A Cólera Dos Deuses

1 Capítulo 1 PRÓLOGO


Notas iniciais
****O prólogo é curto e tenso, apenas uma introdução a esta segunda temporada da fic Entre o Amor e a Espada. **** As fics podem ser lidas em separado, mas para entender o que acontece, daqui para a frente, é melhor ler a primeira temporada, antes. **** A inspiração continua sendo a série Spartacus ( com ansiedade para que chegue a terceira e última temporada da série no Brasil) ****Embora seja uma fic que se passa na Roma antiga, uso uma mistura da linguagem da época com a linguagem contemporânea. **** Obrigada, a todos por viajarem comigo e tornarem esse projeto possível!!!XD

A chuva forte caía, inclemente, e a água escorria pelas ruas de Roma, lavando o sangue derramado, horas atrás...

Era a festa da Lupercalia que simbolizava a purificação que acontecia em Roma a cada final do ano. Um corpo especial de sacerdotes, os luperci sodales eram eleitos entre os patrícios mais ilustres da cidade e a festa tornava-se ritualística e barulhenta com açoites, gemidos e gritos.

Na data prevista, os lupercos daquele ano encontravam-se em uma gruta especial para sacrificarem dois bodes e um cão e serem ungidos na testa com o sangue limpado da lâmina do sacrifício. Após a cerimônia, vestiam-se com o couro dos animais, simbolizando Fauno Luperco, conhecido como deus Pã, do qual arrancavam tiras, chamadas februa e as utilizava como um chicote purificador.

Os escolhidos como sacerdotes eram autorizados a chicotear o povo, em especial as mulheres inférteis e os homens tomados por más ideias e maus espíritos... Não havia diferença entre nobres e plebeus, todos estavam sujeitos aos atos e autoridade destes luperci sodales cujo poder era referendado pelo governante.

Neste ano, um dos sacerdotes era representado por Hades, escolhido pelo próprio Titus e recebendo plenos poderes como purificador...

Sob a liderança do cônsul que aumentara seu prestígio junto ao Imperador e aos patrícios por defender a supremacia elitista das casas nobres e a necessidade de manter escravos para servi-los,o que antes era uma festa religiosa e simbólica, se constituiu em um meio de reprimir revoltas, erradicar ideias anarquistas e livrar-se dos inimigos políticos e pessoais.

E foi assim, que a domus que outrora fora um exemplo de requinte e prosperidade, agora jazia silenciosa e imersa em sombras fúnebres que dançavam sob os clarões do fogo em contraste com a chuva fria.

Fogo, destroços, corpos e sangue... Uma cena macabra, cuja tragédia já tinha sido anunciada desde que os escravos que a habitavam foram libertos e Saga tornara-se o primeiro nobre romano a considerar e tratar um ex — escravo como alguém que possuía todos os direitos de um cidadão.

Apesar de ser um homem bem quisto pelo senado, as ações libertárias do cônsul acabaram por ofender o Imperador, amedrontar os patrícios que tinham, no trabalho escravo, a fonte de suas riquezas e dar a chance perfeita de vingança ao inimigo...

Gemini foi incendiada! Mataram todos!

Vozes anônimas gritaram na noite chuvosa, muitas das quais, haviam sido acolhidas pelo homem que jazia nu e humilhado entre a guarda pretoriana.

Não, o cônsul foi preso e se o condenarem, será crucificado... — a voz agora era de um idoso cujos olhos esbranquiçados não mais enxergavam.

Ele foi longe demais... Os deuses não perdoam aquele que se considera igual a eles! — murmuraram outras vozes, cada vez mais distantes, cada vez mais amedrontadas...

Hades observava Gemini queimando, as chamas refletindo nos olhos frios e na pele de lobo que o identificava como luperce. O homem que se tornara não só o braço direito do Imperador, mas também, seu executor, finalmente, começava a saborear a queda do homem que ousara humilhá-lo... E ele estava apenas, começando!

Suas mãos estavam ensanguentadas, mas ele não se importou. Ainda estava vívido em sua mente a entrada triunfante na domus de Saga e a surpresa visível no olhar desafiador do homem cuja arrogância ele teria prazer em espezinhar, assim como fazer pagar pela traição, sua antiga aliada, a esposa vil que agora defendia o marido com unhas e dentes.

