A Busca
1 Cap 01 - A proposta
Notas iniciais
Música… Sempre um tom acima do necessário, para divertir como a encobrir conversas difusas. Ela estava no fundo, mesa para dois, ainda assim a cadeira extra ocupada com um monte amorfo escuro, que chamava de vida. Afinal, tudo lhe cabia bem ali, roupas, sonhos e um desejo profundo de saber. Estava na taverna fazia alguns minutos, remoendo os meses passados. Um ano antes, o visitante lhe dera a tarefa, o sonho louco de descobrir a história destes personagens improváveis e sua busca pela felicidade.
Quando ouviu os nomes, concluiu que o contratante estava louco, ou muito inventivo, porém o olhar determinado e profundo, calou sua risada e selou o destino dali em diante.
Percorrendo um país gigante, tão distante quanto um outro mundo e próximo a ponto de se poder encontra-lo na próxima esquina…
Sabia a verdade sobre o atendente da loja de penhores na rua do canal, a garota que sentava ao lado de desconhecidos no trem da linha cinco ou a moça sentada na taverna movimentada com todos os seus sonhos numa mochila surrada. E tudo isso fora pela história…
Reflexões dolorosas lhe toldavam o olhar a tal ponto de ignorar a presença de seu novo companheiro. Quase uma sombra, trajando preto na camiseta e jeans, um casaco jogado sobre o ombro. Empurrou a Vida para o chão em silêncio.
Seus olhares se cruzaram. Ela sorriu, ele retribuiu, mas em sua face os lábios e dentes exprimiam um perigo maior, uma intenção selvagem.
— Então? — A voz grave não teve dificuldade de chegar aos ouvidos dela, mesmo tendo de passar a cacofonia ambiente. Um truque que ela aprendera com o Homem do Penhor em troca de alguns dentes.
— Tenho a história. — Seus olhos não se desviaram dos dele. — Eles não estão mais entre nós e seu legado em Salvador terminou.
O olhar negro, aguardava mais. O silêncio entre eles foi adensando.
— E? — A pergunta pairou.
Um cacho escuro escorregou do coque mal feito, e cuidadosamente ela o colocou atrás da orelha. Havia calculado tudo para aquele momento. Quando ele a colocara naquela busca, foi uma alma inocente, mas já não era mais isso. Perdera muito mais do que pertences e tempo. Se ele queria negociar, desta vez ela conhecia as regras.
— É isto. O que me foi pedido. — Segurou o sorriso.
Um observador desavisado, poderia imaginar que havia um flerte entre o sorriso contido dela e o interesse intenso no olhar dele, mas nada estaria mais distante da verdade. Uma caçada, com certeza, mas presa e predador estavam trocando de lugar.
— Você realmente acha que pode me enganar? Esqueceu o que está em jogo aqui? — O tom era um pouco mais incisivo do que realmente deveria.
A moça, trocou o peso do corpo, entre um cotovelo e outro na mesa. Mexeu o copo pela metade do líquido escuro, que conquistara o direito de pedir, como alguém fragmentado. Testava, silenciosamente o aperto do seu Contrato… as mãos já livres do tremor e os pés livres das dores.
Ele estava mentindo. O que era a única coisa certa. Já havia pago, como lhe ensinara a Garota do Trem, pela lembrança de seu primeiro beijo e um guardanapo perdido. Tudo que precisava era fazê-lo devolver o que lhe tirara. Mesmo que isso fosse a coisa mais perigosa com os do seu tipo.
— Eu lhe disse o que me pediu para encontrar. A história. E se havia algo em Salvador. Nosso Acordo está cumprido e pelo que posso ver, você sabe muito bem disso…
A mão de dedos longos, cheia de tatuagens escuras, em contraste com a pele clara, quase giz, fechou-se em seu pulso. O toque cheio de gelo e dor. Era preciso resistir ao máximo. Toda ameaça dele, não lhe doeria mais do que fora roubado.
— Quer negociar? — Apertou mais e mais. Os nós dos dedos brancos pela força. — Eu posso arrancar essa história de você, como uma aranha suga a vítima. Você é minha Buscadora, entendeu? Me pertence! E esta história é MINHA!
Quase gritou. Mas a canção de cura, murmurada, ajudou a suportar, quando a mão se retirou, deixando linhas escuras na pele morena.
— Ela é minha! Porque eu a conquistei. Não importa o que diga. Me devolva o que é meu e lhe darei a história.
Algumas pessoas começavam a fitar a discussão. Um dos seguranças esperou pelo pedido dela, mas tudo que veio, foi um manear de cabeça. Já arriscara demais, para colocar outra pessoa em risco.
— Muito bem. — O olhar estava ainda mais sinistro. — Jogue comigo…
— Eu… — Não podia desistir. Não agora. — … Pelas leis de Antes, nosso Acordo foi cumprido. Minha dívida está paga.
Amargo, ele assentiu, pois as palavras foram ditas corretamente.
— Seu débito comigo, Buscadora, está pago. — Fez menção de levantar-se. Foi a vez dela de tocar a pele fria e marcada. — Sim?
— Desejo uma barganha.
Ele fingiu desinteresse. Queria ver onde aquela audácia iria.
— A história será sua, com um Mediador para atestar que lhe entreguei o prometido… Em troca quero meu nome.
Fale com o autor