A Caminho do Amor
28 Três dias no hospital...Até onde sei!
Notas iniciais
Depois de uns três dias, eu conseguia movimentar-me melhor, mas a minha preocupação com Tiago não saia da minha cabeça. Os meus pais e os pais de Tiago já acordaram e o doutor Pedro não os deixaram nos ver. Não sei se ele os avisaram sobre Tiago e eu.
—Doutor- Disse, quando ele entrou pela primeira vez no meu quarto no terceiro dia.-, gostaria de ver Tiago.
—Hmm...- Ele pensou um pouco na minha petição. Analisando e pensando em todas possibilidades, impossíveis e possíveis.- Receio que não seja uma boa ideia. Os pais deles querem o ver e até agora não os deixei.
—Você falou da situação dele?
—Não pude falar. Eles acabaram de acordar.
—Engraçado.- Eu desviei meus olhos dele para as minhas mãos.
—O que, Gabriela?
—Você falou comigo quando acabei de acordar...ou você não tem nenhum respeito por mim ou não pensou como reagiria ou, espero que seja isso, você percebeu que sou a namorada dele, a pessoa que ele mais ama, então eu deveria saber qual a situação dele.- Ele prestava atenção em mim.- Dependendo de qual seja a possibilidade, você tem que me deixar vê-lo. Senão contarei para seu chefe dependendo qual seja a sua resposta. Então, para me manter calada, só aceito ver o Tiago.
—Interessante.- Ele pensava e apoiou a prancheta na mesa no fim da maca.- Tem palavras que gostaria de usar para você, mas não posso. Acho que você me deu um xeque-mate. Pode esperar até o fim da tarde?
—Posso.- Eu olhei para ele e dei um sorriso vitorioso.- Obrigada.
—Agora, se me permite fazer meu trabalho hoje, você já está pronta para ver seu rosto.- Meu rosto?, pensei. Será que terei algum choque ao ver meu rosto transformado?- Tivemos que fazer pequenas mudanças em sua face.
—Muito significativas?
—Não muito.- Ele pegou um espelho de mão.- Vou te dar e você respirará fundo e me diz o que está sentindo em relação ao seu rosto.
Eu peguei o espelho. Fui devagar e respirei fundo. As mudanças nítidas e mais chamativas eram: uma cicatriz em minha testa, meus olhos vermelho e inchados, um nariz mais fino, bolsas de retenção de água embaixo dos meus olhos, uma sobrancelha estava raspada no lugar onde a cicatriz passava, minha boca estava rachada, meu queixo estava mais destacado e, quando coloquei minha mão nele, não o senti.
—O-o que que houve?- Abaixei o espelho de mão.
—Essa cicatriz foi por causa que você bateu muito forte no ferro do banco do motorista. Estava muito aberta e precisou de 20 pontos, por isso precisávamos raspar um pouco sua sobrancelha.- Ele suspirou.- Seu nariz foi estraçalhado por causa do acidente e tivemos que refazê-lo e colocamos uma pequena placa em seu queixo por causa que o seu osso foi triturado.
—Entendi.- Eu percebi minhas mãos tremerem. Meu cabelo estava sem vida e seco. Passei minhas mãos neles.- Meu cabelo está frágil.
—É por causa dos medicamentos.- Ele estava olhando os aparelhos e o soro.- Você deve descansar. Daqui a pouco eu volto.
—Tudo bem.
Estava sozinha. Sem ninguém para conversar. Meus pais estavam em outro leito. Tiago quase morrendo. Uma lágrima escorreu em minha bochecha quente, e senti o caminho que percorrera.
**
No fim da tarde, estava muito ansiosa. Não parava de perguntar as enfermeiras sobre o doutor Pedro. Elas riam timidamente, como se eu falasse em um semideus na terra, e depois falavam que estava ocupado, mas iria vir para me ajudar ver o Tiago.
Depois de uns 24 minutos, o doutor chegou.
—Desculpe a demora. Tive que atender uns pacientes.- Ele trouxe a cadeira-de-rodas e levantou a parte onde estava a minha cabeça.- Está pronta? Se sentir vertigem, tente olhar para cima.- Ele abaixou a pequena grade e me ajudou com as minhas pernas.- Pode se apoiar em mim.- Eu me apoiei me suas costas e ele me colocou na cadeira.
Encostei-me na cadeira e relaxei o corpo. Senti algumas partes do meu corpo doendo, mas passou rapidamente. A vertigem veio e olhei para cima. Eu comecei a sentir tudo ficar abafado e gotículas de suor começaram a aparecer em minha testa.
—Doutor.- Eu o chamei.- Pode ir mais devagar, por favor?
—Claro. Está sentindo vertigem?
—Sim.- Menti.
—Irá passar com o tempo.
Chegamos ao um quarto diferente dos outros: tinha portas elétricas e quando se abriram, mostrou-se maior. Estava frio e tinha um vidro para os médicos observarem Tiago.
—Tiago.- Eu o chamei.
—Vou pedir para que o tirem do coma induzido.- Ele pediu para a equipe.- Te explicarei tudo.
Tiago estava acordando e me aproximei da maca onde ele estava deitado. Sua pele estava fria, olhos inchados, boca seca, vários machucados e hematomas pelo rosto e braços. Seu nariz estava com um gesso o tampando.
—Tiago, meu amor. Consegue me ouvir?
