Monstro na ausência deles. Sentados no tapete, Harry e Anne disputavam uma partida de Snape Explosivo, um presente que Sirius dera para Harry, Bervely achava, com a intenção oculta de provocá-la.
O jogo, que era uma versão adaptada do Snap Explosivo original pelos gêmeos Weasley, bradava impropérios numa voz que lembrava muito a de Severus Snape, e quando alguém perdia, as cartas explodiam em um óleo espesso capaz de grudar no cabelo por dias.
Quando o pai e o padrinho entraram, Anne ergueu a cabeça na direção dos dois:
— Dora está bem?
— Ela vai ficar — Sirius garantiu, apesar da careta de infelicidade de Remus atrás dele. — Posso jogar também?
Bervely rolou os olhos para a imagem de Sirius sentando no tapete, e retornou à sua tarefa de tentar encantar o maldito piano para tocar música.
“Dez pontos a menos para a sua casa, sua criatura obtusa”, ela ouviu o jogo dizer na voz grave do padrinho, quando Anne fez uma parte do castelo de cartas desabar, fazendo os outros dois rirem. Bervely respirou fundo, as narinas inflando.
Regulus estava ali por perto, remexendo um livro e outro da estante, tirando e recolocando volumes antigos que quase se desfaziam sob seus dedos, e ouviu o som irritado da respiração dela.
— Não está indo muito de acordo com o planejado, está? — Ele perguntou baixo para ela. — Mas aquela cabeça… um presente e tanto.
— Não quero falar sobre o assunto — disse em tom de aviso. Não estava nem um pouco inclinada a revisitar Thor Carmichael com Regulus, que já devia achar que ela era maluca o suficiente.
— Não estou julgando — ele riu, divertido. — Só acho que você tem um admirador e tanto, algum lugar lá fora. Decapitar uma pessoa não é tarefa fácil, mesmo com magia.
Ela olhou para ele na defensiva.
— Carmichael era um homem ruim. Estou feliz que ele teve a cabeça removida do corpo e que morreu no processo.
— Imagino que quem quer que fez isso teria de ser pior do que ele?
Bervely o ignorou, se virando com uma nova coleção de partituras que queria convencer o piano a tocar, mas o feitiço continuava fazendo as teclas chiarem e reclamarem ao invés de seguirem as notas musicais que deveriam.
— Ele era um comensal da morte? — Regulus perguntou de novo, curioso. Bervely suspirou; não parecia que ele ia desistir tão cedo daquele interrogatório.
— Não. Caso não lhe tenha sido informado, o mundo não se divide em bons e comensais da morte.
— Foi o que ouvi dizer — ele sorriu. — Também existem os monstros sem afiliação, não é mesmo?
— Exato — ela disse por entre os dentes. Notas desconexas gritaram de novo do piano e Bervely deu um urro de frustração, largando as partituras sobre a tampa.
— Posso ajudar? — perguntou Yasi, que tinha se aproximado dos dois, após algum tempo observando a luta de Bervely do outro canto da sala.
— Se acha que pode fazer melhor — Bervely lhe indicou as partituras e o piano, de má vontade.
A jovem se sentou, alinhando as costas e enrolando o cabelo cacheado no topo da cabeça, e ajustou as partituras num suporte acima da base. Ela acariciou as teclas, as testando cuidadosamente, conseguindo sons limpos e cristalinos que reverberaram pela sala de teto alto. Então, começou a tocar. Não o barulho irritante que Bervely estivera produzindo, mas música.
— Certo — Bervely resmungou, irritada. Podia ver pelo canto de olho Regulus observando Darkmoon com admiração. — Se era essa a ajuda, porque não se ofereceu antes?
A garota sorriu, sem parar de emitir uma melodia limpa e agradável que soava vagamente como uma canção de natal.
Bervely se afastou do piano ligeiramente ofendida e foi se sentar perto do fogo. Ficou feliz em saber que os olhos de Regulus se desviaram de Yasi para acompanhar o seu movimento pela sala, e constatar que ele ainda estava suficiente interessado, pelo menos no que se referia ao seu passado obscuro.
* * *
— Você está bem? — Remus perguntou em voz baixa para que só ela ouvisse, interpelando-a no corredor a caminho do banheiro.
Bervely assentiu a esmo.
