A Cólera Dos Deuses

9 Capítulo 9 DETRIMENTIS ET DAMPNUM (Perdas e Danos)


Notas iniciais
Boa Páscoa a todos e que a semana que se inicia traga a renovação que precisamos em nossas vidas! Bjs. XD

Milo foi o primeiro a notar a movimentação por entre as árvores. Já estava quase clareando o dia e, embora o céu permanecesse encoberto, já dava para ver a silhueta e a forma das coisas. Seu coração deu um salto e ele sinalizou para Máscara que agora, também percebia que havia alguém chegando.

Pelos passos, Milo percebeu que não era um homem e sim uma mulher que se aproximava devagar, quase se esgueirando... O gladiador interrompeu-lhe o caminho apontando a espada direto em seu pescoço. A mulher deu um gritinho de susto e olhou para Milo, reconhecendo-o, apesar de tanto tempo ter se passado...

— M-Milo...? – disse ela em um sussurro.

Milo franziu o cenho, depois olhou com mais atenção.

— Aída? É você?

A jovem desviou os olhos, encabulada. Estava muito diferente da jovem que Milo conhecera. Havia amadurecido, tido filhos e seu corpo não era mais esguio como antes. Ela ainda lembrava do fogo percorrendo seu corpo sob os toques daquele que agora era um homem feito e tão bonito como se fosse um deus vingador.

— Estou diferente, não é? – perguntou ela.

— Somo adultos agora, mas você está muito bem. – respondeu Milo tocando-a nos ombros.

— Esse lugar... me traz boas lembranças. Depois que você foi embora, as colheitas foram escasseando até serem abandonadas. Ninguém mais se instalou aqui, então... quando vi movimento, vim averiguar.

— Ficaremos aqui um tempo. – disse Milo.

— Ei! Você é... Você é o Scorpionis!— falou uma voz infantil entrando em cena.

— Gaius! O que está fazendo aqui? Eu não disse para me esperar? – perguntou Aída olhando para o garoto moreno e esguio.

— Ora, mãe! Eu não deixaria a senhora sair sozinha há essa hora. – falou o menino.

— Senhor Milo, este é meu filho Gaius. Meu marido levou-o a Roma e ele o viu entrar no Coliseu e nunca mais esqueceu.

— Posso ver a sua espada? Quantos já matou com ela? – indagou o menino.

Milo sorriu, a primeira vez desde que aceitara deixar Camus e Afrodite para trás.

— Veja, mas tenha cuidado ao tocá-la. – disse Milo tirando a espada das costas e estendendo-a ao menino.

— Uau! A espada do grande Scorpionis, o único gladiador que nunca perdeu uma luta! – falou o menino entusiasmado em tocar a espada.

— Deixe isso aí! – falou uma voz grave, surgindo por detrás dos arbustos e já sentindo um fio encostar-se em seu pescoço.

— Devagar, homem... – falou Máscara da Morte aparecendo de forma sutil e já pronto para a ação.

— Petrônio... – sussurrou Aída vendo o marido chegar e ser ameaçado por Máscara da Morte. – Ele é meu marido. – completou correndo em sua direção.

— Abaixe a espada, Máscara. – disse Milo.

À contragosto, Máscara obedeceu, mas ficou encarando o homem mais velho, cuja barba já apresentava alguns fios grisalhos.

— Eu sou Milo. Eu e meus companheiros estamos hospedados na cabana por algum tempo. Um dos nossos está doente e precisamos que ele se fortaleça para seguirmos viagem.

Petrônio continuou a olhar firme para Milo, depois pousou os olhos em Aída.

— Vamos, mulher. E você, Gaius, deixe essa espada! – disse o homem.

Aída pegou o menino pela mão e olhou uma última vez na direção de Milo. Silenciosa, ela acompanhou o marido e os três se embrenharam na floresta e desapareceram.

— O que acha disso? – perguntou Máscara.

— Assim que Camus e Afrodite chegarem, vamos deixar esse lugar. – respondeu Milo.

