“Ok, então eles querem que eu vá até Santos, pra depois ir a uma ilha macabra para fazer uma reportagem? Eu não tenho a porra de uma câmera decente, só um gravador chinfrim. Eles não querem que eu anote tudo e guarde as imagens na minha cabeça, pra depois algum designer fazer qualquer porcaria no computador, né? Isso seria ridículo. O Roberto sabe que eu não sou bom pra filmar, o meu negócio é redação. O que, raios, eu estou fazendo numa emissora de TV? Eu devia estar escrevendo livros ou, no mínimo, ter o meu próprio Blog, assim, bem famoso e coisa e tal. E se eu recusar esse job? Não ligo de não ser efetivado, mesmo. Mas seria um bom peso no meu currículo. A experiência também conta. Bom, eu posso pensar no assunto, desde que não tenha que carregar a maldita câmera.”

Com esse pensamento, Eric deixou a emissora na Avenida Paulista rumo ao metrô. O movimento ainda estava calmo nas ruas e ele embarcaria sem grandes problemas.

“Eu não conheço ninguém que tenha uma câmera boa o suficiente pra esse tipo de coisa e a faculdade não me emprestaria de jeito nenhum!”

Seguia distraidamente até o ponto onde pararia o último vagão do trem. Sentiu algo sólido e gelado esbarrar em seu braço e logo cair no chão com um baque. Eric se assustou e mal pode ver do que se tratava apenas uma garota gritando algo ininteligível com ele.

– Você é cego? Não viu que eu tava toda atrapalhada na sua frente? Por que não desviou? Você tem problemas mentais, cara?

Finalmente um momento de lucidez fez Eric perceber que o que havia caído no chão era, ironicamente, um tripé. Olhou atento à garota se esgoelando e notou que ela trazia, também ironicamente, uma câmera filmadora profissional apoiada em seu ombro.

– Ô, você tá me ouvindo? Para de fazer essa cara de idiota, não vai nem pedir desculpas?

Apressou-se em recolher o tripé do chão e entregar à menina.

– Desculpe, eu estava distraído. Desculpe mesmo, olha aqui o seu tripé...

O objeto foi arrancado bruscamente de suas mãos.

– Nossa, finalmente você abriu a boca pra falar! Valeu por pegar meu tripé, agora dá pra você dar licença? Eu to cheia de coisa e preciso embarcar na sua frente.

– Mas eu cheguei primeiro.

– Você é um cara muito mal educado, sabia? Tudo bem, pode embarcar na minha frente. Tomara que meu tripé caia de novo, mas dessa vez, na sua cabeça.

– Sem estresse, eu já pedi desculpas. Escuta, pra quê é que você usa essa câmera, hein?

– Pra fazer macarrão, otário.

– Você é uma sujeitinha bem ignorante, não? Quero saber se você a usa para trabalho.

A garota pareceu perceber que seu estresse era exagerado, quando o trem chegou, deixou que Eric passasse na sua frente. Ele retribuiu o gesto ajudando-a a carregar a câmera. Os dois permaneceram de pé, um de frente ao outro, pois não havia assentos disponíveis. O silêncio permaneceu entre os dois durante algum tempo.

– É pra um trabalho da faculdade. – A garota finalmente falou.

– O que você cursa?

– Cinema.

– É legal lá? Eu faço Jornalismo.

– É bem legal.

A garota parecia constrangida, mexia nos cabelos, longos e escuros como o breu, compulsivamente. Ela tinha um ar sombrio, como se não fizesse questão de interação humana ou de cores, a julgar por suas roupas.

– Qual é o seu nome?

– Eric, e o seu?

– Amanda. Olha, Eric, desculpa ter gritado com você. Eu acabei de perder todas as minhas gravações e to estressada demais.

– Sem problemas. Escuta, essa câmera é sua? – Levantou o braço que segurava a câmera de Amanda pela alça.

– Sim, é minha. Foi um presente de “Parabéns por ter entrado na faculdade” dos meus pais.

– Certo. Olha, você a usa muito? Eu sei que você nem me conhece, mas eu preciso gravar um diário e preciso de uma câmera desse tipo e...

– Nem pensar! Você tá louco? Olha, se você precisa de uma câmera, eu posso te indicar uns modelos ou algum lugar que faça aluguel, ou coisa do tipo.

– Você... Você não quer gravar esse diário comigo, então? Eu to totalmente sem grana.

A voz feminina que vem dos alto-falantes do trem anunciou a estação Ana Rosa, e fez com que Amanda de exaltasse e procurasse um pedaço de papel e caneta dentro de sua bolsa.

– Eu desço aqui. – Começou a garranchar rapidamente no papel e o entregou à Eric. – Meu email, a gente se fala por lá, qualquer coisa.

– Esse é o seu email? Mas a letra tá horrível, eu não consigo entender nada e...

Amanda arrancou a câmera da mão de Eric e saiu correndo e gritando algo para ele, assim que as portas do trem se abriram, Eric pareceu ouvir algo como “Enfia na bunda, então”, mas quis acreditar que seus ouvidos, misturado com o barulho da estação, o confundiram.

Guardou o pedaço de papel no bolso e colocou seus fones de ouvido. Permaneceu de pé no vagão meio vazio até a estação Tamanduateí, onde faria baldeação para pegar outro trem para ir para casa. Hoje não haveria aula. Teria tempo o suficiente para pensar em como a garota que acabara de conhecer era bonita.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.