A Caçadora E O Vampiro

19 A viagem (Parte I)


Notas iniciais
Oi amores!!! Adivinha quem está de férias??? EUU!!! Nossa, não aguentava mais ter que estudar, mas passei de ciclo na facul, valeu a pena todo esse tempo estudando.

Agora que eu estou de férias, vou tentar postar com mais frequência, vai depender da minha criatividade agora...

Agora, falando sobre esse capítulo: não sei se vocês vão gostar, o final dele não me pareceu muito bom, mas foi a única coisa que pude pensar, vou tentar melhorar nos próximos capítulos...

Espero que gostem...

Nosso tempo estava acabando, estava admirada por não ter tido nenhuma notícia de Dean por tanto tempo. Não o vira mais perambulando pela cidade, não sabia se isso era algo bom ou não. Para ser sincera, isso me deixava insegura. Gostaria de saber o que D estava tramando, mas era algo que ele não comentaria com ninguém até ser crucial que fizesse isso. Ele não está te cobrando por que sabe que você está interessada nessa cura tanto quanto ele, falava minha consciência, tentando me acalmar. Me agarrava a essa ideia como alguém se agarra a uma boia quando não sabe nadar, era minha única explicação positiva e plausível.

Mark havia notado que algo me afligia, mas não me fazia entrar em detalhes quanto a isso, ele sabia que não queria conversar, tudo que precisava era ficar sozinha com meus pensamentos, poder me organizar, voltar a ser forte como costumava ser quando ainda era uma caçadora autêntica. No entanto ficar sozinha naquela cidade estava ficando cada vez mais difícil, estava criando raízes naquele lugar no meio do nada, não conseguia me imaginar partindo para outro lugar, minha vida estava ali agora.

“Pedido da mesa seis” falou Abbey, me trazendo de volta para o mundo a minha volta.

“Tudo bem” peguei a bandeja e me virei para ir até a mesa, mas a voz de Abbey me fez parar.

“O que está acontecendo, Millie? Você está muito mudada”

“Desculpa, Abbey. Eu... tenho muita coisa no que pensar ultimamente.” desde que começara a trabalhar na lanchonete/bar da cidade, Abbey havia grudado em mim, querendo saber de cada detalhe da minha vinda para aquele lugar, minha vida nas cidades nas quais morara. Mas estava cada vez mais difícil fingir, tentar criar uma história que fosse coerente.

“Está tudo bem? Você está parecendo preocupada, quer conversar?” a menina passou as mãos pelos cabelos curtos presos precariamente com um elástico rosa.

“Não, está tudo bem. Eu tenho que levar isso aqui logo” falei, tentando evitar mais uma conversa constrangedora com ela, não conseguiria criar desculpas rápidas o bastante para que ela não desconfiasse de nada.

Andei até a mesa seis imersa em pensamentos. Coloquei o conteúdo em cima da mesa redonda e sai rapidamente de lá. Meu turno estava quase acabando, poderia sair rapidamente e ir direto para a casa de Alice, a mensagem que ela me mandara mais cedo havia me dado muito no que pensar.

Fui até a cozinha, deixei a bandeja em cima do balcão e me dirigi para o vestiário nos fundos do restaurante. Sair cinco minutos mais cedo não fariam mal algum, o movimento estava devagar de qualquer jeito.

Tirei o avental verde que era obrigada a usar, pendurei no cabideiro a minha direita, coloquei a jaqueta bege e troquei os tênis por minhas botas marrons e saí para o ar frio de mais uma noite estrelada e sem nuvens. A lua estava sorrindo para mim como o gato de Cheshire da história da Alice no país das maravilhas que Ally me fizera ler para passar o tempo durante aquela semana, acho que ela me fez ler esse livro só porque a personagem principal também se chama Alice, mas no fundo acabei gostando da hitória.