Máscara embainhou a espada, mas manteve a expressão grave.

— Se não fossem conhecidos seus, eu passava a espada. Não é bom ter gente sabendo do nosso paradeiro. Ainda mais que o cara veio de carroça, eu ouvi o barulho. Ele pode ter vindo ou estar indo a Roma.

— Eu sei... Mas, nada de matar inocentes.

Os dois gladiadores entraram na casa, encontrando todos dormindo. Entretanto, quando o assoalho rangeu, tanto Aldebaran quanto El Cid abriram os olhos já em prontidão.

— Aconteceu alguma coisa? – perguntou El Cid.

— Um pessoal que morava perto veio ver a movimentação, mas são conhecidos meus. – respondeu Milo.

Passados alguns minutos, quando todos já começavam a acordar, Milo ouviu uma batida fraca na porta dos fundos. De imediato, ele abriu uma fresta para ver quem era.

— O que foi? – perguntou ele, estranhando a volta de Aída.

— Meu marido me mata se souber que voltei aqui. Mas, ele chegou de Roma e contou que... estão procurando vocês! Tem até uma recompensa oferecida pelo imperador. Os pretorianos comemoravam a prisão de dois procurados e a morte de um. – disse Aída.

— O quê? Quem eles mataram?— perguntou Milo, aflito.

— Não sei dizer o nome direito, mas parece ser um tal de Manigol ou algo assim.

— Manigoldo... – falou Milo sentindo a respiração estancar.

— Ele era seu amigo?

Milo não respondeu. Sua cabeça dando voltas, a confirmação de seus instintos caindo sobre si como uma avalanche e o ódio insinuando-se por entre as veias junto com o sangue que fazia todo o seu corpo latejar.

— Volte para casa. Obrigado por me avisar. – disse o gladiador por fim.

Quando Milo fechou a porta, Máscara se aproximou notando a expressão grave do amigo.

— O que houve?

— Mataram Manigoldo e prenderam Camus e Afrodite. – respondeu Milo levando a mão aos cabelos.

— Como? Quem disse? – falou Máscara.

— O marido de Aída voltou de Roma e trouxe a notícia que somos procurados e também que a guarda prendeu dois procurados e matou um.

— Merda! Temos que resgatá-los! Eu vou matar aqueles malditos! – vociferou Máscara fazendo o restante despertar de vez.

Albafica empalideceu, El Cid e Aldebaran se levantaram. Saga que se encontrava em outro quarto, ainda dormia. O calor do fogo acesso e o delicioso aroma de comida brotando do fogão de pedra, de repente, evanesceram sob o impacto da notícia.

— T-Temos que pensar... elaborar uma estratégia para salvá-los. – disse Albafica.

— Chega de estratégia! Agora vai ser do meu jeito! – falou Milo.

— Mas, Milo... É isso que Hades deseja, ele quer que percamos a cabeça para acabar com todos nós. – rebateu Albafica.

— Quem vai acabar sem cabeça é aquele filho da puta! Pode apostar! E não pense que eu não sei o que estou fazendo, porque eu sei e muito bem. Ele quer jogar? Pois bem, vamos jogar... – disse Milo e seus olhos faiscaram com tanto ódio que o ambiente ficou carregado e ninguém disse mais nada.

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Afrodite embrenhou-se pelos corredores frios e ouviu um cantarolar baixo. Encostou-se à parede e espiou. O local era como as celas dos gladiadores em Gemini. Isso queria dizer que estava em um subsolo de uma domus e pelo visto, o domini era Hades.

Sentindo o coração disparar, Afrodite parou e esperou. Depois, quando a criada se afastou, ele espiou através de uma janelinha na parede e viu um imenso pátio onde alguns gladiadores lutavam entre si.

Por Júpiter! Não vou conseguir sair daqui! Pensou Afrodite quase em pânico quando sentiu uma mão forte tapar-lhe a boca.

— Quieto! – disse a voz baixa e grave.

