A Canção de Morgana

29 A Lembrança do Pequeno Rei


Notas iniciais
Olá, amores! Como eu disse, cap dividido em dois, aqui vai a segunda parte. Esse traz umas respostas que vocês tem me perguntado há algum tempo, então, atenção total! E qualquer dúvida, grita nos comentários! Boa Leitura! ;*


“Does the walker choose the path,
or the path the walker?”

Garth Nix, Sabriel

— Isso vai ser simples — disse a professora Sophia para a sua classe no penúltimo dia de aula antes do feriado de Natal, como sempre subestimando a complexidade das atividades que os colocavam para fazer durante Adivinhação Avançada. — O objetivo do nosso exame hoje é verificar o quanto vocês aprenderam nas nossas lições de legilimência e oclumência no último trimestre. Agora, antes que eu explique como vai funcionar, encontrem seus pares.

— Estamos em número ímpar, professora — Daphne Greengrass avisou, chateadíssima. — Draco Malfoy não vem mais, ele decidiu abandonar a matéria.

Sophia olhou ao redor, confirmando que o que a garota dizia era verdade. Ela apontou para Neville e Luna, que já estavam sentados juntos, compartilhando um almofadão na outra ponta da sala.

— Luna, você faz dupla com Daphne então.

— Mas, professora– Neville começou a protestar, mas a bruxa o calou com um aceno paciente.

— Você vai com Harry, Neville.

Harry ia resistir a troca, mas o olhar aliviado de Neville o fez se calar. Agora era Anne quem a olhava de cara feia.

— E eu suponho que eu vou ter aplicar legilimência e oclumência em mim mesma?

— Não, você vem comigo. Não deverá ser um problema, venha se sentar do meu lado.

Anne fez cara feia, indo se sentar perto da madrinha, mas não sem antes trocar um olhar chateado com Harry, que deu com os ombros numa desculpa silenciosa, ele próprio infeliz com o rearranjo de última hora.

— Ok, agora que controlamos a catástrofe eminente, deixem-me explicar como o exame vai funcionar. Vamos jogar um jogo muito popular entres os bruxos da antiga civilização romana, chamado Oráculo Cruzado. Esse jogo era usado para testar as habilidades mágico-mentais dos candidatos à guarda psíquica do César.

“O objetivo de cada jogador é obter a resposta para uma pergunta na mente da sua dupla, ao mesmo tempo impedindo que o outro jogador encontre a resposta para a pergunta dele. Um não deve saber com antecedência qual a resposta que o outro está buscando. Para responder suas perguntas e impedir o colega de encontrar a deles, vocês devem usar legilimência e oclumência, respectivamente.

“Antes de começar, vocês devem registrar a sua pergunta no pergaminho, sem que o seu colega tenha conhecimento. Ao fim de uma hora, vocês devem escrever também que pergunta acham que o seu oponente buscava responder, e que resposta eles encontraram em sua mente, se alguma. Vou comparar as suas respostas e atribuir pontos de acordo com o quão bem conseguiram responder a sua própria pergunta e impedir o colega de responder a dele. Lembrem-se, vocês não devem falar ou se tocar durante essa tarefa, e o uso de varinha também é proibido.”

Quando Sophia lhes deu algum tempo para pensar, Anne pensou que resposta ela gostaria de desencavar da mente da madrinha; de preferência uma que fosse deixá-la irritada, como ela estava por ter sido retirada da sua dupla com Harry por causa de Malfoy.

Ela pensou que poderia perguntá-la por que raios, para começo de conversa, Sophia gostava tanto de se enfiar em Avalon quando as coisas ficavam complicadas. Ou então, qual era a razão que a tinha trazido para Hogwarts, porque Anne tinha a impressão de que não era porque ela estava louca de vontade de ensinar adivinhação para um monte de pirralhos… mas então, batendo o olho na Orbe de Parlaisa, que tinha deixado no chão ao lado do seu joelho, Anne percebeu que havia uma pergunta sobre o seu passado que só Sophia saberia responder. Desde o ataque dos dementadores à St. Sensille no começo da semana, era algo em que ela vinha pensando com frequência.

Anne puxou o seu pergaminho. A madrinha estava ocupada, respondendo as dúvidas dos alunos, checando se suas perguntas eram válidas (“Não, Smith, você não pode perguntar a alguém se os Cannons vão vencer a próxima temporada…”). Ela escreveu com a sua pena de cacatua colorida:

O que aconteceu na floresta, na noite em que eu fiquei cega?

Sophia estivera lá; fora ela quem a resgatara e a levara para o Hospital St. Mungus. O que ela vira, quando chegara para salvar Anne, isso ela nunca lhe contara. Sempre desconversava, falava dos seus olhos machucados, do corte em seu ombro, do perigo que correra… Aquela parecia a oportunidade perfeita para conseguir uma resposta.

Sophia voltou, puxando ela também um pergaminho onde escreveu alguma coisa.

— Você vai usar legilimência contra mim? — a garota se espantou.

— É claro que vou, se não fica muito fácil, não é não?

Anne não disse nada. Não sabia o quão justo era ter uma vidente profissional chafurdando a sua mente, mas não ia admitir que estava com receio do que a madrinha poderia descobrir. Sophia terminou de escrever em seu próprio pergaminho e se dirigiu para a turma:

— Todos prontos? Concentração, agora. Vou colocar o relógio para contar — ela pegou um antiquado relógio de areia em seu baú e o colocou no centro da roda, girando-o para que o lado cheio de areia perolada ficasse para cima. — Boa sorte!

A sacerdotisa voltou para a frente dela e se ajoelhou na almofada, um sorriso tranquilo.

— Preparada, anjo?

Anne não lhe respondeu; estava concentrada esvaziando a mente como tinha treinando diversas vezes durante as aulas. Já sabia fazer isso muito bem sem precisar ficar encarando a bacia de água; já era capaz de conjurar a superfície espelhada e imóvel da água no fundo da sua própria mente. Ela encarou os olhos azuis amendoados da madrinha, projetando a sua consciência para aquele local imaterial em que as bordas de todas as consciências humanas se tocavam, ao mesmo tempo em que protegia a sua, não com paredes, mas com uma névoa densa, algo que sempre lhe lembrava a névoa da floresta de St. Sensille.

“Boa, muito boa entrada”, Sophia murmurou, sorrindo.

