A Caçadora E O Vampiro
2 Como tudo começou
Notas iniciais
De: dean.hilberg@hotmail.com
Para: camille_stewart@hotmail.com
Assunto: Missão
Tenho uma nova missão para você. Já está tudo providenciado. Seu avião sai amanhã às 9:00 hrs. A passagem está em anexo, não se preocupe. O número do seu voo é T789K20, portão 3, voo doméstico, já fiz seu check in, leve sua bagagem com você no avião.
Quando chegar no local, pegue um táxi e vá para o endereço abaixo. Receberá mais informações lá.
Rua dos Almirantes, nº 45.
Dean
Reli o e-mail mais duas vezes. Uma nova missão. Já se passara seis meses desde a última vez que fui convocada para uma missão, estava começando a achar que Dean havia desistido de meus serviços e, no fundo, por mais que não quisesse admitir, estava começando a me aborrecer com isso. Minha vida sempre foi agitada, nunca tive a chance de ter uma vida normal desde que terminei o colegial e perdi meu pai, meu único parente ainda vivo e a única pessoa que realmente me entendia.
Quando eu tinha cinco anos, minha mãe morreu em um acidente de carro na estrada 207. Estava chovendo, um caminhão bateu no carro que ela dirigia e ela perdeu o controle, o carro desceu morro abaixo. Levaram-na para o hospital local, lembro-me de ir vê-la todos os dias, mas os ferimentos foram muito graves e ela não resistiu. Meu pai ficou totalmente desolado, durante semanas ele ficou trancado no quarto, saindo apenas para comer. Foi uma época muito triste na minha vida, o ocorrido marcou meu pai e a mim de uma forma muito intensa, o que nos aproximou muito. Desde então ele era meu porto seguro, meu defensor. Desde pequena me sentia deslocada, como se não pertencesse a lugar algum, mas papai sempre esteve lá, me apoiando, me ajudando a ir em frente. Graças a ele não perdi a coragem de estudar e ter um futuro promissor, mas tudo mudou um ano depois da minha formatura do ensino médio.
Era uma noite fria. O vento estava forte e podia-se ouvir trovões ao longe. Na época eu ainda morava em Nova York, em um bairro pobre do Brooklyn. Papai e eu morávamos em um prédio de quatro andares que ficava perto da principal ponte da cidade. Toda noite o barulho do tráfego invadia o pequeno apartamento pobremente decorado.
Meu pai tinha saído para berber com alguns amigos do trabalho em um bar perto de casa, mas já fazia muito tempo que ele havia saído e estava ficando preocupada, papai nunca foi muito forte para bebidas. Vesti um moletom e desci as escadas até o hall rapidamente. Tropecei no último degrau como de costume, meu senso de equilíbrio sempre foi péssimo, e saí pelas portas de vidro para a noite fria de outono.
Não estava preparada para tanto frio, me abracei tentando controlar meu corpo que estava tremendo com as várias rajadas de vento que me atingiam, mas não estava tendo muito sucesso. Continuei andando. O céu estava encoberto e as luzes do postes ou estavam fracas ou queimadas, algo muito normal naquele bairro. O bar ficava a apenas sessenta metros do apartamento. Percorri essa distância rapidamente ajudando meu corpo a se esquentar.
O bar era um lugar pequeno e mal iluminado. Fui até o balcão empoeirado e um homem vestindo um avental preto veio anotar meu pedido.
“O que vai querer, querida?” perguntou, tirando um bloco de papel e uma caneta do bolso do avental.
“Eu só queria saber se o senhor viu meu pai. Harold Stewart?” falei, observando-o enquanto pegava um copo sujo que estava largado em cima do balcão perto de mim. Com certeza ele saberia de quem estava falando, meu pai era um cliente muito assíduo, ia lá todas as noites para uma cerveja rápida, principalmente quando tinha jogo do Chigaco Bulls – nós dois nascemos em Chicago, mas nos mudamos quando eu ainda tinha dois anos.