Ao contrário de antes, agora o coração de Afrodite pareceu parar de bater e o loiro sentiu o corpo amolecer. Entretanto, quem o segurava não fedia e isso, apesar de parecer ridículo, o tranquilizou. Ele não esboçou nenhuma reação fazendo com que o homem que o segurava confiasse em afrouxar a mão.

— Você? – sussurrou Afrodite ao defrontar-se, novamente, com o centurião que o salvara.

— Vejo que conseguiu se livrar do carcereiro. – disse Shura.

— Pensou que eu não conseguiria? – rebateu Afrodite.

Lancei a sorte aos deuses. Se não conseguisse, paciência eu o deixaria entregue ao seu destino. Mas, se tivesse sucesso, eu o ajudaria a sair daqui. – respondeu Shura dando de ombros.

— Diga-me, porque está fazendo isso? Pensa que vai conquistar minha confiança para chegar até os outros? Acha-me tão burro assim? – perguntou Afrodite encarando Shura nos olhos.

— Não, não acho. Você é a minha confirmação que a natureza sabe ser cruel. Não existe a tão falada compensação onde a beleza substitui a inteligência e vice-versa. Você é belo e inteligente, uma união perigosa e sedutora, eu diria.

— Mas não é por isso que está me ajudando. Quem é você Shura?

— Sou um estrangeiro que deve a vida e a posição que ocupa à Casa de Gemini. Se não fosse o general Kanon, eu estaria no pátio com aqueles gladiadores. É uma longa história que não posso contar agora. Agora vamos, vou tirá-lo daqui, o resto é com você. Já arrisquei mais do que deveria.

Afrodite olhou bem dentro dos olhos negros e viu a sinceridade e a força do jovem centurião. Notou outra coisa, também, mas, embora Shura fosse o tipo de homem que o agradava, seu coração já estava comprometido. Uma pena, eu diria, mas, pela primeira vez, eu amo alguém de verdade e jamais trairia esse sentimento. Pensou o loiro.

Shura guiou Afrodite até a despensa, onde o fez entrar em um barril seco. Logo em seguida, rolou o barril até uma carroça que já estava arrumada com vários barris.

— Fique aí e espere. Logo os escravos vão descarregar estes barris na feira para carrega-los com vinho e especiarias. Será a sua chance de aproveitar um descuido e fugir. – disse Shura baixinho. – Boa sorte.

Feito tudo, o centurião olhou, discretamente, vendo que não havia ninguém à espreita e só assim deixou o local e dirigiu-se ao pátio. Chegando lá, ficou observando os gladiadores e a chegada de Radamanthys. Com um discreto sorriso, dirigiu-se até o responsável pela nova leva de lutadores e recebeu-o com uma saudação. Usando da estratégia militar, o centurião acabava de encontrar seu álibi para qualquer eventualidade... Estar com Radamanthys era o meio de evitar suspeitas quando a fuga de Afrodite fosse detectada.

Radamanthys foi recebido pelo centurião e levado até Hades. O cônsul fazia seu desjejum na companhia de Shun que passara a noite em claro e agora via-se junto a Hades recebendo um tratamento cerimonioso pelo escravo que os servia.

— Cônsul, perdoe-me vir tão cedo, mas quero que conheça meus guerreiros e os avalie para integrar a Ludus Maxima. — disse Radamanthys.

— Aproxime-se! Este é Shun, um convidado em minha casa. – disse Hades sob o olhar confuso do jovem.

Com uma pequena reverência, Radamanthys cumprimentou Shun e depois retornou à Hades.

— Tenho dois jovens que me parecem muito promissores. Eu os trouxe para que os veja lutar. – disse Radamanthys.

— Ótimo. Mostre-me. – falou Hades bebericando uma taça de vinho misturado ao mel e especiarias.

Shun engoliu em seco quando Hades levantou-se da mesa e sinalizou para que ele o seguisse. Não gostava daquela demonstração de selvageria e violência. Nunca tinha posto os pés em uma arena e abominava os espetáculos estilo pão e circo!

