A Call to Arms

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Mari, eu escolhi o Combo 2 porque além de adorar a combinação música + imagem, o achei perfeito para explorar uma ideia louca que tive. Espero ter conseguido atender às expectativas e que você curta muito essa história e personagens! Beijos e boa leitura!

PRÓLOGO

Os grossos pingos provenientes da chuva torrencial que caía do lado de fora se chocavam violentamente contra as frágeis vidraças das janelas. Rajadas de vento chacoalhavam suas intrincadas estruturas metálicas enquanto correntes de ar gelado penetravam no interior do quarto através de pequenas frestas, produzindo sons inquietantes que ecoavam pelo ambiente como lamúrias torturadas de antigos fantasmas.

Apoiada no parapeito largo de uma das janelas, encarei a escuridão da noite revolta na esperança de conseguir um vislumbre, ainda que mínimo, da lua cheia, porém sem sucesso. O céu estava completamente coberto por nuvens cinzas e pesadas, um clima bastante atípico para a época do ano.

Lembrei-me de quando uma das criadas que cuidava de mim quando eu era pequena comentou sobre tempestades de verão serem um sinal de mau agouro. Sempre fui cética quanto aos mitos e lendas populares; no entanto, pensei ironicamente, este em específico se aplicava perfeitamente à minha vida atual.

Com um suspiro, dei as costas ao cenário melancólico e caminhei até a penteadeira que ficava ao lado da cama. Sentada de frente para o adornado espelho, quase não reconheci o reflexo da mulher que ali me encarava. O longo cabelo castanho caía pelos ombros e peito em mechas desgrenhadas e descuidadas. A pele, quase translúcida por conta da escuridão, havia perdido o aspecto saudável e fazia o rosto abatido parecer quase esquelético. Por fim, os olhos castanhos, tão escuros que lembravam chocolate derretido, estavam vazios e sem brilho, cercados por olheiras profundas.

– Patético – murmurei ao observar minha própria imagem.

Eu não parecia em nada com a jovem nobre que um dia fui, destoando completamente de todo o luxo que a mobília cara e a decoração suntuosa traziam ao quarto.

Uma intrusa.

Mas que direito eu tinha de reclamar se era exatamente isso que eu sempre havia sido, tanto na casa que um dia eu chamei de lar quanto neste castelo?

É claro que minha permanência nesses aposentos não havia sido concedida por uma questão de benevolência ou misericórdia, embora esse fosse o discurso que circulava tanto entre os criados quanto entre os membros da corte. Mas eu sabia que o verdadeiro motivo era para me manter sob vigilância constante e impedir que algo acontecesse – e pouco importava se fosse para me ajudar ou para me calar definitivamente.

Assim, eu seria mantida em cárcere privado – sem criados ou aquecimento, sem direito a visitas e com apenas uma refeição por dia a base de água, sopa fria e pão velho – até que a punição pela minha traição fosse decidida.

Se eu tivesse tido mais uma chance, será que as coisas teriam sido diferentes?

Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de algo pesado se abrindo do lado oposto do quarto. Por um breve momento, a luz vinda do corredor projetou no chão a sombra da figura alta que se encontrava parada à porta, mas esta logo foi fechada e o aposento voltou a ficar no mais absoluto escuro.

As feições do recém chegado estavam ocultas por um grande capuz erguido sobre sua cabeça. Pelo espelho, observei enquanto ele caminhava lentamente em minha direção e notei que havia muita água – provavelmente da tempestade – escorrendo por suas vestes e molhando o chão de pedra. Quando ele finalmente parou atrás de mim, sorri pela primeira vez em dias ao encarar seu reflexo.

– Boa noite, Edward.

O homem permaneceu em silêncio, ignorando-me, então me virei para que pudesse vê-lo de frente.

– Pelo visto, as ordens do rei proibindo quaisquer visitas à minha cela não se aplicam a você – comentei em tom de deboche – Ser o Cão de Guarda Real tem suas vantagens, afinal.

Edward não esboçou nenhuma reação à minha provocação. Suspirei, resignada, já desistindo daquele joguinho até que ele enfim se pronunciou.

– Seu pai foi executado – sua voz era baixa e sem emoção, porém cada palavra foi pronunciada com clareza. – Vossa Majestade ordenou que o Visconde Swan fosse enforcado hoje durante o crepúsculo.

Ah, então era isso.

Meu pai estava morto.

Assenti lentamente enquanto meus olhos vagavam pelo quarto sem focar em algo em específico, as palavras de Edward ecoando em minha mente.

O poderoso Visconde Charles Swan havia finalmente encontrado seu fim.

Esperei que as emoções típicas a quem recebe esse tipo de notícia viessem à tona. Tristeza, dor, raiva, desespero, saudade… Porém, não consegui sentir absolutamente nada exceto indiferença. Havia um grande vazio em meu peito, mas ainda que eu tentasse forçar, a vontade de chorar simplesmente não veio.

Tudo estava acabado.

Ou quase tudo.

– Lady Isabella.

A voz do homem despertou-me de meus devaneios e olhei em sua direção; por alguns segundos, havia me esquecido da sua presença. Mas o Duque Masen ainda se encontrava ali, parado a poucos metros de onde eu estava sentada.

Levantei-me e, com apenas alguns passos, encurtei a distância entre nós dois até que estivéssemos frente a frente. Vendo-o assim tão próximo, percebi que a diferença entre nossas alturas ficava ainda mais evidente, com ele se erguendo como uma torre sobre mim.

– Lady Isabella? – repeti, imitando quase que com perfeição o seu tom de voz – Francamente, Edward, tais formalidades são desnecessárias entre nós, não acha? Nos conhecemos desde que éramos crianças, afinal. Além disso, – continuei após uma breve pausa – títulos como esse não se aplicam mais a alguém cuja família caiu em desgraça, nome e reputação para sempre arruinados.

Grandes raios caíram do lado de fora, iluminando o rosto de Edward pela primeira vez naquela noite. Mesmo escondido sob o capuz, consegui enxergá-lo com clareza – seu rosto pálido parecia ter sido esculpido em mármore, com traços angulosos destacando o nariz e o queixo. Seus olhos, verdes como esmeraldas, eram frios e penetrantes. Havia um ar de superioridade e indiferença em seu semblante, características inerentes a alguém em sua posição.

Um anjo vingador, pronto para exercer a punição mais severa sobre sua transgressora.

Se as circunstâncias fossem outras, será que teríamos tido alguma chance?

Um brilho metálico chamou minha atenção e meus olhos pousaram sobre o objeto afiado nas mãos de Edward. O pequeno sorriso que surgiu em meus lábios era amargo ao compreender o que aquilo significava.

Jamais haveria alguma chance para nós.

– Você algum dia imaginou que tudo terminaria assim?

Levantei o rosto para encará-lo novamente e ele retribuiu o meu olhar. Seus lábios se moviam rapidamente, mas o que quer que tenha dito foi abafado pelo som estrondoso de um trovão. E então, o espaço que havia entre nós desapareceu.

Apoiei minha mão direita em seu peito ao mesmo tempo em que Edward passava seu braço pela base das minhas costas, sustentando-me e impedindo que eu me movesse. No início, não senti a dor; apenas uma sensação quente e molhada se espalhando rapidamente pelas minhas vestes.

Inclinei a cabeça na direção do meu peito, onde a minha mão esquerda descansava sobre a dele, o punhal que segurava firmemente cravado no centro do meu coração. O sangue viscoso escorria por entre os nossos dedos, transformando tudo em um grande borrão carmesim.

– Por que…? – consegui suspirar entre arquejos, a respiração começando a falhar.

Minha visão começou a ficar turva, as lágrimas insistentes se acumulando em meus olhos. Com certo esforço, levantei a cabeça para tentar enxergar o rosto de Edward uma última vez. Suas bochechas pareciam estar molhadas, com pequenos fios de água escorrendo por elas, o que era estranho considerando que ele já não estava mais na tempestade fazia um certo tempo.

Minhas pernas falharam e meu corpo desabou, mas Edward me segurou em seus braços, impedindo-me de ir de encontro ao chão.

Por que você não pode me deixar ir?

Outro raio caiu e dessa vez a luz iluminou o fundo do quarto, revelando uma das pinturas maiores pendurada na parede ao lado da cama. Moros, o deus grego do destino, parecia encarar serenamente a cena que se desenrolava à sua frente, o semblante austero de quem sabe que tem o poder de controlar a vida de todos os mortais.

Fechei meus olhos, as últimas palavras de meu pai para mim ecoando em minha mente.

Você não pode escapar. Mesmo que você morra, mesmo que eu morra! Ainda que um dia, Isabella, tudo desmorone sobre nós, você nunca será livre!

Não existem segundas chances para alguém como eu.



CAPÍTULO ÚNICO



And death shall have no dominion.

(E a morte não terá domínio.)

Dead men naked they shall be one

(Nus, os mortos hão de se tornar um)

With the man in the wind and the west moon;

(Com o homem no vento e a lua no poente;)

When their bones are picked clean and the clean bones gone,

(Quando seus ossos forem descarnados e os ossos limpos se esvaírem,)

They shall have stars at elbow and foot;

(Estrelas brilharão em seus cotovelos e pés;)

Though they go mad they shall be sane,

(Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos,)

Though they sink through the sea they shall rise again;

(Ainda que afundem no mar, hão de ressurgir;)

Though lovers be lost love shall not;

(Ainda que os amantes se percam, o amor persistirá;)

And death shall have no dominion.

(E a morte não terá domínio.)

(And Death Shall Have No Dominion — Dylan Thomas)

(E A Morte Não Terá Domínio — Dylan Thomas)

***

Acordei com a sensação desconfortável do suor escorrendo pela minha pele e grudando meu cabelo na testa e no pescoço. Arfando, sentei-me na cama e apoiei a cabeça nos joelhos, tentando controlar minha respiração até que voltasse ao normal enquanto tentava afastar as imagens sombrias do meu sonho mais recente.

Sonho? Quem me dera.

Nas últimas três semanas, tenho sido atormentada todas as noites pela mesma lembrança do dia em que morri sempre que me deito para dormir. A tempestade violenta, a frieza no olhar de Edward, nossa última conversa antes de sua lâmina atravessar meu coração… Os detalhes eram nítidos demais para serem apenas fruto da minha imaginação.

Nas primeiras vezes em que isso aconteceu, até cheguei a pensar que tudo realmente não passava de um pesadelo e que, ao acordar e seguir com a minha rotina, as coisas iriam ficar bem. Mas é claro que eu jamais teria tal sorte. O misfortúnio me acompanha desde criança e não vai ser agora que essa situação vai mudar. A dor no lado esquerdo do meu peito não deixava espaço para dúvidas.

Uma leve batida na porta do quarto despertou-me desses devaneios e, com um suspiro, autorizei a entrada de quem quer que fosse aquela hora da manhã. Em poucos minutos, Jéssica, a criada responsável por atender às minhas necessidades, entrou com uma bandeja de café da manhã.