— Pare de me desconcentrar, professora – Anne reclamou. – Não somos supostas a bater papo, você mesma disse.

“Mas eu não falei nada.”

“Ah, droga”, Anne pensou, percebendo que a madrinha já estava em sua cabeça; nem a sentira entrar. Ela se aprumou na almofada, estreitando os olhos, se concentrando. “Tudo bem, não tem problema você estar aqui, só vai ver o que eu deixar.”

“Quem disse que o que eu quero ver é algo que você não deixaria?”

“Você só está tentando me desestabilizar”, Anne retrucou em pensamento. “Pare de me distrair, Sophia.”

“É você está conversando um bocado. Qual é a sua pergunta, anjo?”

“Como se eu fosse dizer a você”, ela pensou com ironia.

“Nesse caso… boa sorte em sua procura.”, Sophia sussurrou, desafiando-a.

Anne estava caindo num túnel colorido de ideias, pensamentos, impressões, sonhos… ela via rostos conhecidos, lugares, sussurros, conversas… Como sonhos embaralhados de alguém que estava meio acordado, meio dormindo.

Se agarrou à primeira coisa familiar que viu: o rosto de Luna Lovegood. Devia ser alguma memória de Sophia de uma das aulas, alguma coisa sem importância que ela estava jogando na direção de Anne para confundí-la, e que não tinha nada a ver com o que Anne estava procurando.

Anne sabia que não podia evitar Sophia de investigar sua mente e descobrir o que queria, mas esperava que se a mantivesse ocupada se defendendo, talvez a hora acabasse e Sophia não conseguisse o seu intento.

Luna concentrada, tentando limpar sua mente, meditarLuna conversando a própria Anne, no começo de uma aula. Luna distraída, coçando o cotovelo

“Pare com isso, não estou interessada em Luna.”

“Pensei que ela fosse a sua melhor amiga”, Sophia devolveu, enviando-lhe mais imagens, como uma penseira que recebera memórias demais. Agora as lembranças eram suas… Luna no dia que se conheceram, usando um colar de nabos, as mãos sujas de três cores diferentes de tinta. Luna no dia das bruxas daquele ano, vestida de fantasma de lençol…

“Saia da minha cabeça, madrinha, pare de me distrair.”

Aquilo era, é claro, ridiculamente fácil para a madrinha, um jogo injusto. A bruxa passou os olhos pela sala para checar os alunos (um mais concentrado que o outro, as caras retorcidas), o que deu a Anne a oportunidade de tomar fôlego e fazer uma nova investida…

Ela tinha dez anos e Sophia estava indo embora, depois de ter vindo para o memorial do seu avô. Tinha acabado de lhe dar um presente, a Orbe de Parlaisa.

“Prometa que vai usar isso o tempo inteiro, inclusive quando estiver em Hogwarts. É muito importante, vai proteger você.”

Via a lembrança pelos olhos de Sophia; via a si mesma, pequena, chateada e triste, porque o seu avô estava morto e Sophia ia deixá-la sozinha com a sua avó em St. Sensille por um ano inteiro até que ela pudesse ir para Hogwarts.

“Me proteger do quê?”

“Das coisas que você vê, mas não entende.”

“Me deixe ir com você para Avalon”, a pequena Anne implorava. A Anne do presente sentiu o que a madrinha sentira na ocasião, um aperto de inevitabilidade no peito.

“Não posso, anjo, sua mãe jamais me perdoaria”.

“Mas minha mãe está morta, madrinha. E minha avó me odeia. Não me deixe aqui sozinha com ela. Por favor!”

“Prometa pra mim que vai usar a Orbe? Sempre, o tempo inteiro. Ela me avisará se você precisar de mim.”

“Mas eu preciso de você agora!”

Sophia tinha ido embora, por anos. então Anne voltara para St. Sensille no verão após o seu segundo ano, à contragosto, pois queria estar com a irmã que acabara de descobrir que tinha, e não com a sua avó amargurada… não queria ficar na casa cheia de portas que não podiam ser abertas, cheia de livros nos quais era proibida de tocar, e quadros que sussurravam uns com os outros quando ela se virava…

Decidira que bastava, que iria fugir dali, procurar Bervely… Mas, para chegar até a estação de trem em Godric’s Hollow, o caminho mais próximo era passando pela borda da floresta. Só que naquela noite a floresta lhe chamara, sussurrara para ela…

“Não por aí, Anne”, Sophia lhe advertiu, num tom de precaução. Anne estremeceu, sentindo um frio que não pertencia à sala de aula.

“Eu já entrei uma vez.”

“E me fez prometer que eu jamais a deixaria entrar de novo.”

“Eu fiz?”, ela perguntou, observando a orla da floresta branca, as copas das árvores pálidas dançando com a brisa suave, a névoa ondulando em uma dança lenta em torno dos troncos cinzentos… “Por que? Eu não me lembro.”

“Há uma razão para isso. Se afaste da floresta, você não quer se machucar de novo.”

Anne obedeceu, o coração batendo tão forte que doía, as mãos suando. Era covarde… se a pressionasse mais, Sophia lhe contaria, lhe mostraria, não estava resistindo. Ou então…

“Onde é que eu estou? Essa é a minha mente ou a sua?”

“A sua, querida. Só você viu o que aconteceu na floresta.”

“Mas você sabe… alguma coisa”, Anne insistiu, agora tão longe que a floresta era só um ponto branco cada vez mais distante, como se ela tivesse flutuando, um balão subindo no ar, mais alto, e mais alto, atravessando…

“Pensei que ela fosse a sua melhor amiga”

Anne girou pelo limbo entre as mentes, mergulhando de novo em memórias que não eram suas.

Um bebê loiro no colo do seu pai, visto através de uma janela, numa casa em formato de silo… uma garotinha loira de olhos azuis saltados, vista do fundo de uma poça na qual se inclinava, curiosa… uma menina loira, um colar de cenoura pendurado no pescoço, sapatos com asas, voando de cabeça para baixo… a mesma menina em seu quarto de arco-íris, recebendo a carta de Hogwarts, vista pelos olhos da coruja que a entregara…

“Ela é minha melhor amiga”, Anne pensou. “Mas essas lembranças não são minhas! Já disse que não estou interessada em Luna.”

“Achei que você queria saber o que vim fazer em Hogwarts.”