Hades notou a hesitação de Shun e se aproximou dele, falando baixo:

— A vida não é feita apenas de poesia, Shun.

— Eu sei, mas também não quer dizer que seja normal ver homens reduzidos a um comportamento selvagem. Se assim o fosse, ainda estaríamos na barbárie.

Um sorriso genuíno surgiu nos lábios de Hades.

Ponto para você. Entretanto, o comportamento selvagem é inerente ao homem. Os jogos são uma maneira de domar este comportamento.

Shun encarou Hades de um jeito firme e a atitude altiva agradou o cônsul. Aquele jovem o instigava a tentar dominá-lo. Entretanto, ao resistir ao domínio, Shun atiçava seus instintos e algo mais...

— Venha, vamos ver o que Radamanthys tem a mostrar. – disse o cônsul.

O jovem obedeceu e os dois foram até a sacada. No pátio, Hyoga e Kraken esperavam impacientes, quando Radamanthys retornou e apontou para alguns gladiadores da Ludus Maxima.

— Vocês quatro irão atacar os dois! – gritou Radamanthys escolhendo a dedo os lutadores mais velhos e experientes para lutar com os dois jovens.

Os gladiadores se adiantaram e já foram atacando Hyoga e Kraken de modo que ambos tiveram que realizar sua defesa com precisão ou seriam mortos de primeira. As espadas usadas não eram as de madeira para treino e sim gládios de verdade.

Kraken era mais experiente e lutava firme. Hyoga mostrava uma técnica apurada para alguém tão jovem. Parecia que tinha aprendido a lutar de um modo tradicional e isso chamou a atenção de Hades.

— Está vendo? Aquele jovem deve ter a sua idade e tem domínio da espada. – disse ele para Shun.

Mesmo a contragosto, Shun teve de concordar com Hades e passou a observar melhor a luta. Por um momento, seu olhar encontrou o do jovem e ele sentiu uma densidade no azul cristalino que logo voltou à luta. Hyoga fez um movimento circular que desarmou o atacante mais velho e encostou a espada em seu pescoço. O outro o atacou por trás, mas também foi desarmado e afastado com um chute forte nos genitais, fazendo-o cair e encolher-se de dor. Nesse momento, ele olhou para Radamanthys e, em seguida, para os dois na sacada.

Hades franziu o cenho e resolveu testar o jovem. Virou o polegar para baixo como era feito na arena, sinal de morte para o perdedor. Hyoga não hesitou e cortou a garganta de ambos os oponentes, fazendo espirrar sangue na areia. No mesmo instante, Kraken também vencia seus dois adversários, cortando um na altura do ventre, fazendo-o cair de joelhos e furando o olho do outro que urrou de dor e fez o sinal de rendição.

O cônsul ficou satisfeito e Shun foi tomado pelo horror.

Radamanthys sorriu e fez sinal para Hyoga adiantar-se e ouvir o que Hades tinha a dizer.

— Não teme a morte e nem matar seu adversário. Ótimo! Vejo que já traz certa técnica com a espada. Com quem aprendeu? – perguntou o cônsul.

— Com meu pai e nosso mestre de armas. – respondeu Hyoga.

— De onde você veio?

— De outro país.

— E o que o fez vir a Roma?

— Vim procurar meu pai e meu irmão. Fui feito escravo, mas vou conquistar minha liberdade!

— Seu pai e seu irmão já podem estar mortos ou servindo alguém. Você é muito jovem e encontrará gladiadores mais fortes e experientes. Não construa ilusões, escravo. Sirva a mim e terá alguma recompensa.

— Pode até ser, mas ainda assim vou lutar para ganhar minha liberdade e procurá-los. A última coisa que eu disse ao meu irmão foi que nós dois faríamos uma dupla. Ele com a palavra e eu com a espada. Mesmo sendo mais velho, Camus sempre preferiu estudar e tornar-se um homem culto.

— O que disse? Como se chama o seu irmão?— perguntou Hades.