Era estranho pensar que mais de uma semana já havia passado desde que Sophie se transformara pela primeira vez, as memórias daquela semana ainda invadiam meus sonhos e meus pensamentos com mais frequência do que gostaria. Mas pelo menos, Sophie estava começando a melhorar, a depressão na qual se encontrava aos poucos ia melhorando. Sinais da sua melhora eram muito revigorantes para todos nós, mas ainda assim sabia que estávamos todos consternados. E por mais que todos tentassem me animar, ainda me sentia culpada pelo que havia acontecido com ela naquela noite na cachoeira. Eu realmente não devia ter deixado ela entrar na floresta.

Balancei a cabeça para me livrar desses pensamentos antes de entrar no carro e partir em direção a casa de Alice. Todos já estavam lá, Ally os avisara sobre as últimas descobertas. Estávamos cada vez mais perto da cura, isso era de um certo modo reconfortante para mim. Essa cura seria meu jeito de me redimir com Sophie, me desculpar por ter deixado tudo isso acontecer com ela.

Antes mesmo de tocar a campainha, Alice abriu a porta, toda sorridente, quase dando pulinhos de alegria, me mandando entrar logo.

“Você demorou para chegar, não aguentava mais te esperar” falou, toda sorridente, indo se sentar no sofá ao lado de Mike. Ele sorriu para mim, Alice já havia contado tudo para ele, era algo óbvio.

“Desculpa, mas alguém tem que trabalhar” respondi, um pouco ríspida, indo me juntar a Mark no sofá. Ele passou o braço pela minha cintura, me puxando para mais perto de si e beijando minha bochecha delicadamente, esse era seu jeito de me acalmar, apesar de que ultimamente esse método não estava sendo muito eficaz.

“Que seja! Eu tenho notícias boas para dar!” meu mal humor não havia afetado a empolgação que emanava da menina. Notei que Laureen estava muito quieta, sentada em uma poltrona, um pouco afastada de nós, mas não quis interromper o fluxo de palavras que jorrava da boca de Alice para saber se havia algo errado acontecendo com ela. “Eu estava procurando os objetos que você falou, Millie, é estranho fazer isso, mas talvez seja por não estar acostumada a fazer isso, mas eu acho que são objetos que já pertenceram a alguma bruxa, eles parecem ter algo diferente neles que facilitou bastante na hora que procurar” ela falava tão rápido que estava se tornando difícil acompanhar. “Tive que usar umas dez velas pra fazer isso, o feitiço é mais complicado do que achei que fosse ser... Mas isso não vem ao caso.

“Eu mesma tomei a liberdade de organizar as coisas para nós. Como são três objetos, alguém vai ter que ir buscar dois deles. O problema é que estão espalhados pelo país de forma bem aleatória, um longe do outro. Então eu pensei que Laureen e Mike poderiam ir atrás de um deles e a Millie e o Mark poderiam buscar os outros dois. Eu ficaria por aqui para cuidar de Sophie, já que não podemos deixá-la sozinha por muito tempo, ainda tenho medo que ela tente algo absurdo.”

“Por mim tudo bem” falou Laureen, era a primeira vez que ouvia sua voz naquela noite. Parecia estar preocupada com algo particular “Mike?”

“Tudo bem, não vejo problema nenhum nisso” ele olhou para mim, assim como Laureen e Alice, esperando pela minha decisão, sabiam que Mark concordaria com qualquer coisa que eu falasse, não estavam, por tanto, se preocupando com a opinião dele.

“É, acho que tudo bem também.” Mark assentiu, me apoiando “Quais são os locais que nós temos que ir Ally?”

“Eu deixei tudo mais ou menos anotado, não consegui localizar o local exato, mas tenho uma leve noção de onde seja, pude ver algumas coisas referentes aos lugares que se encontram. Vocês vão ter que procurar um pouquinho também, mas a parte mais difícil eu já fiz” ela entregou uma folha de papel rabiscada para Mike e duas para mim.