“Ele saiu faz algum tempo com três caras gordos e um jovem, ele devia ter uns vinte anos. Achei estranho ele estar andando com quatro velhos.” falou se referindo ao jovem, sem se dar ao trabalho de me olhar a partir do momento que percebeu que não iria conseguir algum dinheiro comigo. Virou-se de costas e colocou o copo dentro de uma pia abarrotada de louças.
“Faz muito tempo que ele saiu?” perguntei, começando a me irritar com a falta de interesse do barman.
“Acho que faz meia hora que ele saiu”.
“Você sabe em que direção eles foram?” perguntei rudemente.
“Eles foram em direção a avenida”
“Obrigada”.
Saí do bar apressada. Precisava encontrar meu pai o quanto antes, estava com um mal pressentimento quanto aquela noite. Um gato pulou em cima de uma lata de lixo fazendo um barulho alto, me assustando. Meu coração estava acelerado, parei por alguns segundos para me acalmar e continuei indo em frente.
A rua era estreita e cercada por muros altos e era os fundos de vários bares e restaurantes, estava cheia de latas de lixo transbordando de comida e o asfalto já estava gasto e cheio de buracos, não era um lugar com qual a prefeitura se preocupava. Andei por mais alguns metros e avistei um homem.
Não consegui dizer quantos anos ele tinha porque a luz que vinha do poste era muito fraca e seu rosto estava oculto por um capuz. Ele estava agachado perto de uma lixeira. Em seus braços estava um corpo masculino de cabelos curtos e ralos trajando jeans e jaqueta de couro. Reconheci rapidamente a jaqueta que havia dado para meu pai de aniversário há três meses atrás com o símbolo dos Bulls costurado na manga na altura do ombro. Do seu lado direito estavam mais três corpos deitados em ângulos estranhos, eles não se mexiam. O homem se levantou e começou a caminhar em minha direção.
Comecei a dar alguns passos para trás, sem tirar meus olhos dele. Sua jaqueta estava aberta e sua camisa branca estava manchada de vermelho, assim como sua boca, seus olhos me encaravam famintos. Queria correr, mas algo dentro de mim estava me impedindo, sabia que se corresse ele me pegaria facilmente, provavelmente eu tropeçaria em algo que me retardaria, me tornando um alvo fácil.
Continuei dando passos para trás, mas ele estava chegando cada vez mais perto, não conseguia encontrar minha voz para gritar, sentia minha garganta seca e meu coração estava acelerado de uma forma que nunca havia estado antes. Tropecei em uma lata de lixo e cai sentada no chão. Tentei desesperadamente me arrastar para longe dele, mas ele já estava parado na minha frente. Congelei, minha respiração ficou suspensa por alguns segundos.
Ouvi o barulho de algo pequeno passando por mim em alta velocidade e o rosto do homem se enrijeceu enquanto, lentamente, caía para trás. Vi seu corpo começar a ficar acinzentado, algo que me deixou ainda mais assustada. Estava confusa. O que acabou de acontecer? O que era aquele homem?, me perguntava. Ouvi passos vindo em minha direção, mas não tinha forças para me mexer. Uma mão quente tocou meu ombro, me sobressaltando. Olhei para trás e encontrei um homem alto estendendo a mão para me ajudar a levantar. Seus olhos estavam me olhando com compaixão e algo em sua atitude me dizia que podia confiar nele. Peguei sua mão e fiquei em pé novamente. Meus joelhos estavam bambos, mas consegui me manter em pé apoiada no muro ao meu lado.
“Quem é você? O que aconteceu?” sussurrei rouca, minha voz estava voltando aos poucos, mas ainda me sentia em choque dado os acontecimentos.
“Vem, aqui não é um lugar seguro a esta hora da noite. Depois eu limpo essa bagunça” falou, passando um braço pela minha cintura para me ajudar a andar. Percebi que não havia respondido minhas perguntas. Olhei-o confusa esperando que ele me desse algumas respostas, ele também estava me olhando. Suspirou. “Eu te explico quando chegarmos no meu apartamento.” Não pude deixar de notar que aquele homem misterioso carregava uma arma muito estranha em sua mão esquerda, mas caminhei sem fazer perguntas deixando-o me levar para qualquer lugar, sabia que ele não deixaria nada de mal me acontecer.