– Bom dia, senhorita Swan – ela cumprimentou enquanto depositava a bandeja na mesinha localizada no centro do cômodo e se apressava para abrir as cortinas. – Seu pai está bastante insatisfeito com a senhorita hoje; já se passou quase metade da manhã e a senhorita ainda não havia saído do quarto. Ele estava bem irritado quando ordenou que eu viesse trazer o seu desjejum e lhe ajudar a se vestir.

– Surpresa seria se meu pai não estivesse irritado com qualquer coisa relacionada a mim, Jéssica. Pelo visto, agora ele quer controlar até mesmo a quantidade de horas que eu durmo.

– Por Deus, milady, que coisa mais absurda de se dizer sobre o seu próprio pai! O lorde Swan sempre cuidou muito bem da senhorita, principalmente depois que sua mãe se foi de forma tão precoce. Mesmo sem ter se casado novamente, ele te criou sem nunca deixar faltar nada.

Suspirei mais uma vez, resignada, enquanto tomava uma xícara de chá. Não ia adiantar de nada discutir sobre esse assunto. É claro que aos olhos da sociedade e dos empregados, o visconde Charles Swan era exemplo perfeito de patrão e também pai, tendo criado dois filhos praticamente sozinho desde que ficara viúvo.

Quando se tratava de manter as aparências, meu pai desempenhava esse papel com maestria.

– Além disso, – continuou Jéssica, sempre tagarela quando a oportunidade surgia – Seu pai está esperando visitas importantes para o almoço e exigiu que a senhorita comparecesse, por isso eu devo vesti-la impecavelmente.

Franzi a testa, estranhando tal convite. Meu pai raramente me deixava participar de reuniões com seus parceiros de negócios; as únicas ocasiões era quando queria me exibir ou me lembrar de quem estava no comando, usando-me como moeda de troca em qualquer vantagem que pudesse obter.

Fiquei refletindo sobre o assunto enquanto Jéssica me ajudava a me vestir e começava a arrumar meu cabelo. Tentei me lembrar de fatos importantes que aconteceram nessa época em minha vida anterior e o que meu pai possivelmente poderia querer que exigia minha presença.

Já faz quase três semanas desde que eu acordara depois de pensar ter morrido pelas mãos de Edward. Lembro claramente de como todos da mansão – incluindo a mim mesma – pensaram que eu havia ficado louca quando tudo o que eu fazia era chorar, rir e depois chorar novamente.

Mas que outra reação seria possível quando alguém está preparado para o que quer que venha na vida após a morte e, ao invés de encontrar o céu, o inferno ou mesmo o purgatório, percebe que voltou seis meses no tempo, e sua vida é exatamente como era antes?

Tentei pensar em todas as teorias possíveis que justificassem tal loucura, mas nenhuma delas é realmente satisfatória. Desde então, só me resta aceitar a situação como uma peça terrível de quem quer que seja a força superior que controla nossas vidas mortais e tentar seguir o que está aparentemente escrito para mim.

Depois que Jéssica me ajudou a ficar pronta, desci as escadas até o escritório do meu pai, onde fui informada que ele estava me aguardando e em breve chegaria para me receber. Eu odiava esse lugar, mais do que qualquer outro cômodo dessa mansão amaldiçoada. A sensação familiar de claustrofobia começou a tomar conta de mim e as palmas das mãos suavam, mas felizmente a porta se abriu antes que a crise ficasse pior.

– Ah, Isabella, finalmente você resolveu nos agraciar com sua preciosa presença, minha filha querida!

Antes que o choque pudesse tomar conta de mim ao ouvir meu pai se referir a mim de forma tão afetuosa, percebi que ele não havia chegado sozinho.

Ah, é claro que haveria um motivo plausível para tal recepção calorosa.

Dois homens altos e morenos entraram no escritório logo atrás do meu pai. O mais velho, apoiado em uma bengala elegante, carregava austeridade em seu semblante e os cabelos grisalhos evidenciaram sua idade avançada. O mais jovem, ao contrário do pai, tinha os cabelos presos cuidadosamente em um rabo de cavalo baixo e seu sorriso era caloroso e sem malícia.

– Isabella, este é o Barão Billy Black, um grande amigo e parceiro de negócios de anos. E esse jovem e excelente rapaz ao lado dele é seu filho, Jacob.

Os dois homens me cumprimentaram formalmente e, seguindo a etiqueta, os cumprimentei de volta, ainda que ao contrário do que eles pensam, essa não era a primeira vez que nos encontrávamos.

Ao ver os dois convidados se acomodando no sofá, lembrei exatamente desse acontecimento na minha primeira vida e o porquê da visita deles, e um nó se apertou em minha garganta.

– Isabella, você está prestes a completar 20 anos e, consequentemente, já está na idade de arrumar um marido. – Charles foi direto ao ponto após trocar algumas palavras sobre negócios com os dois homens. – Como seu pai, chegou a hora de eu cumprir com meu dever e responsabilidade com seu futuro.

– Perdão, mas acho que não compreendi muito bem, pai. – menti, esperando que essa nova realidade tomasse um rumo diferente da que eu me lembrava.

– Você já deve saber que a princesa mais velha, Rosalie, está de casamento marcado com o príncipe Emmett e, portanto, praticamente todos os nobres e pessoas de status virão à Volterra para a celebração. Em resumo, você irá para a corte como uma das damas de companhia dela e, consequentemente, terá um papel ativo na sociedade.

– Mas senhor, eu não debutei na sociedade ainda. Não conheço praticamente ninguém lá, serei uma estranha.

– E é exatamente por isso que irá para lá como dama de companhia, Lady Swan – Billy afirmou – Como dama de companhia da princesa, você será introduzida às pessoas mais importantes e influentes. Será uma ótima oportunidade para fazer conexões e arranjar potenciais maridos.

Uma sensação de asco começou a revirar meu estômago, e pequenos calafrios percorreram minha espinha, me fazendo tremer.

– Com todo o respeito, senhor, – tentei controlar minha voz para que soasse o mais calma possível, mesmo sem esperanças de que eu fosse conseguir dissuadi-lo de tal ideia – Mas não acho que essa seja a melhor opção para conseguir um casamento.

– Bobagem, Isabella! Hoje em dia é assim que todos os casamentos acontecem.

– Talvez fosse mais interessante arrumar um parceiro que já conheço e tenho certa familiaridade, afinal irei passar o resto da minha vida ao lado dessa pessoa. Não gostaria que fosse um estranho.

– Com todo o respeito, senhorita Swan – Billy interrompeu-me, rindo de forma arrogante – Mas todos os casamentos são meros arranjos políticos e acordos de conveniência. Certamente a senhora não pode ser tão tola a ponto de acreditar que pessoas hoje se casam por amor.

– Não estou falando sobre amor, Barão Black – o interrompi, sem conseguir conter a compostura e minha voz saiu mais ácida do que eu pretendia – Mas prezo pelo mínimo de respeito mútuo entre as partes envolvidas.

Percebi como Jacob arregalou os olhos e Billy levantou uma sobrancelha de forma arrogante, provavelmente surpreso com minha ousadia em desafiá-lo. Charles, por outro lado, crispou os lábios e me lançou um olhar que me alertava a ficar calada mesmo sem dizer uma única palavra. Um aviso silencioso.

– Meu querido amigo, você não me disse que sua filha tinha tantas opiniões… fortes. – Billy falou com escárnio na voz.

– Bobagem – a voz de Charles era fria apesar do sorriso, que não chegava a seus olhos. – Isabella sabe qual é o seu papel dentro dessa família, e vai cumpri-lo como tal. Ela foi preparada para isso desde a infância, e sem questionamentos.

Apertei a xícara em minhas mãos para controlar a raiva que sentia, mas a conversa continuou tomando o rumo que eu realmente esperava que não fosse.

– Além disso, seu papel não será apenas o de arranjar um bom marido. – Charles continuou, e o brilho em seus olhos mudou para algo verdadeiramente assustador, o que me lembrava o homem cruel que eu sempre aprendi a temer desde pequena. – Preciso que você seja meus olhos e ouvidos dentro daquele lugar, e como dama de companhia da princesa será a oportunidade perfeita para não levantar suspeitas.

– Pai…

– Nos comunicaremos por cartas frequentemente e você me enviará relatórios das informações mais importantes para que eu consiga alcançar meu objetivo principal.

– O que o senhor quer dizer com isso?

Por favor, mude de ideia. Por favor, não repita os mesmos erros.

Charles se levantou e foi até o fundo do escritório, onde parou de frente para o grande retrato pendurado na parede. Seus olhos ficaram mais soturnos ao encarar a pintura de um jovem pálido e alto, com cabelos castanhos ondulados semelhantes aos meus e olhos azuis claros que apesar de parecerem infantis, carregavam um ar de inteligência e divertimento.

Meu coração apertou desconfortavelmente ao vê-lo erguer a mão para tocar o rosto do jovem bonito.

– Pai – falei em voz baixa, quase suplicante – Por favor, não vá por esse caminho. Vingança não vai trazer o Beaufort de volta…

– Quieta, Isabella! – Charles gritou, ainda sem se virar para mim, mas pude ver a dor em seu semblante.

– Lady Isabella, talvez seja impossível para a senhora entender as motivações do seu pai uma vez que a senhorita ainda não é mãe – Billy acrescentou, um sorriso malicioso na voz disfarçada de empatia e compaixão – Mas quando seu filho é cruelmente arrancado de você e o você o perde para sempre, apenas vingança pode amenizar a dor e raiva. Não tire isso dele quando não lhe resta mais nada.

Lancei-lhe meu olhar mais desprezivel, no intuito de evitar as palavras que eur realmente queria dizer em voz alta. Toda a preocupação do barão com o meu pai poderia enganar facilmente qualquer um, mas eu sabia que ele tinha suas proprias motivações para querer essa plano de vingança. Billy Black era um homem ganancioso e sabia que teria como lucrar bastante com seu plano caso conseguisse realiza-lo. Ele não estava nem ai para o luto do meu pai desde que pudesse usa-lo como desculpa para conseguir o que queria.

– Minha decisão já está tomada e não há espaço para discussoes – Charles cruzou os braços atras de si, ainda encarando o quadro e sem me lhor de volta – Você parte para a corte em três dias e fará exatamente o que for orientada. caso contrário, já sabe das consequencias.

Trinquei os dentes e cerrei os punhos, me retirando da sala sem ao menos me importar com a etiqueta e sem cumprimentar os demais presentes.

Caminhei a passos largos e apressados ate o jardim, ignorando os chamados e olhares dos demais criados da mansão. Quando cheguei ao balanço debaixo dos dois grandes carvalhos da propriedade, finalmente me permiti chorar. As lagrimas caiam inninterruptas pelo meu rosto, mas não conseguia separar se eram de raiva, tristeza ou desamparo.

Não me preocupei em ser vista; ninguem mais alem de mim frequentava aquela parte desde que minha mãe morrera. Aquele era o meu refugio, o unico lugar ao qual eu sentia que realmente pertencia.

