A Cada Um e a Todos
6 Capítulo 6 - Catherine Willows
Notas iniciais
Grissom estava em seu escritório concentrado nos papéis do caso de Lady Heather. Não entendia como sua amiga tinha sido atacada, sendo tão forte. Suas suspeitas de que ela estava com problemas emocionais bem mais profundos estavam quase confirmadas quando Catherine entrou sem bater.
—-Gil, precisamos conversar!
Ele a olhou por cima dos óculos e ela prosseguiu:
—-Eu ainda não engoli essa sua hipocrisia toda, Grissom. Ecklie me parou agora por mais de meia hora me interrogando sobre seu caso com Lady Heather.
O entomologista bufou e deixou os papéis sobre a mesa, finalmente encarando a loira a sua frente. Com um suspiro, respondeu:
—-Heather é uma amiga e está precisando de ajuda.
—-Então você tem que dizer isso à eles! --Catherine disse brava, apontando para o corredor do laboratório. --Não param de fazer perguntas! Primeiro Sara, agora o Ecklie…
Grissom arqueou uma sobrancelha.
—-O que você disse a eles?
—-Fique tranquilo, eu disse ao Ecklie que você tem apenas ligação profissional com a Heather.
—-E à Sara?
—-A verdade. --Ela disse petulante. --Que ela te vence no seu jogo de xadrez mental..
Foi então que Grissom entendeu a origem da raiva de sua namorada, o motivo dela ter voltado para o próprio apartamento e estar evitando ele. O entomologista olhou a perita com tanta raiva, que ela recuou.
—-Você não tem o direito de ficar nervoso comigo, Grissom!
Ele retirou os óculos e massageou a têmpora, sem dizer nada. A mulher a sua frente estranhou.
—-Sara estava curiosa, não vai espalhar isso para os meninos.
—-Por favor, Catherine, pare de falar da minha vida pelos corredores desse laboratório. --Ele disse seco. --Minha vida não é uma novela mexicana para você ficar fazendo seus comentários.
A perita o olhava sem jeito, percebendo que havia deixado seu amigo com muita raiva.
—-Sinto muito, Gil. --Disse por fim.
Ele voltou seu olhar para os papéis do caso e nada disse. Catherine saiu da sala um tanto constrangida.
xx
Mais tarde, naquele mesmo dia, Grissom convencera Sara a ir até seu apartamento para poderem conversar. Ele estava nervoso aguardando a morena, quando a campainha tocou. O entomologista estranhou ela não entrar direto, mas imaginou que estava nervosa com ele. Com um embrulho no estômago, abriu a porta.
—-Oi, querida.
—-Querida? --Catherine riu.
Grissom a olhou sem entender.
—-O que está fazendo aqui?
—-Posso entrar? --Entrou sem esperar uma resposta.
Grissom fechou a porta atrás de si e a encarou.
—-Eu não fui muito legal com você. Trouxe um vinho para bebermos e um pedido de desculpas.
Ela sorriu lhe estendendo a garrafa e seguindo para a sala. Ele aceitou e a seguiu. Olhando-a, disse constrangido:
—-Catherine, você não precisava. Estamos bem, mas essa não é uma boa ho…
Grissom foi interrompido pela porta se abrindo. Ele fechou os olhos, na expectativa de não ver seu segredo sendo descoberto.
—-Gilbert? --Sara chamou. --Onde você está?
Catherine levou as mãos à boca num ato de extrema surpresa. Grissom a encarou desconcertado e disse:
—-Estou na sala.
A loira não sabia se encarava seu colega com surpresa ou se ria do desconforto dele.
Então estava tudo explicado! Por isso ele ficou tão bravo com ela! Isso explicava as folgas de Grissom, sua barba bem feita e os quilos a menos. Como não tinha percebido antes? Já havia notado a tensão entre os dois e até o incentivou a enviar flores à Sara uma vez, mas sempre pensou que Grissom não seria capaz de se envolver com alguém do laboratório.
—-Oi, Gil. Estou…
Sara parou de falar e estacou quando viu a loira sentada na sala.
—-Oi Catherine! Veio pegar a papelada do caso, também? --improvisou. --Obrigada por separar pra mim, Grissom. Hoje o dia foi muito corrido no laboratório e eu acabei me esquecendo…
Catherine começou a rir descaradamente do desconforto dos dois.
—-Eu não acredito nisso!
Sara se fez de desentendida:
—-Catherine, você não está muito bem. --Virou-se para o namorado. --Se você me entregar logo, poderei deixar os dois sozinhos…
Grissom se rendeu e disse:
—-Ela já percebeu, querida.
A morena olhou desconcertada para os dois, sem saber o que dizer.
—-Bom, isso explica muita coisa! --Catherine disse apontando para os dois. --Não acredito que eu sou co-supervisora de uma equipe de peritos e não desconfiei disso antes…
Sara e Grissom se entreolharam.