“Qual o seu nome?” perguntei, me sentindo inconveniente.
“Mike. O seu?”
“Camille”
Saí de meus devaneios e voltei a fitar a tela do meu computador de segunda mão. Uma lágrima escorreu pelo canto do meu olho direito. Enxuguei-a rapidamente sentindo meu peito apertar com a lembrança. O último momento no qual vi meu pai, o momento no qual comecei a me transformar no que sou, uma caçadora. Desliguei o computador e fui até meu quarto fazer minha mala. Não possuía muitas coisas, meu emprego não deixava eu me acomodar em um só lugar por muito tempo. Desde que me mudara para aquela cidadezinha no meio do nada não havia comprado móveis, apenas um colchão, uma televisão antiga e um computador usado, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, estaria me mudando novamente.
Peguei minha mala preta de dentro do guarda roupa e coloquei meus poucos pertences dentro dela. Fui até o banheiro lavar o rosto e me deitei fitando o teto tentando desesperadamente pegar no sono e me livrar das lembranças que tentavam invadir minha mente, lembranças dolorosas das quais não queria me recordar.
Acordei com meu despertador tocando. Eram 6:00 hrs da manhã, o horário em que sempre me levantava. Era um costume que obtive com meu pai, ele sempre acordava cedo e saía para caminhar e eu geralmente o acompanhava. Mesmo depois de sua morte ainda mantinha o mesmo hábito. Fui até o banheiro, coloquei minha roupa de ginástica preta, meus nikes brancos e prendi meu cabelo castanho em um rabo de cavalo que batia no meio das minhas costas, escovei os dentes rapidamente e fui para a cozinha pegar uma maçã para comer no caminho.
Saí do apartamento em quinze minutos e comecei a correr. A cidade era pequena, o tipo de lugar no qual todos se conheciam – provavelmente se conheciam desde que nasceram, brincaram juntos, seus pais brincaram juntos e assim por diante. Era um lugar cheio de árvores e jardins com flores coloridas e casas alegres nas quais as famílias ainda estavam tomando seu café da manhã. Era a última vez que veria esse lugar e não me sentia triste por isso.
“Bom dia, Camille” sorriu um velhinho de cabelos brancos usando uma camisa azul xadrez que passou por mim com um saco de pães nos braços.
“Bom dia Charlie” cumprimentei, sorrindo também. Charlie era uma pessoa boa e simpática, hábitos antigos que não foram passados para as gerações mais recentes desta cidade.
Continuei minha caminhada calmamente pensando em minha nova mudança, algumas pessoas que passavam por mim paravam para conversar, mas nada muito demorado, todos tinham seus afazeres, era um dia de trabalho normal, só não para mim, claro.
Cheguei em casa às 7:00 hrs. coloquei as chaves em cima do balcão de pedra que dividia a sala da cozinha – ambas sem móveis – e me dirigi ao banheiro. Abri o chuveiro e tirei a roupa, deixando a água quente percorrer meu corpo todo, relaxando enquanto a água batia em meus ombros. Lavei o cabelo rapidamente e me troquei, estava na hora de ir. Peguei minha mala e sai rapidamente, meu táxi estava me aguardando parado rente a calçada. Tranquei a porta e caminhei até o carro, coloquei minha mala no banco de trás e olhei uma última vez para o edifício que estava deixando para trás. Sabia que não sentiria falta daquele lugar, de suas paredes amareladas e trincadas, nem de seu jardim seco que um dia foi florido e cheio de vida.
É, com certeza não iria sentir saudades, era apenas mais um lugar no qual não me encaixara, já estava acostumada com isso. Entrei no táxi e bati a porta.
“Para o aeroporto por favor” falei, olhando a paisagem mudar lentamente conforme o carro ganhava velocidade.