Olhei para o jardim, observando com calma todas as flores e plantas que eu tinha conseguido cultivar ao longo dos anos, em uma homenagem simgela e silenciosa a minha mae. Lirios e tulipas das mais diversas cores se misturavam ao amarelo dos girassois. Do outro lado, as flores e plantas que eu utilizava para fazer meus experimentos como herbologista – caracteristca que aparentemente heridei da minha mãe, uma grande amante de plantas e flores medicinais – aconitos purpura e oleandros brancos, rosas e vermelhos – as favoritas de minha mae – balançavam ao vento da brisa que passava naquele dia esnolarado. Camomilas, boldos e valerianas traziam seu cheiro ate mim.

– Mãe, eu queria tanto que você estivesse aqui. Só por uma vez, daria tudo para ouvir seus conselhos e sentir seu toque, me afirmando que tudo vai ficar bem.

Fechei os olhos e tentei lembrar como era seu rosto, mas era dificl uma vez que meu pai havia retirado todos os retratos e registros dela de casa desde que ela morrera. Não conseguia lembrar mais de como era a sua voz ou o som da sua risada, apenas da cor de seus olhos – os mesmos do meu irmão. Mesmo gemeos, Beaufort e eu eramos completamente diferentes. Ele puxara as caracteristicas de minha mãe enquanto eu puxara ao meu pai praticamente em tudo.

A aparencia era a unica coisa que tinhamos em comum. Meu pai nunca fez questão de estabelecer uma relação de proximidade comigo, não lembro de uma unica ve que tenha recebido afeto genuino dele, mesmo antes da morte de minha mae. Depois que ela se foi, meu pai ficou ainda mais severo, distante e depressivo, e as coisas so pioraram com a morte de Beau – para Charles, era seu unico filho que tinha partido, sua segunda perda foi seu bem mais precioso.

E agora, mais uma vez, ele esta prestes a por tudo a perder por conta de vingança pelo seu filho querido. Não é possivel que eu seja obrigada a passar por tudo isso de novo.

Que destino cruel é esse que, como se já não bastasse sofrer sem escolha alguma a não ser morrer em uma primeira vida, ainda nos abriga a assistir e viver tudo isso de novo?

Mas será mesmo que não ha outra opção?

Nesse momento, uma brisa forte soprou e arrastou folhas e algumas petalas de flores em minha direção. Olhei para o chão e recolhi umas petalas amarelas que haviam caido aos meus pes. Narcisos.

Narcisos são simbolo de recomeço frente às adversidades.

Recomeço…

Não sei exatamente se conseguirei mudar meu destino, mas farei o possivel nessa nova oportunidade para que minha vida seja resultado das minhas escolhas e não dos outros. Sera que consigo ser dona do meu proprio destino?



***

De todas as capitais do continente, Volterra era sem dúvidas a mais próspera de todas. Desde que Carlisle Cullen assumiu o trono, há quase 30 anos, o reino passou por renovações e expansões, ficando conhecido por seus abundantes recursos naturais. Por fazer fronteira com o mar, Volterra era uma das rotas comerciais mais procuradas e a região estava sempre cheia de gente entrando e saindo.

Além disso, Carlisle era um excelente diplomata então não era surpresa alguma que todas as famílias nobres do país e também de outros reinos quisessem ter alguma conexão ou proximidade com a família real.

Rosalie Cullen e Emmett McCarty haviam sido prometidos um ao outro quando tinham apenas seis anos, em uma das inúmeras e tradicionais alianças diplomáticas que há séculos movimentam as relações entre membros da nobreza. Entretanto, ainda que seu casamento tenha sido arranjado por interesses políticos, os dois desenvolveram uma amizade ao longo dos anos que, eventualmente, evoluiu para um sentimento de amor e respeito mútuo.

Enquanto eu observava os dois trocando olhares afetuosos e sorrisos apaixonados durante uma das danças no baile daquela noite, não pude deixar de sorrir. Era bom saber que havia uma exceção dentro do todo, uma prova real de que amor verdadeiro existe também fora da ficção.

Não que eu ouse sequer desejar um dia viver um conto de fadas como o deles, é claro. Agora que aceitei o fato de que eu realmente regressei, tenho mantido os pés no chão o suficiente para saber quais os meus objetivos e responsabilidades nessa minha segunda chance.

Já se passou um mês desde que cheguei à corte para ser uma das damas de companhia de Rosalie e, assim como na primeira vez, fui muito bem recebida por ela e toda sua família. Nossa relação não é exatamente de intimidade, mas ela é sempre gentil e cordial, e faz questão de se certificar de que eu esteja confortável e tenha todas as minhas necessidades atendidas.

Outro detalhe que não mudou foi a quantidade de pessoas que eu conheci desde que passei a frequentar o círculo social da família real. Conforme meu pai previu, passei a ter contato com membros de diversas famílias influentes e agora consigo interagir sozinha em alguns círculos de conversas nos inúmeros eventos como o de hoje, sediados no castelo e nas propriedades da corte.

– Lady Isabella, quem passa por aqui e a vê sozinha em um dos cantos mais escuros do salão poderia pensar que não está curtindo as celebrações dessa noite.

Eu estava tão absorta em meus pensamentos que não percebi que alguém se aproximava. Me virei na direção da voz desconhecida, apenas para arregalar meus olhos em surpresa ao ver o príncipe Jasper, irmão gêmeo de Rosalie, vindo em minha direção com um sorriso discreto no rosto.

– Vossa Alteza – o cumprimentei com uma pequena cortesia, a qual ele retribuiu solenemente com um aceno de cabeça – A noite de hoje é para homenagear oficialmente o noivado de sua irmã com Emmett. É claro que eu não poderia ficar descontente de forma alguma.

– Entendo. Devo supor então que seu objetivo na verdade seria fugir de certas rodas de conversa possivelmente maçantes?

Engoli em seco quando ele me encarou por um longo tempo, desconcertada sob o seu olhar crítico de quem tenta decifrar um enigma. Jasper era conhecido por ser particularmente bom em ler emoções alheias.

A verdade é que eu estava, de fato, aproveitando a oportunidade para respirar um pouco depois de passar a última hora sendo obrigada a forçar sorrisos e interagir com algumas pessoas particularmente irritantes.

Na minha vida anterior, conviver na corte foi um completo pesadelo. Meu pai tinha me mantido confinada na mansão praticamente a vida toda e as únicas pessoas com quem eu convivia além da minha família eram aquelas que trabalhavam para nós. Sendo assim, quando fui enviada para cá por conta do seu plano de vingança e obrigada a interagir com tantas pessoas novas, comecei a ter várias crises de ansiedade. O medo de falar algo inapropriado ou de descumprir alguma regra de etiqueta constantemente tomava conta de meus pensamentos, e a possibilidade de eventualmente ser descoberta me impedia de agir naturalmente.

Mesmo que agora essas situações já não sejam mais novidade para mim e eu saiba mais ou menos o que esperar e fazer, ainda não me sinto completamente confortável. Então, sempre que tenho uma oportunidade de escapar e poder ficar um pouco sozinha, procuro me isolar em algum local onde acredito não estar sendo notada.

É claro, porém, que eu não poderia revelar isso a ninguém, muito menos a alguém como o príncipe.

– Vossa Alteza, eu jamais poderia cogitar tal possibilidade. Socializar e fazer contatos é fundamental para alguém em minha posição. Eu apenas prefiro, em alguns momentos, ser mais uma espectadora do que estar no centro das atenções.

Jasper estreitou os olhos, como se estivesse decidindo se acreditava ou não em mim, e tomei um gole de vinho para disfarçar meu desconforto. Por fim, ele suspirou, seu olhar percorrendo os convidados espalhados pelo salão barulhento.

– Entendo – ele comentou, dando um longo gole em sua própria taça – Que pena, pensei que havia encontrado uma cúmplice.

– Acho que eu não seria uma cúmplice tão boa nesse quesito, senhor. Suas responsabilidades como futuro sucessor são bem maiores do que as minhas e com toda a certeza você ainda terá que socializar bastante por conta disso, mesmo que não queira. – sorri, não conseguindo evitar provocá-lo um pouco – Enquanto no meu caso, ainda que eventos como esse sejam fundamentais para conhecer pessoas e possíveis partidos para uma união, consigo escapar dos holofotes como foi o caso ainda pouco. Alguém como eu jamais seria tão requisitada como o senhor.

Jasper soltou uma risada baixa e se virou para me olhar novamente.

– Acho que você tem um ponto, senhorita Swan. Mas sinto informá-la que, talvez, seu plano de passar despercebida ou evitar ser o centro das atenções pode não estar dando tão certo como você imagina. Eu soube que a senhorita, na verdade, é bastante popular na corte e seu nome é quase sempre citado nas rodas de conversa.

Não consegui evitar a expressão de frustração em meu rosto ao ouvir esse comentário e Jasper, sempre intuitivo, riu ainda mais alto.

Infelizmente para conseguir colocar o meu próprio plano em prática e tentar evitar o mesmo destino da minha vida anterior, precisei mudar um pouco dos meus traços de personalidade. Antes eu era vista como tímida e reservada, mas agora que entendo melhor a dinâmica desse jogo político que é a corte, costumo falar mais e dar minha opinião quando solicitada sobre os mais variados assuntos.

Apesar desse fato ser desconhecido por todos com quem conversei até então, agora eu já sei mais ou menos em quem confiar ou de quem devo me aproximar e quem eu devo evitar. estou usando tudo o que posso a meu favor, e lembrar de acontecimentos importantes de minha vida antes de eu morrer é fundamental.

– Minha intenção era lhe fazer um elogio, Lady Isabella. A maioria das mulheres que estão a procura de um bom partido ficariam felizes em saber que estão sendo bem vistas na corte. Sua inteligência e autenticidade estão sendo bem vistos. Tenho certeza de que qualquer homem ficaria contente em ter uma parceira tão franca quanto a senhorita ao seu lado.

– Agradeço o elogio, porém não acho que mereço tal crédito. E apesar desse ser meu principal objetivo, não quero agir por impulso apenas para fisgar um marido.

– Ou você está sendo falsamente modesta ou está insinuando que eu sou um mentiroso, correto?

– Por Deus, jamais ousaria insinuar tal coisa! – meu rosto ficou vermelho imediatamente, me traindo, por medo de que eu tivesse ido longe demais com minha sinceridade.

Jasper entretanto não parecia nada ofendido; pelo contrário, estava se divertindo mais do que deveria com aquela situação. Ele com certeza sabia mexer com as emoções alheias e isso era um grande perigo para mim.

Nesse momento, para o meu alívio, uma comoção começou no salão e as atenções foram voltadas para quem quer que tivesse acabado de chegar. Mas meu alívio, infelizmente, não durou muito tempo ao perceber quem estava entrando logo atrás do rei Carlisle.

Mesmo andando discretamente alguns passos atrás do rei, a figura de Edward Masen era tão imponente que sua mera presença atraia a atenção de praticamente todas as pessoas. Alto e esguio, era facil ver como ele era forte mesmo que seus msuculos não fossem exageradamente evidentes. Sua aura e forma de andar elegantes lebravam a um felino selvagem que examinava cautelosamente suas possiveis presas, alerta a qualquer possivel fonte de perigo que o faria agir imediatamente.

