A Caçada

1 Desespero em Sighisoara


Notas iniciais
Na calada da noite, no Vilarejo de Sighisoara, a Taverna da Lua Crescente encerra suas atividades deste dia.

Nicolae e sua filha Andreea estão arquivando o inventário e se preparam para dormir. Mas algo cruel e maligno espreita nas sombras!

Após um dia cansativo, Nicolae e Andreea estão prontos para fechar a Taverna da Lua Crescente. Esta taverna era o ponto favorito dos aventureiros e viajantes, além de ser muito bem recomendada pelos próprios moradores do vilarejo de Sighisoara. Nicolae está sentado na mesa fazendo suas anotações enquanto Andreea carrega uma caixa até a estante atrás do pai

—Andreea: Ufa! Esta é a última caixa, pai! Nossa, hoje foi um longo dia...bom, já vou dormir. Boa noite, pai – Andreea dizia enquanto dava um beijo carinhoso na cabeça quase calva do pai.

—Nicolae: Boa noite, filha! Ficarei aqui para terminar as anotações e já vou dormir também.

Mal sabiam que esta seria praticamente a última vez que se veriam pelas próximas longas horas, pois após alguns minutos um som estrondoso e um grito feminino assustam Nicolae

—Nicolae: Filha?! Andreea? – Nicolae levantou às pressas e subiu as escadas rapidamente, apesar da idade avançada.

Nicolae se aproxima da porta do quarto de Andreea, com passos suaves mas coração palpitante. A porta estava entreaberta e ainda tinha luz vinda de dentro. Nicolae pensou que devesse ser o abajur de Andreea, mas o barulho e o grito o fizeram adentrar. E ao fazê-lo, seu coração quase parou

—Nicolae: Meu Deus! Andreea! – Nicolae olhou rapidamente para a janela quando vira uma criatura sombria parada em frente a ela e em seguida desapareceu pela mesma.

Tentando acordar a filha, Nicolae se desespera e começa a sentir falta de ar. Mas isso não era nada comparado ao que tinha acontecido com sua filha, que estava imóvel, fria, dormindo. E com a mesma velocidade com a qual subiu as escadas, Nicolae as desceu e correu até um poste sinalizador. Há muito tempo os moradores de Sighisoara puseram este poste em caso de necessidade. Nele havia um sino que era ativado ao puxar uma corda. Nicolae não perdeu tempo, puxou a corda e começou a gritar

—Nicolae: Socorro! Me ajudem, por favor! Alguém!?

Não demorou muito para que as luzes das casas começassem a acender e os moradores a aparecer pouco a pouco. Após alguns minutos foi formada uma multidão na frente da taverna da Lua Crescente. Dentre a multidão estava Teodor, e Nicolae rapidamente o reconheceu

—Nicolae: Ah! Graças a Deus! Teodor!

—Teodor: Nicolae, meu amigo! Acalme-se! O que aconteceu?!

Nicolae estava com dificuldades para falar, tinha que se expressar com o movimento de mãos mas conseguiu balbuciar algumas palavras, as quais foram de claro entendimento para Teodor, que seguiu com Nicolae para dentro da Taverna

—Nicolae: É...é a minha filha!

—Teodor: Andreea?! O que houve com ela?!

—Nicolae: Eu...eu estava terminando as anotações no meu livro quando ouvi um barulho de vidro quebrando e um grito... Fui no quarto dela e...ela...ela...

Os dois subiram as escadas, Teodor estava segurando Nicolae para que ele não caísse das escadas. A pressão do homem estava nas alturas, prestes a explodir de tanta tensão, mas isso não intimidou Teodor, que adentrou no quarto pronto para enfrentar qualquer coisa. Ao ver Andreea no chão, Teodor se abaixou, mediu seu pulso e em seguida examinou seu corpo. Após fazê-lo, ele a colocou na cama. E enquanto isso, lá fora, mais alguém soubera o que acontecia

—Ecaterina: O que é toda essa gente aqui?!

—Petru: Parece coisa ruim... – Petru fora acordado com os gritos e estava com muito sono mas se manteve firme.

Não demorou muito para que Ecaterina soubesse. Algumas pessoas começaram a cochichar sobre o evento até que o nome Andreea foi dito. Ecaterina tomou Petru pelos braços e se apressou para dentro da Taverna

—Petru: Ei, mãe! Calma!

—Ecaterina: Desculpa, filho! Mas é urgente!

Ecaterina subiu as escadas rapidamente com Petru, e enquanto seguia pelo corredor onde se encontra o quarto de Andreea, pode ouvir a voz de Teodor. Ela sabia que a presença dele não indicava uma coisa boa. Petru, de certa forma, estava certo pois o que ela ouve a deixa paralisada

—Nicolae: E, então?! O que ela tem?!

—Teodor: Lamento, Nicolae. Sua filha foi enfeitiçada e...

—Ecaterina: ANDREEA!!!

