O ano era 1990. Mark estava sentado em uma sala vazia. Branca e vazia, assim como um hospital. O clima era tal qual o de um deserto. Assim que pensou em levantar-se da dura cadeira e deixar todo o seu trabalho para amanhã vê uma figura humana adentrar a sala. Era seu amigo Tchelo.

—Graças a Deus você apareceu ,Tchelo, eu tava quase me matando aqui dentro

—Deixa pra me agradecer depois que eu te contar o que a gente ganhou, mané

—O que?

—De acordo com o treinador, nosso tima arregaçou no campeonato e a gente merece um recompensa — Disse Tchelo com um sorriso extremamente reconfortante

—Não vai me falar que...

—Exatamente — conclui o amigo — Uma geladeira lotada de cerveja e a área de lazer da faculdade inteira pra gente comemorar

—Porra! Aí sim! — Gritou entusiasmado enquanto se levantava para dar um high five no amigo

Eram apenas dois rapazes sentados em cadeiras de metal enquanto saboreavam a bebida visivelmente gelada, apoiada por sua vez e uma mesa também de metal. Tanto a mesa quanto a cadeira pareciam ter saído de um bar de esquina. Aquele deveria ser o retrato da felicidade.

—Pena que é só a gente — disse Mark a fim de iniciar um diálogo

—É — respondeu Tchelo cabisbaixo

Não havia mais ninguém para comemorar com eles, todos do time estavam em Ribeirão Preto para uma festa colossal que havia de acontecer à noite. A namorada de Mark não pôde comparecer em sua comemoração por estar visitando seus pais, já que morava numa república. Tchelo não tinha namorada.

De súbito a expressão de Tchelo muda. Ele vê o grande portão de aço enferrujado se entrabrir. Só havia a possibilidade de ser uma pessoa.

—Fred! — gritou o rapaz

—Qual é, seus filhos da puta! — respondeu em um tom alegre e tranquilo

Fred era muito querido por todos, uma vez que era extremamente simpático e caridoso.Logo ele puxa três papéis do bolso. A reação de Tchelo e Mark era tal qual ele tivesse tirado um bilhete premiado da Loto da Virada de seu bolso

—Isso ai não é…? — disse Mark logo interrompido pelo amigo que já estava com os papéis na mão segurando-os como um buquê de flores

—É sim, mané, são ingressos pra festa da Bimba em Ribeirão Preto!

—Vamo vazar agora que dá tempo da gente chegar! — disse Tchelo já colocando seus sapatos

—Gente, acho que eu não vou — disse Mark com um tom de tristeza que se comparava à da dor de morte de um querido hamster

—O senhor encontra-se louco no crack? Como assim não vai? — disse Fred como se o tivessem ofendido

—É que eu tô namorando, aí eu vou ficar sozinho na festa, saca?

—Vai nada! Eu e o Tchelo prometemos do fundo de nossos corações que não, a gente vai ficar o tempo todo fazendo companhia pra você.

—E não vão ficar com ninguém? Vão pra festa da Bimba pra não pegar ninguém?

—Faço tudo por você, gatão — brincou Fred

—Então bora caralho! — Disse Mark pulando da cadeira e indo em direção ao estacionamento a faculdade

Estavam os três imóveis no estacionamento da faculdade. Na frente deles havia uma motocicleta. Era uma CG 120 cilindradas, vermelha. Podia-se reparar em sua lateral vários arranhões feitos pelo tempo. Sua pintura estava gasta, a ponto do vermelho mais se parecer com laranja. Um fato notável era a ausência da tampa do tanque de combustível, que foi substituída por uma fita Silver Tape. Era um belo veículo.

—Meu digníssimo amigo Mark — disse Fred — Como o senhor espera que a gente vá de Araraquara até Ribeirão Preto em uma bosta de uma moto?

—É muito simples — ironizou Mark — A gente monta na moto e vai

—Não sei se tu reparaste, mas estamos em três — conclui Fred dando um tapinha na CG

—Vamos os três nela, nem pega nada. É só 100 Km.

—"Só" 100Km? — Ironizou Tchelo, que até o momento admirava a beleza rústica do veículo

—Monta nessa merda logo, a gente vai perder a festa — disse Fred num tom de concessão

Como era domingo, os amigos acharam que não haveria policiais na pista, estavam certos. A cena era peculiar: 3 jovens em uma moto, apenas o do meio possuía capacete, afinal, segurança era a prioridade.

Responsáveis, o piloto, Mark, não passava de 80Km/h, pois seria agradável que estivesse vivo para aproveitar a festa. O receio era grande, afinal eram 3 pessoas em um moto no meio de uma rodovia movimentada, mas a alegria reinava naquele veículo. Os três amigos conversavam como se estivessem em uma mesa de bar.

Após mudar de faixa, ficam do lado de um carro, um Uno para ser mais específico, com uma escada em sua parte superior e um grande adesivo na parte lateral, adesivo este que carregava os seguintes escritos 'Borsato artigos de informática e elojob'. Era claramente um Uno de firma. Mark olhou nos olhos do motorista. O motorista olhou nos olhos de Mark, com certa facilidade pela inexistência de seu capacete. Os olhares deixavam a única palavra que suas mentes conseguiam pensar no momento implícita entre eles. Racha!

Após a corrida ser firmada pelo contrato visual entre os pilotos de fuga, Mark acelerou a CG. Os outros dois passageiros da motocicleta rapidamente já perceberam que se tratava de um racha, e por respeito à honra samurai que a vitória de um racha proporcionaria, decidiram colaborar o máximo. Quando o motorista do Uno viu que a CG se afastava, pisou o mais fundo que pôde no acelerador e ficou ao lado da moto. O clima era tenso, ambos os pilotos aceleravam o máximo possível, mas ainda assim estavam, um em relação ao outro, em repouso. Percebendo que a linha de chegada, que era a cidade de Ribeirão Preto em si, estava perto, cerca de 10Km, Fred, que estava no meio, vendo o empate iminente toma uma atitude e fala para o piloto Mark

—Ô Mark, não vai dar não — logo o piloto de fuga grita

—Que não vai dar, cumpadi, não vai dar essa porra?!

De súbito a CG ganha forças do além e acelera, deixando o Uno para trás. A vitória era iminente, pois havia apenas mais 5Km para a cidade de Ribeirão Preto. Quando os amigos já se deliciavam com a vitória do racha e pelo fato de conseguirem sobreviver em uma viagem daquelas, sente-se um flash na faixa ao lado. Quando olharam o Uno estava a mais de 1Km na frente da CG. Eles haviam perdido a corrida, mas a noite é uma criança.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.