A CEO

2 Capítulo 1


"Capacidade de falar não é sinal de inteligência!" — Star Wars

Terça-feira de Fevereiro

Café. Como eu agradeço todas as empresas que oferecem café de graça para os seus funcionários. E por mais que eu seja alguém bem humorado pela manhã, isso só se mantém por causa do café. Mesmo que eu tenha que enfrentar uma fila, como agora. Mas afinal, quem não gosta não gosta do cheiro e do sabor desse maravilhoso líquido, criado por Deus? Minha irmã, mas ela não é um ser desse planeta e por isso não é confiável.

— Com licença! — ouço atrás de mim. Fico surpreso por alguém estar falando comigo, sendo que só conheço a moça do RH e a Sra. Oliveira. — Você é novo aqui, certo? — perguntou uma mulher vestindo uniforme da empresa. Assenti. — Qual setor?

— Secretário Executivo. — respondo reparando em como ela troca olhares com o cara à minha frente.

— Não sei se te dou os parabéns ou meus pêsames — disse rindo. Franzo o cenho.

— Porquê?

— A Sra. Alves só tem cara de boazinha. Ela é a melhor chefe que a gente poderia ter, mas às vezes ela se transforma em um bloco de gelo. — responde um cara que a moça trocou olhares — Quando ela chegou aqui a empresa estava entrando em falência, então demitiu a pessoal do Marketing todo, menos a Alana, porque não estavam fazendo o trabalho deles dentro do prazo. Deu uma data limite para os advogados e o pessoal do TI resolverem as questões das patentes e dos ataques de Hacker, senão seriam demitidos também. Revisou a contabilidade da empresa e descobriu quem estava desviando dinheiro em menos de uma semana.

Tudo bem. Era isso que eu esperava de um CEO. Um bom CEO. Talvez ela seja que nem os outros. Tomara que o ego não seja grande também.

— Falaram que no final de uma reunião com os acionistas, fez um deles vender suas ações para ela. — diz a moça com os olhos arregalados.

— Se ela não fosse casada, eu investiria — comentou o cara, não notando que a fila andou. Indiquei para ele andar, esperando que o assunto terminasse, porque talvez ela apareça aqui.

— Ela não é casada, Roberto! — retrucou atrás de mim. Suspirei. O assunto infelizmente não terminou.

— Ela é sim, Isa! — Roberto debateu. — Ela usa aliança e que homem no mundo largaria aquela deusa depois de conhecê-la? Só os idiotas mesmo.

Ora, ora. Temos um admirador. Quando vi que a conversa ia longe, resolvi intervir, porque o meu querido café estava a 5 pessoas de distância.

— Acho que a gente não devia estar falando dela aqui, vai que ela aparece de surpresa. — cortei os dois. Não tinha problema em conversar pela manhã depois do meu café. Que estava demorando, porque tinha 4 pessoas na minha frente e meu humor estava indo embora.

— Ah! — exclamou Isa e me fez virar pra trás quando soltou uma risadinha. — A gente nunca se preocupa com isso pela manhã. — A fila avançou mais um pouco. Três pessoas, agora. Aleluias.

— Porquê, não?

O cara virou para mim, dando mais um passo para frente. Duas pessoas. Me espere, cafézinho. Estou chegando.

— A senhora Alves tem um defeito — diz fazendo uma careta — Ela detesta café!

