A CEO

3 Capítulo 2


Muitas das verdades que temos dependem de nosso ponto de vista.”

— Yoda

Conseguiu arrumar tudo?— perguntou com a voz cansada. — O slide já foi passado para o computador? As pastas com os relatórios e a apresentação já está nos lugares? Ah, não esqueç…

— Da água! Sim, consegui arrumar tudo. Sim, passei o slide para o notebook e sim, as pastas e com os relatórios e a apresentação já estão nos lugares. — respondi suspirando. Debora fala que a sra. Alves é chata na organização do trabalho, mas na verdade acho que as duas são farinhas do mesmo saco. — Gostaria de lembrar que não é o meu primeiro emprego, Debora.

Eu sei! — diz suspirando — Só que não tive muito tempo para te passar todas as informações, então…

— Debora, acho que o que está te preocupando foi o pequeno imprevisto dos seus planos. — comentei olhando para a sala de reunião organizada. Organização é a base do sucesso. — E querida, você precisa descansar! Seu abacatinho precisa da mamãe calma e sem preocupação.

— Você parece o meu marido falando — resmunga — E é abóbora, Alexandre.

Suspiro indo em direção ao controle do ar condicionado para ligá-lo.

— Você deveria ouvi-lo — aconselho. Bufo. A mulher teve um princípio de pré-eclâmpsia, quando passou mal na empresa. Tive que levá-la com falta de ar e tonturas as presas para o hospital. Nunca vi um cara tão desesperado como o marido dela. Ficou três dias no hospital com medicamento para ver se seria possível não induzir o parto. E quando volta pra casa, me liga todos os dias para lembrar de tudo. Bufo novamente. — E daí que você saiu duas semanas antes do previsto? A empresa não vai acabar por causa disso. E qualquer coisa a sra. Alves pode me ajudar. Vocês falaram que ela é uma ótima chefe e eu acredito em vocês. O ponto é que você precisa descansar. Sua saúde e do abóbora são mais importantes.

Outro suspiro por parte dela.

— Eu sei! — fala cansada e baixinho. — É só que, falar sobre o trabalho me ajuda a esquecer um pouco a situação. Estou um pouco assustada.

Ela lembra muito minha irmã. Quando algo acontece sua voz diminui o volume e a sinceridade jorra. A gente se conhece há um mês, mas parece que somos irmãos há três anos. Sei que tem muito a ver com o passado dela. Uma família faz falta mesmo. Eu pelo menos tive meus pais por um tempo. Ela e o marido cresceram em um Abrigo. A mãe da sra. Alves era pedagoga social e levava a filha para ficar com as crianças. E nasceu a amizade delas. A amizade delas é tão legal.

— Quero que saiba que você está se saindo muito bem e que é normal ter medo. — começo falando e tentando pensar em mais alguma coisa que possa a deixar calma. — Você falou com seu marido sobre isso?

— Não tenho muita coragem, às vezes parece que ele está mais assustado do que eu. Somos só nós dois e... — responde mais baixo.

— Fale com ele. Ele é seu parceiro e pai do bebê. — aconselhei. Nunca pensei que seria conselheiro de alguma mulher. — Precisa saber dos seus medos. E acredito que talvez ligar para alguém que é mais experiente que eu e você nesse negócio de gravidez.

Quem?

— A mãe da sra. Alves. Ela não ficou de te ajudar? — perguntei já olhando o horário. Em 5 minutos todos chegariam.

— Sim! Ótima ideia, mas talvez ela esteja ocupada ..

— Licença, Alexandre! — ouço a voz da minha chefe atrás de mim e quase meu coração para de susto. De qual sombra a mulher saiu? — Poderia passar o celular para mim?

Olho para ela sem entender o pedido. Rosto sério e lábios apertados usando roupa preta e um salto gigante.

— O quê? — a mulher brotou do chão e me pede o meu celular. Desde quando ela estava aqui?

— O celular, Alexandre! — estende a mão. — Quero falar com Debora.

Entrego um pouco confuso. E ela mal coloca no ouvido e fala.

— Primeira coisa: se você ligar novamente para ele, irei falar com Felipe para esconder seu celular e aceite o conselho dele. Felipe não é uma criança, e sim o pai do abóbora. Segunda: você tem a cara de pau de ligar para Alexandre, porque não quer ouvir uma bronca minha, mas pode apostar que a noite estarei aí para conversar com você. E Terceiro: minha mãe está indo com Miguel pra ficar com você. — minha chefe fala tudo isso sem respirar olhando para mim faiscando de raiva. — Depois da reunião a gente conversa. — desliga o telefone já me entregando. — Obrigada, Alexandre.