Um bebê recém-nascido numa cesta de vime, envolvida por uma bolha mágica de calor, carregada por uma mulher vestida com um manto marrom, uma lua azul na testa, o cabelo loiro trançado com cordas de vime e cobre, o olhar duro, resoluto…

“Tem certeza que quer fazer isso?”, perguntou o homem da casa de silo, alto, longos cabelos loiros, parecia com a menininha, poderia se passar por seu pai, se quisesse…

“Nunca a deixe saber quem eu sou, Xenophilius. É tudo que peço.”

“Você não precisa se preocupar. Eu inventarei uma mãe para ela, uma que nunca a terá abandonado. Prometa que não vai mudar de ideia no futuro, não vai procurá-la…”

“Eu não poderia procurá-la nem se quisesse.”

Sophia a retirou de sua mente com gentileza, mas mesmo assim Anne sentiu um frio na barriga, uma sensação de que tinha feito algo ruim. Os olhos de Sophia estavam emocionais, mas ela tentou um tom professoral quando lhe falou.

— Bom trabalho, Anne. Você conseguiu descobrir a minha pergunta? Não esqueça de registrá-la no seu pergaminho.

Anne, que olhara para o mesmo par de olhos por todo aquele tempo em duas pessoas diferentes, sem nunca desconfiar de sua óbvia conexão. Ela mal conseguia se mover com o choque da descoberta.

Sophia se voltou para o resto da classe; o tempo estava quase terminando. Anne puxou o pergaminho, a mão tremendo, e rabiscou a pergunta da madrinha:

“Ela é feliz?

Anne pensou um pouco, e então riscou a palavra “ela”, escrevendo em cima: “a minha filha”.

***

— Neville, espera! — Harry pediu, mas o colega já tinha deixado a sala de adivinhação aos tropeços. Sophia olhou com preocupação para a porta por onde o aluno havia saído e meneou a cabeça.

— Tudo bem, Harry, lhe dê algum espaço. Essa pode ser uma experiência complicada para algumas pessoas, especialmente se acham a resposta que estão procurando.

Harry sentou de volta na almofada, derrotado. Sophia serviu água fresca para eles, antecipando a sede causada pelo esforço da oclumência e legilimência sem varinha, e depois os liberou um por um após recolher os seus pergaminhos. Anne não quis se mover do seu lugar, mas dali trocou um olhar com Luna, que sorriu de volta para ela, despreocupada. Ela forçou um sorriso, mas a amiga franziu a sobrancelha, numa pergunta muda do que estava errado.

Anne balançou a cabeça de leve: “nada, não se preocupe”.

Uma onda de inquietação veio flutuando até o limite em que a mente de Harry encontrava a sua, e ela olhou para ele, que parecia miserável. Anne suspirou, atravessando a sala para sentar do lado do garoto, na almofada que Neville deixara vaga.

— O que aconteceu com vocês dois? — perguntou, inquieta com a forma que Neville saíra e ansiosa para uma distração. Todo mundo estava meio à flor da pele aquela semana, desde o ataque dos dementadores. — Por que você está com essa cara de gato que comeu um sapato?

— Foi a pergunta de Neville. Eu tentei… eu sou péssimo nessa droga de oclumência. Não sei como Voldemort ainda não me controla como uma marionete a essa altura, honestamente.

— A resposta que ele achou o aborreceu? Foi algo sobre a avó dele? Ou… sobre os pais?

— Não — Harry suspirou, derrotado. — Ele queria saber o que a profecia dizia. Ele tinha um palpite de que eu sabia o que era.

— Oh. Oh. — Anne percebeu a implicação daquela informação. Harry lhe explicara, ao lhe contar o conteúdo da profecia no começo de setembro, que ele não era a única criança a se encaixar nas palavras preditas por Sibila Trelawney. E agora, Neville sabia disso também – que ele poderia ter sido o Escolhido, tanto quanto Harry.

— Você deve ir atrás dele, Harry. Se tem alguém que pode ajudá-lo a não pirar com algo assim, é você, que já convive com essa por mais tempo.

Sophia os dispensou dali a uns cinco minutos, depois de recolher os pergaminhos de cada um e lhes desejar um feliz feriado de Natal.

— Anne, pode esperar um pouco, se não se importa? Quero dar uma palavrinha com você antes que saia.

Harry levantou, desanimado.

— Vou achar ele — murmurou para ela, e depois apontou a professora com o queixo. — Boa sorte.

— Vou precisar.

Quando todos os colegas tinham ido embora, com níveis variados de tontura, Anne levantou do almofadão e foi andando até a madrinha sem muita pressa, ainda sem conseguir afastar a impressão de que tinha feito algo errado por ter visto aquelas memórias. Sophia alinhava pacientemente os pergaminhos recebidos em uma pasta de couro.

Anne sentou silenciosa na almofada azul mais próxima da madrinha. Sophia já parecia recomposta e controlada de novo, em sua postura habitual de professora gentil por fora e pedra de gelo por dentro.

— Você já pode colocar a sua orbe de novo, Anne — ela indicou o colar que Anne tinha largado no chão, perto de onde tinham se sentado.

— Por quê? Com medo de que eu desenterre mais algum segredo sujo seu?

— Só não quero que se machuque, anjo. Esse sempre tem sido, e sempre vai ser, o meu principal objetivo. Agora, coloque a orbe de volta.

Ela bufou, mas obedeceu. Experimentou a mesma sensação de entorpecimento estranha que tinha toda vez, como se alguém colocasse um véu fino entre ela e o mundo, diminuindo um pouco a capacidade dos seus sentidos. Sabia que era só impressão; dali a pouco estaria habituada de novo e nem se lembraria que usava o artefato.

— Eu imagino que você tenha perguntas sobre o que viu em minha mente.

— Eu só tenho uma pergunta, na verdade — disse, a voz tremendo ligeiramente. Estava com raiva. Raiva daquela mulher que tinha entregado o bebezinho loiro para o homem da casa de silo, prometendo que jamais a procuraria, nem se quisesse. Por que no mundo de Sophia, é claro que as suas razões eram maiores que as pessoas, e os fins sempre justificavam os meios…

Anne fechou os olhos, respirando fundo para se controlar. Odiava como poderia ser emocional sobre certas coisas, especialmente quando tinha que lidar com gente seca e controlada como a sua madrinha.