— Camus. Ele se chama Camus Rufus.

Ao ouvir aquilo, Hades quase não se conteve. Os deuses estavam a seu favor! Aos poucos, sua vingança adquiria outros elementos, cada um integrando-se, perfeitamente, em seus planos, como se fosse uma obra de arte...

— Pois bem, a partir de hoje, você e seu companheiro serão integrados à Ludus Maxima e serão gladiadores a serviço do imperador, assim como meus guardas pessoais. Shura mostrará suas celas. Estão dispensados. – disse o cônsul.

Hyoga encarou seu novo dono e Shun que permanecia tenso, ao lado dele. Será que são pai e filho ou são amantes? Pensava o jovem quando Kraken puxou-o pelo braço e ambos acompanharam Shura.

Shun sentiu-se perturbado com aquele olhar ostensivo. Sentia-se tão fora de sua rotina que nem associara o jovem gladiador ao amigo ruivo de Afrodite. A única coisa que martelava dentro de si era o clima violento que cercava Hades e tudo ali.

Quem aquele moleque pensava ser para encará-lo daquele jeito?Por acaso se sentia o máximo porque fora capaz de matar sem piedade?Selvagem imbecil! Nunca mais queria vê-lo ou qualquer um daqueles animais que se autointitulavam gladiadores!

— Acostume-se, ainda vai ver muitas lutas. – disse Hades percebendo o desconforto do jovem.

— Não pode me obrigar a assistir esses... Esses espetáculos deprimentes!— falou Shun, irritado.

— Deixe-me deixar uma coisa bem clara entre nós... Eu o trato como meu hóspede e você age como um. Se eu necessitar de companhia para assistir os jogos, você será esta companhia... Do contrário, terei que mudar meu comportamento e também as regras que criei. Fui claro? – disse Hades se aproximando dos lábios entreabertos de Shun.

A proximidade fez o jovem estremecer, porém Hades não avançou e sim se deliciou com o medo que sentiu nos olhos do jovem. Gostava disso, do poder perturbador que possuía e a forma como Shun reagia, ora enfrentando-o, ora demonstrando sua inocência... Seria prazeroso iniciá-lo devagar, deixá-lo cheio de expectativa... Teria que ser paciente. E agora que tinha mais um trunfo para realizar a sua vingança, tudo mais poderia esperar e ele poderia, até, permitir-se ser magnânimo!

— Agora deixe-me, tenho muito a fazer. Aproveite o dia para ler, quem sabe escrever os poemas que tanto gosta... Mas, sem esquecer que está a meu serviço. – completou Hades se afastando.

Shun viu o cônsul desaparecer pelo corredor amplo e fechou os olhos. De repente, o olhar do jovem lutador imiscuiu-se em seus pensamentos e ele teve de lutar para afastá-lo. Odiava Hades, odiava a violência, odiava aquele gladiador e odiava a si mesmo!

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Camus continuava suspenso e nu. Sentia coceira e ardência em sua pele, além de uma dor crescente em sua garganta, mas recitava para si mesmo a mesma frase que se tornara sua oração pessoal desde que fora feito escravo: Frio como o gelo, intocável como a neve...

Hades descia até a cela quando a escrava corria ao seu encontro com os olhos arregalados.

Domini, fui levar a comida e encontrei o carcereiro morto. O outro fugiu! – disse ela.

O cônsul estreitou os olhos. Tinha instruído o carcereiro a violar Afrodite e mantê-lo junto à Camus, usando-o como um instrumento para atingir o ruivo em suas emoções. Como Afrodite teria escapado?

Sem perder tempo com divagações, Hades entrou na cela e encarou Camus. O imprevisto seria um incômodo, mas tinha uma peça importante para jogar com o ex-escravo.

— Vejo que seu amigo escapou... – disse Hades empurrando o corpo do carcereiro com o pé e fitando Camus.

Camus não falou nada, apenas continuou recitando, mentalmente, sua prece.