“E espero que não se importem de eu já ter comprado as passagens de vocês também, vocês sabem como eu fico animada fazendo essas coisas.” sorriu timidamente se desculpando, mas nós já sabíamos que ela faria alguma coisa desse tipo, era do seu feitio, já estávamos acostumados a isso. Ela pegou uma pasta rosa e tirou mais algumas folhas de lá, entregando-as para nós. “Espero que dê tudo certo”

“Vai dar certo sim” falou Mike, afagando seu braço. Ally recostou a cabeça no ombro dele e foi, aos poucos, se acalmando, a euforia de alguns minutos atrás se esvaindo lentamente.

“Bom, então boa sorte a todos nós” comentou Laureen.

***

“Tem certeza de que este é o lugar certo?” perguntei, mas Mark estava muito absorto analisando o lugar a nossa frente e não percebeu que estava falando com ele.

Estávamos parados em uma estradinha de terra cheia de cascalho e pedras que levava até um lugar mais para baixo na montanha, da onde estava não podia avistar onde aquela trilha me levaria. Ambos os lados da trilha eram cercados por mato alto e amarelado devido a escassez de chuva durante o outono. Uma única árvore podia ser avistada de onde me encontrava, seus ramos secos e sem folhas me fizeram considerar a hipótese de já estar morta a tempos, assim como tudo que se encontrava na extensão daquele terreno.

“Adiante?” perguntou Mark, estudando minha expressão que achava que devia ser de desconforto, já que havia algo naquele local que me dava arrepios.

Mais cedo naquele dia:

A cidade era pequena, o tipo de lugar onde todos se conhecem, algo bem típico das zonas rurais de qualquer estado deste país. Era formada por uma rua principal pontilhada de casas baixas de telhados vermelhos e amplas janelas bem cuidadas com alguns vasos com flores coloridas repousando no peitoril das mesmas. Algumas destas construções compunham o comércio local, desde mercearias até lojas de roupas de diversos tamanhos e estilos.

Caminhando por ali com Mark, não pude deixar de reparar nos olhares que recebíamos, provavelmente nos tornaríamos fofoca mais cedo do que o normal. Andamos até um pequeno restaurante. Estávamos cansados da viagem, precisávamos comer alguma coisa e precisávamos obter informações sobre o suposto lugar do qual Alice havia falado. Nos sentamos em uma mesa forrada com uma toalha xadrez vermelha e branca no fundo do local. Do lado direito ficava uma ampla janela pela qual podia ver a rua e ocasionalmente algum carro antigo e empoeirado passando lentamente.

O assoalho de madeira rangeu quando uma mulher nas casas dos cinquenta anos se aproximou de nós. O avental deixava sua barriga ainda mais proeminente, suas mãos carregavam um pequeno bloco de papel e uma caneta, seus olhos pareciam cansados, a precária tentativa de amenizar isso com maquiagem não havia sido bem sucedida.

“O que posso trazer para vocês?” perguntou em uma voz rouca e impregnada pelo sotaque do interior.

“Café e panquecas com manteiga está ótimo” falou Mark, a mulher anotou o pedido rapidamente e saiu dali, fazendo o piso ranger a cada passo. Ela sumiu por uma porta detrás do balcão, que provavelmente levava à cozinha e não saiu mais de lá.

Voltei a olhar pela janela, aquela cidade pacata não parecia esconder algo mágico em suas vielas ou colinas. Um carro passou lentamente, quebrando o doce silêncio que reinava por ali. Minha mente estava um caos naquele dia, não conseguia colocar uma ordem em tudo aquilo e o fato da lua cheia estar cada vez mais próxima me deixava ainda pior, a minha missão estava chegando ao fim e geralmente o fim delas resultam em mortes. Desde que me mudei para aquela cidade, o que mais queria era poder evitar essas mortes, não podia matar pessoas pelas quais sentia algum tipo de afeição, especialmente depois de ter passado tanto tempo com elas.

