A Caixa de Pandora
10 Do final vem um novo começo
Notas iniciais
Pandora estava no parque de diversões tentando reatar a amizade com Ingrid. A festa deveria ter ajudado, mas participar foi a pior decisão tomada pela jovem negra naquela semana. Ambas comiam algodão doce, Pandora comia um azul e Ingrid, um rosa. Elas conversaram pouco, mas a festa logo virou o tema.
—Como foi o resto da festa? — questionou Pandora.
—Depois que saiu, eu me senti culpada e não fiquei tanto tempo assim. Aonde você foi?
—É complicado, você não acreditaria — falou, mas se arrependeu. — Desculpa, eu deveria...
—Não precisa me contar se for tão surreal assim.
—Eu preciso contar, mas não sei se você acreditaria.
—Pode tentar.
—Certo. Eu encontrei uma caixa meio mística com vozes dentro. E tinha um cara chamado Ninguém que era bizarro. Ele invadiu meu quarto, implantou visões e ficava de olho em mim.
—É, tem razão. É inacreditável! — Ingrid interrompeu, rindo. Pandora também riu.
—É sério — insistiu, ainda rindo. — Eu fui em um beco ontem depois da festa, ele me fez escolher entre ter uma vida ou me juntar à Ordem que protege a tal Caixa de Alexandria.
—E o que escolheu?
—Ter uma vida.
—Você deveria escrever uma história assim. Chamá-la de “A Caixa de Pandora” e ser famosa.
—Vou pensar nisso.
Ambas riem da sugestão. Continuaram caminhando até um vendedor de balões. Pandora até pensou em comprar, mas para quê precisaria de um balão? Seguiram até a bancada de um jogo de arremessar bolas em copos empilhados.
—Querem testar a mira, meninas? — perguntou o vendedor.
—Eu quero — disse Ingrid, pagando.
Recebeu a bola, mirou e arremessou, acertando dois copos de cima. Na segunda tentativa, derrubou os copos restantes. Pandora aplaudiu e parabenizou.
—Tenta, Pan.
—Eu passo — respondeu.
Depois de mais uma caminhada, ambas chegaram a um “jogo de marretada”. Desta vez Pandora arriscou, mas mal conseguiu erguer a marreta de tão pesada que era. Depois de bater a marreta e ver a bolinha parando antes da metade do caminho, Pandora lamentou o fracasso. Ingrid consolou a amiga com um abraço.
Depois de mais um tempo passeando, elas deitaram na montanha de grama perto da roda gigante e aproveitaram o final da tarde.
—Desculpa — pediu Ingrid, quebrando o silêncio entre as duas. — Eu deveria ter ido com você ontem, aí acreditaria naquela história surreal.
—Talvez não. Ninguém via a Caixa além de mim e, bom, Ninguém.
—Isso ficou confuso.
—Eu sei. Desculpa pela briga na semana passada.
—Deixa pra lá, aquilo foi bobagem mesmo.
—Então… Estamos bem?
—Sim. Sempre, Pan. — Ingrid segurou a mão da amiga. — Leo perguntou por você, ele me mandou mensagem. Deveria conversar com ele.
—Conversarei. Juro.
…
Quando voltou para casa, Pandora encontrou seu pai caído no chão da sala. Cervejas derramadas, cigarro aceso na mão e o ronco alto. Ela o ajudou a se levantar. Escolhas, ela não se esqueceu disso. Quer melhorar a relação com seu pai, fazê-lo feliz.
—Quê? — resmungou ele, sonolento e tonto. — Quem?
—Sou eu. Vou te levar para a cama. Hora de dormir — Disse amorosamente.
—Voxê nun me léva ao quarto — falou, quase incompreensível.
—Eu sei, quero mudar isso.
Repousou ele na cama e o cobriu com o lençol. Desligou a luz e fechou a porta. Pandora ficou na cozinha, pegou o celular e digitou uma mensagem para Leo. “Escolhi ter um namorado”, pensou, lembrando-se da decisão.
“Ei, Pandora aqui. Desculpa ter saído cedo, não tava bem. Quer conversar um pouco?”.
Com o coração acelerado, hesitou antes de enviar. E se ele ignorar por estar chateado? Ou se responder? “Calma, é a timidez, o nervosismo”.
Ouviu um barulho vindo do quarto. Assustada, encontrou um papel amassado. “Obrigado e boa vida”, era o que estava escrito.
—De nada, Ninguém — sussurrou, sorrindo.
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