— Por que não estaria?
— Fingir que nada aconteceu não vai mudar a realidade, você sabe — ele advertiu, fazendo-a erguer uma sobrancelha com a ironia.
— Eu poderia dizer o mesmo para você, papai lobo.
Como esperara, havia atingido o ponto fraco dele, e recebeu uma resposta controlada, mas que tinha notas de incômodo bem evidentes por debaixo.
— Não é a mesma coisa. Eu vou ter tempo para conversar com Dora mais tarde. Quando as coisas se acalmarem.
— Diga isso para ela, não para mim — ela encolheu os ombros. Mas Remus ainda estava lá parado, lhe encarando como se ela lhe devesse respostas. E quando ela permaneceu em silêncio, ele perguntou o que tinha mente.
— Quem mandou a cabeça, Bervely?
— Eu já disse que não sei — disse, cruzando os braços com irritação. Por que todo mundo continuava lhe perguntando aquilo?
— E eu acho que está mentindo — ele disse, olhando-a nos olhos, muito sério.
— Então não devia ter interferido — ela o desafiou. Remus deixou escapar um riso cansado, dando de ombros.
— Lei do menor estrago. Além do mais, estou cansado de ver Sirius miserável por sua causa, ou pior, tendo que se colocar em risco para proteger você.
***
— Nós devemos retornar para a Casa dos Gritos — anunciou Remus algum tempo mais tarde, despertando do torpor amuado em que tinha se envolvido desde a saída de Tonks.
Haviam passado uma tarde tranquila, à despeito do início atribulado do dia. Yas tocara uma série de músicas para eles, e Harry, Anne e Sirius haviam esgotado o estoque de gosma oleosa do Snape Explosivo após mais de uma dúzia de partidas.
Monstro tinha aparecido para servir eggnogg por volta das quatro, acidentalmente derramando o de Sirius sobre ele, que, tão distraído com o afilhado e a filha, nem fez caso. Começava a escurecer do lado de fora das janelas. Uma espessa camada de neve fofa forrava o chão da rua trouxa como um tapete feito de nuvem congelada.
— Você pode ir, mas os demais não precisam — Bervely se adiantou, emergindo do volume de Raízes Negras que estava folheando na última hora e meia. — Monstro arrumou quartos para todo mundo, podem passar a noite e retornar amanhã.
— Não acho que seja uma boa ideia — Remus resistiu, levantando-se. — Nenhum esquema de segurança foi combinado para Harry e sabemos que a casa não é completamente segura–
— A casa é perfeitamente segura — Bervely retrucou. — Desde que Sirius não mande o elfo embora de novo, ou não foi por isso que ele foi fofocar sobre a Ordem da Fênix da outra vez?
Sirius olhou feio para ela, concordando com Remus em seguida.
— Remus está certo, não é seguro para Harry aqui.
— Sim, vamos todos usar Potter como desculpa — Bervely retrucou, falhando em não transparecer sua insatisfação.
— Não se preocupem comigo — Harry interrompeu o que parecia ser uma comoção desnecessária em torno do seu nome. — Prometi aos Weasley que ia fazer uma visita depois do Natal, ia deixar para amanhã mas tenho certeza que eles não vão se importar se eu for hoje.
— Não se meta, Potter — Bervely o advertiu. — Não tem nada a ver com você.
A animosidade foi interrompida pela campainha, seguida dos gritos estridentes da Sra. Black.
— Estamos esperando alguém? — Remus estranhou, apertando os olhos para os gritos estridentes do quadro. Bervely, que ainda fuzilava Sirius com os olhos, deu só uma olhada rápida na direção dele.
— Não que eu saiba. Talvez sejam os comensais da morte vindo reivindicar a cabeça de Potter.
— Acho que já estamos bem de cabeça por hoje — Sirius devolveu com acidez.
— Eu vou atender a porta — Remus anunciou, resignado. — Os demais, só por precaução, vão lá pra cima.
Mas Bervely se levantou e passou por ele decidida. Não ia admitir que Lupin agisse como se tivesse alguma autoridade naquela casa, afinal ela era a anfitriã ali naquela noite, para o bem ou para o mal.
* * *
Era Narcissa Malfoy.
Pálida, o pescoço coberto de algo pegajoso que, numa análise mais atenciosa, Bervely percebeu que era sangue fresco.