Os homens o respeitavam e as mulheres lançavam-lhe olhares de luxuria e desejo, certamente ambiciosas para serem escolhidas como possiveis futuras duquesas. Mas apesar de estar no auge de seus quase trinta anos, o duque de Masen não parecia ter pretensões de escolher uma futura esposa tão cedo.

Mesmo tão novo, Edward Masen havia sido apontado como o Cão de guarda real – ainda que sua figura fosse mais parecida com a de um felino. Sua familia era uma das mais antigas do reino e por gerações tinha servido à familia real, garantindo sua segurança e tambem executando os mais serviços mais sujos que nenhum outro poderia realizar.

Desde que cheguei a corte, eu estava fazendo o meu possivel pra evitar qualquer contato entre nos. Não estava preparada ainda para lidar com ele, sabendo qual tinha sido o resultado disso na minha vida anterior e estava tentando evitar isso a todo custo. Felizmente, nossos circulos sociais não eram os mesmo e eu ate agora havia tido sucesso em minhas inteções, tendo apenas observado-o de longe. Acredito que minha presença tambem havia passado despercebedia por ele eue estava mais do que grata, esperando que continuasse assim por um bom tempo.

Minha postura mudou a medida que eu o observava atravessar o salao, seguindo Carlisle o mais discretamente possivel quando ele parou para conversar com Emmett e Rosalie. Jasper, entretanto, aprecia ter outros planos.

Ele seguiu meu olhar, que por algum motivo eu não conseguia desviar de Edward, e percebeu a tensão em meu corpo. Um lampejo de compreensao passou por seu rosto e ele um sorriso malicioso apareceu em seus lábios.

– Talvez eu não estivesse totalmente errado em minhas conjecturas afinal. A senhorita estava de fato evitando alguem em especial, senhorita swan!

Demorei para compreender o que ele havia dito e ele apenas retribuiu meu olhar erguendo uma sobrncelha

– Ora, veja quem acabou de chegar! Acredito que voc~e ainda não tenha tido a oportunidade de ser apresentada a um dos solteiros mais cobiçados da corte, sim?

Um misto de horror tomou conta de mim ao entender aonde ele estava querendo chegar.

– Vossa Alteza, por favor não…

– Edward! – a voz de Jasper sobressaiu pelo burburinho do salao e para meu completo desespero, o homem se virou na direção de seu nome, seus olhos se estreitando ao me ver parada ao lado do principe – Edward, amigo! Aqui!

Respondendo aos gestos vigorosos de Jasper, Edward começou a caminhar em nossa direção e eu não tive chance de escapar. Quando menos percebi, em poucos segundos ele ja estava parado a nossa frente.

– Jasper, mesmo sendo o príncipe, voce poderia evitar ser tão energico. Chamar atenção em um evento como esse, ainda mais em sua posição, é arriscado demais.

– Bobagens, homem! Que culpa eu tenho em querer cumprimentar um velho amigo a quem não vejo desde que voltei de viagem? Alem do mais – Jasper deu um passo para o lado, estragando minha tentativa de me esconder atras dele e passar despercebida – Eu estava ansioso para apresenta-lo a Lady Isabella Swan, uma das damas de companhia de minha irmã e que recentemente se juntou a nos na corte, nos agraciando com sua beleza e inteligencia.

Os olhos de Edward se estretitaram ao me ver e me encarou por longo tempo antes de fazer uma cortesia e segurar minha mão para beija-la. Minha palma estava suando e talvez seja por isso que uma corrente eletrica pareceu passar entre nos no momento em que seus dedos e labios me tocaram.

Edward não tirou os olhos de mim durante o breve cumpriemnto, mas se tambem sentiu a choque entre nos, não deixou transparecer.

– É um prazer conhece-la, lady swan.

Não consegui abrir a boca para responde-lo. Ele estava me tratando como se nunca tivessemos nos conhecido e, mesmo sabendo que era irracional, meu coração se apertou de forma desconfortavel.

Tudo bem que nos não nos falamso desde que eramos crianças e haviamos perdido totalmente o contato, e mesmo que eu o estivesse evitando, ser tratada como uma completa estranah me incomodou.

– Na verdade, estavamos falando sobre um assunto que poderia ser do seu interesse. – Jasper comentou, divertimento passando por seu rosto enquanto pegava uma taça de vinho em uma mes proxima e a entregava na mao de Edward, que a aceitou porem não fez sinal de que iria beber

– E posso saber o que seria?

– Estavamos falando sobre casamento. Mais especificamente, possiveis bons partidos para a senhorita Swan.

Edward ergueu uma sobrancelha na direção de Jasper, a expressão descrente em seu rosto enquanto o meu assumia o que eu imagino um tom vermelho constrangedor.

– Não sabia que agir como casamenterio era um de seus interesses ou funções como futuro governante, Jasper – o ruivo rebateu, certamente a intimidade ele eles era grande o suficiente para que ele pudesse coemtar tal coisa sem evitar desrespeitar alguem que estava em uma posição acima da sua.

– Bem, considerando que casamentos arranjados são meras alianças politicas, esta dentro de miha alçada. Alem diso, não acha que Lady isabella merece no minimo algo melhor do qeu apenas ser usada como intrumento de troca em benefico da propria familia?

– Vossa Alteza, por favor… – tentei argumentar, pensando em alguma possibilidade que me permitisse sair daquela conversa absurda e prolongar qualquer interação desnecessaria com Edwrad.

– Infelizmente não sou capaz de opinar sobre o que considero ou não melhor para a senhorita, uma vez que não temos tamanha intimidade. E tambem não acho que sou a pessoa mais apropriada para comentar sobre esse assunto.

– Como não, se você é possivelmtente o solteiro mais cobiçado da corte! Não pode ser tão cego ou indiferente quanto a isso.

Nesse quesito Jasper tinha razão. Os homens o respeitavam e as mulheres lançavam-lhe olhares de luxuria e desejo, certamente ambiciosas para serem escolhidas como possiveis futuras duquesas. Mas apesar de estar no auge de seus quase trinta anos, o duque de Masen não parecia ter pretensões de escolher uma futura esposa tão cedo.

– Voc~e sabe que tenho outras prioridades no moemnto. E é no minimo indelicado que esteja colocando Lady Isabella em uma posição tão constrangedora quanto essa com suas ideias absurdas.

– Meu deus, eu não percebi que estava sendo tão indelicado – Jasper se curvou para mim como um pedido de desculpas, mas antes que eu pudesse responder ele voltou a falar – Devo ir conversar com minha mãe para que ela me eduque melhor e eu não cause futuros incidentes diplomaticos, Falando nela, ali esta! Se me derem licensa, irei agora mesmo iniciar minha lições para me corrigir

Antes que Edward ou eu pudessemos dizer ou fazer alguma coisa, Jasper já estava fora de alcance, nos deixando a sós com um silencio terrivelmente constrangedor.

Tentei pensar em algo para dizer mas não consegui, mas antes que eu conseguisse passar ainda amis vergonha Edward se virou para mim, me surpreendendo.

– Acredito que seu pai deve estar contente com a sua popularidade na corte, Lady Isabella. Seus planos devem estar indo conforme o esperado, acredito.

Um arrepio gelado passou pela minha espinha com esse comentário e meu coração começou a acelerar, incerta de como eu deveria interpretar e responder aquele comentário.

– O que exatamente o senhor quer dizer com planos, Lorde Masen? E, se me permite perguntar, como sabe da minha popularidade na corte se até então nós não haviamos nos encontrado pessoalmente a ponto de voce saber da minha presença aqui.

Sua voz era fria e com uma dose de sarcasmo ao responder

– Minha função como Cão de Guarda Real é saber de tudo o que acontece nesse castelo, lady isabella. Estou ciente de todos os que frequentam a corte, preciso estar para evitar quaisquer possiveis ameaças.

– Esta insinuando que eu seria uma delas, senhor? – minha voz tremia de raiva e indignação.

– É claro que não, perdoe-me – ele respirou fundo e tentou controlar a voz – De qualquer forma, o que eu quis dizer é que é inevitavel não estar ciente da senhorita. Jasper estava certo quando disse que a senhorita esta cada vez mais popular. Nao ha quem não tenha elogios a sua presença de espirito ou astucia.

– Uma mulher faz o que pode dentro dos nosso limites dentro do que é esperado na sociedade – respondi, tentando acalmar minhas emoções para não falar nada inapropriado – E quanto ao meu pai, ele pode estar contente com minha performance aqui mas no final das contas isso mão importa muito, ele é quem vai tomar as decisões sobre quem eu irie me casar ou não.

Isso jamais irá acontecer, é claro, mas Edward não tinha como saber do futuro que provavelmente iria se desdobrar em poucos meses caso meu plano tenha sucesso.

– Ah, o visconde sempre toma as decisões que ele considera boas para ele, tenho certeza disso. Assim como voce.

Pensei ter visto um lampejo de magoa em seus olhos, as com certeza deve ter sido impressão minha. Ele não poderia estar se referindo ao que aconteceu anos atras, poderia?

Não, não tem como. Não faz sentido ou diferença na vida de edward uma vez que ele nunca expos qualquer indignação sobre o rompimento do acordo entre nossas familias.

– Não tenho certeza sobre o que está falando, duque Masen, mas não vou ficar aqui ouvindo insinuações infundadas sobre a minha pessoa. Se seu trabalho é investigar as pessoas, por favor não me deixe impedi-lo. See me der licença, preciso me retirar aos meus aposentos, não estou me sentindo bem.

Quando finalmente cheguei em meu quarto, fechei a porta e pude respirar aliviada. Aqui era o único lugar em que eu conseguia se reu mesma, sem ter que fingir ou controlar cada passo e pensamneto. meus olhos percorreram o aposento.

Mesmo tendo sido aqui o ultimo lugar em que estive antes de morrer na minha vida passada, me sentia estranhamente confortavel – mais ate do que em minha propria casa.

Sim, eu ainda era uma intrusa, mas havia certa familiaridade e sentimento de pertencimento, talvez justamente por eu ter morrido aqui.

Meu olhar pousou na mesa de cabeceira ao lado da minha cama, onde a primeira gaveta era protegida por uma chave. Tirei a pequena chave dourada de dentro do bolso das minhas vestes e abri a gaveta, tirando de la a ultima carta que meu pai havia me mandado.

Eu ja havia relido o conteudo tantas venez a ponto de ja te-lo memorizado. Por faora, aprecia uma carta inocente d eum pai preocupado com a filha, expressando sua saudade e curiosidade para saber como estava sendo sua temporada na corte. Mas eu sabi que, nas entrelinhas, ele estava me dando um aviso silencioso para que não esquecesse qual o meu objetivo principal aqui e quais as consequencias de desviar dele.

Uma ameaça velada.

Com raiva, joguei tudo de volta na gaveta e tranquei-a, me cerrtificando de pendurar a chave na corrente e passa-la ao redor do meu pescoço. Eu não tinh amais energia para nada aquela noite, muito menos escrever de volta para ele não importa o quao impaciente ele estivesse ficando.