— Você pretende contar a ela? Foi por isso que veio para Hogwarts?

— Não. Não, Anne, eu não vou contar para ela, que bem isso faria, a essa altura?

— Eu não sei… ela conheceria a própria mãe? Acho que isso é uma coisa e tanto! — Anne sentiu a voz subir um tom. Sophia não manifestou reação adicional para o comentário, continuava paciente e prática, muito como se tivesse ensaiado aquelas palavras em sua cabeça antes, decidido a entonação que lhes daria.

— Luna teve uma mãe. Uma que a amou, e da qual ela se lembra com carinho. Seria cruel tirar isso dela agora.

— Uma mãe que nunca existiu! Não foi isso que o homem disse? Que ia criar uma mãe que a amasse? Não havia nenhuma mãe naquelas lembranças de você a espionando, o que foi que ele fez, implantou uma lembrança na cabeça dela? Como isso pode ser melhor que uma mãe real, que pode estar com ela agora?

Sophia meneou a cabeça, como se Anne tivesse deixando passar alguma verdade essencial e a decepcionasse por conta disso.

— Você soa como o seu padrinho. Ele também acha que arrancar Luna de tudo que ela acredita e ama, e lhe dizer que a sua vida inteira até aqui é falsa, lhe fará mais bem do que mal a longo prazo.

Anne arfou; não tinha pensando naquela possibilidade, mas… se bem se lembrava, Sophia e Remus tinham um histórico esquisito de relacionamento no passado.

— Por favor não me diga que Luna é filha de tio Remus também?

— Não! Não, por Merlin — Sophia negou, como se a mera ideia fosse insuportável. — Remus jamais me perdoaria. Não que ele me perdoe pelo resto, mas isso não vem ao caso.

— Quem então? Xenophilos Lovegood…

— Também não é o pai de Luna, apenas um amigo próximo que sempre desejou uma filha, e com o qual acreditei que Luna estaria segura. O pai de Luna… — Sophia se interrompeu por um momento, controlando algum sentimento intenso que poderia ser rancor — Não é um homem bom. Não é alguém que deva chegar perto de Luna, em nenhuma circunstância.

— Por que você está me contando isso tudo agora? — Anne quis saber, revoltada. — Como pretende que eu guarde um segredo desse tamanho da minha melhor amiga? Eu não posso mentir pra ela, e você não pode continuar vendo-a todo dia e não lhe dizendo que– Anne parou de falar. Parou porque vira surgir um olhar no rosto de Sophia que ela já conhecia muito bem, já o vira outras vezes. Uma mistura de remorso e esquiva que prenunciava os anúncios de suas partidas.— Você não vai ficar, não é? Você está indo embora. Está debandando de novo!

— Anne, pare e me escute, por favor.

— NÃO! Não de novo, Sophia. Tem uma GUERRA acontecendo! Minha avó, sua TIA, acabou de ter a alma sugada fora, será que você não vê que não é uma boa hora para nos abandonar e voltar a se enfiar naquela ilha maldita?

— Johanne Black — Sophia a advertiu. A madrinha era muito calma na maioria do tempo, mas quando ela usava aquele tom de voz, Anne sentia os seus ossos vibrarem. — Eu não vou abandonar ninguém, mas sim, eu estou voltando para Avalon. A ilha precisa de mim, MAS – enfatizou, antes que Anne pudesse lhe cortar de novo —, dessa vez eu quero que vá comigo. E a razão pela qual lhe conto sobre Luna, é porque quero que a convença a vir também. Em Avalon eu posso mantê-las seguras. Por mais assustadora que a guerra seja, ela não pode alcançar Avalon. Eu pude sentir o seu medo durante o enterro, eu sei que está aterrorizada com o que aconteceu em St. Sensille. E você está certa em pensar que pode acontecer em outro lugar, mesmo aqui em Hogwarts. Nenhum lugar é seguro, a não ser Avalon…

Não.

Sophia a olhou com exasperação.

— Você sempre quis ir à Avalon quando era pequena, mas não estava pronta. Agora chegou a hora! Há tanto que eu posso ensinar a você lá, muito mais do que posso aqui, restrita aos regulamentos do Ministério. Com o seu dom, as suas habilidades, você seria uma grande sacerdotisa...

— Pare! Eu não vou para droga de Avalon nenhuma, Sophia. Eu estou com medo, mas eu não vou me esconder! Do que adiantaria? Como eu posso partir e deixar minha família para trás? Meu pai, minha irmã, Harry?

A expressão de Sophia se transformou, inundada de uma perigosa mistura de impaciência e aborrecimento.

Sim, vamos falar de Harry Potter. Eu ando observando a conexão de vocês, e me deixe lhe dizer uma coisa… o que você está fazendo por ele é muito perigoso.

— Foi por isso que você separou a gente hoje? — as narinas dela se inflaram de raiva. — Não há nada de errado com a conexão da gente!

— Eu os separei porque queria saber se Potter podia proteger a própria mente sem a sua ajuda. O garoto não tem nenhuma habilidade em oclumência, eu nunca vi uma mente mais desprotegida antes! Mas ainda assim, Potter, pelo meu entendimento, não teve a mente invadida nenhuma vez durante as minhas aulas, e o mais curioso, nenhuma vez por Você-Sabe-Quem nos últimos meses, o que era a maior preocupação do Prof. Dumbledore e a razão pela qual essa aula de Adivinhação Avançada foi criada, para começo de conversa.

— Talvez ele não seja tão bom em proteger a própria mente quando você o desestabiliza assim, trocando a sua dupla na última hora, o colocando com Neville que é um amigo próximo e que acabou de passar por um trauma gigantesco…

— Não tem nada a ver com isso — Sophia disse, cansada. — É você, querida. Você está protegendo a mente de Harry o tempo inteiro, vinte e quatro horas por dia, até mesmo quando estão dormindo.

Anne negou, porque o que a madrinha lhe dizia não fazia o menor sentido. Ela não podia, possivelmente…

— Você sabe que é verdade — Sophia insistiu, ainda naquela voz de “não me faça perder a paciência”. — Você está tão presente na rede mental daquele garoto que vocês dividem pensamentos, ou vai me dizer que é mentira? Você filtra os sonhos dele a noite inteira, porque acha que todos os dias acorda com o nariz sangrando? Você precisa parar com isso, Johanne. É perigoso, está machucando você.