— De nada? — respondo em dúvida. Ela ignora resmungando uma coisa incomunicável, andando pela sala fiscalizando o ambiente.

— Informações importantes antes da sua primeira reunião com esses acionistas. Não demonstre nenhuma emoção ao ouvir as coisas daqui. Na hora certa, abra aquela pasta que te enviei agora pela manhã.

— Entendi.

— Agora é esperar que os jogos comecem.



— E finalizo a minha participação. — sra. Alves termina de apresentar um plano estratégico para otimizar o processo de fabricação da empresa e ainda a melhor empresa que pode fazer auditoria e o lucro que isso trará a empresa. — Abro para perguntas ou podemos seguir para votação e finalizar a reunião?

Objetiva e segura.

O único motivo da reunião com eles é aprovação para o gasto e colocar em prática. Só isso. E estava bem claro o retorno que traria para empresa, mas pela segunda vez entendi o porquê dela e Debora odiarem as reuniões. Dos dez homens que estavam na mesa, oito discutiram possibilidades e questionaram o plano, fazendo com que minha chefe respondesse tudo novamente. Depois de uma hora falando, os dois que a apoiavam propõem votação, mesmo que três quisessem debater mais um pouco.

Como esperado, ela conseguiu 7 votos positivos. Ainda assim, os três que votaram contra, simplesmente queriam uma segunda opção. Que ela também tinha apresentado.

Estava com dor de cabeça, depois de duas horas de reunião. Incrédulo com a enrolação, não observam o óbvio e impressionado com a firmeza e a paciência da sra. Alves de não xingar ou ser irônica com eles. Palmas para o profissionalismo da minha chefe, porque o tanto de gritos e objetos voando pela sala nas reuniões das duas empresas que eu passei, não está escrito.

Quando finalizou a reunião, ela pediu para os que estavam com dúvidas ficarem. Fez um sinal para eu entregar a pasta para os três sentados ainda na mesa de reuniões.

— Bom, senhores! Pedi para os outros saírem para não haver constrangimentos — começou a falar. — Por favor, abram as pastas. — Os três abriram e de cara ficaram pálidos folheando o conteúdo. — Sei que é importante termos contatos para ajudar a empresa em muitos momentos, só que, quando pode manchar o nome da empresa, por exemplo, aceitando propina ou usando materiais de segunda mão para aumentar os lucros perdendo a qualidade ou subornando a auditoria. — ela levanta e colocar sua cadeira no lugar e termina falando friamente. — A próxima vez que fizerem essa palhaçada em outra reunião, eu denuncio vocês para o conselho. Eu tenho olhos em todos os lugares, senhores. Tenham um ótimo dia.

Estava meio abobado com o que minha chefe e não percebi que ela estava me esperando na porta.

— Vamos, sr. Ramos. Temos coisas mais importantes para fazer do que ficar aqui.

Ao sair da sala com ela e caminharmos para o elevador, sra. Alves comenta.

— O que eu falei sobre demonstrar as emoções, Alexandre? — me repreendeu. — Não pode agir como se não soubesse das coisas. Eles podem usar isso contra nós.

Carambolas, agora eu sei o porquê chamam ela de bloco de gelo.



Terça-feira de Março

— Está acontecendo algo aqui, Isa? — a voz chega atrás de mim como um floco de gelo e pela manhã. Não paro de encarar o babaca que rapidamente afrouxar o aperto do pulso da Isabelle.

— Nada não, senhora Alves. — respondeu o otário. Fazendo a raiva subir a minha cabeça. — Só estou conversando com a minha namorada.

Ouço a risada mais fria que eu já ouvi na vida. E me viro para a dona dela pela primeira vez no dia. Como todos os dias, ela está de calça e terninho social e salto 15, mas hoje a cor é vermelha e por incrível que parece está combinando com a roupa de um bebê, que está brincando com o colar no colo dela. Esqueço o idiota que está na minha frente fazendo idiotices e… Bebê? Ela tem um bebÊ? De onde surgiu essa criança? Será que ela roubou de alguém?

Encaro seu rosto sem emoção alguma, com um olhar matador, que até a criança sentiu a tensão, pois se remexeu no colo.

— Você é novo aqui, senhor Castro? — colocou a mão nas costas do bebê fazendo ele relaxar, mas sem desviar um segundo só do rosto do Castro Idiota. E levanta a mão quando ele começa a responder — Você acha que eu não sei o que acontece nos corredores da minha empresa? Eu conheço cada funcionário aqui. Eu sei que a Isa é muito bem casada e que o senhor parece que não entendeu isso.

Silêncio quando ele solta grosseiramente a mão da Isa e finge arrumar a roupa.