—-Gil, pegue três taças, pois agora esse vinho é pra comemorar.
O entomologista arqueou uma sobrancelha, mas obedeceu sua amiga. Sara se acomodou no sofá defronte à Catherine, ainda sem jeito para encará-la. Recebeu uma taça de seu namorado e permaneceu em silêncio.
—-Você sabe que isso é sigiloso, não sabe? --Grissom disse à loira.
—-Por mais que eu tenha falado demais no último turno, e agora eu peço desculpas à você Sara, jamais atrapalharia o relacionamento de vocês dois. --Ela sorveu um gole do vinho. --Mas eu adoraria ver a cara deles quando souberem disso!
Grissom e Sara se entreolharam.
—-Não sei se eles vão saber um dia. --Ele disse desconfortável. --Nós não…
Mas Sara o calou apertando sua mão. Catherine observou o gesto curiosa.
—-Nós ainda não estamos prontos para que todos saibam. --Sara disse. --Vamos precisar mudar de turno, tem o Ecklie e todas as perguntas e imaginação das pessoas…
A loira assentiu.
—-Eu não vou dizer nada. --Ela reforçou. --E não acho que você esteja com o Gil por ele ser seu chefe. Eu conheço vocês dois. Pra vocês se arriscarem assim, sei que se amam muito.
Os dois se entreolharam e sorriram.
—-Fui muito indelicada falando aquelas coisas sobre a Lady Heather. --Grissom se mexeu desconfortável. --Gil sempre me disse que ela é uma amiga. Mas na minha cabeça ele era um solteirão disfarçando. Não fique brava com ele.
Grissom apertou a mão de Sara com mais força e ela se aproximou dele.
—-Gil, vou ao banheiro. --Catherine disse se levantando.
A loira havia percebido o clima tenso entre os dois e resolveu deixá-los a sós por algum tempo. Seguiu pelo corredor e desapareceu das vistas do casal.
—-Honey… --Grissom começou incerto.
Sara o olhou profundamente. Queria ouvi-lo se desculpar, mas conhecia o entomologista há tempo suficiente para saber que o que sairia de sua boca seriam poucas palavras. Ainda assim, esperou ele falar, sustentando seu olhar.
—-Heather é minha amiga. Ela não tem ninguém. --Ele desviou o olhar. --Nós… nós já nos envolvemos…
Sara sentiu um soco no estômago, mas continuou olhando-o firmemente.
—-Ela passou pela minha vida muitos anos antes de nós dois começarmos a namorar. Não deu certo romanticamente, mas nós continuamos com a amizade. --Finalmente ele voltou a encará-la. --Nós nos respeitamos. Ela sabe que meu coração não pertence à ela.
Sara arqueou uma sobrancelha. Sabia que Grissom já se relacionara com outras mulheres, e nem havia motivos para pensar o contrário. Mas ouvir uma confirmação ainda lhe causava ciúmes.
—-Ela é bonita. É intensa. --Sara disse baixo.
—-Sim, querida. E é uma amiga, assim como Greg é para você.
Sara se deu por vencida e ele percebeu. Grissom se aproximou e segurou seu rosto com as duas mãos, esquecendo-se momentaneamente de Catherine.
—-Eu amo você, querida.
Ela sorriu e uniu seus lábios aos dele. Os dois se beijaram ternamente e nem perceberam Catherine os observando em silêncio.
—-Hm, hm. --A loira pigarreou depois de um tempo. --Eu vou para casa. Acho que vocês dois têm uma reconciliação pela frente.
Seu sorriso malicioso não passou despercebido por Sara, que respondeu com ar desafiador:
—-Tenho que vencê-lo num certo jogo de xadrez…
Grissom corou enquanto as duas riam.
—-Venha jantar conosco amanhã a noite, Cath. É nossa folga. --Gil a convidou. --Vou chamar Jim também.
—-Jim já sabe? --Ela perguntou entre desapontada e brava.
Sara riu gostosamente e Catherine observou o olhar do amigo para a namorada. Era amor.
—-Só venha, Catherine. --Grissom disse sorrindo. --Estaremos te esperando às sete.
A loira sorriu em agradecimento e se foi.
xx
No dia seguinte, Sara ajudava Grissom com o jantar na cozinha, enquanto Jim Brass os observava tomando uma dose de whisky. O amigo já sabia dos dois desde que levou um tiro, há quase um ano. Desde então, passara a participar da vida dos dois, levando um pouco mais de socialização para aquele relacionamento às vezes tão complicado.
Grissom mexia uma panela fumegante, enquanto Sara picava alguns legumes para uma salada, quando a campainha tocou. Brass se levantou e foi receber Catherine na porta.