Anne cruzou os braços em frente ao corpo. De repente, ela se sentia nauseada com o rumo daquela conversa.

— Como quer que eu pare, se acabou de dizer que eu sou a única coisa entre ele e Voldemort? Como é que ele vai se proteger se eu for para Avalon?

— Ele precisa aprender a se defender sozinho! Acha que você vai estar sempre por perto para fazer o trabalho? É impossível, Anne! E não cabe a você se certificar da integridade mental de Potter!

— Eu vou estar tão por perto quanto ele precise que eu esteja! — ela teimou. Sophia bufou em resposta.

— E se Potter descobrir que você está orbitando a mente dele com tamanha constância, como acha que ele vai se sentir sobre essa invasão de privacidade? E se algo acontecer com você? E se Você-Sabe-Quem descobrir que vocês tem essa conexão especial e fizer de você um alvo?

Anne abriu a boca e a fechou, o nó em sua garganta apertado demais para que falasse alguma coisa.

— Me diga, Anne — Sophia suspirou, paciente, mas muito pronta para provar seu argumento. — Por que acha que a sua visão voltou a funcionar quando conheceu Harry Potter?

Anne a olhou, chocada.

— Como sabe disso?

— Eu dei uma olhada em suas lembranças recentes quando você estava ocupada gritando dentro da minha cabeça — Sophia disse sem aparentar remorso. — Você precisa treinar a sua oclumência passiva, ao invés de se ocupar gastando toda a sua energia com Potter.

— Nunca mais remexa a minha cabeça sem a minha autorização, Sophia — ela lhe disse com irritação. — Eu falo sério.

— É para o seu próprio bem. Querida, me escute: o destino daquele garoto está amarrado a algo terrível. Ele é como um buraco negro na trama invisível do destino, arrastando para a órbita dele todo recurso de que pode se beneficiar…

— Harry não faz isso de propósito! Ele não tem culpa da profecia!

— Não importa se ele sabe ou não o que está fazendo — Sophia insistiu, atormentada de que Anne não estivesse percebendo qual era o ponto chave. — O que importa é que o caminho dele está traçado, mas não o seu. Você tem uma escolha.

— Todo mundo tem uma escolha — Anne rebateu, como sempre incomodada com o ponto de vista determinista da madrinha sobre destino. — Ao menos Harry não é do tipo que foge quando as coisas ficam difíceis. Se eu preciso escolher de que lado vou ficar, acho que prefiro o lado que não se acovarda!

Sophia olhou para ela com consternação.

— É um suborno do destino, Anne. Potter a fascina por uma razão… a mesma pela qual você foi parar na Grifinória esse ano, que devolveu a sua visão no minuto em que ele apareceu, a mesma que a faz se sentir tão bem quando está com ele…

— Pare com isso! — Ela exclamou, se levantando. Não tinha percebido, até sentir as bochechas quentes de lágrimas, que estava chorando. — Você só está dizendo isso tudo porque quer me assustar para que eu vá com você para Avalon, e convença a Luna, ainda por cima!

Sophia abaixou os olhos, com pesar.

— Só quero que tenha cuidado, Anne. Não tenho intenção de discutir com você. Caso mude de ideia sobre Avalon, sabe como me contactar — ela indicou a Orbe de Parlaisa no pescoço da afilhada. — E eu realmente espero que mude, para o seu próprio bem.

— O diabo que eu vou mudar — rosnou, pegando a mochila no canto da sala e jogando no ombro, tentando ignorar as lágrimas traidoras escorrendo. — Obrigada pela lição, Sophia.

— E por favor, não conte nada a Luna. Deixe-a em paz.

— Os interesses da minha melhor amiga são minha prioridade. Mas, não acho que você entenderia.

***

— Obrigada por vir essa noite, Harry. Imagino que deva estar cansado e pronto para embarcar para o feriado, mas temos muito a fazer.

Harry se sentou na cadeira em frente à mesa do diretor. Tinha recebido o aviso de que Dumbledore queria vê-lo para mais uma aula de Voldemort aquela noite quando estava saindo de um enervante teste de poções, onde produzira uma poção de reposição de sangue, com a professora Black espiando sobre os seus ombros a cada segundo.

De novo a penseira estava na mesa entre eles, suas águas prateadas girando em calmaria, e dois frasquinhos de memória esperavam ao seu lado.

— Certo. Uh… está tudo bem, professor?

Dumbledore piscou, voltando a sua atenção para Harry, que se desviara por um momento. Ele parecia cansado; não de um único dia intenso, mas de uma sucessão de dias muito difíceis com noites mal dormidas entre eles. Harry imaginou se os dementadores o teriam afetado de um jeito especial, como afetavam a ele próprio. Ainda assim, já faziam cinco dias desde o ataque à St. Sensille…

— Eu estou bem, Harry, obrigado por perguntar. Extremamente necessitado de um descanso, mas posso estar sendo otimista a respeito da possibilidade. E quanto a você, teve uma boa semana de exames?

Harry achava que “bem” era igualmente otimista e até um pouco ilusório, mas assentiu, sem querer se aprofundar aquela área miserável da sua vida.

— Só estou feliz que terminou, professor.

— Eu vejo — Dumbledore lhe ofereceu um sorriso compreensível. — E, algum plano divertido para o feriado? Entendo que não vai passá-lo em Hogwarts como em anos anteriores?

— Não… vou passar esse com Sirius de novo.

— É claro que vai, ele é o seu padrinho, afinal de contas — Dumbledore assentiu. — Com ele e as garotas Black, acredito?

Harry demorou um tempo para perceber quem deveriam ser “as garotas Black”, no plural; Estava ansioso para passar o feriado com Anne, mas não tinha passado pela sua cabeça que a professora Black também estaria lá.

— Uh… sim, acho que sim.

— Imagino o mesmo — Dumbledore assentiu, parecendo, na opinião de Harry, ter a cabeça em outro lugar.

— E o senhor? Algum plano divertido para o feriado?

— Ah, interessante você perguntar! Acabei de receber uma carta da minha sobrinha, me convidando – insistindo enfaticamente, na verdade – que eu vá passar o feriado com ela em Avalon.

— A sua sobrinha…? – Harry estava perdido. Na maioria do tempo se esquecia que Dumbledore era uma pessoa de verdade, com família, para além dos muros da escola.