“Bom apetite” falou a senhora, colocando a comida na mesa e saindo dali novamente. Estava tão imersa em pensamentos que não percebera sua aproximação, nem mesmo o ranger do assoalho sob seu peso havia me tirado de meus devaneios.

O café estava aguado e as panquecas não eram tão boas assim, mas aquele era provavelmente o único restaurante naquele fim de mundo, então não podia reclamar.

“Alguma ideia de por onde começar?” perguntou Mark, me olhando dar mais um gole no café e fazer uma careta.

“Não, nenhuma. Se ao menos tivéssemos uma foto do lugar...”

“Nós temos uma descrição, talvez isso baste” deu de ombros.

“Bom, pelo que reparei nesta cidade, a maior parte dos moradores são velhos, eles provavelmente devem saber onde fica esse lugar.” falei, empurrando minha xícara para longe de mim, desistindo de ingerir seu conteúdo “Se bem que em uma cidade tão pequena até as crianças devem saber onde fica isso”

“Você não parece tão animada com essa busca” comentou, também empurrando sua xícara para longe.

“Não é isso. É só que isso significa que minha missão está acabando e Dean vai conseguir o que quer, mesmo que eu tenha feito tudo errado para que ele não conseguisse.”

“Se você não quer terminar a missão, por que está fazendo isso?” perguntou se referindo ao fato de estarmos naquela cidadezinha em busca de algo que Dean queria.

“Porque eu não tenho escolha”

Ele ficou me olhando especulativo, mas como percebeu que não iria entrar em detalhes deu de ombros e voltou a prestar atenção em suas panquecas já frias. Estava grata pela sua atitude indiferente, não era um assunto sobre o qual podia conversar com ele abertamente ainda. Comemos em silêncio, aos poucos fui me acostumado com o gosto das panquecas e consegui terminar o conteúdo do meu prato.

Não demorou muito para que ouvisse o ranger do assoalho indicando que nossa garçonete estava vindo em nossa direção. Estava com o cabelo castanho claro preso em uma trança jogada por cima do ombro, usava uma camiseta de manga longa preta, jeans e botas pretas. Não havia reparado em seus trajes ou suas feições, mas ela parecia bondosa e simpática.

“Posso trazer mais alguma coisa para vocês?” perguntou enquanto retirava nossos pratos.

“Não, estamos satisfeitos, obrigada” respondi com um sorriso, pensando se aquela mulher poderia nos ajudar.

“Desculpa a pergunta, mas o que os trazem aqui? É bem difícil recebermos visitantes por aqui” a curiosidade claramente estampada em seu rosto.

“Bem, estamos procurando um lugar nas redondezas. Será que você sabe onde fica?” perguntei, estendendo-lhe o papel que Alice me entregara com a descrição do lugar que teríamos que procurar.

“Acredito que você está procurando a velha casa da colina” ela me estendeu o papel e voltou aos seus afazeres.

“Você sabe onde fica então?” perguntou Mark já que a mulher não havia falado mais nada sobre o assunto.

“Todos sabem onde fica. Mas se querem um conselho: não tentem ir até la.”

“Por quê?” estava genuinamente intrigada com o que falara e a súbita mudança em seu tom de voz.

“Vocês vão falar que é apenas uma história boba de cidade pequena, mas aquela casa é assombrada, ninguém entra lá há anos depois do que aconteceu com Jerry”

“O que aconteceu com ele?”

“Ele não acreditava nas lendas, quis provar que era apenas uma história e foi até lá. Ele nunca mais voltou” seu rosto expressava angustia e tristeza, provavelmente conhecia o homem e tinha alguma afeição por ele.

“Onde exatamente fica esse lugar?” perguntou Mark indo direto ao assunto.

“Vocês não vão mudar de ideia não é? Bem, saibam que vocês vão por conta e risco. Sigam pela estrada norte até o topo da colina, fica do seu lado esquerdo.

“É longe para ir a pé?”