— Bervely — ela ofegou, a voz quebrando-se na respiração ofegante. — Draco me disse que eu a encontraria aqui essa noite.
Bervely demorou para compreender a cena; a tia segurava alguma coisa mole e enorme nos braços, com muita dificuldade. A coisa era Draco, ela notou ao ver um vislumbre do cabelo loiro do primo, as pontas sujas de sangue.
Nesse meio tempo Remus, que tinha ficado para trás para calar a Sra. Black, as alcançou. O primeiro impulso dele foi levantar a varinha ao ver Narcissa parada ali.
— Malfoy — disse Remus, a voz carregada de desconfiança. — Como achou esse endereço?
— Eu cresci nesta casa, Sr. Lupin. Não é um feitiço Fidelius que vai me fazer esquecer a morada da minha infância. — Ela se voltou para Bervely com arrogância. — Vai me deixar à porta? Draco precisa de assistência, ou vai sangrar até a morte.
Havia um zumbido insistente nos ouvidos de Bervely, abafando as palavras da tia. Draco ia… o quê?
— Me dê a sua varinha — Remus disse à Narcissa, sem desviar a própria varinha da testa dela.
Sangue manchava o batente da porta. Bervely quase podia ouvi-lo pingar. Narcissa o ignorou, olhando para Bervely.
— Ele está morrendo — Ela repetiu, insistente. — Vai nos deixar entrar, ou…
— EXPELLIARMUS! — Remus exclamou, mas nada aconteceu. Narcissa lançou para ele um olhar exasperado.
— Não tenho nenhuma varinha comigo, Sr. Lupin!
Remus não pareceu acreditar.
— Como, então, vocês poderiam ter chegado até aqui?
— O que está acontecendo? — Sirius surgiu do corredor, olhando rapidamente da prima para o que ela segurava, então para Remus defensivo e Bervely congelada no pórtico. — Narcissa?
— Meu filho está morrendo — ela repetiu, os lábios brancos. A voz era autoritária, mas o medo brilhando em seus olhos era desesperado e urgente.
— Me dê ele aqui — Remus tentou tirar Draco de Narcissa, mas ela resistiu, lívida. — Se quer que ele sobreviva, me dê ele aqui!
A mulher finalmente deixou o filho inconsciente passar dos seus braços para os de Remus; só então puderam notar como as mãos dela tremiam.
— Alguém feche a porta. — Remus mandou, fazendo um sinal para que Narcissa avançasse. — Sirius, melhor ver se consegue chamar Andrômeda, tem muito sangue…
— De quem? — Sirius quis saber, procurando a origem da ferida nela ou em Draco, mas era impossível saber, já que ambos vestiam longas e familiares vestes negras. — Narcissa, o que diabos está acontecendo?
— Explicarei tudo quando meu filho não estiver mais correndo risco de vida — ela disse com frieza, atravessando o portal e fechando a porta atrás de si. — Quem mais está na casa?
— Não é da sua conta! — Sirius disse irritado, pegando a varinha de Remus e apontando para ela, já que agora os braços do amigo estavam ocupados em arrastar Draco para dentro. — Quem a mandou aqui?
Narcissa o ignorou, seguindo Remus através do corredor.
— Alguém chame Andrômeda, fazendo o favor? — Remus lembrou, sumindo pelo corredor — Cuidados médicos primeiro, questões de família depois!
— Merda – Sirius xingou, depois apontou para Bervely. — Vá chamar sua tia. Bervely!?
— Sim — ela ofegou, sem conseguir tirar os olhos de Narcissa. O mundo virara ao avesso naqueles últimos segundos. Não via Narcissa há anos… e como assim Draco estava morrendo?
* * *
Andrômeda chegou em seis ou sete minutos, trazendo seu kit médico completo em uma maleta, ainda vestindo o seu tradicional suéter de Natal; era claro que largara o que quer que estivesse fazendo em casa para aparecer ali no minuto em que fora chamada.
— Onde ele está? — A medibruxa perguntou eficiente para Bervely, que a aguardava em frente à lareira, torcendo as mãos, o coração batendo com força na garganta.
— No quarto de visitas — disse, apontando na direção do andar superior.
— Narcissa disse o que aconteceu?