Eu minha ultimas carats foram vagas e sem muitas informações reveladoras, estava tentando ao maximo engana-lo sem que ele percebesse que eu ainda estava tentando uma forma de mudar o destino e impedir que seus objetivos fossem cconcluidos.

Me deitei para dormir, mas mesmo que eu estivesse cansada o sono não veio. Minha conversa com Edward horas atras continuava a repassar na minha mente, e eu estava irritada por não conseguir entender exatamente como eu estava me sentindo.

Tentei ao maximo evita-lo e estava conseguindo, então porque havia ficado chateada quandoe el agiu como se não nos conhecessemos quando jasper estava por perto? Alem disso, o fato dele mencionar que estava ciente de minha presença desde que cheguei me dava a estranha sensação de que ele estava desconfiado de mim… por qual outro motivo ele estaria interessado em saber quem eu estava considerando como possiveis partidos?

Edward Masen continuava sendo uma incognita para mim, tamb´m nessa segunda vida, e foi com esse pensamneto irritante de sentir que nem tudo estava son meu controle que eu adormeci aquela noite.



***

Sem que me desse conta, três meses já haviam se passado desde que eu chegara em Volterra e, para minha surpresa, estava começando a gostar da vida no castelo. Era libertador estar em um lugar onde eu não me sentia sufocada pela presença e ameaças constantes do meu pai e no qual eu podia tomar decisões por conta própria, sem medo de retaliação.

Mesmo já tendo experienciado a maioria das situações em minha primeira vida, agora eu estava começando a vivenciá-las sob uma nova perspectiva, o que era bastante satisfatório. Ainda que estivesse em vantagem por conta das minhas memórias e já soubesse de quem eu deveria me aproximar e quem eu deveria evitar, o fato de eu me expressar de maneira diferente da Isabella do passado trouxe mudanças sutis porém importantes.

Nessa nova realidade, por exemplo, as pessoas pareciam gostar genuinamente da minha presença, e quando perguntavam a minha opinião sobre determinado assunto ou me convidavam para participar de uma roda de conversa, elas realmente prestavam atenção no que eu tinha a dizer. É claro que ainda era necessário ter cautela para não desviar do meu objetivo principal, mas secretamente eu estava feliz.

Porém, havia também o lado negativo.

Por mais que me custasse admitir, Jasper parecia ter razão quanto ao assunto popularidade e pretendentes. Desde a nossa conversa no baile, percebi que eu parecia de fato estar atraindo a atenção dos homens. As outras damas de companhia fofocavam, animadas, que muitos cavalheiros estavam sondando sobre mim e minha família nos círculos sociais da corte; quando eu estava presente em alguma roda de conversa, alguns deles se juntavam ao grupo e tentavam interagir comigo de diversas formas. Nos eventos, os mais corajosos arriscavam me convidar para dançar – mesmo eu não tendo habilidade alguma para isso.

Toda essa situação estava começando a me deixar receosa porque, embora eu definitivamente não tivesse pretensões de me envolver com alguém, não poderia continuar demonstrando desinteresse nas investidas masculinas por muito tempo sem que as pessoas começassem a ficar desconfiadas. Eu tinha sido mandada à corte sob o pretexto de arrumar um bom casamento, afinal.

E, para piorar, ainda havia um problema maior: Edward.

Minha intenção desde o início foi evitá-lo o máximo possível, e depois do nosso encontro desastroso no baile, pensei que seria exatamente isso o que iria acontecer dali pra frente. Entretanto, de alguma forma eu acabava o encontrando praticamente todos os dias – se não estivesse certa de que tal fenômeno era impossível, eu poderia jurar que Edward era capaz de ler mentes, pois o mesmo tinha o dom de surgir nos lugares todas as vez em que eu estava pensando nele.

Também havia o fato de que, embora o duque nunca viesse conversar diretamente comigo, ele estava sempre por perto em ocasiões onde eu estava acompanhada. Mesmo se Edward estivesse dialogando com outras pessoas, sua postura parecia estar inclinada na minha direção – exatamente como quem tenta ouvir a conversa alheia – e a sensação de estar sendo vigiada me irritava profundamente.

Será que eu estou ficando paranoica?

Estava distraída pensando sobre o assunto quando, ao virar em um dos corredores, esbarrei em um corpo feminino pequeno.

– Sinto muito, senhorita! Eu não estava prestando atenção no caminho, a culpa foi toda minha! – tentei me desculpar enquanto torcia para não ter causado danos – Você está bem?

– Está tudo bem, Lady Isabella, não precisa ficar alarmada. Eu não me machuquei.

Uma onda de alívio tomou conta de mim e só então parei para analisar a jovem – que tinha um sorriso divertido no rosto – parada na minha frente. Ela era magra e bem mais baixa do que a maioria das outras mulheres; suas feições eram delicadas, os cabelos pretos e repicados combinavam perfeitamente com os astutos olhos verdes, que eram estranhamente familiares.

– Desculpe-me, mas já nos encontramos antes? – questionei ao perceber que a estranha havia me chamado pelo nome.

– Bom, nunca fomos apresentadas oficialmente, mas acredito que todos na corte conhecem a famosa filha do visconde Swan. Você é bem popular por aqui. – meus lábios crisparam de desgosto com o comentário – Me chamo Alice Masen.

O choque em meu rosto deve ter sido evidente, pois Alice abriu um sorriso ainda mais largo, como se aquela fosse exatamente a reação que ela estava esperando.

– Acredito que você já deve ter conhecido o meu irmão mais velho, o duque Edward Masen.

– Ah, claro, de fato tive o prazer de encontrá-lo algumas vezes. Seu irmão é um homem… adorável.

Definitivamente não fui capaz de disfarçar meu descontentamento muito bem, porque Alice soltou uma risada que soou como pequenos sinos tocando.

– Perdoe-me, às vezes acho que sou mais franca do que o necessário.

– Está tudo bem, Lady Isabella, não precisa ficar constrangida. E só para que fique registrado: quando se trata de Edward, às vezes eu tenho a mesma opinião que você.

Foi a minha vez de sorrir, o corpo inteiro relaxando com o seu comentário, como se tivéssemos acabado de compartilhar um segredo. Algo naquela mulher me deixava estranhamente confortável, quase como se eu estivesse na presença de uma verdadeira amiga.

– Nesse caso, acho que podemos abandonar as formalidades um pouco. – sugeri – Por favor, me chame apenas de Bella.

– É uma ótima ideia, Bella. – ela concordou, unindo nossas mãos e apertando as minhas de leve – Infelizmente eu preciso ir agora, meu noivo já deve estar cansado de esperar por mim, mas espero poder conversar com você em outras ocasiões.

– É claro. Foi um prazer conhecê-la, Alice.

Nos despedimos com uma pequena cortesia e observei enquanto ela se afastava, caminhando de forma tão elegante quanto uma bailarina, a aura ao seu redor quase misteriosa. Alice ainda era muito pequena na época em que eu frequentava a mansão da família Masen e talvez fosse esse o motivo pelo qual eu não tinha me lembrado dela.

Descobri depois que Alice não só estava noiva do príncipe Jasper como era também a conselheira oficial da rainha. Embora não tivesse participação direta nas decisões que diziam respeito ao reino, as opiniões dela eram sempre levadas em consideração pela família real. Apesar disso, mesmo sendo respeitada por conta de sua posição, sua presença não era vista com bons olhos de forma unânime dentro da corte.

Alice era extremamente inteligente; suas áreas de pesquisa incluíam medicina, história, alquimia, filosofia e astronomia. Ela tinha uma intuição tão aguçada que algumas pessoas acreditavam que a mesma poderia estar envolvida com magia e ocultismo – os mais conservadores chegaram a espalhar rumores de que ela tinha o dom de prever o futuro.

Eu não acreditava nessas bobagens mas comecei a me questionar se eles não poderiam ter razão depois que passei a conviver mais com Alice.

Algumas semanas depois, uma epidemia de sarampo atingiu a região e o castelo todo precisou ficar em isolamento. Muitas pessoas foram atingidas e a doença se espalhou rapidamente dentro da corte. Mesmo em quarentena, a maioria havia ficado doente e a quantidade de empregados que trabalhavam no castelo estava bastante reduzida.

Esse acontecimento era novo para mim, já que não tinha acontecido em minha primeira vida, então me propus a ajudar Alice a tratar os enfermos, uma vez que tinha certa familiaridade com plantas medicinais.

Nós estávamos na sala em uma das torres na ala oeste, onde Alice costumava trabalhar. Eu estava preparando uma pomada a base de arnica e camomila para aplicar sobre a pele das pessoas doentes quando reparei em uma pintura meio escondida por uma tapeçaria no fundo da sala.

Meu coração gelou ao reconhecer a imagem gravada na tela.

– Alice, que pintura é aquela? – perguntei enquanto apontava para o retrato.

Ela levantou a cabeça do banho de aveia que preparava e sorriu, misteriosa.

– É a figura de Moros, o deus grego do destino. Você conhece a história dele?

– Não exatamente, mas já ouvi falar sobre. – respondi, engolindo em seco.

Alice se aproximou do quadro, os olhos ficando sombrios de repente. Um arrepio passou pela minha espinha, mesmo a sala estando abafada.

– De acordo com a mitologia, Moros era o filho de Nix e Érebo. Sua entidade é associada ao destino e à condenação. Acreditava-se que Moros concedia a algumas pessoas a capacidade de prever a sua morte.

De repente, senti a minha respiração ficar mais pesada e meu corpo inteiro gelou, ficando tenso.

– Bella, está tudo bem? Você parece um pouco pálida.

– Estou bem, foi só um… mal estar, mas logo vai passar.

Nesse momento, a porta foi aberta e uma corrente de ar fresco entrou na sala, o que me ajudou a melhorar. Uma das empregadas que estava atuando como enfermeira entrou, sua expressão apavorada fazendo com que eu e Alice levantássemos imediatamente.

– O que houve, Maria?

– Desculpe interromper, senhora, mas nós temos uma… emergência em uma das alas do castelo.

– Por deus, mulher, fale de uma vez! – comandei, começando a ficar nervosa com a hesitação da mulher.

– É o seu irmão, lady Alice. O duque Masen está muito mal, acho que a doença o atingiu.

Meu coração gelou, mas Alice parecia surpreendentemente calma. Eu percebi, entretanto, que seu corpo todo havia ficado tenso.

– Obrigada, Maria, pode ir. Eu mesma irei lá cuidar dele.

Quando a mulher saiu, Alice se sentou de frente para a mesa e apoiou a cabeça nas mãos, e pela primeira vez eu a vi fragilizada.

– Alice, vai ficar tudo bem. A epidemia já está praticamente controlada graças aos seus esforços, e seu irmão é um homem forte. Ele vai melhorar logo.

– Eu sei, mas a situação não é tão simples assim. – ela suspirou – Quando Edward era adolescente, pegou uma doença misteriosa que quase o matou. Por semanas achávamos que ele não iria sobreviver.