“Claro que sim, levaria muito tempo para que pudessem chegar lá, a estrada é longa, sem asfalto e somente subida, não conseguiriam chegar lá até a hora do almoço” olhei para o relógio, eram nove horas da manhã. Três horas de caminhada não seria suficiente para chegar até o lugar.

“Tem algum modo de conseguirmos um carro?” perguntou Mark.

“Vocês podem falar com o Joe, na oficina, talvez ele tenha algo para vocês” ao falar isso, a mulher se afastou da mesa e desapareceu pela porta atrás do balcão mais uma vez.

Não foi difícil achar a oficina, era na mesma rua, apenas algumas casas mais para frente. Era um pequeno galpão azul marinho com grandes letras vermelhas pintadas na fachada onde se lia: “Oficina do Joe”. Algo bem típico de cidades do interior. Dentro do galpão as paredes eram cinzas, sem acabamento, em alguns cantos podia ver os tijolos gastos que foram usados na construção anos atrás. Uma velho carro vermelho estava suspenso no único elevador para carros, um carro preto estava do outro lado da oficina com o capô aberto, esperando para que alguém fosse verificar o que havia de errado com ele, para qualquer lado que olhasse podia ver várias ferramentas espalhadas pelo chão. Nos fundos do lugar ficava um balcão de madeira polida onde um homem de meia idade estava lendo o jornal local.

“Com licença, estamos procurando o Joe” falei ao me aproximar do homem. Seu cabelo preto estava começando a ficar acinzentado, seus olhos azuis me fitavam de cima a baixo avaliando-me.

“Em que posso ajudá-los?” perguntou, repousando o jornal no balcão.

“Nós estávamos conversando com...” comecei, só então percebendo que não sabia o nome da garçonete “a garçonete do restaurante da rua, ela falou que talvez você possa nos ajudar a ir até a casa da colina” ao ouvir o lugar onde queríamos ir, seu corpo ficou rígido, seus olhos arregalados expressando uma mistura de medo e incredulidade.

“Por que vocês querem ir até lá? Aquele lugar é amaldiçoado” se apressou a falar.

“Estamos fazendo pesquisas sobre esse assunto, lugares amaldiçoados” Mark se apressou a falar. Fiquei impressionada com a rapidez com que inventara aquela história.

“Bem, eu os aconselharia a não ir até lá, mas caso ainda queiram ir acho que posso alugar um carro para vocês pelo dia, só que terão que pagar adiantado, só por precaução” assentimos, ele abriu uma gaveta e tirou uma chave de lá. “Sigam-me”

O homem nos levou até o quintal dos fundos da oficina onde uma velha caminhonete vermelha enferrujava estava estacionada. Não pude deixar de pensar que algo tão velho provavelmente não sairia do lugar, mas Joe deu a partida e o motor começou a rugir, provavelmente acordando a cidade inteira. Agradecemos e seguimos na direção que ele havia indicado.

A estrada norte era uma estrada estreita toda cercada por mato alto e árvores sem folhas por causa do frio. A subida parecia não ter fim, a caminhonete não acelerava muito o que não estava ajudando. Quando finalmente alcançamos o topo da colina já era mais de dez horas da manhã. Descemos do carro, fazendo nossos sapatos ficarem cheios de poeira conforme pisavam naquela terra amarelada e esfarelenta.

“Tem certeza que este é o lugar certo?” perguntei, mas Mark estava muito absorto analisando o lugar a nossa frente e não percebeu que estava falando com ele.

Descemos pela estreita trilha que era muito mais íngreme do que imaginara. Mark pegou minha mão para me dar suporte e não cair no chão áspero sob meus pés. Não pude deixar de reparar que o mato ia somente até as bordas da trilha, mas nenhuma planta crescia na estradinha que levava até uma pequena casa de paredes encardidas e gastas e telhado enegrecido por causa do tempo. Para todos os lados que olhava tudo que podia avistar era o mato, nenhum som podia ser ouvido a não ser o esmagar de cascalho conforme nossos tênis comprimiam o chão. A casa parecia ainda mais velha de perto. As portas e janelas de madeira estavam esburacadas por causa dos cupins, as paredes trincadas com partes dos tijolos a mostra, o telhado parecia não recobrir toda a extensão da pequena moradia a muito desabitada.