Bervely negou veemente.
— Não. Mas, o sangue…
Andrômeda deu uma palmadinha em seu braço e a deixou ali, correndo para o segundo andar. Tonks brotou da lareira logo em seguida, o rosto inchado e vermelho, um olhar de questionamento para Bervely quando a viu.
— O que está é que está acontecendo?
— Não sei. Eu chamei Draco para passar o Natal. Há tanto sangue. Narcissa acha que ele está morrendo.
— Não seja absurda, mamãe vai cuidar dele — Nymphadora meneou a cabeça, olhando ao redor da sala. — Onde está todo mundo?
— Potter e Anne, lá em cima com Darkmoon, Lupin ainda acha que pode ser uma armadilha.
— Regulus?
Bervely olhou ao redor, dando-se conta de que ele de fato não estava à vista. No caos dos acontecimentos, ela nem percebera que ele tinha sumido da sala.
***
Draco sangrava sobre a cama; uma vez removida a parte superior de suas roupas, Remus identificou a origem do ferimento: três longos talhos abertos em seu peito, que não paravam de minar a cada batida de seu coração.
— Como isso aconteceu? — Andrômeda inquiriu, entrando na sala e vendo-os a tentar estancar o sangue com feitiços. Tanto Remus quanto Sirius se afastaram da cama para lhe dar acesso. Narcissa, abraçada a si mesmo ao pé da cama, olhou horrorizada para a irmã do meio.
— É minha culpa… Lucius estava mirando à mim…
— LUCIUS fez isso? — Andrômeda rosnou, ao mesmo tempo que lançava feitiços diagnósticos sobre o garoto, um atrás do outro. — O próprio pai?
— Eu era o alvo, mas Draco entrou no caminho — ela sussurrou culpada. — Ele queria me punir por tentar trazer o Draco comigo.
— Do que vocês estavam fugindo? — Remus perguntou suavemente ao lado dela. Narcissa parecia prestes a quebrar, e independente do tipo de gente que era e da causa que suportava, ele não podia evitar sentir compaixão pelo estado dela naquele momento.
— Draco era suposto a receber a marca-negra essa noite. Lucius descobriu que eu não iria deixá-lo e começamos a discutir. A discussão se tornou um duelo, até que ele me desarmou e lançou essa maldição, que era suposta a me atingir, mas Draco entrou no caminho… – a voz de Narcissa quebrou, seu olhar se derramando com dor sobre o filho na cama.
— Eu não consigo identificar a maldição — Andrômeda disse, após ver todas as suas tentativas diagnósticas falharem. — Narcissa, você ouviu o feitiço?
Ela negou, os olhos muito abertos, o corpo tremendo.
— Foi não-verbal — murmurou. — Andrômeda, não deixe meu filho morrer.
Andrômeda se virou para Sirius, urgente.
— Precisamos de Severus.
— NEM FOD– mas ele se calou ao ver os olhares dos três ocupantes do quarto para ele. — Estou indo. Infernos.
***
— Menino Potter — Monstro grunhiu para Harry, após surgir do nada na sala da tapeçaria onde ele, Anne e Yasi aguardavam, ansiosos para saber o que raios estava acontecendo no andar de baixo. — A senhorita Black requer a sua presença na cozinha.
— Monstro, o que é está havendo? — Anne saltou em direção ao elfo. — Por que precisamos ficar aqui? Alguém mandou outra parte do corpo do Olho de Hórus?
— Monstro só tem ordens para dizer ao senhor Potter para ir até a cozinha, e se o Sr. Potter se recusar, Monstro deve arrastá-lo pelas orelhas.
— Eu estou indo — Harry saltou, curioso demais para não atender o chamado. Ele achava que tinha ouvido o nome “Malfoy” e pego um vislumbre de cabelos loiros, antes de serem enxotados por Sirius para cima.
O elfo o escoltou até a cozinha, onde Bervely estava diante de um caldeirão de prata enorme pousado sobre o fogo da lareira, onde um líquido levemente dourado começava a ferver, desprendendo um cheiro doce. Ela parecia exangue, selecionando ingredientes a esmo de dentro de um baú, mas parou quando ele entrou.
— Estamos produzindo a poção de reposição do sangue, vá desinfectar as mãos.
Harry não se moveu.