Dava para ouvir as engrenagens da extracorpórea.
—Gabi?- Sua voz era rouca.
—Sim.
—Onde estamos?
—No hospital do Rio. Sofremos um acidente.
—Co-como meus pais estão?
—Estão bem. Os pais dos dois.- Pedro interveio.
—Quem é ele?- Tiago perguntou.
—Ele é o nosso médico. Ele me trouxe até aqui.- Eu respondi.
—Como estou?- Ele perguntou para o doutor.
—Você está com seus rins não estão funcionado. Está numa extracorpórea e acordou de um coma induzido.- O doutor Pedro o respondeu.- Sabe o que é extracorpórea?
—Sei...vou morrer?- Tiago perguntou. Eu não aguentei e comecei a chorar.
—Seus rins não infiltraram o medicamento que estava tomando. Você, inconscientemente, envenenou-se. Sem seus rins, não há como haver a filtração.
—E nem, neste momento, a substituição deles.- Tiago completou.- Se desligar, eu vou morrer. Na verdade, vou morrer de qualquer jeito. Só precisa da concordância de meus pais e dela.
—Como soube disso?- O doutor perguntou surpreso.
—Pesei. Apenas isto.- Tiago estava chorando.
—Tiago, vai ficar tudo bem. Tudo tranquilo. Estou aqui.
**
Nos dias seguintes fui melhorando. Os nosso pais avisados e eu já podia andar, com uma certa dificuldade, mas andava. Visitava Tiago todos os dias.
Eu vi sua mãe entrando naquela sala, depois seu pais, depois a minha mãe e o meu pai. Todos saíram chorando. Os pais dele estavam em plena lágrimas.
Mudei de foco, eu estava chorando. Estava soluçando no banco. Tiago, não desista, pensei. Eu sabia que não teria como depender dele esta decisão, mas não ia desistir tão cedo. Eu fui a próxima.
Entrei no quarto dele. O sopro da Morte vinha em meu rosto. Dava para ouvir suas risadas ecoarem em cada canto daquele quarto monótono e entrarem na minha cabeça pelo meus ouvidos. Ela estava tirando a pessoa que mais amei na vida. A mais que tive compaixão e a pessoa que me fez rir, chorar e tentar arriscar certos parâmetros para conseguir ir além. Tiago era uma ótima pessoa. Sempre ajudando os outros, não importava se seria agradecido ou recebesse alguma coisa em troca, estava lá para ajudar todos. Nunca desistiria de seus sonhos e não deixaria ninguém desistir também.
—Oi, Tiago.- Sentei-me na cama dele.
—Oi, Gabi. Você está melhor.
—Estaria ainda mais se você estivesse andando comigo neste hospital, sem precisar de ajuda de ninguém.
—Essa seria a minha escolha, mas é a vontade de Deus.
—Por que Ele está fazendo isto? Para quê? Me fazer sofrer? Ele é...
—Pare.- Tiago me cortou.- Não culpe Deus. O inimigo pode muito bem tentar tirar a minha vida. Mas não creio que seja ele. Deus viu que não dá para eu ficar mais no mundo, está cada vez pior e o que eu tento fazer para as pessoas será mais difícil. Ser usado por ele é magnífico. Mas, agora, Ele viu que eu dei o meu melhor e preciso descansar de tudo.
—Mas você me deixará sozinha?
—Deus estará com você sempre que precisar. Ele te dará conforto. Isto é o que me faz sentir feliz agora. Ele sempre cuidará de ti. Você pode não entender agora, mas você entenderá.-Eu deitei ao lado de Tiago e ele estava fazendo cafuné em meu cabelo.- Eu te amo.
—Eu também te amo.- Nós nos beijamos.- Vão desligar a extracorpórea?
—Vão. Depois que eu me despedir de você.- Ele colocou a mão em meu rosto e me fez o encarar.- Te agradeço por tudo que você tem feito por mim. Você foi uma grande namorada, uma grande mulher. Muito madura e inteligente. Sempre quis me ajudar.
—Eu fui responsável pelo acidente. Senão tivesse elaborado a viagem...
—Não é culpa sua. Não temos como prever o futuro. Apenas viver.- Ele enxuga as minhas lágrimas e me beija na boca.- Nunca se esqueça de Deus.
Ficamos em silêncio durante muito tempo. Estava frio aquele quarto.
—Bem, como vocês estão.- O doutor Pedro chegou no quarto.
—Estamos preparados.- Tiago respondeu.
—Vou pedir para que desliguem.- O médico entro naquele quartinho de vidro.
—Eu te amo.- Eu disse para ele.
—Eu te amo.- Ele disse para mim.
Nós demos nosso último beijo.
Depois seus olhos foram se fechando e seus braços me soltando. A vontade de chorar veio à tona. Chorei e gritei. Nunca senti tanta dor em minha vida. O abracei e queria que este pesadelo acabasse. Que minha memória se perdesse...
Se isso acontecesse, os momentos bons iriam junto. Então tive que ser forte. Ser uma pessoa melhor, como Tiago me ensinou. Ele continua vivo em mim, cada momento que sinto Deus em minha vida, sinto Tiago junto. Ele era um anjo enviado a Deus. Precisava de descanso. Todos os dias, antes de dormir, agradeço a Deus por ter colocado Tiago em minha vida.
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