— Não foi isso, senhora Alves! Eu não sabia que ela era casada! Ela estava me seduzindo. — diz o filho… Não. Não vale a pena xingar a mãe dele. Ela não tem culpa de ele ser um otário. Penso em avançar pra sacudir ele, mas ela começa novamente.

— Por causa disso, a Isa irá comigo nesse momento para o RH. — ele mostra um sorriso que morre em seguida com as palavras dela. — E fará uma denúncia de assédio contra o senhor. E a empresa prestará toda assistência. Enquanto, o senhor, sr. Castro estará na sua sala. — ela abre um riso amarelo — Recolhendo as suas coisas. E só irá entrar no RH, quando a Isa sair para prestar um boletim de ocorrência na delegacia, onde o primo dela trabalha. — avança quase lentamente para perto dele. Deixando claro a diferença de tamanho, mesmo com ela usando salto e segurando um bebê — Eu sei muito bem o que eu vi e ouvi, senhor Castro. — disse friamente. — E até onde eu sei, meu oftalmologista concorda comigo. E as câmeras desse corredor também.

E saiu com um bebê no colo e confortando uma Isabelle com um rosto inchado a caminho do RH.

Nunca pensei que diria isso, mas essa mulher nunca subiu tanto do meu conceito quando deu uma voadora segurando um bebê nesse otário.

Depois daquela confusão da hora da manhã, só voltei a ver minha chefe depois do meu horário de almoço, quando ela me chama na sua sala.

— Alexandre, venha na minha sala, por favor! — a porta está entreaberta, mas posso escutá-la e ouvir uns resmungos, do que parece ser o bebê que ela estava segurando.

Não é estranho que ela tenha um filho. Estranho é a suavidade e essa leveza que o rosto dela retrata quando olha para o bebê. Na maioria das vezes, ela é simpática e respeitosa, mas sempre com o olhar focado, escaneando você ou lançando blocos de gelos pelos olhos.

Queria dizer que não faz diferença conhecer esse lado dela, mas não sei, é uma estranheza boa. O que não é uma boa ideia, meus pensamentos irem para este lado, já que se há um bebê, há um homem. Ou seja, ela é casada e minha chefe. Nunca se esqueça, Alexandre. Chefe. Ela é sua chefe.

— Sra. Alves? — a chamei já que não disse nada depois que entrei. Com um bebê fofo e com um sorriso banguela, até eu não ligaria para outra pessoa. Ele me lembra minha irmã. Um bebê fofo, banguela e risonho. Tirando a parte da fralda e choro, eles são a invenção mais top da natureza. Até que crescem. Depois que crescem, só Jesus na causa.

— Alexandre, obrigada por ter defendido a Isabelle. Poucos homens fariam isso. — começou falando enquanto dava mamadeira para o filho.

— Eu falaria que não são homens, e sim meninos. — comentei. — Agi como eu gostaria que fizessem com a minha irmã. Eu espero que a Isabelle esteja bem.

Sra. Alves abre um sorriso frio, como se soubesse o que eu cansei de reclamar com os colegas da faculdade, quando acontecia o assédio sexual. Que a maior parte dos homens, passariam direto, sem falar nada.

— Ah, ela vai se recuperar. Infelizmente, ficará uma marca, mas ela irá se recuperar. — o bebê em seu colo está quase dormindo, enquanto ela friamente como se não pudesse mostrar emoções sobre o assunto. — E sobre o senhor Castro, nunca pisará na empresa, ganhou uma ou duas noites na cadeia, o primo da Isabelle conseguiu a intimação e a empresa enviou as provas. Talvez para uma audiência futura, precisaremos de você como testemunha.

— Sem problemas. — respondi — Ele merece a pena de detenção de um a dois anos.

Ela me olhou surpresa. Levantou, colocou a mamadeira na mesa, posicionou o bebê no ombro e começou um balanço leve.

— Eu estudei 2 anos de Direito. — sabendo que ela não perguntaria.

— Quatro períodos? Impressionante! — disse baixinho. — Por que não concluiu?

O bebê fez um barulho que parecia um arroto, mas ela continuou o pra lá e pra cá.

— Meus pais morreram. Minha irmã tinha 8 anos na época, precisava de mim, não só financeiramente, mas minha presença. — respondo, lembrando de o quão difícil foi passar por todo luto. Vejo a expressão da minha chefe ficar mais suave, mas não com olhar de pena. E de alguma forma, fiquei feliz por isso.

— Sinto muito pela perda de vocês. — disse como se soubesse o que é perder alguém. Pela primeira vez, parece que o gelo está derretendo.