Chegamos no aeroporto em quinze minutos. Era um lugar grande que parecia com uma caixa pintada de branco. O motorista estacionou em frente a porta principal.
“São quinze dólares” falou, olhando-me pelo retrovisor. Tirei uma nota de vinte, entreguei-a e saí do carro sem esperar pelo troco. Com minha mala pendurada no ombro entrei no saguão. Era a segunda vez que entrava naquele lugar.
Era um ambiente amplo e bem iluminado, para todos os lados que eu olhava podia ver cadeiras de plástico azuis ocupadas por pessoas de todos os tipos. No meio do saguão ficavam as escadas rolante e no fundo o balcão de informações. Caminhei até lá lentamente, tentando não chamar atenção para mim, desde pequena não gostava de ser o centro das atenções, principalmente tendo o risco de tropeçar nos próprios pés a qualquer momento.
Uma mulher de aproximadamente trinta anos sorriu para mim. Ela usava uma camisa branca aberta revelando muito de seus seios e uma saia justa azul marinho até os joelhos, seu cabelo loiro estava preso em um coque alto e bem arrumado e sua maquiagem suave combinava com sua roupa.
“Em que posso ajudá-la?” perguntou, eficientemente.
“Onde fica o portão três?” perguntei, tentando devolver o sorriso da melhor maneira que pude.
“No segundo andar, ala leste.”
“Obrigada” falei, rumando para as escadas.
Isso era o que mais odiava em aeroportos, principalmente os que atendiam voos internacionais e domésticos no mesmo prédio, eu sempre me perdia e tinha que pedir informações. O segundo andar era muito parecido com o primeiro, com exceção de algumas lojas para atrair turistas vendendo perfumes importados por um valor muito mais alto do que realmente deveriam ser. Passei pelas lojas em direção à ala leste sem parar nas vitrines como muitas pessoas ao meu redor. Me sentei em uma cadeira que ficava em frente ao quadro de horários. Dois aviões já estavam meia hora atrasados e três haviam sido cancelados. Não sabia muita coisa sobre o que me esperava quando saísse do avião, não sabia ao menos para onde estava indo, o quadro só mostrava o nome da cidade, não tinha nenhuma informação sobre o número dos voos. Isso é bem a cara de Dean, ri internamente.
Conheci Dean quando tinha vinte anos, três anos atrás. Mike havia nos apresentado quando finalmente concluí meu treinamento. D era seu contato com esse mundo estranho no qual vivíamos na maior parte do tempo e também seria o meu. Mesmo depois de três anos continuo sem saber como D consegue tantas informações, tudo que sei é que ele me dá as informações necessárias e manda meu pagamento assim que a missão é concluída. Sinceramente, essa não era a profissão que queria seguir, mas depois da morte de papai era como se essa fosse minha única opção, não conseguiria lidar com o mundo normal depois de tudo que Mike havia me contado, sabia que nunca mais teria a chance de ser uma pessoa normal novamente.
“Senhores passageiros do voo T789K20, favor comparecer ao portão três. O avião sairá em trinta minutos” anunciou uma voz masculina através dos vários alto-falantes localizados estrategicamente por todo o saguão.
Não tem porque enrolar, pensei, suspirando. Me levantei e fui até o portão três, onde uma fila estava se formando. Peguei minha passagem e meu passaporte do bolso da calça e os entreguei para o homem da companhia aérea. Depois de conferir meus dados, me devolveu os papéis.
“Tenha uma boa viagem, senhorita Stewart”, falou com um sorriso cansado no rosto. Sorri de volta, tentando parecer relaxada.
Por dentro estava nervosa, não sabia para onde estava indo, toda vez que Dean arranjava uma nova missão, nos encontrávamos em lugares diferentes, em cidades diferentes. Tinha medo do que poderia estar me aguardando, medo da minha próxima missão, mas já tinha passado por tudo isso antes e sabia que, assim que visse Dean e colocasse meu cérebro para funcionar no modo trabalho, esse medo iria esvair-se.