– Sinto muito, eu não sabia disso. Mas ele se recuperou, não foi? Tenho certeza de que agora fará o mesmo.

– Espero que sim. Meu irmão é, de fato, um homem forte, mas a saúde dele ficou mais fragilizada depois disso então ele acaba sofrendo um pouco mais do que as outras pessoas. É claro que ele esconde isso, é teimoso e não gosta de demonstrar fraqueza, mas eu o conheço muito bem para saber quando está com dor.

Eu fiquei absolutamente surpresa ao conhecer esse novo lado de Edward, algo que eu jamais esperaria, e quando eu menos percebi as palavras já estavam escapando da minha boca antes que eu pudesse controlá-las.

– Não se preocupe, Alice, eu vou cuidar do seu irmão. Você vai ser mais útil aqui, tem muito mais experiência e pode continuar preparando os medicamentos. Eu fico com ele até ele melhorar.

Ela me agradeceu, o sorriso fraco nos lábios, e só então reparei no quão abatida ela estava depois de trabalhar semanas sem descansar direito. Alice talvez não gostasse de ouvir isso, mas ela era tão teimosa quanto o irmão e parecida com ele quando se tratava de esconder fraquezas.

Como o isolamento era uma das medidas mais eficazes para evitar que a doença se espalhasse, eu não poderia ficar circulando pelo castelo de um lado para o outro. Por isso, fui até meus aposentos e separei alguns pertences, o essencial que iria precisar para me mudar temporariamente para o quarto de Edward. Eu teria que ficar trancada com ele lá até que melhorasse e estava incerta sobre como me sentia com relação a isso.

Foco, Isabella, agora não é o momento para isso.

Quando cheguei no quarto e tranquei a porta atrás de mim, Edward estava deitado na cama. Ele parecia estar dormindo mas não tranquilamente, seu rosto estava suado e vermelho por conta da febre, e pelo que eu conseguia ver seus braços apresentavam manchas vermelhas intensas.

Me aproximei e coloquei a mão em sua testa – a temperatura estava mais alta do que deveria – e logo senti um aperto.

– O que você está fazendo aqui? – Edward perguntou enquanto segurava a minha mão, a voz mesmo fraca parecia muito irritada.

– Eu soube que você ficou doente e vim cuidar de você.

– Eu não quero você aqui, vá embora! – impressionante como mesmo acamado ele conseguia ser mandão e irritante – Onde está Alice?

– No momento ela está indisponível e você sabe como ela é uma das únicas que pode ajudar. Você não quer que ela fique sobrecarregada, não é?

– Eu posso me cuidar sozinho, não preciso da sua ajuda, agora pode ir antes que você também…

Edward teve um acesso de tosse forte que o impediu de continuar a falar. Peguei um copo de água e o ajudei a beber.

– Sinto lhe informar que essa decisão não cabe a você e quase todos estão isolados também, então você não tem muita opção a não ser me aturar por alguns dias. Agora poupe sua energia e vá descansar.

Pensei que ele ia continuar discutindo mas felizmente ele só me encarou, e vendo que eu não ia mudar de ideia suspirou e fechou os olhos, o cansaço aparentemente o dominando. Fiz algumas compressas de água e coloquei sob sua cabeça e ele pareceu relaxar o suficiente para conseguir dormir.

Observei que suas roupas estavam encharcadas de suor; seria melhor trocá-las em breve mas eu não sei se eu conseguiria despi-lo sozinha para fazer isso. Meu rosto ficou vermelho com o pensamento e me afastei, indo arrumar minhas coisas no quarto.

Nas duas primeiras noites Edward não conseguiu ter um sono tranquilo, a febre alta o deixava inquieto e ele se remexia na cama, às vezes delirando mas eu não conseguia entender o que dizia. Não sai do seu lado em nenhum momento, sempre colocando compressas frias na testa e o obrigando a beber água e chás para não desidratar.

Não percebi que tinha adormecido na cama ao lado dele até sentir uma mão mexendo em meus cabelos. Quando abri os olhos, me deparei com Edward me encarando, a expressão em seu rosto indecifrável.

– Bom dia, Bella Adormecida.

Me levantei rapidamente, o sangue subindo pelo pescoço até alcançar as bochechas.

– Desculpe, eu não percebi que tinha caído no sono.

– Só você mesma para pedir desculpas por dormir depois de passar dias cuidando de um pobre doente até a exaustão, mesmo que tudo isso tenha sido sua ideia e foi você que insistiu.

Franzi a testa, aborrecida, sem conseguir saber se aquilo era um elogio ou se ele estava apenas tentando se divertir às minhas custas.

– Como você está se sentindo?

– Eu estou bem melhor, acho que o pior já passou. E isso tudo é graças a você, Isabella. Sei que não fui muito agradecido no início, mas realmente aprecio o esforço que fez para me ajudar. Obrigado.

– Acho melhor você voltar a dormir, pelo visto ainda está delirando e não está em suas plenas faculdades mentais. – murmurei, constrangida.

– É isso que eu ganho em troca depois de ter lhe entregado toda a minha gratidão? – sua expressão parecia tão magoada que eu quase me arrependi de ter sido reativa, mas logo ele começou a sorrir e eu percebi que ele não estava falando sério só estava me provocando mesmo. – Mas acho que você tem razão, minha cabeça ainda está meio pesada. Só que com essas roupas encharcadas de suor não vou conseguir relaxar.

– Claro, vou pegar uma muda nova de roupas para você.

Fui até o baú no pé da cama e peguei algumas vestes limpas e as coloquei ao seu lado. Edward tentou se vestir sozinho mas aparentemente estava ainda muito fraco.

– Não consigo alcançar as amarras nas minhas costas. Será que você poderia…? – ele me pediu em voz baixa, o rosto vermelho virado para o outro lado sem ter coragem de me encarar.

Suspirei e me sentei na cama de frente para ele, que ergueu os braços enquanto eu o ajudava a despir sua camisa molhada de suor. Nos encaramos por um tempo e eu não pude evitar de reparar em como ele estava realmente bonito, mesmo depois de tantos anos. Seu cabelo tinha um tom acobreado incomum e o rosto parecia esculpido em mármore, como uma estátua de um deus grego. O nariz era reto e as maçãs do rosto delicadas, os lábios finos e os olhos, verdes como esmeraldas, ainda tinham um brilho febril enquanto estavam fixados nos meus.

Não tenho certeza de quanto tempo ficamos nos encarando, mas percebi que meu corpo parecia se inclinar na direção dele como se ele fosse um imã me atraindo para si. Edward, num gesto inconsciente, levantou a mão para tocar meu rosto mas antes que eu perdesse completamente o controle sobre mim mesma, cortei nosso contato visual, evitando olhar para seu peito nu e me afastei um pouco.

– Melhor se vestir logo, antes que o frio faça sua febre voltar – falei enquanto pegava a túnica que eu havia separado.

Edward não falou nada, apenas concordou com a cabeça e me deixou ajudá-lo a se vestir, depois deitou-se na cama novamente e virou para o outro lado, ficando de costas para mim.

Quando consegui acalmar as batidas do meu coração e percebi que ele já havia adormecido novamente, fui me lavar e trocar também de roupa, e depois voltei a me sentar ao lado de sua cama.

Mais dois dias se passaram e nossa rotina continuou desse jeito. Eu estava lendo um livro ao lado de sua cama quando Edward, que não percebi ter acordado, chamou minha atenção.

– Você ainda tem essa mesma mania, pelo visto – levantei a cabeça e percebi que ele havia acordado e me encarava, a cabeça apoiada nos travesseiros. Franzi o cenho, sem entender exatamente do que ele estava falando e então ele apontou para as minhas mãos – Você ainda roi as unhas quando está muito concentrada lendo um livro.

Ruborizada, tirei a minha mão da boca, constrangida pelo gesto inconsciente desse péssimo hábito. Eu tentava me policiar na maior parte do tempo, mas quando estava tão entretida na história de um livro era impossível evitar.

– E você ainda fica adoravelmente vermelha quando está envergonhada, exatamente como quando éramos crianças.

– Até onde eu lembro, você também ficava vermelho, só que de raiva toda vez que eu ganhava de você em alguma brincadeira.

– Você só ganhava porque eu deixava que isso acontecesse. Não poderia permitir que a minha amiga e futura esposa ficasse triste e chorasse.

Nos encaramos por um tempo, um misto de nostalgia, alegria e tristeza nos envolvendo. Por mais que eu evitasse lembrar dessa época, não tinha como negar que haviam sido as únicas lembranças felizes que eu tinha da minha vida.

Quando éramos crianças, Edward com nove anos e eu apenas com sete, nossas famílias nos apresentaram na esperança de que pudéssemos nos conhecer melhor enquanto planejavam uma possível união no futuro através de um casamento arranjado. Ele chegou a me visitar algumas vezes e eu também passei uma temporada hospedada na casa de sua família.

Meu pai sempre foi um homem ambicioso e ele pensava que poderia tirar um bom proveito dessa união, considerando o status da família de Edward. O duque e a duquesa eram muito próximos da família real e uma das famílias mais antigas e tradicionais do reino. Meu pai enxergou ali uma oportunidade perfeita de elevar seu status na corte.

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– Nós éramos crianças, Edward. Você nem sabia direito o que era isso, suas preocupações naquela idade eram brincar e me atormentar.

– Não. Eu sempre soube, desde a primeira vez que eu te vi, que nós estávamos destinados a fazer parte da vida um do outro.

Engoli em seco

– Você é um tolo. Nós não temos controle sobre essas coisas.

– Talvez, mas é o que eu penso.

Eu não queria acreditar que ele tinha razão, principalmente porque por experiência própria eu sabia que isso era impossível.

Eu não queria ter esperanças de que as coisas poderiam ter sido diferentes. Quando meu irmão mais velho Beaufort morreu em uma campanha de guerra a serviço do rei, Charlie virou outro homem. Ele não aceitava o que tinha acontecido e culpava o rei Carlisle pelo destino trágico do filho. Depois disso, ele rompeu o acordo com a família de Edward, sabendo que eles eram leais ao rei e jamais o apoiaram em sua sede de vingança.

Foi por isso que Edward e eu nos afastamos e, no final das contas, as coisas acabaram tomando um rumo trágico para mim.

***

Depois desse dia, a epidemia de sarampo foi controlada no castelo. Aos poucos, a rotina foi voltando ao normal e tudo estava como antes, exceto pela minha relação com Edward.

Apesar de não tocarmos mais no assunto do passado, nossa relação havia melhorado bastante e estávamos mais próximos, algo que eu não esperava. Quando nos encontrávamos em algum evento, ele sempre vinha até mim praticamente monopolizava minha atenção, não me deixando interagir com mais ninguém – até mesmo nas danças, onde ele sabia que eu tinha dois pés esquerdos, mas me conduzia com tanta confiança que consegui não me envergonhar na frente de todos.