— Muito bem, veremos até onde seu amigo consegue chegar... Na verdade, creio que esta fuga se tornou, deveras interessante... Quando seu amante souber da sua prisão, ficará ainda mais perturbado e virá mais rápido. Enfim, tudo está bem, quando acaba bem!

— Milo não é idiota... – falou Camus com dificuldade. A garganta cada vez mais inchada.

— Mas é claro que não... E é isso que torna esse jogo interessante. Cuide-se, ex-escravo. – disse Hades deixando a cela.

A atitude do cônsul já antevia que algo iria acontecer e Camus tentou manter a calma em meio à dor. A manhã transcorreu sem novidades. Ele foi deixado sem água e sem alimento, como já tinha acontecido. Isso o enfraqueceu e o deixou em um estado letárgico, onde perdia a consciência de tempos em tempos.

Quando chegou a noite, a porta se abriu e alguém lhe deu água para beber. Camus abriu os olhos e viu a mesma escrava que havia encontrado o carcereiro morto. Ela nada disse, evitando olhá-lo nos olhos e, quando deixou a cela, levou a tocha que trouxera para iluminar o caminho.

— Por favor... deixe... a luz... – pediu Camus.

A escrava olhou-o com piedade e falou baixo:

— Está bem... Mas, seria melhor... que não visse nada.

— Não... ver... O quê? – perguntou Camus.

— Não posso dizer. Desculpe. – respondeu ela deixando a cela.

Camus respirou o mais fundo que podia e preparou-se. No entanto, quando ouviu a cela se abrir e as vozes fazendo algazarra, ele sentiu-se gelar por dentro. Sabia o que iria acontecer e duvidou da sua capacidade de suportar...

— Olhem só! Não é que o ruivo é gostosinho... – disse um homem corpulento, cujos braços enormes e parecendo desproporcionais ao corpo, renderam-lhe o apelido de Polvo Negro.

— Pena que a ordem foi de, apenas, sentir o material... — falou outro.

Houve um coro de risadas e apenas dois não estavam rindo: Hyoga e Kraken. Novos ali, os dois não entendiam o porquê da ordem. Hades os mandara abusar do prisioneiro, sem, no entanto, violentá-lo. Tanto ele, quanto Kraken ficaram de fora, observando a corja revezar-se na atitude covarde e pensando quem seria a vítima.

Mãos grosseiras e calejadas acariciaram o corpo de Camus, assim como dentes o morderam, deixando marcas, e línguas o lamberam de forma obscena. O ruivo tentava mover o corpo e escapar daqueles toques que o enojavam, mas preso, como estava, seu corpo ficara entregue ao abuso e isso o desestruturou, fazendo-o sentir pânico.

Tirem... as mãos de mim! – gritou Camus com um esforço considerável, sentindo a garganta doer ainda mais. Porém, como resposta o gladiador chamado Alcion e que começara tudo, afastou-lhe as nádegas e enfiou dois dedos em sua entrada, fazendo-o retesar o corpo de dor e vergonha.

— Isso puto! Aproveita, porque Hades não deixou a gente meter o pau nesse seu rabo, mas não falou nada dos dedos ou outras coisas... – falou o homem gargalhando.

Camus tentou, mas não conseguiu segurar uma lágrima teimosa que escorreu pelo seu rosto. Era humilhante e o fazia retroceder ao passado, quando sofrera a mesma ameaça, porém tivera a sorte de não ter sofrido a invasão de seu corpo como sofria agora...

Hyoga não soube o porquê, mas ao ver a angústia do ruivo, adiantou-se e colocou-se na frente do prisioneiro.

— Chega!

— O quê? Quem você pensa que é garoto? Tá chegando agora e quer dar uma de galinho de briga, é? – indagou o homem corpulento.

— Me enfrenta amanhã e eu te mostro. – respondeu Hyoga entre dentes.

— Sai da frente! – vociferou o homem.

— Fica na tua, grandalhão... As ordens de Hades foram claras e nós dois vamos fazer cumprir o que ele mandou. Era só pra brincar com o cara e vocês já fizeram isso. – disse Kraken bem sério.