Sentei-me na poltrona reservada para mim na classe econômica e esperei o avião decolar. Sentia meu estômago dando saltos de nervoso. Já havia viajado de avião várias vezes durante minha vida, mas a decolagem e o pouso ainda me deixavam nervosa e assustada. Um homem rechonchudo vestindo um terno preto e gravata vermelha sentou-se ao meu lado, checando seus e-mails uma última vez antes das portas se fecharem. Ele parecia nervoso com alguma coisa e seu rosto estava tão vermelho quanto a gravata, alisou seu bigode branco e farto, guardou o celular na maleta em seu colo e colocou o cinto. Desviei o olhar. Fiquei olhando o aeroporto diminuir de tamanho conforme ganhávamos altitude e senti meu corpo todo relaxar quando o avião parou de subir e as nuvens e o céu azul eram as únicas coisas que podia avistar através da minha janela.
Abri o livro que estava em meu colo e comecei a ler para ajudar a passar o tempo, mas poucos minutos depois o coloquei de lado e voltei a olhar o céu através da minha janela, deixando minha mente vagar. Nesses raros momentos deixava as lembranças invadirem minha cabeça, eram os únicos momentos nos quais lembrava de qualquer parte do meu passado, seja antes ou depois de Mike ter aparecido em minha vida. Não sei porque, mas os aviões tinham esse poder sobre mim, eu podia lembrar de coisas que guardava bem no fundo do meu ser sem que elas me afetassem como normalmente afetariam se eu estivesse em qualquer outro lugar. A lembrança invadiu-me de supetão, não estava esperando relembrar essa noite.
O apartamento era pequeno e mal mobiliado. Mike foi até a cozinha e pegou uma caixa de suco da geladeira. Sentei-me em uma das banquetas, apoiando meus braços no balcão a minha frente, o assisti pegar dois copos de vidro de dentro de um armário em cima do fogão. Encheu os copos, entregou um para mim e ficou me estudando do outro lado do balcão. Baixei meus olhos para o copo em minhas mãos envergonhada com seu olhar.
“Como está se sentindo?” perguntou, pelo tom de sua voz ele parecia preocupado.
“Eu não sei, ainda estou em estado de choque eu acho” falei, sem tirar meus olhos do copo. Não sentia vontade de beber nada, se bebesse provavelmente teria que correr até o banheiro na mesma hora, meu corpo ainda não tinha voltado ao normal depois da cena que havia presenciado. “O que aconteceu?” perguntei. O ouvi suspirar, ele havia entendido sobre o que me referia.
“Não sei se está preparada para saber” respondeu. Olhei- o nos olhos e pude perceber que ele estava me olhando preocupado “Você quer realmente saber?”
“Sim” falei, soando mais confiante do que me sentia.
“Você pode não acreditar em mim, mas você tem o direito de saber” falou, olhando para suas mãos apoiadas no tampo de granito do balcão tentando achar um meio de introduzir o assunto “Você já leu ou assistiu alguma coisa sobre vampiros?” perguntou, olhando meu rosto para ver como reagiria a suas palavras.
“Já li alguns livros e assisti algumas coisas, mas o que isso tem a ver com... aquilo?” perguntei, percebendo como era difícil para eu poder transformar aquela cena em palavras.
“Tudo” respondeu, procurando uma forma de continuar “Camille, eu realmente gostaria que você não tivesse presenciado aquilo, mas não posso voltar no passado e mudar as coisas” fez uma pausa para ver se eu gostaria de fazer algum comentário. Permaneci calada e ele continuou “Se eu te dissesse que todas aquelas lendas que estão contidas nesses livros e filmes são verdade, o que você me diria?”
“Provavelmente diria que você está louco, mas depois do que vi não sei no que acreditar” apoiei meu rosto em minhas mãos desolada, lembrando-me do homem sujo de sangue.
“Camille” falou, pegando meu queixo com as pontas dos dedos, me fazendo olhá-lo. “Eu sei que é difícil de entender, mas você precisa me escutar. Essas lendas, no começo, eu achava que eram apenas lendas idiotas, até que me provaram que não eram. Vampiros, lobisomens, bruxas... é tudo real.”