A loira estava bem vestida e trazia um vinho branco nas mãos. Sorriu ao ver o capitão do lado de dentro.
—-Enquanto eu vinha, ainda achava que estava ficando louca. --Disse à guisa de boa noite.
Brass sorriu e respondeu.
—-Eu te entendo, pode ter certeza. Mas você precisa ver o chamego desses dois… --Acrescentou baixinho.
Os dois seguiram para a cozinha. Brass puxou uma cadeira para que Catherine se acomodasse ao seu lado na bancada.
—-Boa noite, Catherine. --Grissom cumprimentou sorrindo.
—-Oi, Cath. --Sara sorriu igual ao namorado. --O que quer beber?
A loira não se lembrava da última vez em que vira o amigo sorrindo daquele modo. “A noite deve ter sido ótima!”, pensou.
—-Vou acompanhar vocês.
O capitão a serviu de whisky e eles se acomodaram.
—-Estamos preparando berinjelas recheadas e salada de legumes. --Grissom contou orgulhoso.
—-Agora é vegetariano? --A loira perguntou rindo.
—-Aparentemente, dividir sua vida com alguém faz com que você adquira alguns hábitos. --Respondeu simplesmente.
Sara sorriu de lado.
—-Eu disse que ele poderia fazer carne para vocês.
—-Está ótimo assim, Sara. --Jim tomou a palavra. --Tenho certeza que nossa querida amiga Catherine está interessada em outra coisa.
—-Mas é claro que estou. --Catherine deu de ombros. --Grissom está cozinhando para nós ao lado da namorada, que é ninguém menos do que Sara Sidle. Não sei qual dos dois mais me surpreende.
Eles riram.
—-Vocês vão me contar como tudo isso aconteceu?
Sara bebeu um longo gole de sua cerveja antes de responder:
—-Gil me chamou para jantar. Eu aceitei. --Resumiu.
—-Há quanto tempo têm um relacionamento?
Foi a vez de Grissom responder:
—-Sempre tivemos um relacionamento. --Sara e ele se entreolharam. --Desde São Francisco.
—-Digamos que ele me trouxe para Vegas para me manter por perto. --A morena acrescentou. --Só demorou para deixar isso claro.
Grissom a olhou levemente ofendido.
—-Você sabe que é complicado, honey.
—-”Honey”. --Catherine repetiu sorrindo. --Pensei que nunca ia levantar os olhos do microscópio, Gil.
Os demais riram, mas Grissom disse:
—-O sequestro de Nick me fez perceber como a vida pode mudar em questão de segundos. Sara é mais importante do que Ecklie ou o laboratório.
O sorriso que Sara abriu foi tão sincero, que Grissom não resistiu em lhe fazer um carinho no rosto.
—-Quando vão contar aos outros?
Os dois se entreolharam.
—-Greg já sabe, também. --Sara disse. --Nos pegou quando Gil voltou do período sabático dele.
—-Aquele menino! --Catherine franziu o cenho.
—-Sofia também. --Grissom disse incomodado. --Não disse claramente, mas as vezes não é preciso falar.
Catherine não acreditava.
—-Achei que fosse sua melhor amiga, Grissom!
—-Eu precisei quase morrer para saber, Cath. --Jim interviu. --Mas olhe o jeito desses dois… Não consigo imaginar Ecklie sabendo e estragando isso!
Os quatro se sentaram para jantar e o assunto mudou para o Assassino das Miniaturas. Mais tarde, já acomodados no sofá e bebendo o vinho que Catherine trouxera, conversavam amenindades.
—-Lindsay está terrível! --Catherine dizia. --Uma típica adolescente. Não sabe o que quer, não tem mais respeito por ninguém…
—-Adolescência é a pior fase. --Grissom disse baixo. --Mas logo vai passar. Você tem feito um bom trabalho...
Sara se acomodou em Grissom, já com sono por toda a bebida que havia ingerido. Ele acariciou levemente seus cabelos e ela logo pegou no sono.
—-Estou muito feliz por você Gil. --Catherine sorria. --Nunca vi os dois tão bem.
Ele sorriu satisfeito.
—-Vocês se envolveram antes de Vegas? --Brass perguntou.
O entomologista apenas assentiu com a cabeça.
—-Ela me encantou desde o primeiro dia que a vi. --Talvez fosse a bebida falando, talvez fosse somente a felicidade de ter seus amigos ali. --Ela era muito curiosa. Usava rabo de cavalo… Não podia deixá-la em São Francisco. Ela já fazia parte de mim.
Jim e Catherine sorriram radiantes. Vendo o entomologista concentrado no carinho em Sara, resolveram ir embora. Despedindo-se baixinho, deixaram o casal acomodado no sofá, curtindo um daqueles momentos únicos e deliciosos que só acontecem quando estamos com quem realmente amamos.
Fale com o autor