Durante os tempos livres, saímos para caminhar ou simplesmente sentar a beira do lago ao lado do jardim, relembrando nossa infancia durante o curto tempo que passamso juntos ou nos atualizando do que havia acontecido na vida um do outro desde que perdemos contato.

O interesse aparente de Edward em mim fez também com que a quantidade de pretendentes à minha procura praticamente desaparecesse. Aparentemente, o duque nunca havia, em todos esses anos, demonstrado interesse romântico em ninguém e essa era a primeira vez, e ninguém queria ficar no caminho de um homem tão poderoso.

Eu não tinha certeza de como me sentir com relação a isso. Por um lado, eu não queria me desviar do meu objetivo principal que era tentar impedir Charlie de se vingar e, consequentemente, impedir minha morte, e ficar longe de Edward era fundamental para isso. Mas ao mesmo tempo, eu não podia negar que os meus sentimentos por ele estavam cada vez mais fortes. No fundo, eu sempre amei Edward desde que éramos crianças e esse sentimento ficava mais forte com a afeição que eu estava recebendo dele. Edward parecia corresponder aos meus sentimentos, mas eu não sei até que ponto isso seria bom para nós.

Se por um lado eu queria simplesmente abandonar tudo e me entregar a essa nova chance, por outro o medo de repetir os erros do passado e acabar arruinando não só a mim mas também a ele me atormentava.

Eu tinha acabado de visitar a clareira que ficava nos terrenos mais afastados da propriedade, um lugar que eu considerava secreto e havia descoberto logo depois que me mudei para Volterra. Era escondido o suficiente para eu poder ficar em paz, um mini refúgio onde eu podia colocar meus pensamentos em ordem sem ser perturbada.

Quando entrei no saguão principal, um criado veio até meu encontro com uma carta em mãos. Engoli seco ao reconhecer o brasão da família Swan e me apressei até meu quarto para poder ler o conteúdo sem que ninguém desconfiasse.

Isabella,

Mesmo depois de todos esses meses hospedada em Volterra, você não conseguiu me ser útil na única coisa que tinha que fazer. Suas informações eram sempre vagas e irrelevantes, e estou começando a desconfiar de que você nunca teve a intenção de me ajudar.

Você sabe que nunca fui paciente mas ao menos não dependo mais de você. Aliás, a partir de agora você não será mais um problema meu. Fiz um acordo com os Black, eles irão nos fornecer armas e recursos suficientes para contratar um exército de mercenários. E a única coisa que pediram em troca foi sua mão em casamento com Jacob Black, uma troca bem justa não acha? Foi até barato para mim.

Quando tudo isso acabar, você irá para a mansão deles e deixará de ser problema meu.

Só estou lhe contando isso para lembrá-la de que não importa o que você faça, nunca conseguirá escapar do seu destino.

Charles Swan

P.S.: Como vai o duque Masen, por sinal? Espero que ele seja bem cuidadoso, nunca se sabe o que pode acontecer amanhã.

Minhas mãos tremiam enquanto eu relia a carta. Charles havia enlouquecido de vez e eu falhara no meu plano. Eu não sabia o que exatamente ele ia fazer, mas sabia que ele era capaz de qualquer coisa para conseguir sua vingança, incluindo se associar a mercenários. E eu havia sido sua moeda de troca.

Mas a parte da carta que mais me causava pânico eram as notas finais. Por que mencionar Edward? Os rumores sobre nossa aproximação devem ter chegado aos seus ouvidos e agora ele estava ameaçando-o. Edward estava em perigo por minha causa e eu não poderia deixar isso acontecer.

Quando eu me dei conta, meu corpo já estava agindo por conta própria, saindo do quarto às pressas e indo determinada a encontrar Edward. Meu lado emocional estava ganhando a batalha contra meu lado racional, mas se isso significava impedir meu pai, eu estava disposta a fazer qualquer coisa.

– Lady Isabella, Emmett e eu estávamos justamente lhe procurando! Disseram que você tinha ido dar uma volta no jardim ou algo assim e… – Rosalie me perguntou mas sua voz foi morrendo à medida que percebia a minha aflição – Aconteceu alguma coisa? Você parece agitada.

Eu estava abalada demais para fingir que passara um dia tranquilo com a flora e a fauna, mas não queria alarmar mais ninguém desnecessariamente.

– Perdoe-me, alteza, mas poderia me dizer onde posso encontrar o duque Masen? Preciso de uma audiência com ele, é sobre um assunto importante.

Rosalie me olhou desconfiada mas, para o meu alívio, não fez mais perguntas e me mostrou onde Edward poderia estar naquele momento. Não demorou muito até que eu estivesse batendo na porta do seu quarto.

Edward estava sentado na escrivaninha e quando me viu, sua expressão era um misto de alegria e surpresa. Não esperei que ele me convidasse a sentar e já comecei a falar, apressada.

– Desculpe vir assim sem avisar e atrapalhar o que quer que estivesse fazendo, mas preciso falar com você agora. É um assunto muito importante.

A postura dele ficou tensa e sua testa franziu de preocupação, mas não me interrompeu em nenhum momento e ouviu atentamente enquanto eu contava absolutamente tudo para ele. O real motivo da minha vinda para Volterra, tudo o que tinha acontecido com Charlie e minha família desde que meu irmão morrera e a razão pela qual meu pai tinha terminado o acordo entre nossas famílias, planejando sua vingança desde aquele dia

A única coisa que deixei de fora foi o fato de que eu sabia o que iria acontecer caso não impedissemos Charlie, porque não tinha condições mentais e emocionais de explicar que eu tinha morrido e regressado no tempo.

Quando terminei, Edward permaneceu em silêncio por um tempo, o que me deixou bastante nervosa, até que ele finalmente se pronunciou.

– Lady Isabella, você tem certeza do que está falando? São acusações gravíssimas.

Acenei positivamente e, como sabia que só a minha palavra não seria suficiente, entreguei a ele todas as cartas que meu pai havia enviado para mim desde que cheguei. Com a comprovação da assinatura e brasão oficiais da família Swan nas cartas, não havia dúvidas de que tudo o que eu havia dito era verdade e aquelas eram provas mais do que suficientes.

Edward leu todas elas, uma por uma, até que exclamou, pura fúria em seus olhos.

– Isso é um absurdo! Isso aqui são provas concretas de uma tentativa de golpe, uma traição à coroa, digno de enforcamento!

Um calafrio percorreu minha espinha ao ouvir aquilo mas me mantive calma para não deixar transparecer.

– Eu sei e é por isso que precisamos agir rápido. Não sei exatamente o que meu pai pretende fazer, mas sei que não deve demorar muito até que ele consiga o que quer. Pelo bem do reino, os traidores merecem ser punidos. Todos.

Confusão passou por seu rosto por um momento, mas quando ele finalmente compreendeu o que eu quis dizer, seus olhos arregalaram de medo.

– Isabella, não!

Respirei fundo, ainda sem saber se aquela era a reação que eu esperava e como eu me sentia com relação aquilo.

– Com o meu depoimento e essas cartas como prova, podemos incriminar o visconde Swan e seus aliados.

– Mas se fizer isso, você vai ser acusada de traição também, com certeza será enforcada na menor das hipóteses.

– Estou preparada para isso. Eu pretendo falar com o rei Carlisle hoje mesmo, só vim lhe procurar antes porque achei que você deveria saber mas eu já estou de saída. Com licença.

– Você não vai a lugar nenhum! – Edward agarrou meu braço com força, me impedindo de chegar até a porta. – Você não pode fazer isso, eu…

– Edward, por favor – não consegui controlar mais a minha voz, que saiu num sussurro suplicante – Nós dois sabemos que é o certo e precisamos ser rápidos. Eu realmente sinto muito por ter escondido isso de você por todo esse tempo.

– Eu não vou deixar você se entregar assim! – ele gritou, a raiva tomando toda conta de seu corpo enquanto ele andava desesperado pela sala – Me dê um tempo para pensar no que fazer, eu posso…

– O que? – foi a minha vez de gritar – Você pode o que? Nós dois sabemos que a minha palavra não vale de nada diante de tantas provas, e nem você ou sua irmã conseguiram interceder por mim em uma acusação como essa! Estamos falando de traição, Edward!

– Será que você consegue deixar de ser tão teimosa pelo menos uma vez e me deixar pensar, porra? – os ânimos entre nós estavam tão exaltados que nenhum de nós conseguia mais manter a conversa em um nível civilizado.

– Eu não estou sendo teimosa, estou sendo racional e prática! – gritei de volta – Você deveria estar fazendo o mesmo! Você é o Cão de Guarda real, seu idiota, e sua lealdedade deveria estar com o rei acima de tudo! Se, inclusive, souberem que você não me denunciou imediatamente, vão acusá-lo de ser cúmplice também! Por que você está hesitando tanto? O que está te impedindo?

A resposta dele, entretanto, não veio em formato de palavras. Com um impulso raivoso, Edward segurou meu rosto com as duas mãos e me puxou para perto de si. Sua boca se movia contra a minha com urgência, como se ele tivesse lutado contra esse desejo há muito tempo e, agora que finalmente o tinha, não queria que acabasse.

Uma pequena parte da minha mente me dizia que aquele não era o momento apropriado para isso, mas outra muito maior – e a que venceu – se entregou ao beijo de maneira correspondendo, e quando ele partiu meus lábios para que sua língua pudesse explorar a minha, respondi na mesma urgência e ferocidade.

Quando Edward afastou nossas bocas e encostou sua testa na minha, era difícil dizer quem estava mais ofegante.

– Por favor, Bella – Edward sussurrou, os olhos suplicantes nos meus – Por favor, não tome nenhuma decisão por impulso. Desde o momento em que eu te vi, eu soube que você era a única pra mim. Não importa quanto tempo passe, eu sempre vou querer você, só você. Eu esperei muito tempo por esse momento, não me deixe perder você novamente. Por favor, me deixa te ajudar.

– Eu sinto muito, Edward. Se eu tivesse agido antes ou te contado a verdade logo no começo, talvez as coisas não tivessem chegado a esse ponto. Eu não sei o que fazer.

– Nós vamos resolver isso juntos, ok? – sua voz era determinada ao me encarar – Eu vou pensar em um plano, só peço que confie em mim e não faça nada sem que eu saiba.

Assenti em silêncio e Edward me abraçou forte, como se tivesse medo de que eu poderia desaparecer a qualquer momento caso saísse de perto. Apesar de ter concordado, eu não sabia se aquilo era o certo a se fazer. Mas, ao lembrar da ameaça de Charlie, de uma coisa eu estava certa: eu faria o que fosse preciso para que ele estivesse a salvo.


***

Mesmo insegura, fiz o que Edward me pediu e não compartilhei com ninguém os detalhes da traição do meu pai. Ao invés disso, tentei continuar minha rotina normalmente enquanto Edward se mantinha ocupado entre inúmeras reuniões e audiência com todos os emissários e conselheiros do rei.

Nós não nos vimos ou nos falamos por cerca de uma semana e como ninguém havia me prendido como cúmplice de Charlie ainda, suponho que Edward tenha conseguido pensar em uma solução.

