A Caixa de Pandora
3 Ninguém enxerga
Notas iniciais
Pandora não avançou no mistério sobre a caixa, mas a levou para a escola na manhã seguinte. Sentia que deveria mantê-la por perto. O clima externo permanecia nublado e frio. Já o clima no carro de seu pai não era dos melhores.
Kevin é seu nome. Possui problemas com bebida, problemas com cigarro, tem vício em jogos. Já perdeu muito dinheiro e está atolado em dívidas, mas insiste em continuar nessa vida. Pandora aprendeu cedo que irritá-lo traria consequências, por isso não se comunica tanto com ele. Noite passada Kevin chegou tão tarde que Pandora não conseguiu contar a ele sobre as notas, porém ela sentia medo de sua reação. Ele é um homem instável.
Antes de Pandora sair, Kevin iniciou uma conversa.
—Eu percebi que o vaso de vidro sumiu e as flores mudaram de lugar.
—Sim, o suporte estava frágil — explicou. — O vidro quebrou, mas eu salvei as flores.
—Eu verifiquei o suporte, tava bem firme. Vamos conversar sobre isso depois.
—Você que vai conversar comigo ou será seu cinto? — retrucou enquanto saía do carro.
—Ei — disse ele antes que a jovem fechasse a porta. — Já te falei pra não me responder desse jeito!
—Desculpa — proferiu ao fechar a porta.
Caminhando pelo pátio e entrando no imenso colégio, aquela felicidade que tivera um dia atrás parecia ter sido há muitos anos. Talvez deveria ter aproveitado melhor o tempo em que esteve feliz.
Entrou no banheiro para lavar o rosto e as mãos, olhar o cabelo, arrumá-lo caso precisasse. Tirou a caixa da mochila e olhou para o espelho. Para seu espanto, só enxergava si própria segurando um vazio entre as mãos, como se a caixa não existisse. “Mas estou vendo ela, estou tocando, estou…”.
A porta do banheiro foi aberta e três meninas entraram. Pandora escondeu a caixa nas costas assim que reconheceu as três garotas que lhe fazem bullying.
—Ora, ora. Olhem quem está aqui — disse Juliete, a líder do trio, mostrando seu desprezo por encontrá-la no banheiro. — Isadora, a menina que vai na minha festa na minha casa com meu irmão no sábado de meu aniversário. Ele tem um péssimo gosto pra namoradas.
—Me deixe em paz, Juliete.
—Me deixe em paz, Juliete — imitou uma voz infantil. As outras duas riram. — Ele me pediu para faltar ontem e quando soube que te convidou, eu entendi o motivo. Não queria que a nova namoradinha soubesse quem era a irmã dele.
—Eu já sabia e aceitei.
—Você me surpreendeu, Isadora. Pensei que não gostasse de homens. — Juliete percebeu as mãos de Pandora nas costas, como se escondesse algo. — O que tem aí? Drogas?
Pandora não sabia como reagir, mas quis fazer um teste e mostrou a caixa para o trio. E se elas não puderem enxergar a caixa? As expressões confusas em seus rostos respondiam sua tese.
—Não tá segurando nada? Que pena. Se fosse drogas, poderia pensar em ser sua amiga. — As duas seguidoras riram novamente.
—Ninguém enxerga — sussurrou, lembrando-se do homem que se chamou de ‘Ninguém’.
—Ninguém enxerga o quê?
Pandora não respondeu, guardou a caixa na mochila e andou apressada até a saída do banheiro, mas Juliete a bloqueou com o corpo.
—Não terminamos ainda, Isadora. — provocou. — O que tem na sua mochila?
—Uma caixa misteriosa que contém vozes irritantes — revelou com o máximo de seriedade, mas apenas arrancou gargalhadas das meninas.
Saiu enquanto elas rolavam de rir, andava apressada para a sala de aula. Finalmente se livrou delas, mas essa caixa escondia mais segredos do que imaginava. Precisa reencontrar o ‘Ninguém’, pedir explicações. Exigir explicações.
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