— Você a conheceu no começo do ano, se lembra? Hildegard, ou como ela prefere ser chamada, a Senhora do Lago.

— Ah, é — Harry se lembrava. A mulher imponente que tinha vasculhado a mente dele e perguntando se ele acreditava em destino. Harry não invejava os planos de Dumbledore.

— Pois é, Hilde parece convencida de que estou correndo risco de vida ficando aqui no feriado, e insiste que eu estarei mais seguro em Avalon — o professor parecia achar aquela uma opinião peculiar e ligeiramente digna de graça, ao invés de merecedora de alarde. Harry pensou na Prof. Trelawney, sempre prevendo a morte dele nas aulas, algo que ele sempre achara aborrecido.

— Uh, sinto muito. Mas… a vida do senhor – e de todo mundo – não está meio que sempre em risco, com os comensais e Voldemort solto por aí?

— Um bom ponto, meu caro Harry — o diretor achou graça. — Na verdade bem próximo ao meu, mas Hilde não parece compartilhar do nosso senso de praticidade. Acho que dessa vez vou acabar cedendo ao seu pedido, faz um tempo que não visito Avalon… e eles tem as maçãs mais saborosas que já comi, podem ser colhidas em qualquer época do ano!

— Hum. Certo. Que bom. — Harry não sabia mais o que dizer, mas Dumbledore não tinha grandes expectativas para os seus comentários; ele deu um salto de sua cadeira de espaldar alto e pegou um dos frasquinhos de memória.

— Certo, Harry, vamos ao trabalho. Na reunião desta noite daremos prosseguimento à história de Tom Riddle, que na nossa última aula deixamos no limiar da sua entrada em Hogwarts. Você lembrará como ele ficou excitado ao ouvir que era bruxo…

Na hora seguinte, Dumbledore resumiu à Harry o que ele se lembrava de Voldemort em seus primeiros anos de escola: orgulhoso de ser sorteado para a Sonserina, facilmente conquistando os professores com seu talento e beleza, educação e sede pelo saber. O professor admitiu que, embora jamais tivesse confiado que Tom tinha se redimido dos seus delitos no passado, não advertiu os professores sobre ele, lhe dando o benefício da dúvida. Tom jamais tentara se aproximar de Dumbledore como aos outros professores, sabendo que o tanto que lhe revelara em seu primeiro encontro no orfanato deixara escapar para Dumbledore uma impressão mais ampla sobre a natureza perversa que ele se esmerava em ocultar dos demais.

À medida que progredia em sua vida escolar, Tom fizera o que o diretor chamou de ‘amigos dedicados’, e que o grupo passara a exercer uma espécie de fascinação sombria pelo castelo. Eles tinham sido os precursores dos comensais da morte, e de fato, após Hogwarts, alguns deles haviam se tornado os primeiro comensais.

Embora nenhum deles jamais tivesse sido apanhado agindo mal abertamente, os anos seguintes tinham sido marcados por numerosos incidentes desagradáveis, entre os quais a abertura da câmara secreta que tinha resultado, como Harry bem se lembrava, na morte de uma garota, e pela qual Hagrid tinha sido injustamente acusado.

Devido à sua obsessão por sua ascendência bruxa, Tom eventualmente seguiu as pistas do seu nome do meio e localizou, provavelmente em livros de famílias bruxas, a existência de um ramo sobrevivente da família Slytherin. No verão do seu décimo sexto aniversário, Tom deixara o orfanato para o qual retornava durante as férias e fora procurar os seus parentes Gaunt.

Dumbledore lembrou à Harry a lembrança que tinham visto em seu último encontro, que pertencia a Morfino Gaunt, o tio de Voldemort por parte de mãe, e continha uma conversa entre os dois em ofidioglota, onde Morfino contava a Tom, com alguma coerção, que ele era filho de um trouxa do vilarejo próximo, antes de ser nocauteado. No dia seguinte, as autoridades descobriram os corpos de Tom Riddle pai, e a mãe e o pai dele. Enquanto os trouxas tinham ficado perplexos com as mortes inexplicáveis, o Ministério percebera que se tratava de um homicídio bruxo. Morfino confessara o assassinato dos trouxas sem precisar de Veritaserum nem Legilimência. A sua varinha fora usada para matar os Riddle, e não havia porque duvidar da sua história, de forma que o haviam levado para azkaban sem resistir.

— A primeira lembrança de hoje teria sido a última lembrança que eu teria a lhe mostrar, Harry, caso tivéssemos podido terminar a nossa aula na última noite em que nos encontramos.

Harry assentiu; haviam sido interrompidos, da última vez, pela notícia de que o corpo de Cho Chang fora achado na casa de barcos.

A lembrança que o diretor queria lhe mostrar também era da época de Tom em Hogwarts; dessa vez, obtida de um professor da época em que ele estivera na escola.

— Horácio Slughorn foi um dos professores de quem Tom ficou mais próximo em Hogwarts. Não foi fácil conseguir essa memória, Horácio relutou até o último segundo. De fato, a recebi por sua coruja só para saber, horas depois, que tinha sido encontrado morto em sua casa, isso foi há mais ou menos cinco anos atrás.

Harry assistiu como Tom Riddle, suave e indolente como só ele seria poderia ser, manipulara Slughorn – um homem de pouco cabelo e barriga demais, que lembrou à Harry um leão marinho – a lhe dar informações sobre algo chamado Horcruxes.

Após alguma relutância, o professor Slughorn explicara ao jovem e manipulador Riddle o que a palavra significava:

“Horcrux é a palavra usada para quando um objeto em que a pessoa ocultou parte da sua própria alma.”

“Mas não entendo muito bem como se faz isso, senhor”, retrucara Tom, com o que parecia pura curiosidade acadêmica e nada mais.

“Bem, a pessoa divide a alma, entende”, explicara-se Slughorn, “e esconde uma metade dela em um objeto externo ao corpo. Então, mesmo que o seu corpo seja atacado ou destruído, a pessoa não poderá morrer, porque parte da sua alma continuará presa à terra, intacta. Mas, naturalmente, a existência sob tal forma… poucas pessoas iriam querer, Tom, muito poucas. A morte seria preferível.”

“E como é que se divide a alma?”, a essa altura, a sofreguidão de Riddle da memória era visível.