— O que é que está acontecendo? — ele exigiu saber. — Quem precisa de reposição de sangue?
— Não importa — ela grunhiu. — Vá lavar as mãos, preciso que pulverize as raízes de valeriana enquanto eu estou ajustando a temperatura da água de mel.
— É Malfoy, não é? — ele teimou. — O que foi que ele andou aprontando, que precisa de repor sangue? Coisa boa não pode ser… Você sabe que o pai dele é comensal da morte, não sabe? Talvez ele se meteu com o pai em algum serviço para Voldemort que não–
Bervely estava em cima dele tão rápido que ele nem a viu se mover; num segundo sobre o caldeirão, no outro agarrando a gola da sua camisa e o olhando fundo nos olhos, tão perto que poderia arrancar fora o seu nariz à dentadas.
— Potter — ela rosnou — Malfoy é família. Eu não dou a mínima para os seus problemas com ele, mas se o meu primo morrer porque você me fez perder tempo com a sua ladainha, eu juro por Slytherin, vai ser o seu sangue naquele caldeirão, cada gota, e não duvide de mim, porque eu não estou brincando.
Ela o soltou, o empurrando para fora do caminho e indo até o caldeirão que borbulhava. Harry ajeitou a gola da camisa com uma careta. Era óbvio que Bervely estava desesperada; se ela o chamara para ajudar, ele devia ser a sua única alternativa. Ele suspirou, resignando-se.
— Só precisava pedir por favor, sabe.
— As raízes, Potter!
***
— Severus não está no covil — Sirius avisou ao retornar para o quarto, que agora tinha o cheiro ferroso e pungente de sangue impregnado no ar. Na cama, Draco ainda se esvaía em sangue, mas o fluxo estava ligeiramente mais lento por conta das poções de redução de metabolismo que Andrômeda lhe tinha administrado.
— Severus estará na cerimônia de marcação — murmurou Narcissa. Ela estava, se possível, tão pálida quanto o filho. — Não termina antes da meia noite.
— Não importa, não vamos deixá-lo morrer — Andrômeda garantiu à irmã, lhe lançando um olhar feroz de resolução. — Bervely está preparando uma poção de reposição de sangue que vai nos dar algum tempo.
— Por que mudou de ideia sobre deixá-lo receber a marca? — Sirius quis saber, se dirigindo à prima mais velha com desconfiança. — Por que de repente decidiu não mais mandar seu filho para o abate, não era o plano de vocês desde sempre?
— Sirius, eu não acho que seja a hora… — Remus começou, mas Narcissa o interrompeu.
— Tudo bem, Lupin, ele tem o direito de perguntar. Esse era o plano de Lucius, mas nunca foi o meu. O meu filho não é… — ela deu um suspiro estremecido, apertando os olhos e tornando a abri-los, algo queimando por debaixo das íris azul-acinzentadas. — Eu queria ao menos dar a Draco a chance de decidir por si mesmo quando fosse maduro o suficiente, mas Lucius o persuadiu a ser marcado esse ano, mas ele é só uma criança!
— Que diferença faz, se esse ano ou no próximo? — Sirius retrucou com aspereza. — Tenho minhas suspeitas que seu filho já está agindo pelo seu lorde de uma forma ou de outra…
Os olhos de Narcissa giraram nas órbitas e seus joelhos se dobraram. Ela só não caiu no chão porque Remus estava perto o suficiente para segurá-la. Andrômeda correu até eles, tomando o pulso da irmã.
— Coloque-a na cama — Quando Remus a colocou na outra cama do quarto, Andrômeda teve um vislumbre de um ferimento descarnado que iniciava em seu ombro e sumia para dentro de suas vestes. — Oh, não, isso não é bom…
Mas Narcissa recobrou a consciência, afastando as mãos da irmã de cima dela.
— Não, Andrômeda, me deixe, vá cuidar de Draco, eu estou bem!
— Não, você não está, me deixe ver isso!
— É só um estrunchamento — a loira insistiu. As duas trocaram um longo e teimoso olhar. Finalmente Andrômeda aquiesceu, contrariada.
— Vou ver como Bervely está indo com a poção. Mas não pense que eu não vou checar você quando isso terminar, Narcissa.