Paralisei com a informação. Que absurdo, cara! Era café, a bebida mais deliciosa do mundo! Mas como eu já tinha imaginado, não se pode confiar em uma pessoa que não gosta de café, principalmente uma CEO.

~~~~X~~~~

Organização é a chave do sucesso! Eu tenho absoluta certeza. E é por isso, que eu digo para minha irmã sempre, mas às vezes parece que estou falando sozinho. Porque sinceramente, morar com sua irmã universitária de 22 anos e que se entrar no quarto dela você se perde ou não sabe o que é escrivania ou a cadeira de tanta roupa e outras coisas aleatórias que aparecem. Às vezes eu tenho medo de entrar naquele quarto e me perder. Acho que por isso que eu gosto tanto de ser secretário executivo. Organizar as coisas de outras pessoas me dá muito prazer. A única coisa ruim são alguns chefes manés.

Essa divagação toda veio, quando a senhora Oliveira abriu a porta do escritório da minha nova chefe, porque a mesa dela estava mais ou menos organizada, mas o sofá e a estante com os livros aleatórios. Estava uma verdadeira bagunça. A vontade de rir de nervoso veio e passou rapidamente, quando eu percebi que iria trabalhar com uma pessoa desorganizada.

— Acho que deveria ter te preparado melhor — disse a sra. Oliveira entrando e sentando nas cadeiras que não tinham nenhuma roupa ou livros e folhas ocupando-as. — Vai fazer quase um ano que estou trabalhando com a Angelica e por mais que eu tente falar com ela sobre essa sala, parece que sou ignorada com sucesso. — diz como se não fosse nada essa a bagunça e coloca alguns documentos na mesa dela, em uma pilha que parece — Sente-se, Alexandre.

Antes que eu fizesse alguma coisa, a porta, de algo que se parecia ao banheiro, se abriu e saiu de lá uma mulher muito bonita, que parecia ter no máximo 30 anos. Com um terninho amarelo escuro, porque nunca lembro de nome de outra cor que não seja as setes cores do arco-íris.

A mulher que eu lembrei que é minha chefe. Olha pra mim, depois para a sra. Oliveira e vai em direção a sua mesa. Se senta e abaixa a cabeça, tampando com os braços.

Eu olho para a secretária dela um pouco assustado e surpreso, nem sei. Senhora Oliveira faz um gesto com a mão pra eu deixar pra lá e começa a mexer no tablet da empresa. Em seguida, faz uma contagem regressiva com os dedos.

3, 2, 1.

Minha chefe levanta a cabeça rapidamente e bate na mesa com as mãos, me assustando, enquanto a sra. Oliveira estava com um sorrisinho no rosto.

— Eu não sei, por que eu marco uma reunião com os acionistas antes de vim trabalhar. — ela diz quase rosnando. Que me faz acreditar que ela está meio que em um surto. Enquanto a sra. Oliveira estava novamente rindo, quase gargalhando. Loucas. E bagunceiras. — É sério, Débora! Para de rir de mim. Por que você deixou eu marcar essas reuniões pela manhã? — faz um barulho com a boca e levanta da cadeira tirando ou largando os saltos em qualquer lugar.

Olho para sua secretária, que parece morrer de rir com aquela barriga gigante pulando junto e pergunto:

— Ela rosnou?

— Relaxa, Alexandre! — responde rindo e mexendo no tablet. Acabei de descobrir que minha chefe é uma louca e bagunceira e que a secretária dela acha isso normal. — Se você participar de uma reunião com os acionistas, você iria ficar pior com ela, pode ter certeza. Nenhum CEO ficou mais que três meses na empresa.

— Três meses? — comento admirado olhando para ela ignorando a sra. Alves resmungando agora para uma caneca. — Uau! Tenho até medo de perguntar o porquê.

— Você descobrirá com o tempo. — diz parando de mexer no tablet e olhando para mim. — Primeira coisa para esse trabalho: pré-julgamentos são péssimos para uma pessoa que você irá trabalhar por quase 40 horas semanais, então conhecer as pessoas antes de criar uma opinião sobre elas, é muito sábio. Segundo: todos temos dias ou momentos ruins, então, contanto que não falte com respeito, acho que está liberado tê-los. Terceiro: ela não queria te contratar. — o sentimento de vergonha me atinge. — Muitos secretários ou assistentes homens eram babacas e machistas, e dificultaram e muito o trabalho dela. Fui eu! Eu que queria te contratar, principalmente por causa da sua entrevista. Sei que pelo que eu vi, seus chefes eram meio ou totalmente ruins, mas se você deixar isso de lado vai se dar muito bem com a Angélica.