“Bem”, respondera Slughorn, constrangido por trás do seu bigode de morsa, claramente arrependido de ter dado início a àquela conversa. “Você precisa entender que a alma deve permanecer intocada e una. A divisão é um ato de violação, é contra a natureza.”

“Mas como é que se faz?”

“Por meio de uma ação maligna: a suprema maldade. Matando alguém. Matar rompe a alma. O bruxo que deseja criar uma Horcrux usaria essa ruptura em seu proveito: encerraria a parte que se rompeu…”

A conversa prosseguia, dolorosa para Slughorn, mas cada vez mais urgente para Tom Riddle. Ele queria saber como encerrar uma alma, e se poderia ter múltiplas horcruxes. O professor, cada vez mais escandalizado com o interesse e as ideias de Riddle, o dispensava por fim, alertando-o a não comentar que haviam tido aquela conversa com ninguém (“as pessoas não gostariam de saber que andamos conversando isso em Hogwarts, você vê”).

Dumbledore trouxe Harry de volta quando a lembrança se dissolveu. Harry estava sem fôlego:

— O senhor acha que ele conseguiu? Ele fez uma horcrux? E foi por isso que não morreu, quando me atacou? Tinha uma horcrux escondida em algum lugar? Um pedacinho de sua alma estava segura?

— Oh, sim, temo que há evidência de que, ao menos uma vez, Voldemort dividiu a sua alma. De fato, você mesmo a trouxe para mim, quatro anos atrás.

— Eu? Como?

— O diário de Riddle, se lembra? O que dava instruções para abrir a câmara secreta.

— Não compreendo, senhor — o garoto aturdiu-se.

— O que você me descreveu aquela noite, a lembrança que saíra do diário, foi algo que eu jamais tinha presenciado ou ouvido falar antes, Harry. Uma simples lembrança agindo por conta própria, exaurindo a vida de uma menina? Havia algo de sinistro naquele diário, um fragmento de alma, eu estava seguro disso. O diário era uma Horcrux, mas isto me levantou o mesmo número de perguntas que respondia: fora usado não somente como uma salvaguarda, mas como uma arma. Devia ter sido oculto e protegido, mas foi feito circular até as mãos de uma criança…

— Eu não entendo… pensei que Voldemort ia querer espalhar as suas idéias o máximo possível, não era de se esperar que usasse o fragmento da sua alma para ajudar no trabalho também?

— Sim, mas, deixe-me explicar melhor, Harry… o pouco caso com que Voldemort tratou essa Horcrux me pareceu um péssimo agouro, um indício de que ele devia ter, ou planejava ter, mais Horcruxes, por isso a perda da primeira não causaria grande prejuízo. Eu não queria acreditar, mas nada mais parecia fazer sentido. Desde que essa informação chegou ao meu entendimento, tenho procurado incansavelmente por evidências de que Voldemort fez outras horcruxes. No entanto, jamais obtive qualquer pista. As minhas ausências da escola, caso esteja se perguntando, são com frequência tentativas de arrecadar qualquer informação relativa a esses objetos que eu porventura tenha deixado escapar no passado. Afinal, como sabe, Voldemort continua indefectível, o que significa que algo mais está resguardando a sua alma de perecer. Você vai ficar feliz em saber que, muito recentemente, recebi uma informação que pode nos ajudar. Mas antes disso, deixe-me atualizá-lo do que aconteceu com Voldemort nos anos seguintes à sua saída de Hogwarts – ao menos a parte que pude descobrir.

Dumbledore resumiu à Harry os anos que se seguiram – após formado em Hogwarts, Tom Riddle tentara se candidatar a professor de defesa contra as artes das trevas na escola, no entanto fora dispensado por ser ainda muito jovem. Ele então, a despeito das grandes expectativas que todos que o conhecia tinham ao seu respeito – arranjou um modesto emprego na Borges & Burkes, uma loja na Travessa do Tranco que Harry sabia ser dedicada a comprar e vender itens mágicos de procedência duvidosa.

Um par de anos depois, Tom desaparecera sem deixar vestígios, abandonando o posto de negociador da Borges & Burkes. De acordo com o diretor, as suas atividades nos dez anos seguintes eram nebulosas, mas incluíam toda sorte de aprendizado em artes das trevas, associação com organizações de magia negra e viagens para lugares remotos do mundo, de forma a colecionar experiência nas artes negras. Em 1967, Tom retornara à Hogwarts – completamente transformado, de acordo com Dumbledore – para pedir novamente o cargo de professor. Dessa vez, Dumbledore já era diretor de Hogwarts.

— Imagine que como professor, ele teria tido grande poder e influência sobre os jovens bruxos e bruxas. Não penso, nem por um instante, que Voldemort tencionasse passar o resto da vida em Hogwarts, mas acho que viu na escola um valioso campo de recrutamento e um lugar onde poderia começar a reunir para si um exército. Imagino que ao lhe negar o cargo, frustrei significativamente os seus planos, o rescaldo do nosso breve encontro comprova isso. Observe que nunca conseguimos manter um professor de Defesa Contra as Artes das Trevas por mais de um ano, Harry – Dumbledore lhe explicou com pesar.

“Agora, eu lhe disse… jamais encontrei evidências de que Voldemort fez novas horcruxes em minhas pesquisas, mas por obra do destino talvez, ou então inexplicável coincidência, a última peça que precisamos nesse quebra-cabeça pode estar em uma lembrança que consegui muito recentemente.”

Harry se aprumou, apesar de estar a essa altura bastante cansado. Dumbledore pegou o segundo frasco que tinha separado para aquela aula e o despejou na penseira. Harry notou que a lembrança não era como as outras; parecia turva como água suja, e não cristalina e leitosa como as anteriores.

— O que há de errado com essa lembrança, professor? Não parece tão clara quanto as outras.

— É uma lembrança que tentou ser esquecida, Harry. Está um pouquinho desgastada nas bordas, mas vai nos servir bem, não se preocupe. Agora, imagino que tenha sido apresentado recentemente a Regulus Black, irmão de Sirius?

— Sim — Harry assentiu, sem entender como as duas coisas estavam relacionadas. — Sirius fez um jantar na Casa dos Gritos há algumas semanas para apresentá-lo. Ele é um vampiro — acrescentou desnecessariamente, o que fez Dumbledore sorrir.