***
— Está quase pronta — Bervely informou, erguendo a cabeça do caldeirão fumegante por um segundo quando a tia entrou. Ela e Harry estavam cobertos de suor, trabalhando na cozinha abafada na última hora, se apressando para que a complexa poção de reposição do sangue ficasse pronta no menor tempo possível. Os ingredientes, reunidos por Monstro em tempo recorde, estavam espalhados pelo balcão, e o mesmo cheiro ferroso que impregnava o ar no quarto de visitas estava ali também, combinado ao calor e ao vapor, retorcendo seus estômagos. — Como está Draco?
— Ele precisa tomar a poção o mais rápido possível — Andrômeda disse, e ao olhar ao redor e constatar que eram só eles três, estranhou. — Onde está Nymphadora?
— Foi à Hogwarts tentar achar Severus.
— Ela não o encontrará lá — Andrômeda suspirou. Ela finalmente parou em Harry, que no momento separava cuidadosamente dez asas de fada para incluir no último estágio de cozimento da mistura. — Potter, quem o ensinou a fazer essa poção?
— Ele é meu aprendiz — Bervely respondeu por ele, pegando uma amostra do líquido no caldeirão para analizar contra a luz do fogo. — Não é um inútil completo, devo admitir.
Harry lançou um olhar contrariado para ela, mas foi ignorado.
Uma vez que as asas de fada, e depois o extrato de silverwood foram adicionados, Bervely a resfriou com um feitiço, enquanto fazia com que fluísse para a garrafa que aguardava em cima da mesa, e a substância se tornou densa e de um rico vermelho escuro. Ela a entregou para a tia com um pedido nos olhos.
— Estou fazendo tudo ao meu alcance — Andrômeda lhe garantiu, deixando-os em seguida.
Bervely se deixou cair na cadeira, exausta. Todos os seus músculos estavam tensos, sua cabeça pesava duas toneladas e seus joelhos tremiam. Harry olhou para ela, incerto do que fazer a seguir. Sua situação não era bonita: ele estava coberto de pó de fada, os braços roxos de urtiga até os cotovelos.
— O que foi, Potter?
— Então eu não sou um “inútil completo”? — ele repetiu as palavras dela, resignado. Bervely lançou um olhar longo e contemplativo na sua direção.
— Não. Talvez ainda haja esperança para você.
— Vou considerar isso um “obrigada” — ele suspirou, caindo exausto em uma cadeira do outro lado da mesa de dez lugares.
***
Severus surgiu em Grimmauld Place n. 12 pouco depois da meia noite. À essa altura, Draco já tinha recebido três doses da poção preparada por Bervely, mas o ritmo em que a substância conseguia repor seu sangue era inferior àquele no qual ele sangrava. O padrinho do garoto chegou muito perto do momento em que Draco teria menos sangue em seu corpo do que, segundo Andrômeda, o seu coração precisava para continuar pulsando.
— Narcissa — ele olhou para a mulher, ignorando o restante dos ocupantes do quarto. — Quem fez isso com ele?
— Lucius — ela se adiantou para o bruxo, de repente furiosa. — Eu disse a você que algo assim aconteceria! Eu disse!
— E eu disse a você para não se intrometer — o homem trovejou, aproximando-se da cama de Draco, os olhos negros miúdos olhando-o de cima abaixo, apreendendo a quantidade de sangue que ele perdera, e que agora empapava o colchão e o tapete debaixo da cama.
— Como eu poderia não me intrometer? Meu único filho se tornando um comensal aos dezesseis anos! — Ela exclamou. — Tudo que Voldemort fez foi arruinar a minha família, eu não podia deixar que ele arruinasse a última coisa que importava para mim! Se você tivesse me ajudado quando lhe pedi, nada disso… — mas ela parou de gritar, as lágrimas irrompendo do rosto lívido, mais parecidas com gotas de ácido do que água e sal.
Severus nada lhe disse, sentando-se à beira da cama de Draco. Ele sacou a varinha e murmurou encantamentos sob a respiração, baixo demais para serem compreendidas. Pouco a pouco, os cortes no peito de Draco foram diminuindo. A maldição resistia ao contrafeitiço, e foi preciso muito tempo até que Severus conseguisse fechar os três longos talhos no peito do garoto, sob os olhares ansiosos de Narcissa, Sirius, Remus e Andrômeda. Quando ele terminou, longas cicatrizes paralelas e cor de rosa permaneceram gravadas na pele de Draco, mas a hemorragia se fora.