“Você está querendo dizer que foi um... vampiro... que... matou meu pai?” perguntei, sentindo minha garganta se fechar em um nó e meus olhos começarem a se encher de lágrimas. Não pude contê-las, a verdade estava finalmente me atingindo. Meu pai estava morto.
“Eu sei que é difícil de acreditar, mas é a verdade” falou, enxugando uma lágrima com o polegar “Você precisa se deitar, podemos conversar sobre isso amanhã, eu ainda preciso limpar aqueça bagunça” falou, estudando minha expressão “Vem” ele pegou minha mão e me guiou até um quarto pequeno com uma cama de solteiro e uma cômoda. De dentro da mesma ele tirou uma camiseta cinza e me entregou “Pode usar como pijama se quiser. O banheiro fica na última porta do corredor. Por favor, não fuja sem me dar a chance de explicar tudo isso para você” falou. Como estava esperando uma resposta, assenti que sim e o vi desaparecer porta a fora.
Depois de uma semana morando com Mike, comecei a perceber certos hábitos em seu dia a dia. Mike era uma pessoa calma e paciente e estava me ajudando a superar a perda, mas não tocava no assunto do sobrenatural do qual eu tanto queria conversar, ele estava me dando tempo para processar todas as informações e as cenas que não saíam da minha cabeça. Ainda sentia um vazio imenso em meu peito, como se parte de mim houvesse sido perdida, mas estava tentando ser forte.
“Tudo bem?” perguntou Mike ao chegar do trabalho. Ele estava trabalhando em uma lanchonete não muito longe do apartamento, sua camiseta cinza tinha uma mancha de ketchup na manga. Sempre que ele voltava para casa sua camiseta tinha alguma mancha, ele não era muito bom nesse trabalho, mas sabia que não poderia viver exclusivamente de seus trabalhos como caçador.
“Sim” falei, olhando-o jogar a jaqueta preta no sofá antigo e fechar a porta atrás de si com o pé. “Como foi o trabalho hoje?” ele revirou os olhos, não era nenhum segredo que ele odiava esse emprego. Sorri.
“O que você fez hoje?” perguntou, vindo se juntar a mim na cozinha.
“Nada de interessante” falei, dando de ombros. Minha mente se encheu de novas perguntas e Mike percebeu.
“O que você quer saber?” suspirou.
“Tudo. Por que você resolveu ser um caçador?” essa era a pergunta que mais queria fazer.
“Sempre me interessei por esse assunto” falou, olhando para seus pés.
“Tá, agora pode falar a verdade” ele tinha essa mania de tentar me enganar quando não queria falar sobre um determinado assunto, mas não desistiria facilmente, ele sabia disso.
“Sobrevivi a isso, assim como você, mas não sobre as mesmas condições, claro”
“Você não vai me contar mais sobre isso, vai?”
“Não”
“Tudo bem. Como os vampiros são realmente? Cada escritor os descreve de um jeito, não sei em quem acreditar” falei, apoiando minhas costas na pia. Há algumas noites estava com uma ideia fixa na cabeça, mas precisava me aprofundar no assunto antes de tomar uma decisão.
“Todos esses livros contam uma parte da verdade, é como se eles fossem a mistura de todas essas histórias, não podem andar no sol ou iriam queimar até virar cinzas, se alimentam de sangue... Se conseguirem morder a pessoa sem beber seu sangue, algo muito difícil para eles, o veneno de suas presas transformaria a pessoa em um também. Dizem que a dor é insuportável.”
“Como se mata um vampiro?” vi um sorriso começar a se formar em seu rosto.
“Uma estaca de madeira no coração seria o suficiente, mas também morrem se o coração for arrancado ou se forem decapitados”
“Você já fez isso muitas vezes?” perguntei, estudando-o atentamente.
“Sim, de todas as maneiras possíveis” as lembranças estavam voltando a sua mente, fazendo-o sorrir ainda mais.