— Estou ciente da nova natureza do Sr. Black. Mas, ao menos para o nosso propósito aqui hoje, nos interessa mais a época anterior à sua conversão, quando o Sr. Black estava tentando escapar do destino que selou ao desertar do grupo mais íntimo de Voldemort.

Harry assentiu. Sabia que as pausas era para o caso de ele ter perguntas, mas não tinha nenhuma. Dumbledore continuou:

— O Sr. Black, ao desertar, tentou levar consigo qualquer coisa que pudesse usar como vantagem, influência ou chantagem contra Voldemort, qualquer coisa que pudesse lhe dar a mínima chance de salvar a própria vida.

“Como fiquei sabendo há poucos dias em ocasião da sua visita, ele teve a chance de invadir um dos cofres onde Voldemort guardava seus pertences importantes e levou tudo que lhe pareceu valioso, incluindo alguns livros de artes das trevas. Ao menos um deles pareceu a Regulus ter um valor extraordinário o qual, se não ele pudesse usar ao seu favor, outra pessoa poderia…”

Harry entendeu o que ele quis dizer com “desgastada nas bordas” quando entraram na penseira. Literalmente, as bordas das lembranças estavam esgarçadas, mas ele ainda era capaz de divisar as paredes de um beco escuro, igual ao que havia aos milhares em Londres em outras cidades do Reino Unido.

Houve um estalo no ar e uma figura alta e esguia, com uma capa longa e capuz cobrindo o rosto, aparatou perto deles. Antes mesmo que Harry pudesse reconhecê-lo, outra figura aparatou no beco: uma mulher de expressão tensa, cujas feições lhe eram dolorosamente familiares; os olhos verde-incandescentes e o cabelo ruivo num rabo de cavalo alto, a capa justa que vestia revelando a curva inconfundível de uma gravidez à meio-termo.

— Evans, obrigado por concordar em se encontrar comigo — disse a figura sobre o capuz, cuja voz Harry reconheceu como a do irmão de Sirius. — Oh, perdão. Agora é Potter, não é?

— Por que procurar a mim, Regulus? Entre todas as pessoas… porque não ir direto para Dumbledore? — a voz de Lílian se derramou nos ouvidos de Harry como mel quente, apesar do tom dela para Regulus ser de desconfiança ferina.

— A profecia é sobre o seu filho — disse ele aos sussurros para a ruiva, que o mantinha na mira da varinha. — É verdade o que ouvi, que está tentando descobrir como destruí-Lo?

— Talvez — os olhos verde-esmeralda se estreitaram. — O que sabe a respeito?

— Sei que ele se fez imortal, mas não invencível. Não sei como, mas acho que a resposta está aqui. — Regulus lhe entregou o pequeno livro com encadernação de couro azul real, que sobrevivera às pelejas de séculos e que o Lord tentara evitar que fosse parar em mãos inimigas.

— Por que está entregando isso a mim? Por que não descobre por si mesmo?

Ele deixou escapar uma risada ácida.

— Você e eu sabemos que não vou viver o suficiente.

A lembrança se dissolveu, cedo demais para o gosto de Harry, que queria ficar olhando para a sua mãe por mais tempo. Ela era estonteante, muito mais do que a Lílian adolescente que conhecera na lembrança de Snape. E estava grávida dele, estava o carregando na barriga no exato momento daquela lembrança…

— Harry? — Dumbledore o chamou de volta à realidade. Harry teve que piscar muitas vezes para recuperar o foco (não tinha nada a ver com sua tentativa de secar os olhos marejados).

— Uh, sim, professor?

— Você prestou atenção na conversa? O livro que o Sr. Black entregou para a sua mãe aquela noite parece guardar o segredo do que quer que Voldemort tenha feito para garantir a sua imortalidade. Infelizmente, Lílian nunca mencionou tal livro para mim… não sei se ela teve a chance de analisá-lo à fundo antes dos eventos trágicos do dia das bruxas do ano que se seguiu.

— E o senhor não tem nem ideia de onde pode estar?

— Eu tenho uma ideia, sim. Lilian o teria guardado em sua casa, em algum lugar muito bem escondido e fora do alcance de qualquer um que não soubesse de sua existência. Se concordar comigo, podemos tentar recuperá-lo juntos ao fim do seu recesso.

— O senhor quer dizer, em Godric’s Hollow? Na casa onde os meus pais mor…

— Onde os seus pais viveram, sim, e onde você nasceu. Compreendo caso não queira ir, Harry, mas achei que deveria estender o convite.

— Eu não sabia que a casa ainda estava de pé — ele murmurou. Sempre assumira que Voldemort a destruíra, não fora isso que Hagrid lhe dissera, quando lhe contara aquela história, há mais de cinco anos?

— Oh, eu creio que há o bastante para ser visitado — disse Dumbledore, com uma expressão tranquila. — E então, o que me diz? Posso buscá-lo no dia anterior ao fim do recesso, e faremos essa pequena viagem juntos.

— Tudo bem — Harry concordou, o coração batendo acelerado por alguma razão.

— Obrigado, Harry. Fico feliz que terei a sua companhia. Agora, é bem tarde e você tem muito a pensar, acho que deve retornar ao seu dormitório. Aguarde pelo meu contato em um par de semanas, está bem? Enquanto isso, lembre-se de se manter em segurança.

— Boa noite, professor. E… um bom feriado para o senhor.

— Ah, Harry, o mesmo para você. Nos vemos ano que vem!

Harry assentiu, deixando o escritório do diretor com a cabeça rodando. Ele tinha muito a pensar sobre Voldemort e seu passado, é claro, mas não era isso que estava ocupando a sua mente agora, e sim a visão de sua mãe, na lembrança de Regulus. Entendia melhor porque seu pai tinha se apaixonado por ela… pra falar a verdade, ele próprio estava se sentindo meio apaixonado por Lílian e sua ferocidade, naquele momento.

(Continua…)



Notas finais
Como vocês devem ter notado, essa última cena foi um Frankstein de cenas de Enigma do Príncipe, mas com algumas mudanças importantes. Como CDM é uma RA de EdP, ainda preciso usar uma ou outra parte do original, mas como vocês sabem, HP não me pertence e etc, etc. Próximo cap é Natal em CDM! *enfim* Saberemos o que a Bevy anda aprontando, em conluio com Regulus... vejo vocês nos comentários! ;*