— Entendi! Desculpa se eu passei a impressão errada. — respondi. — Vou seguir seus conselhos.

— Ótimo! — respondeu e voltou a mexer no tablet. — Ah! Uma última coisa. Sempre quando ela estiver assim, tenha chá por perto. Em 5 minutos ela se acalma. Antigamente, ela fazia judô para extravasar o estresse. Hoje, a gente só pode contar com o chá.

Okay. Chá, anoto no meu celular. Penso no que ela falou. Realmente, se comparar o surto dela com o dos meus antigos chefes. Com certeza estou no céu. Ou pelo menos estarei, não sei como serão os próximos meses.

— Débora, você viu minha agenda? — minha chefe pergunta, o que parece ser uma versão sua mais calma, tirando os livros do lugar. E procurando no lugar errado, porque sua agenda está em cima da mesa.

— Está na sua mesa, sra. Alves. — respondi quando eu vi que a sra. Oliveira não responderia, porque parecia estar ignorando ela. Como se isso acontecesse todos os dias.

— Ah! — ela para de procurar a agenda e parece me perceber na sua sala pela primeira vez. Me avalia, como se quisesse lembrar quem sou eu e se aproxima da mesa. — Débora?

Senhora Oliveira solta um suspiro alto.

— Angélica, esse é o Alexandre, seu novo secretário. — diz olhando para ela com firmeza. E as duas começam a brigar pelo olhar. — Com o lembrete de hoje pela manhã, eu te mandei que ele começaria hoje o treinamento. Já que estarei entrando de licença maternidade no próximo mês. — elas parecem se falar um pouco com o olhar e depois minha chefe volta-se para mim com um mini sorriso.

— Seja muito bem vindo, Alexandre. — cumprimenta e estica a mão — Como já deve saber, meu nome é Angélica. — aperto sua mão olhando diretamente para ela e a solto. Mãos frias. Ela tem um olhar analítico, como se se perguntasse se eu sou de confiança. Seus cabelos negros estão presos em um coque, como minha irmã fazia para aula de ballet. O terninho amarelo escuro tinha um contraste muito bonito com a pele negra dela. E quando eu percebo onde os meus pensamentos estão indo, paro imediatamente. Ela é minha chefe. Minha chefe! Não uma mulher que estou interessado.

— Obrigado pela oportunidade, Sra. Alves. — agradeço e vejo seu rosto se contorcer quando digo seu sobrenome, mas não me corrige. Aí, está a confirmação que a Sra. Oliveira estava falando. Ela não me quer aqui. Mas tudo bem. Eu só vim fazer o meu trabalho e quando a licença da sua secretária acabar, outro emprego me espera. — Espero ser bastante útil durante a licença da sra Oliveira.

— É Débora, Alexandre! — resmungou Débora Oliveira. — Você sabe que sou mais nova que você, né? — pergunta meio revoltada mexendo no tablet e me lança um olhar como se me obrigasse a responder. Então, concordo só com a cabeça, porque já pisei na bola hoje em menos de 2 horas de trabalho. — Então, nunca mais me chame de senhora!

— Eu...

— Okay! Okay! Ele entendeu, Débora! — começa a nossa chefe pegando os sapatos que largou pela sala. — Agenda de hoje?

Débora bufa.

— Reunião com o pessoal do Marketing, às 9 horas. Às 10h20 reunião com o departamento financeiro sobre o relatório final. Almoço 12h. Reunião com o sr. Marcos da Companhia de Mineiro, às 15h30 e só. — Débora responde olhando para o tablet.

— Faltou a reunião com a equipe de CDT, às 14h e a documentação que eu tenho que revisar para a implementação da Lean manufacturing com o pessoal de Gestão de Processos, às 17h. — sra. Alves complementa me deixando meio chocado. Quer dizer, a secretária dela que deveria lembrá-la de todos os compromissos e não ao contrário.

— É! Isso também. — disse Débora rindo e olhando pra mim. — Tenha em mente que ela grava tudo e só estamos aqui por pura burocracia.

— Débora! — minha chefe a repreendeu me deixando com um pouco de receio por causa do seu olhar. — Sobre o compromisso das 17h, fale com a equipe GP que eles podem revisar sem mim e apresentar amanhã a tarde. Vou ao médico hoje. — diz se levantando e começando a pegar alguns livros.