A porta se abriu lentamente com um rangido audível ao mais leve dos toques. O chão de cimento não tinha nenhum piso a recobri-lo, as paredes internas pareciam tão apodrecidas quanto as que formavam o exterior da casa, móveis embolorados e roídos abarrotavam a sala que se estendia a nossa frente.

“Você acha mesmo que devemos entrar?” perguntei, me virando para ver o rosto de Mark, mas ele não transparecia nenhuma emoção.

“Não temos outra escolha, temos?” perguntou, sem prestar atenção em mim.

“Bem, vamos em frente então.”

Atravessei a soleira da porta e pude ter uma visão melhor da pequena sala. Lá haviam duas poltronas de madeira escura com estofado vermelho pontilhado por manchas escuras de mofo, uma lareira ficava em frente as poltronas, era toda feita de pedras cinzas, ao lado da lareira estava uma pequena pilha de lenhas antigas e apodrecidas. Um quadro estava pendurado na parede mostrando duas mulheres de longos cabelos loiros de olhos verdes muito parecidas. Ambas trajavam vestidos longos e de tons pastéis. Atrás das mulheres estava a representação daquela casa enquanto ainda era bem cuidada, o mato aparado e a árvore cheia de vida e flores levemente rosadas. Uma assinatura estava gravada no canto da pintura, mas não consegui distinguir o nome ali escrito, apenas uma data estava completamente legível: 19/04/1935.

“Você não vem?” perguntei a Mark, que ainda estava parado no lado de fora da casa.

“Eu não posso entrar”

“Como assim?”

“Essa casa pertenceu a bruxas, tem proteção contra todo tipo de criatura sobrenatural. Você vai ter que ir sozinha”

“Mark... eu não sei se posso fazer isso sozinha” minha voz estava levemente alterada, estava com medo de adentrar aquele local sem ele ao meu lado.

“Você vai ter que fazer, não tem outra maneira. Qualquer coisa, sai correndo daí o mais rápido possível, está bem?” eu suspirei, tentando me acalmar.

“Tudo bem” respondi, seguindo em frente.

Um pequeno corredor levava a dois quartos idênticos. Em ambos havia uma cama de solteiro feita de metal dourado, um colchão fino e mofado, uma cômoda de três gavetas, uma penteadeira com o espelho rachado e uma pequena escrivaninha. As gavetas das cômodas estavam vazias. Saí dos quartos e me dirigi até a antiga cozinha.

A cozinha era pequena, assim como todos os outros cômodos da casa. Uma pequeno fogão a lenha em um canto, uma mesa quadrada bamba e duas cadeiras no outro, um armário próximo ao fogão e um segundo armário perto da mesa que provavelmente era usado para guardar as louças preenchiam o espaço, ao lado deste armário ficava uma porta.

Uma onda de desespero me invadiu, e se não encontrasse a bendita tigela de pedra?

Abri a porta do lado do armário e saí em um tipo de jardim dos fundos muito mal cuidado. Um poço de pedra se situava no centro do círculo de terra que delimitava o jardim e o restante do mato da colina. Um antigo banco de madeira estava tombado em um canto, um balde de madeira amarrado a uma corda estava ao lado do poço – provavelmente era assim que conseguiam água naquela época. Me aproximei do poço, tentando enxergar o que havia no fundo, mas não conseguia ver nada, era como se ele não tivesse fim. Meu coração parecia querer saltar pela boca enquanto me afastava daquele buraco me imaginando caindo nele infinitamente. Um arrepio percorreu minha espinha com esse pensamento.