— Ele vai sobreviver — disse Severus com sobriedade. — Não posso fazer nada quanto às cicatrizes.
Narcissa caiu de joelhos ao lado da cama, as mãos envolvendo a de Snape e beijando-a, qualquer noção de que orgulho próprio abandonada em prol de sua gratidão naquele momento.
— Obrigada, Severus. Escolhê-lo como padrinho de Draco se provousábio, no fim de tudo.
O homem suspirou com pesar, enfim reconhecendo a presença dos demais no quarto. Seus olhos pararam em Andrômeda.
— Eu preciso ir, mas me mantenha informado da recuperação de Draco.
Se levantou e, com um breve aceno respeitoso para Andrômeda, se retirou novamente. Sirius deixou as mãos relaxarem – estivera apertando os punhos firmemente desde que Snape entrara, se segurando para não socá-lo fora dali nem dizer o que ele merecia ouvir.
— Eu sou mesmo o único incomodado com o fato de que Snape não apareceu antes para salvar a vida do afilhado porque estava numa reunião de comensais da morte?
Ninguém disse nada; Narcissa continuou aos pés da cama do filho quando Severus deixou o quarto.
O mestre de poções encontrou Bervely no corredor, aguardando ansiosa, fora de vista.
— Ele vai ficar bem? — Perguntou para o padrinho, ocupada em não deixar que o medo transparecesse na voz.
— Tudo indica que sim — ele atranquilizou. — Você fez um bom trabalho com a poção repositora.
— Eu devia ter insistido mais para ele vir passar o Natal aqui— Bervely se admoestou, irritada. — Se ele tivesse vindo direto de Hogwarts, nada disso teria acontecido.
— Oh, sim, isso teria ajudado — disse o mestre de poções com ironia. Porque ao invés de Narcissa ter sido o alvo de Lucius Malfoy, teria sido vocês todos. Me parece um ótimo plano. Bervely, acredite em mim–
Um grito súbito vindo do quarto os interrompeu. Os dois se apressaram para a porta do quarto de visitas, a tempo de encontrar Narissa no chão, sendo amparada por Sirius e Remus, e uma lívida Andrômeda lhes mandando se afastar.
Quando eles o fizeram, Bervely pode ver que Narcissa parecia convulsionar; seu corpo tremia, os olhos giravam nas órbitas, e uma espuma branca agourenta escapava de seus lábios arroxeados.
— O que há de errado com ela? — Bervely quis saber, horrorizada.
Andrômeda saltou para a irmã, amparando a cabeça dela para que não encontrasse a quina de uma das camas.
— Ela está entrando em choque! Accio, varinha!
Em movimentos precisos, Andrômeda livrou Narcissa das vestes negras e da parte superior do vestido que ela usava por baixo da capa, exibindo uma enorme área do ombro até as costelas onde a sua pele estava faltando. Os seus feitiços diagnósticos queimavam numa fumaça negra agourenta sobre o corpo da irmã, que continuava a se torcer e sacudir, como se invadido por uma corrente elétrica sem fim.
— Não, não faz sentido… — ela ofegou, olhando de súbito para Remus e Sirius, parecendo se dar conta da peça que faltava. — Onde está a varinha dela?
— Não sabemos. Ela e Draco chegaram aqui desarmados — disse o primeiro. — Mas o que isso tem a ver…?
— Como ninguém me disse isso antes? Se afastem!
Eles obedeceram, abrindo um círculo mais amplo em torno de Andrômeda e Narcissa no chão.
— Se ela aparatou a si mesma e ao Draco através do país, sem varinha — Andrômeda explicou num tom alarmado e urgente, enquanto terminava de livrá-la da parte de cima das roupas com dificuldade. — Isso é o bastante para– Narcissa!
A mulher havia parado de se mover, as convulsões abandonando seu corpo flácido, os olhos virados, os lábios entreabertos num roxo escuro e o peito, imóvel.