— Obrigada, mas sabemos que eles estão em um lugar bem melhor que a gente. — comentei. Então ela parou de balançar o bebê.

— E como você virou um secretário executivo?

— Bom, comecei a dar aulas particulares de inglês e trabalhar de freelancer para editoras. Não conseguia me dedicar, mesmo com meus avós nos ajudando. Então, tranquei meu curso. Um dos meus alunos é filho do dono de uma faculdade. Ganhei uma bolsa no curso de Secretário Executivo. E sinceramente, gostei bastante do curso. Gosto de organizar tudo para que algo seja feito e acredito que a organização é a base do sucesso.

Ela ri baixinho olhando o bebezinho com muito mais carinho que antes, se fosse possível e mira em mim com os olhos risonhos.

— Agora entendi o motivo do seu susto no primeiro dia de trabalho. — disse se levantando para colocar o bebê no berço portátil. Senti meu coração queimar um pouco, quando lembrei da época que eu ou meus pais colocavam minha irmã para dormir em um desses. — Depois que eu virei mãe, parei de me preocupar tanto com a organização do espaço físico e me obrigo a arrumar as coisas aqui e lá em casa pelo menos uma vez na semana, mas não gasto mais toda a minha energia nisso.

Ele se lembra de quando sua irmã chegou em casa e como foi louco os primeiros meses. Como já era adolescente, ajudou a mãe em muitas coisas e ficou agoniado com a bagunça da casa, o que fez com que reclamasse com o pai, que pegou uma tesoura e uma pá e mandou ele arrumar, já que estava reclamando. Lembrando que sua mãe e ele estavam cansados por acordar a noite e ele dormia sempre pesado.

Sua chefe sentou na cadeira novamente e respirou fundo.

— Eu lembro da época que a minha irmã nasceu. Quando comecei a reclamar com o meu pai por causa da casa bagunçada e ele me entregou a vassoura e um pano me mandando limpar a casa. — respondi rindo. — Eu gosto de organização e isso piorou depois que perdi meus pais. Hoje, eu tenho que me lembrar que nem todas as pessoas tem ou não se preocupam com organização. E é um direito dela, mas o primeiro contato ainda é um choque. Então, eu peço desculpa pelo meu choque, no primeiro dia, sra. Alves. A minha irmã me cutuca na maioria das vezes, mas no trabalho…

— Pode me chamar de Angelica, Alexandre. — disse com uma expressão estranha. Talvez, surpresa ou choque. Não tive certeza, porque logo sumiu. — Bom saber que não sou a única a ter o seu olhar julgador por causa da bagunça.

— Ah, não! Você não foi a única. Meus avós, minha irmã e meus amigos recebem constantemente esse olhar, mas ignoram. — comentei lembrando mais uma vez de várias situações. — Talvez um dia precise fazer terapia, mas me ajuda mais do que me atrapalha.

— Ou quando você tiver um filho isso mude. — disse rindo e a acompanhei, porque no futuro poderia acontecer, mesmo parecendo impossível hoje. O bebê faz um barulhinho e ficamos quietos. Olhamos para o berço, mas não ouvimos nada, solto a respiração que nem sabia que estava segurando.

— Acho que vou voltar para minha mesa, sra Alves, acho que o barulho da conversa vai acordar ele.

— Não precisa, Alexandre. E é Angelica. Se a gente não ficar rindo, Alex não vai acordar.

Olhei para ela confuso.

— O nome do seu filho é Alex?

— Sim! Meu marido que escolheu para homenagear uma pessoa que o ajudou no passado — ela respondeu um pouco distraída. — E sim, ele é seu “xará”. Tem um significado bonito. Acho que sua mãe acertou na escolha.

Sinto meu rosto queimar.

— Realmente, seu filho tem o nome mais lindo do mundo. — rebato olhando para o berço. Pego o tablet e viro para ela para a encontrar lutando contra um sorriso. — O que foi?

— Você ficou sem graça com o elogio e falou uma frase engraçadinha para tirar atenção disso. — responde olhando atentamente. Acho que franzi o cenho, pois ela continua como se não fosse nada. — A cinco anos atrás fiz MBA em Gestão de Talentos e Comportamento Humano nas Organizações. É muito interessante ler as pessoas.

— Você… eu… — caramba, que loucura. A mulher lia o meu comportamento o tempo todo e dos outros colegas.

— Relaxa, Alexandre. Não fico fazendo o tempo todo isso. Pelo menos não com as pessoas próximas. — pegou a agenda dela. — Foi interessante seu comportamento. Você é uma pessoa diferente do que eu achava.

A olho fixamente por alguns segundos.

— Você também.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.