Ecaterina corre para dentro do quarto, e se desespera ao ver o corpo de Andreea na cama, parecendo uma morta. Andreea e Ecaterina se conheciam desde pequenas, elas se consideravam irmãs. Não se contendo, ela parte para abraçá-la enquanto Petru fica no canto da porta, apenas a observar. Mas entra no quarto e se aproxima da cama onde Andreea está deitada, Ecaterina está aos prantos

—Teodor: Escute bem, Nicolae. O que aconteceu com sua filha é uma coisa sombria! Você viu alguma coisa quando adentrou o quarto?

—Nicolae: Eu...eu vi alguma coisa, mas...não pode ser! Achava que era só uma história!

—Teodor: Como ele era?!

—Nicolae: Ele tinha uma aparência cadavérica, pele branca assim como a da minha filha, mas azulada. Cabelo cinza, quase prata. Manto vermelho nas costas e trajava algo como uma armadura da mesma cor de seu cabelo.

—Teodor: Não é uma lenda! Há muito tempo eu persegui esta mesma criatura. Uma criatura cruel que absorve a alma e a essência de suas vítimas! Não vai demorar muito até que Andreea vire uma escrava deste monstro!

—Nicolae: Eu já não estou entendendo mais nada, Teodor!

Teodor se aproxima da cama e move um pouco o cabelo de Andreea. Havia uma marca de mordida profunda em seu pescoço, Teodor a mostra para Nicolae e o velho homem quase cai para trás

—Ecaterina: Está satisfeito agora?! – Ecaterina enxugava as lágrimas de seus olhos – É tudo sua culpa!

—Teodor: Como assim, culpa minha?!

—Ecaterina: Você não percebe? Não está claro o suficiente?! Então eu vou lhe explicar! É muito provável que o Conde das Trevas tenha mordido Andreea como um ato de vingança pelas caçadas que VOCÊ organizou contra ele!

—Teodor: Isso é uma besteira sem fim! Você não sabe nada sobre ele! Estamos perdendo tempo aqui! Temos que destruir Vlad Tepes até antes do amanhecer, se não o fizermos a alma de Andreea estará condenada para sempre. E não vou permitir que isso aconteça, não de novo!

—Nicolae: De novo?!

—Teodor: Perdi bons amigos nesta caçada contra este ser maligno. E também... – Teodor aponta para seu rosto, arranhões que deixaram marcas – Tenho que acabar com ele de uma vez por todas?!

—Petru: Então o que estamos esperando?!

Teodor e Ecaterina olham para Petru com receio. Seria a primeira caçada séria que ele teria. Zumbis, espectros, fantasmas, nada disso era comparado com o terror que Vlad Tepes proporcionava. Após um tempo, todos descem as escadas, menos Nicolae. Ele quer ter a certeza de estar lá quando a filha acordar.

—Ecaterina: Ainda não concordo com Petru ir conoso! Ele é só uma criança...

—Petru: Ah, mãe!

—Ecaterina: “Ah, mãe!” nada, mocinho!

—Teodor: Eu acredito que essa caçada será uma experiência e tanto para ele. Ele precisa aprender sobre o que as criaturas da noite fazem nas sombras...

—Petru: E então, aonde vamos?!

—Teodor: Segundo algumas pistas que recolhi há alguns anos, Vlad Tepes utiliza um atalho para seguir ao seu castelo. O Jardim da Perdição.

—Ecaterina: Já ouvi histórias sobre ele. Sempre limpo, sempre belo. Mesmo sem ninguém cuidando dele.

—Teodor: Deve ser algum tipo de feitiço, não me importo muito! Antes teremos que recolher nosso “material” e alguns mantimentos. Será uma longa viagem!

Após uma longa caminhada, os três chegam próximo ao moinho de Sighisoara. É lá que está o “material” eles, Ecaterina mal sabe disso

—Ecaterina: Um moinho?! Em que, supostamente, um moinho seria útil?!

Com seus grandes braços, Teodor abriu a porta do moinho. Lá havia tudo o que tinha em um moinho normal, estava plenamente em funcionamento. Moendo grãos que abastecem todo o vilarejo. Adentrando um pouco mais, havia um elevador e uma alavanca.

—Teodor: Filho, venha comigo. Amor, teria como ativar esta alavanca?

—Ecaterina: Então tá...

Com um pouco de dificuldade Ecaterina ativa a alavanca e o elevador começa a subir. No susto, Petru agarras a blusa de seu pai e recebe um afago em sua cabeça. Não demorou muito para o elevador chegar ao topo. De lá Teodor pegou Petru no colo e pulou com ele até uma parte desconhecida do moinho. Havia um Escudo Dourado e uma Besta Sagrada. Teodor tomou o Escudo e deu a Petru a Besta

—Teodor: Filho, esta jornada não será como as outras. O que enfrentaremos será quase que um inferno. Esta Besta permitirá a você acabar com as criaturas sombrias enquanto eu as imobilizo com meu Escudo. Tem certeza que quer vir conosco?