Comecei a dar a volta pela lateral da casa até que encontrei uma porta de madeira pequena e inclinada que provavelmente levava a um porão ou abrigo contra furacões. Abrir aquela porta foi difícil, a porta era mais pesada do que aparentava, mas depois de algumas tentativas consegui abri-la, revelando uma escada de pedra que levava até o nível abaixo do solo. Comecei a descer aquela escada entrando na escuridão do porão.

A luz solar que entrava pela porta não era suficiente para iluminar o espaço. Desejava desesperadamente uma lanterna, mas havia esquecido de trazer uma.

Um estrondo me sobressaltou, a porta se fechara, estava na mais completa escuridão. Estava assustada, não conseguia me mexer, não conseguia encontrar minhas cordas vocais. Antes que conseguisse recuperar a razão, milhares de velas semi derretidas se ascenderam ao redor do porão revelando um lugar que nunca poderia ter imaginado nem mesmo no sonho mais louco.

Uma das paredes era completamente coberta por prateleiras repletas de livros feitos de pergaminho encadernados a mão em couro marrom e diversos objetos esquisitos. Alice iria amar esse lugar, pensei, enquanto andava por toda a extensão da parede com as prateleiras. Aquele porão era com certeza o maior lugar da casa. Uma mesa de pedra com duas rochas que me lembravam quadrados – que provavelmente serviam como cadeiras – ficavam em um canto afastado e mais iluminado que todo o resto do lugar. No centro do círculo formado pelas velas havia um círculo desenhado no cimento com tinta branca com o desenho de uma estrela dentro de seus contornos. Dentro desta estrela haviam pequenas poças de sangue seco. O lugar no qual faziam os rituais?, pensei, tentando imaginar os métodos de tortura que utilizaram contra humanos naquela época.

“Tu não deverias estar aqui” falou uma voz feminina desconhecida. Olhei ao redor, meu coração em disparada, meus olhos arregalados, meu corpo tremendo e minhas mãos suando por causa do medo que sentia, mas não havia ninguém ali.

“Quem está ai?” perguntei em um sussurro, incapaz de encontrar minha voz. Uma risada me fez congelar no lugar.

“Como assim quem está aqui?” respondeu outra voz feminina “Tu invades nossa casa e ainda perguntas quem está aqui?” essa segunda voz parecia levemente zangada.

“V-vocês são as irmãs que moravam aqui?” foi a única explicação que encontrei, apesar de achar isso absurdo.

“É claro que sim” respondeu a primeira voz, um vento gelado percorreu o lugar, fazendo as chamas das velas tremularem

“O que queres aqui?” perguntou a segunda voz rispidamente “Mais uma curiosa que veio perturbar nosso descanso? Como se não bastasse todas as perseguições durante nossa vida, ainda temos que lidar com pessoas que querem parecer corajosas entrando aqui. E para piorar trouxe um vampiro como acompanhante”

“Não, não é isso” me apressei a dizer.

“Então o que é dessa vez?” perguntou, sua voz cada vez mais alta. Imaginei se Mark poderia escutar de onde estava, mas duvidava, devia ser coisa da minha cabeça, aquelas vozes eram impossíveis de estarem ali.

“Eu.. estou procurando algo”

“Uma ladra então?” sua voz ficava cada vez mais ríspida durante nossa conversa.

“Muitos já entraram aqui procurando nossos serviços ou nossos pertences” falou a primeira voz “Queriam nos incriminar, nos queimar por sermos o que éramos. Fomos perseguidas diversas vezes, até que conseguiram. Mas nós juramos que nunca deixaríamos esse lugar, que ninguém poderia destruir nossa casa, que nós permaneceríamos aqui por toda eternidade. Durante os anos muitas pessoas entraram aqui para mostrar que eram corajosas e levar uma prova de que estiveram na casa, mas nenhuma delas conseguiu voltar. Então o que tu queres?”

“Preciso de um objeto, mas não para me provar de corajosa, mas sim para salvar uma amiga.”

“Não me engana com tuas palavras” falou a segunda voz, fazendo as chamas das velas triplicarem de tamanho.