Os outros se olharam, enquanto o grandalhão ainda bufava. Hyoga sustentou a atitude e Kraken também, embora ambos soubessem que, a partir dali, ganhariam inimigos mortais dentro da ludus.

Uma energia tensa pairava no ar e logo, os gladiadores resolveram, por bem, deixar a cela do prisioneiro e retornar para as suas. Alcion encarou Hyoga com raiva, mas desistiu de continuar.

— Nos veremos amanhã, fedelho. Vou colocá-lo em seu lugar. – disse o gladiador.

Hyoga não respondeu. Junto com Kraken, foi o último a deixar a cela. A cena daquele homem nu e com marcas pelo corpo o fez sentir-se mal e incomodado. Não gostava de Hades, mas a Ludus Maxima era a sua oportunidade de voltar a ser livre. Portanto, tinha de engolir certas coisas por um bem maior, mas ainda assim, conseguira evitar maiores danos àquele homem.

— Eu sinto muito. – disse ele à Camus.

O ruivo tentou responder, mas sua voz não saiu. Sentia a garganta doer e o corpo tremer de forma incontrolável. Queria mostrar gratidão, mas já não enxergava direito e sua mente estava confusa. Murmurou um obrigado sem saber se o garoto ouvira, pois sua voz estava reduzida a um fio.

Quando a escuridão o envolveu, Camus mordeu o lábio até sentir o sangue fluir e então continuou a recitar a prece que o impedia de entregar-se à dor e ao desespero que pedia passagem dentro de si: Frio como o gelo, intocável como a neve...

Ainda recitava, mentalmente, quando Hades retornou.

— Vejo que recebeu visitas... Como se sente sendo desejado com tal vigor, Camus? – Ah, esqueci que você é um servus manus... Ou seria...? Amante do gladiador mais famoso de Roma. Scorpionis o satisfaz, plenamente, ou você está aberto a novas experiências? – perguntou Hades.

Camus encarou-o, tentando manter-se firme. Não daria o prazer à Hades de vê-lo tremer, mas sentia a garganta apertada e a pele em fogo. Queria dizer algo, mas as palavras não saíam. Hades se aproximou dele, olhando em seus olhos e percebendo a fraqueza pela falta de alimento.

— Sua beleza permanece... incrível como resiste, ex-escravo... Sei que gostaria de falar algo, mas sua garganta dói, não é mesmo? Sim, eu sei. Aqueles insetos que o picaram vieram do Egito, uma espécie de formiga considerada sagrada e... venenosa. Uma picada produz, somente, ardor e desconforto. Porém, várias, desencadeiam uma reação lenta e dolorosa no corpo. Primeiro, você sente sua garganta fechar pelo inchaço e não consegue engolir, nem falar. Depois vem a febre e você perde o controle do corpo, mas continua consciente. Você saberá, exatamente, o que está acontecendo. Porém, não poderá falar ou se mexer.

Camus fez um esforço sobre-humano e sua voz saiu baixa e rouca, mas ele conseguiu falar.

— Faça o que... fizer... você é... um homem morto!

Hades riu.

— Seu amante não me encontrará desprevenido, se é isso que pensa. Ah, esqueci de lhe dizer, Camus... Hoje incluí dois gladiadores na Ludus Maxima, jovens combativos que farão a minha guarda pessoal e, certamente, enfrentarão o grande Scorpionis. Um deles é muito interessante, pois veio de um país distante à procura do pai e do irmão mais velho... Se minha memória não falha, o nome dele é... Hyoga.

Ao ouvir o nome do irmão, Camus se retesou nas correntes, machucando ainda mais a pele clara e produzindo uma angústia que quase o fez gritar. Hyoga! Meu irmão... Então, aquele jovem que me protegeu... Era Hyoga. Deuses tenham piedade!

Hades deliciou-se com o horror estampado nos olhos rubros de Camus.