— Resuscitatio cordis! RESUSCITATIO CORDIS! — Os feitiços de Andrômeda inflaram o peito da irmã, como se desse choques em seu coração, mas não houve mudança em seu estado. A cada vez que o seu corpo relaxou, foi para cair inerte sobre o tapete ensanguentado. — NARCISSA, NÃO SE ATREVA–
— Andy, já chega — Sirius se abaixou e passou um braço em torno da prima, que insistia no feitiço de ressuscitação cardíaca, gritando e exigindo que a irmã lutasse, sem no entanto conseguir qualquer reação. — Ela está…
— NÃO! — Andrômeda urrou. — Eu não vou deixar!
Mas no fundo, a sua experiência lhe dizia que era uma causa perdida. Por fim, ela deixou que Sirius a afastasse, largando a varinha ao lado do corpo da irmã, no tapete manchado de sangue do quarto.
***
Muito mais tarde – quando tudo se aquietou em Grimmauld place, n. 12, Bervely se arrastou para o terceiro andar, atravessando corredores os quais o elfo não se ocupara em iluminar com velas. Ela não tinha certeza que seu coração estava batendo; havia um oco enorme em seu peito e o zumbido tinha ido embora: nenhum outro som restara ao não ser o de seus passos abafados.
Ela não podia se importar menos com o que aconteceria a partir de agora. Sentia como se tivesse nadado num temporal no meio do mar, só para se afogar a poucos metros da praia. Talvez aquela sensação de abafamento em seus pulmões fosse a água gelada lhe afogando lentamente.
Havia alguém no quarto quando ela entrou. Uma sombra de pé à beira da cama, a pele pálida iluminada pelo luar fugitivo da madrugada. Regulus ergueu o rosto, olhando-a de cima a baixo como quem procura por danos.
— É verdade o que ouvi? Narcissa está morta?
Bervely parou entre a cama de dossel e a porta do banheiro, desorientada. Ela assentiu quando seu cérebro processou a pergunta.
— Sim.
— Sinto muito.
Assentiu a esmo. O que ele estava fazendo ali? Regulus sumira de vista desde que Narcissa havia batido à porta com Draco nos braços, o que parecia ter sido há uma eternidade.
— Pensei que você tinha ido embora.
— Todo aquele sangue — ele justificou. — Achei melhor ficar fora do caminho.
— Ah — disse ela sem emoção.
Fazia sentido. Tudo estava coberto de sangue de Draco no andar de baixo. O hall de entrada, o corredor, as escadas, o quarto… tudo que ela se lembrava de ter visto naquelas últimas horas era vermelho.
— Acho que vou tomar um banho.
Regulus assentiu. Ela passou por ele e foi para o banheiro, usando a varinha para encher a banheira de água quente. Ficou ali boiando, só o rosto pra fora, e por alguma razão, retornou àquele dia em que escapara de Azkaban. Também houvera tanto sangue… o de Theodor, esguichando na areia, empapando a trama da noite, os rosnados, os gritos… os gritos que até hoje ardiam nas suas entranhas, queimavam seus nervos em fogo, quando ela se lembrava.
Era curioso, pensou, como a morte podia ter faces tão diferentes. Dolorosa e barulhenta como a de Theodor, invisível como a de Sirius, silenciosa e assustadora como a de Narcissa… todos os sabores de morte rondando aqueles dias.
Morte aguardando, sentada à sua cama, quando ela saiu do banheiro enrolada em um roupão, ainda pingando pelo assoalho encerado com esmero por Monstro.
— E só queria ter certeza que está tudo bem, antes de ir — ele justificou, percebendo que ela ainda parecia meio fora de órbita.
— Bem? — Bervely repetiu, estranhando o conceito. — Não, acho que não.
Andou até onde ele estava. Não importa, lembrou a si mesma. Diante da morte, sangrenta ou silenciosa, inteira ou em pedaços, dolorosa ou vazia, que diferença fazia se era errado, proibido, pecado?
Ela parou na frente dele. Seu coração se lembrou de que estava vivo e começou a bater forte, como que para compensar o silêncio dos últimos minutos. Da penumbra enganosa da noite, Regulus a encarava de volta, acompanhando com atenção cada um dos seus movimentos.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer? — perguntou ele, a voz rouca e baixa acalentando seus ouvidos, erguendo os pêlos de seus braços descobertos.
Bervely assentiu. Diante da certeza da morte, só a vida importava.
— Será que você poderia... ficar comigo essa noite?
(Continua…)
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