—Petru: Nossa, pai – Petru fica espantado com a beleza que a Besta Sagrada tinha, apesar de ser uma besta comum, de madeira rústica e entalhada com runas douradas – Quero ir sim!

—Teodor: Muito bem! Segure-se em mim, bem apertado! AMOR, ATIVE A ALAVANCA NOVAMENTE!!!

Enquanto Ecaterina fazia força para ativar de novo a alavanca, ela mal percebeu que Teodor pulara do alto junto com Petru. Com as mãos na boca e aflita, Ecaterina observou que eles estavam planando no ar. Petru estava um pouco assustado mas não se desgrudava de jeito nenhum, e depois de alguns segundos eles aterrissaram no solo do moinho

—Ecaterina: VOCÊ ESTÁ LOUCO! QUER ME MATAR DO CORAÇÃO?!

Teodor ria enquanto Petru ainda se sentia meio abalado pelo salto e pelo planar, mas recuperou o folego rapidamente. Então eles saíram do moinho e foram para um jardim próximo. Teodor ficou com Petru enquanto Ecaterina ficou no centro deste belo jardim

—Petru: O que a mamãe vai fazer?!

—Teodor: Você nunca viu ela fazer isso, não é?! Espere para ver!

Ecaterina levantou os braços, murmurou algumas palavras e esferas brilhantes saíram do chão e preencheram o corpo de Ecaterina. Ela era uma feiticeira das antigas, utilizava a força da mãe natureza ao seu favor

—Petru: Nossa! Incrível!

—Teodor: Não é?! Geralmente nós íamos nessas caçadas fáceis. Eu com a Besta e o Escudo, e sua mãe com sua Magia Ancestral. Era incrível! Mas depois que você nasceu, foi complicado. Mas você também participou de algumas aventuras, não é? Só que nunca presenciou isso, até agora!

—Petru: Legal! Mas, e isso? – Petru levantava a Besta Sagrada – Cadê as flechas?!

—Teodor: Outra coisa interessante! Mire no céu e aperte o gatilho.

Petru parecia incrédulo, mas fez o que o pai pediu. Levantou a Besta até onde pode mirar no céu, e apertou o gatilho. Com isso as runas douradas brilharam e a Besta disparou um projétil luminoso e dourado que seguiu até o céu e desapareceu

—Petru: Como...?

—Teodor: Estas runas encravadas na sua Besta foram as mesmas runas que meus ancestrais utilizaram neste escudo, mas com propriedades diferentes. Meu Escudo pode detectar perigos próximos e me fazer planar no ar, enquanto sua Besta dispara flechas iluminadas.

Ecaterina retornava de seu ritual de comunicação com a Mãe Natureza. Ela já estava pronta para a última caçada e olhava o rosto do filho, que contemplava a arma empunhada por ele

—Ecaterina: Imagino que já o tenha ensinado a usar isso...aliás, não sabia que você tinha guardado essas coisas no moinho.

—Teodor: Medidas urgentes, amor. E a propósito ele adorou!

—Petru: Hehehe! – Petru demonstrava um enorme sorriso.

—Ecaterina: Mas não é brinquedo, use com cuidado!

Petru acenou positivamente com a cabeça. E após alguns minutos voltaram para a Taverna da Lua Crescente e recolheram alguns mantimentos por conta de Nicolae, que insistiu que levassem o que precisassem

—Teodor: Prometo que lhe pagarei assim que voltarmos!

—Nicolae: Não precisa, velho amigo. Apenas salve minha filha, é o suficiente!

Com mantimentos o suficiente, Teodor, Ecaterina e Petru seguiram seu caminho até a casa de viagem. Lá eles compraram suas passagens para o Jardim da Perdição. E nas colinas próximas, uma figura encapuzada observava o trio na carruagem.

—Vlad Tepes: Que os jogos comecem, Teodor! Hahaha!

FIM DO CAPÍTULO

Notas finais
Todos se trancam em suas casas enquanto Teodor, Petru e Ecaterina seguem através do vilarejo em direção a um moinho, onde se conheceria a verdadeira vocação daquela família.

Teodor é um grande caçador de vampiros, possui um escudo forjado pelos antigos que brilha quando o perigo está próximo, fazendo-o flutuar como pena.

Ecaterina é da escola antiga, conhece magias e encantos obtidos através da força da mãe natureza.

O pequeno Petru segue o passo de seus pais, conduzindo uma besta que lança uma espécie de flecha iluminada.

Os três correm em direção da casa de viagem onde tomam uma carruagem em direção ao Jardim da Perdição, um atalho para o possível paradeiro de Vlad, segundo as últimas informações colhidas por Teodor.

Apesar de ninguém cuidar do Jardim da Perdição, ele está sempre limpo e podado. Um convite aos desavisados. Há histórias que contam sobre pessoas que desaparecem por lá.

Que perigos encontrariam pela frente?

No próximo capítulo de "A Caçada" - "Jardim da Perdição"