— Você não tem o direito de invadir a minha casa! – gritara Saga.

Pena que nossos homens não estejam aqui! Até o mais fraco deles o colocaria para fora em piscar de olhos!— dissera a rameira.

Foi então que ele ordenou à guarda que prendessem os dois e Saga tentou reagir, sendo contido pelos homens de forma violenta. A rameira gritou ainda mais alto e quando a esbofetearam para que calasse a boca, ela cuspiu e gritou, novamente:

— Sabe o que mais me deixa feliz, seu merda... É saber que mesmo nos tirando tudo, a sua vitória nunca será completa. Deixe-me contar um pequeno segredo... Fui eu quem envenenou o Minos!

Ele havia estremecido ao ouvir aquela confissão, mas permanecera ereto e frio, engolindo cada palavra, enquanto apertava o chicote na mão e sentia o gosto corrosivo do ódio em suas entranhas.

Aproximando-se dela, agarrou-a pelos cabelos e largou o chicote, substituindo-o pelo punhal que um dia pertencera à Minos, uma lembrança que tomara para si.

Encarou-a, enquanto ela continuava:

É, seu merda orgulhoso, fui eu! E tive muito prazer em enviar aos Infernos, aquele idiota filho da puta! Menos um veado mal comido e orgulhoso no senado romano e na sua cama. No final, mesmo que nos mate, você perdeu Hades! Homens como você sempre perdem seu canalha pervertido!

Ela o encarara sem medo, mesmo quando ele enfiara o punhal tão fundo quanto possível.

Uma, duas, três... sete, oito, nove...dezesseis, dezessete, vinte punhaladas até o sorriso diabólico que ela lhe deu e o eco maldito daquelas palavras se esvair com o sangue!

O corpo dela estremeceu e oscilou, mas ainda assim seus olhos continuaram a encará-lo com escárnio...

Vadia! Iria vagar, para sempre, nos Infernos!

Então, mais música para os seus ouvidos... Os gemidos de Saga e o olhar desesperado e incrédulo dele, quando os soldados o espancaram e o punhal ensanguentado com o sangue da sua mulher foi limpo em suas vestes. O chicote, mais uma vez foi usado até que a carne macia do cônsul se rompesse em lacerações sangrentas e a inconsciência tomasse conta do seu corpo.

Ah, Saga... Não sabe o quanto esperei por esse momento!

A dor e a humilhação uniram-se à escuridão. Saga já não mais ouvia, seu corpo dilacerado era arrastado pelos soldados, enquanto a multidão olhava com sentimentos controversos.

Não havia ninguém para clamar por ele, nem mesmo aqueles que ele libertara. O plano de Hades fora bem engendrado, todos estavam longe e Saga, sozinho.

Kanon havia sido enviado pelo próprio Imperador em uma missão de resgate das tropas que haviam sido vencidas pelos gauleses. Os gladiadores da ludus haviam se dirigido ao Monte Vesúvio para uma benção especial que era dada aos que lutavam na arena a mando do Imperador e seus amigos, agora também livres, acompanhavam para festejar e receber a purificação dos Luperci.

Um brilho maquiavélico vibrou nos olhos assassinos de Hades, assim como seus lábios bem desenhados ensaiaram um sorriso. Dizia-se que o fogo era purificador. Júpiter, Marte, Vulcano... Todos eles se beneficiavam do fogo, seja na tempestade, espada ou forja... Então, uma ideia perversa e luminosa tomou espaço em sua mente...

Levem o traidor e queimem tudo! Que não sobre pedra sobre pedra desse antro de perdição! Ordenou Hades e, de imediato, as tochas que acompanhavam a procissão, atearam fogo à domus enquanto o cônsul usufruía, prazerosamente, da primeira parte de sua vingança...

Notas finais
Agradecimentos a todos que acompanharam a primeira temporada!!! Carlos Sama, obrigada pela recomendação de Entre o Amor e a Espada!!! E a todos que acompanharem esta temporada, ativa ou silenciosamente, o meu muito obrigada!!XD