— Está tudo bem com...? — Débora começa a perguntar.

— Está tudo okay. — respondeu ficando de costa para nós dois. — É só um check up. Agora, os dois, por favor, me deem licença, tenho duas horas até a agenda começar realmente.

— Todos os secretários de todos os setores possuem um tablet com um sistema de tarefas e um de comunicação. Temos níveis diferentes de restrição também. E por questão de segurança não podemos levá-los para casa e nem deixar o login aberto. Até porque com exceção do tablet da Angélica os outros só funcionam no prédio. — Débora explica enquanto estamos sentados na mesa dela. — Somos nível 5 junto com o pessoal do Financeiro e da TI, então temos acesso a todas as comunicações e a tarefas de todos. Mas não é nosso trabalho olhar todos eles, somente aqueles que a Angélica pede ou quando precisamos marcar uma reunião. Aí sim, adicionamos uma tarefa no setor. — ela fecha uma aba e abre outra. — O nível um é aberto para todos. Então, qualquer um pode criar um projeto de melhoria para a empresa ou uma festa do seu setor, seja alguém que trabalha no refeitório, um segurança ou a própria CEO. No segundo nível começa as divisões por setores. O nível 3 é para os coordenadores de cada setor e o 4 é para a equipe de CDT. — e do nada ela fecha os olhos respirando fundo e estica a coluna toda como se estivesse com dor.

— Tá tudo bem? — pergunto preocupado. Quer dizer, não sei muito de gravidez, mas é quase como se elas estivessem doentes, né? Ou não? Eu sinceramente espero que quando eu tiver um filho já saiba de tudo isso.

— Estou! — responde abrindo um sorriso como se quisesse rir de mim. — Vocês homens são tão engraçados. Sente isso! — do nada ela pega minha mão e a coloca sobre sua barriga, que parece ganhar vida se movimentando de uma forma bizarra e fantástica.

— Caramba! — falo em choque. — Isso é o bebê?

— Sim! É por isso a minha careta. — explica quando sinto ele se movimentando novamente. — O pezinho dele incomoda a minha costela ou fico sem ar em outras. Mas eu amo que meu melãozinho está seguro aqui dentro.

— Melãozinho?

— Sim! — ela solta uma risadinha. — Desculpa, meu marido ficou meio paranoico com a gravidez e gravou as frutas que são semelhantes ao tamanho do bebê. Já que não temos um nome ainda, o chamamos com o nome da fruta da semana.

Solto uma risadinha mesmo achando super estranho. Quer dizer, a única mulher grávida que eu tive contato foi minha mãe, mas ela praticamente morou no hospital por causa de um acidente que sofremos quando ela tinha 4 meses de gestação. Fiquei na casa dos meus avós durante vários meses. Até hoje minha família chamam minha irmã de bebê milagrosa, porque não deveria ter nascido. Então, se meus pais fizeram isso eu não sei.

— Chega de falar do meu melãozinho, você está fazendo uma cara engraçada de dúvida. — fala rindo fazendo com que a barriga enorme dela se mexa bastante de um jeito preocupante. — Agora, vou te apresentar todos os secretários dos setores e depois você organizará a primeira reunião desta empresa.

— Okay! — responde me levantando e estendendo a mão para ajudá-la.

— Você tem uma irmã, não tem? Ou seus pais te educaram muito bem? — pergunta aceitando minha mão.

— Irmã. Meus pais já faleceram. — respondo franzindo os cenhos, mas relaxando quando penso na minha irmã. Quando só restou nós dois, muita coisa mudou em mim. Em algum momento virei um pai para ela quando perdemos nossos pais a catorze anos. — Por quê?

— Sinto muito pelos seus pais. — pega o tablet e começa a andar em direção ao elevador. — Porque você, Alexandre, é muito cuidadoso, cavalheiro e atencioso. Espero que sua irmã saiba a sorte que ela tem em ter você. Eu queria ter tido uma figura masculina que tivesse cuidado de mim, como parece que você cuida dela. — diz um pouco emotiva mexendo na barriga.

— Obrigado, mas acho que ela não pensa nisso quando eu a repreendo por deixar a roupa jogada. — digo com ironia para tirar ela da emoção ruim ao entrarmos no elevador.

— É, ninguém gosta de gente chatinha mesmo — diz quando as portas do elevador se fecham.