A Caminhada
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Pé direito. Pé esquerdo. Pé direito. Pé esquerdo.
Em passos silenciosos e ritmados, ele caminhava. Cada passo fazia sua angústia aumentar – mas ele não parava, nem pretendia.
Aquela caminhada era tudo o que tinha, tudo o que valia a pena. Era tudo o que importava. O vento que batia em seu rosto parecia diferente, o ar poluído que entrava em seus pulmões parecia mais sujo, o chão em que pisava parecia grudento, como se quisesse impedi-lo de continuar.
Mas ele não pararia.
Se fosse necessário, correria até que não fosse mais possível. Correria mesmo que o chão deixasse de ser grudento e se tornasse cortante, correria mesmo que o ar deixasse de ser poluído e se tornasse ácido, correria mesmo que o vento deixasse de ser diferente e se tornasse um vapor queimante. Daquela corrida, ele não desistiria.
Já havia desistido de algumas coisas durante o percurso: desistira de pegar uma moeda no chão, pois o atrasaria; desistira de conversar com um moço, pois o atrasaria.
Estava cansado de atrasos.
O mais estranho de tudo, era que para todos ao seu redor, aquela corrida não significava nada. Era apenas um homem correndo. Provavelmente não se lembrariam dele ali correndo – muitos talvez nem o tivessem percebido.
Será que para eles, o chão também parecia grudento? Será que o ar parecia mais sujo?
Afinal, se todas aquelas vidas estavam alheias à sua, então o resto também deveria estar, certo?
Pois quando seus pés tocavam a calçada, aquela era a sua calçada. Era única. Ela significava algo totalmente diferente do que significava para todas aquelas pessoas. Quando o ar entrava em seus pulmões, aquele era o seu ar. Talvez fosse poluído para todos, mas ele, de alguma forma, sabia que era diferente.
Talvez, para aquela garotinha loira de vestido azul que saltitava no outro lado da rua, o chão fosse algodão doce, e o ar um doce perfume.
Talvez, para aquele senhor idoso com um olhar carrancudo, o chão fosse vidro, e o ar fosse o mais amargo dos odores.
Ninguém nunca poderia saber, de forma alguma, como era o chão dele. Ninguém nunca poderia saber como era seu ar, seu vento.
Não sabia se deveria se sentir incomodado ou lisonjeado, de tê-los só para si. Mesmo que não fossem tão confortáveis, era legal saber que só ele os sentiria – ele e mais ninguém.
A emoção que sentia era única. A esperança que sentia era única.
O próprio sentir dele era único.
Sim, até que aquela caminhada solitária não era tão ruim assim. Mas não era nada comparado ao seu destino – afinal, tudo aquilo tinha de ser para alguma coisa. Um objetivo. Um objetivo do qual ele alcançaria a qualquer custo.
Só de pensar nele, seu estômago revirava de excitação, nervosismo e, acima de tudo, determinação.
Tais pensamentos apenas o motivaram a correr cada vez mais.
Mesmo com todos os obstáculos, ele corria sem parar. Seus pés já estavam cheios de bolhas, sua boca completamente seca. Ele ofegava, exausto.
Não, ainda não desistira. Nem fizera sequer uma pausa. O ar continuava sujo, o chão continuava grudento, o vento continuava diferente. Aquilo ainda o incomodava. Entretanto, a ideia de desistir nem passava pela sua mente.
Era surreal; aquela força de vontade, aquela – talvez – idiotice não o deixava se distrair com nada.
Ainda haviam várias pessoas, todas diferentes umas das outras, à sua volta. Ainda haviam muitos chãos, ares e ventos dos quais ele poderia tentar sentir, mas de nada adiantava, nada o parava.
O ritmo só aumentava, sentia que se apenas esticasse os braços poderia tocar aquilo que tanto almejava, finalmente! E tudo estava bem, até que o homem ficou intrigado.
Os passos que deixaram de ser silenciosos há certo tempo agora eram impossíveis de se ouvir.
O vento que batia em seu rosto, impossível de se sentir.
O ar que entrava em seus pulmões, impossível de se respirar.
A determinação que antes o preenchia, impossível de fazê-lo se mover novamente.
Parado, no meio da calçada, olhou à sua volta.
Nada pareceu mais insignificante do que sua própria corrida naquele momento. Percebeu, então, que apenas corria, sem rumo. Nem se lembrava de seu objetivo. Tudo parecia tão... indiferente. Enjoado.
Dando de ombros, deu a volta e caminhou lentamente, apreciando melhor a vista. Seus pés à procura de um novo chão, seu rosto à procura de um novo vento, seus pulmões à procura de um novo ar.
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