“Eu juro!” sentia que lágrimas começavam a escorrer pelo meu rosto, caí de joelhos no chão frio, minhas pernas já não podiam me sustentar. “Existe uma cura, eu preciso dela, foi minha culpa ela ter virado um lobisomem... eu preciso dessa tigela para poder curá-la... por favor” chorava livremente, as lágrimas ensopando minha camiseta, todo o peso que estava sob meus ombros finalmente haviam me atingido, estava finalmente me deixando ser fraca.

Um silêncio se seguiu, não sabia se as vozes haviam ido embora, se estavam considerando como me matar ou se estava ficando louca, me tornando caso de hospício.

“Não existem curas para essas criaturas” respondeu friamente a segunda voz.

“Eu sei, mas acharam um modo que talvez consiga curá-la, para isso precisamos de coisas que pertenceram a diferentes bruxas... por favor, me deixem levar a tigela e curá-la.”

“Por que deixaríamos? Isso não é problema nosso”

“Eu não tenho motivos para convencê-las, só posso pedir que reconsiderem”

Mais um silêncio se seguiu. Minhas lágrimas não paravam de escorrer pelo meu rosto, o desespero que sentia tomando conta de mim.

“Quem nos garante que vais usá-la apenas para isso? Ninguém que anda com um vampiro é confiável”

“Ele é diferente, não machuca as pessoas, ele apenas quer a cura para Sophie assim como eu”

“Haverá consequências” respondeu a primeira voz.

“Façam o que quiserem, peguem o que quiserem de mim, me matem se for preciso, mas me deixem tentar curá-la”

“Não” gritou a segunda voz.

“Leve, sei que seu sofrimento é real, mas não se esqueça, haverá consequências” a primeira voz falou.

As luzes se apagaram, a porta voltou a se abrir. Na minha frente se encontrava uma tigela esculpida em pedra com alguns caracteres irreconhecíveis gravados em suas laterais. Peguei o objeto com o maior cuidado possível, me levantei, sentindo minhas pernas fracas.

“Obrigada” murmurei, mesmo não sabendo se elas poderiam me ouvir e saí do porão, fechando a porta atrás de mim.

Mark estava me esperando no mesmo lugar que o havia deixado. Parecia aflito. Ao me ver seu rosto relaxou, mas não por completo.

“O que aconteceu lá dentro?” perguntou, me estudando. Meus cabelos bagunçados, os joelhos sujos por causa do chão do porão, o rosto inchado por causa das lágrimas. “Pude ouvir uns barulhos altos e estranhos vindos da casa, , te chamei e você não respondeu, fiquei preocupado, não sabia o que fazer, como te tirar de lá.” coloquei a mão em seu rosto para acalmá-lo.

“Está tudo bem agora” me dirigi para o carro sem vontade de me explicar. Abri a porta do carona, entrei, coloquei o cinto de segurança e coloquei a tigela em meu colo.

Mark entrou no carro, deu partida e não voltou a tocar no assunto. Ao chegarmos na oficina do Joe para devolver o carro, ele me olhava fascinado e ao mesmo tempo aliviado.

“Achei que você nunca mais voltaria” falou ele. “Toda a cidade ouviu os barulhos da casa da colina”

“Como assim?” perguntei

“Toda vez que alguém entra lá, escutamos esses barulhos vindos daquela casa assombrada. E ninguém consegue voltar de lá”

“Talvez seja porque eles não entram lá pelo motivo certo” respondi lembrando da história que as irmãs haviam contado, me virei e saí para a rua, entrando no primeiro ônibus que levava para a rodoviária. Havia deixado a Joe algo sobre o qual pensar, minha ida à casa da colina viraria mais uma história que os moradores contariam para as futuras gerações daquela cidadezinha: A garota que sobreviveu a maldição.

Notas finais
O que acharam??? Deixem um review e me façam uma escritora feliz!!! =D

Até o próximo capítulo!!!