No primeiro dia da semana seguinte, porém, uma comoção no castelo me fez perceber que as coisas não iam ficar em paz por tanto tempo.

Como em um timing muito ruim, notícias haviam chegado sobre uma revolta de camponeses em uma das propriedades sob a tutela de um conde, e a situação parecia mais grave do que o normal. Eu já estava tão paranoica e tensa com a situação com meu pai que desconfiava que ele pudesse ter algo a ver com isso, mas Edward me assegurou que não era o caso. Ele e os exércitos do rei, entretanto, precisariam ir pessoalmente até o local averiguar a situação para impedir que a revolta escalasse para algo maior: uma guerra.

Na noite anterior a sua partida, Edward me assegurou de que tudo iria ficar bem e que se essa situação toda fosse, de fato, obra de Charlie então eles teriam mais um motivo plausível para capturá-lo e prendê-lo, o que me ajudaria ainda mais a não sair como cúmplice.

Depois de trocarmos um último beijo e nos despedirmos, ele me fez prometer mais uma vez que eu não faria nada até que ele voltasse, e que mesmo com alguns poucos homens que ficariam para trás para defender o castelo, que eu tomasse cuidado.

Três semanas haviam se passado e eu estava começando a ficar mais tranquila, pois Edward parecia ter razão, quando todos os poucos membros da corte que haviam permanecido no castelo foram convocados para o saguão principal. Aparentemente, um barão de uma família pequena mas de influência considerável estava vindo fazer uma visita ao reino com o propósito de negociar assuntos de interesse político.

Jasper e Esme, únicos membros da família real que estavam presentes, se encontravam à frente da linha de pessoas reunidas para receber a comitiva recém chegada, que aos poucos começava a entrar no saguão.

– Majestade, que felicidade ser recebido por alguém tão iluminado como a senhora. É uma benção para a Casa Black tamanha honra – o homem se curvou para beijar a mão da rainha, mas meu rosto empalideceu imediatamente ao ver quem era de fato o convidado.

– Igualmente, barão Black. Convidados ilustres são sempre bem-vindos e faremos o possível para acomodá-los da melhor forma possível.

– Gratidão, Majestade. Se me permite, gostaria de apresentá-los ao meu filho e herdeiro, Jacob.

Jacob repetiu a cortesia do pai e seus olhos pousaram em mim antes de abrir um sorriso e voltar a atenção para a rainha.

– Peço perdão pelo nosso atraso, Majestades. Uma pequena intercorrência nos impediu de chegar antes. Gostaríamos de nos desculpar pessoalmente com o rei Carlisle, mas aparentemente o destino quis que nos desencontrássemos.

– Infelizmente meu pai precisou se ausentar no momento – foi a vez de Jasper falar – Mas nada mais do que alguns dias antes que ele retorne. Por enquanto, serei o seu anfitrião e representarei meu pai e a Casa Cullen com o maior respeito.

– É claro.

Depois de mais alguns cumprimentos e a solicitação para que os recém chegados deixassem suas armas com a guarda real em um gesto de mera formalidade, todos se retiraram para os seus aposentos com o intuito de se refrescar antes do jantar.

Quando, horas mais tarde, Alice bateu na porta do meu quarto e me pediu para descermos juntas, percebi que havia algo diferente em seu olhar. Ela fez pouco caso do meu comentário, alegando que era apenas impressão, mas eu tenho certeza de que sua postura estava muito mais tensa do que o apropriado. Percebi isso quando ela entrelaçou nossos braços e me guiou para as escadas.

E eu não estava errada.

O clima de tensão pairava no ar da sala de jantar quando entramos, e meu rosto ficou ainda mais pálido ao ver Charlie sentado na mesa ao centro, o sorriso triunfante no rosto enquanto erguia a taça de vinho em minha direção.

– Ah, finalmente, a nossa convidada mais ilustre chegou! – o sorriso no rosto era triunfante e amável enquanto ele se levantava para sinalizar a cadeira vazia à sua direita, mas os olhos tinham uma maldade completamente oposta – Minha amada filha, junte-se a nós nesta celebração!

Um misto de culpa tomou conta de mim e lágrimas traiçoeiras se acumularam em meus olhos. Olhei para Esme e Jasper sentados no lado esquerdo da mesa, onde Alice logo se juntou a eles, enquanto eu me encaminhava para me sentar ao lado de Jacob e Billy.

– Eu sinto muito – sussurrei para eles.

– Por que está se desculpando, Isabella? O que você poderia ter feito de errado, afinal? – meu pai bradou – Se tem alguém aqui que precisa se redimir, na verdade, são os Cullen!

– Como você conseguiu entrar aqui? – perguntei, sem conseguir conter a raiva na minha voz.

– Para falar a verdade, tão mais fácil do que eu tinha imaginado que eu até agora me pergunto porque não pensei nisso antes! – Charlie gargalhou, se vangloriando – Bastou alguns subornos e um pequeno princípio de revolta para afastar o rei e todos os seus homens do castelo! Depois disso, foi uma questão de tempo até meus homens, que estavam há dias escondidos vigiando a situação, cercarem o castelo e renderem os poucos que guardavam o portão principal e corredores.

Mais uma onda de pânico me invadiu ao perceber, somente naquele momento, que os guardas que estava, postados na porta da sala eram do exército pessoal de Charlie.

Estávamos cercados.

– Francamente, Jasper, eu esperava que seu pai fosse mais inteligente. Dessa forma até que minha vitória perde um pouco a graça.

– Por que está fazendo isso, visconde Swan? – Jasper perguntou, sua voz dura e rancorosa – Nós sempre tivemos boas relações entre nós.

– Simples, meu caro. Hoje eu estou diante de vocês não como o visconde, mas sim como Charlie. Apenas um pai buscando justiça pelo seu filho.

Como ninguém o interrompeu, ele usou a deixa para continuar.

– Há exatos treze anos, eu perdi o meu filho e único herdeiro. O meu Beaufort – a voz de Charlie carregava uma mágoa que o deixava ainda mais ameaçador – Veja bem, como você mesmo disse, nós sempre tivemos boas relações, e por lealdade à sua família, eu entreguei a vocês o meu bem mais precioso. Beaufort foi mandado à guerra para defender os interesses políticos de seu pai, mesmo tendo apenas 18 anos! Ele queria honrar o nome da família, imagine.

– Pai, por favor pare! – tentei interceder, mas fui calada com um tapa no rosto. O estalo ecoou na sala e fez Esme arfar de horror.

– Fique quieta, Isabella! Não ouse me desrespeitar mais ainda do que já fez!

Tentei me levantar da cadeira, a mão na minha bochecha que ardia, mas Jacob puxou meu braço, me obrigando a permanecer no lugar.

– Como eu ia dizendo, meu filho foi para a guerra cumprir suas obrigações com a promessa de que traria muitas honras e glórias para a família. Mas adivinhe o que recebemos meses depois? Uma simples carta, informando que meu filho havia morrido durante uma emboscada e que o rei havia decidido se render!

– Lorde Swan, o que aconteceu com o seu filho foi uma fatalidade – Esme protestou, a voz baixa porém autoritária como uma rainha – Mesmo com todas as perdas financeiras que o reino enfrentou por conta dessa guerra, sua família foi compensada pela perda.

– QUINHENTOS DUCADOS! – Charlie gritou, furioso, batendo o punho na mesa – Quinhentos ducados foi tudo o que eu recebi como compensação pela minha perda. É isso que sua família tentou me dizer, que a vida do meu filho, o meu Beau, vale míseros quinhentos ducados! Qual é o preço pela vida do seu filho, Esme? Hein, consegue me dizer? Você acha que quinhentos ducados vai trazer o meu filho de volta? Meu filho morreu lutando para defender os interesses da sua família e no fim, nem honrar a morte dele seu marido fez! Ao invés de vingar a morte dele, ele se rendeu, como um grande covarde!

– E o que você pretende fazer agora, visconde? – Alice perguntou, falando pela primeira vez desde que chegamos

Charlie respirou fundo algumas vezes e depois de se acalmar voltou a sorrir cinicamente.

– Bem, acho que nada mais justo do que fazer valer o ditado “olho por olho, dente por dente”, não é mesmo? Você me tirou um filho, então agora eu vou retribuir o favor.

– Não! – gritei enquanto Charles dava ordens e dois de seus homens agarravam Jasper pelo braço, arrastando-o pela sala enquanto ele se debatia, tentando se soltar – Pai, por favor, isso é loucura! Nada disso vai trazer o Beau de volta!

– Não importa. A alma de meu filho será vingada, e Carlisle vai sofrer da mesma forma que eu sofri. Apesar de que ele não está aqui agora, não vai valer de nada. Para mostrar como sou benevolente, vou esperar que ele volte e lhe dar ao menos a chance de se despedir de seu filho, já que nem isso eu pude fazer.

Com um comando, ele ordenou que Jasper, Alice e Esme fossem levados para seus aposentos e mantidos reféns até que o rei voltasse. A sós com os Black na sala, Charlie ordenou que um grande banquete fosse servido, onde por horas ficaram bebendo vinho e comemorando o sucesso do seu plano.

– Isabella, devemos aproveitar a oportunidade para celebrar o seu casamento com Jacob! – meu pai bradou depois de algumas horas, a voz já arrastada de embriaguez – Vamos, pegue as taças mais finas e o vinho mais caro dessa espelunca de castelo e venha nos servir, temos a noite toda para comemorar! Jacob, você vai buscar um criado que ainda esteja aqui e peça que traga a melhor garrafa!

Levantei e fui até a mesa onde as taças estavam dispostas, enchi cada uma com uma boa quantidade de vinho e discretamente despejei o líquido do frasco que eu tinha trazido secretamente comigo. Eu tinha preparado isso ainda sem saber que Charlie estaria aqui, mas se essa era a única oportunidade que eu teria então eu não poderia desperdiçar.

Torci para que Jacob não voltasse antes que o veneno fizesse efeito e sorri vitoriosa quando sangue começou a escorrer pela boca de Charlie e de Billy.

– Como pode? – Charlie engasgou enquanto tentava apertar sua garganta, o corpo de Billy já caido por cima da mesa.

– Veneno é uma arte, Charlie, e a essência da arte é a surpresa.

Nesse momento, houve uma comoção no corredor e segundos depois Edward entrou na sala, o rosto vermelho e um rastro de sangue no chão atrás de si e em sua espada. Ele correu até mim e me abraçou, sem se importar com o meu completo estado de choque.

– O que você… Como chegou aqui?

– Estava no meio do caminho quando recebi uma mensagem do que estava acontecendo aqui. Percebemos que se tratava de uma emboscada e voltei correndo para o castelo. Graças a deus cheguei a tempo, você está bem?

– Estou. Já acabou, vai ficar tudo bem agora.

Edward me beijou e eu correspondi. Teríamos tempo para mais explicações mais tarde, mas agora eu só queria aproveitar o momento até que a ficha caísse que eu tinha, de um jeito ou de outro, conseguido mudar meu destino.

A história é escrita pelos sobreviventes e eu, certamente, sou uma sobrevivente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.