— Ah, Camus... não se preocupe. Amanhã cedo, nós saberemos quem é o melhor: seu irmão ou seu amante. Agora descanse... quero vê-lo bem disposto para o grande encontro! – disse Hades deixando a cela.

Quando seu corpo voltou a ser engolido pela escuridão, Camus não resistiu mais e permitiu-se chorar de dor, de raiva e de medo por aqueles que amava.

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Milo e os outros deixaram a cabana e partiram para Roma, enquanto Albafica arrumava tudo e ministrava uma infusão à Saga, antes de partir também. Logo os dois deixariam a cabana e seguiriam em frente, pois o local não era mais seguro para nenhum deles. Aída lhes oferecera pouso em sua casa, mas Petrônio fora contra. Não vamos arriscar nossas vidas por um bando de fugitivos! Eu os quero longe daqui ou eu mesmo exigirei minha recompensa por encontrá-los!

Temendo que o marido cedesse à tentação e buscasse a recompensa oferecida, Aída indicou, em segredo, outro local onde os dois poderiam ficar até a volta dos gladiadores.

— Minha mãe ganhou essa propriedade em um lugar ermo nas montanhas, perto do templo abandonado de Baco. São dois dias de viagem, mas creio que ficarão protegidos até a volta de Milo. – disse ela.

— Está sendo muito generosa, domina. Não sei se... podemos... – falou Albafica.

— Quando eu era, apenas, uma menina, Milo salvou a mim e meu irmão de sermos violentados por um soldado romano. Eu devo isso a ele. – disse Aída.

Albafica conhecia a natureza humana e foi fácil perceber que Aída sentia mais que gratidão por Milo.

— Obrigado, domina. — respondeu ele, de forma respeitosa.

Aída os ajudou a arrumar alimentos e roupas para levar, enquanto Petrônio tinha ido descarregar os mantimentos que trouxera de Roma e nem imaginava que sua mulher o estava desobedecendo ao ajudar os fugitivos.

Quando tudo estava pronto, os dois partiram e Aída voltou ao seu pequeno mundo, ao qual pertencia o filho, a vida doméstica e o marido a quem devia submissão. Com um suspiro ela deu-se conta que o tempo era implacável e não haveria mais espaço para os sonhos dourados da sua juventude...

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Seus olhos tinham se acostumado ao negror da noite sem estrelas. Milo cavalgava pelo caminho que levava a Roma sem paradas e sem descanso. Em sua mente, só uma intenção: libertar Camus e Afrodite e matar Hades. Como fazê-lo? Bem, ele também tinha os seus planos. Sabia que Hades o esperaria com uma armadilha muito bem planejada, algo cruel e perversa como a sua mente.

Pois muito bem... Veremos o quanto ele está disposto a perder para levar sua perversidade até o fim... Pensava Milo, enquanto batia os calcanhares na barriga do cavalo para que corresse mais depressa.

Máscara da Morte o acompanhava, assim como Aldebaran e El Cid. Juntos, os quatro iam em silêncio e concordavam na pressa em chegar antes do amanhecer.

O plano de Milo era ousado e uma quase sentença de morte. Entretanto, os três tinham que concordar que o gladiador os havia surpreendido com aquela ideia.

Quando encontrasse o cônsul, novamente, estariam em pé de igualdade e Milo não descansaria até terminar de uma vez por todas com Hades e qualquer um que se intrometesse em seu caminho. Mexer com ele, era uma coisa. Matar e machucar quem ele amava era assegurar a passagem para o Inferno!

Notas finais
Agradecimentos especiais: GINA CHASE, DOCE AMARGA, KAO, ANGELIQUE, SHALL, CIÇADF, HINATAILOVE, MILILIKA, LUCYSTAR83, MEL DARK, FNANDA, HITSUJIKA ATSUYA, MISSFIC, NANEYAGAMI, TUANY e quem mais chegar em silêncio!! Bjs e obrigada pelo carinho. Sempre lembrando que posso demorar um pouco, mas responderei a todos os reviews, ok?