“Eles dormem em caixões?” perguntei me lembrando do Conde Drácula, o último livro que lera.
“Não, só precisam de um lugar escuro, não necessariamente um caixão”
“E sobre os lobisomens?” falei, fitando-o. Seu sorriso havia deixado seu rosto rápido demais. Havia uma história percebi, mas ele não me contaria.
“Inimigos naturais dos vampiros. Se transformam na lua cheia obrigatoriamente, mas também podem se transformar em uma noite normal se quiserem. Dizem que a dor é muito intensa para se transformar, mas vai diminuindo depois de um tempo, por isso poucos se transformam fora da lua cheia. Podem ser mortos com uma adaga de prata, se a cabeça for decapitada ou o coração arrancado”
“Bruxas?”
“Elas definitivamente existem, mas nunca conheci uma. Lobisomens também são raros de se achar, devem estar em extinção ou algo do tipo.” falou, como se estivesse imerso em uma lembrança enquanto falava comigo.
“E quanto aos híbrido?”
“Você está assistindo muito Vampire Diaries não acha?” perguntou, voltando para o presente e me olhando divertido. “Eu não sei se híbridos existem, nunca vi um nem ouvi falar de alguém que tivesse visto um. Sinceramente acho que não existem.”
“Por que não existiriam? Vampiros existem e até alguns dias atrás eram apenas ficção para mim” falei, encarando-o.
“Não sei, só me parece improvável que um híbrido possa existir. E se existir com certeza não vai ser como na história da série”
“A mordida do lobisomem pode matar um vampiro?” perguntei mudando de assunto.
“Sim, mata lentamente, causando alucinações. Assim como o veneno de um vampiro é letal para um lobisomem.”
“Como você sabe de tudo isso?” perguntei genuinamente intrigada.
“O caçador que me treinou costumava fazer vários experimentos.”
“E sobre verbena e alho? É verdade?”
“Não, apenas lendas” falou, começando a ficar irritado com a quantidade de perguntas que estava fazendo. “Por que tantas perguntas?”
“Eu estive pensando muito nesses últimos dias. Eu quero poder matar vampiros, vingar a morte de meu pai de alguma forma” falei, olhando para uma mancha no chão. Sentia meu rosto corar, sabia que seria um assunto difícil de se discutir.
“Você quer ser uma caçadora?” perguntou incrédulo.
“Eu sei que é estranho, eu sou atrapalhada e provavelmente não sou muito forte, mas tenho certeza que com algum treinamento eu posso melhorar. Eu só preciso de uma chance” falei, suplicante vendo sua expressão se fechar como se não gostasse da ideia. “Eu preciso fazer isso, por favor”
“Eu não sei. Posso até tentar te ensinar algumas coisas, alto defesa e coisas do tipo, mas você não tem o perfil de um caçador, Camille”
“Me dê pelo menos uma chance, Mike” implorei novamente. Ele suspirou e desviou seu olhar do meu.
“Tudo bem, começamos amanhã de manhã, então. Você não sabe no que está se metendo” falou, sua voz tinha um leve toque de reprovação, se levantou e foi para o quarto. Fiquei sozinha na cozinha por mais alguns minutos antes de ir me deitar também.
Voltei a realidade quando a voz do piloto ressoou pelos alto-falantes do avião avisando que iríamos pousar em vinte minutos e que deveríamos permanecer sentados com o sinto de segurança bem apertado. O voo havia sido mais rápido do que imaginara. Sorri com a lembrança, eu tinha superado todas as expectativas de Mike. Senti meu corpo enrijecer conforme o avião ia perdendo altitude, como eu odiava esses momentos. Ao tocar a pista, o avião foi perdendo velocidade e meu corpo foi aos poucos relaxando.
Saí do avião com minha mala atada as minhas costas e me dirigi até o ponto de táxi apressada, queria ver Dean logo. Me surpreendi ao ver onde estava. Entrei em um táxi, falei o endereço ao motorista e afundei-me no banco traseiro, olhando a paisagem a minha volta banhada pela abundante luz solar da Califórnia.
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