A Busca

49 A moça do retrato


Notas iniciais
Mais um capítulo na caça à Rumiko.

Filiação britânica da Agência Central de Inteligência. Os membros mais competentes da organização estudavam um caso comum de corrupção recente nas terras americanas, quando o diretor supremo da divisão, que acompanhava o caso pessoalmente, recebeu a notícia de um dos funcionários sobre uma ligação telefônica urgente.

─ Urgente? – o homem questiona – Quem é?

─ É o diretor da Nerak’ Force.

─ Mas o que aquele moleque quer?

─ É melhor ir atender, senhor – diz outro responsável por aquela filiação – eu continuo o trabalho aqui.

─ Saco! Se esse pivete não fosse irmão de Flousey eu ia mandar ele pastar.

O diretor da divisão inglesa da CIA era um homem de barbas cheias, quase brancas. Com o rosto marcado e surrado pela idade, que não era muita, mas que foi carregada de trabalho árduo e exaustivo. Ele vai até uma sala de vidro e metal, fecha a porta de fibra, pega o telefone e atende em inglês:

─ Diretor da filiação britânica da CIA falando.

─ Diretor. Aqui é o diretor da Nerak’s Force.

─ Eu sei. O que você quer?

Antes de continuar, Jay Lee pede para o diretor da CIA falar em português, porque seu inglês não era tão bom, porque queria se fazer entender completamente e principalmente, porque tinha medo de comprometer a conversa. Então pergunta já no idioma de Vera Cruz.

─ Vocês nos enviaram todas as fotos do caso Gengetsu?

─ Caso Gengetsu, caso Gengetsu... – o homem tenta se recordar – Sim, conforme nos foi solicitado pela DeWars. E já que foi seu “precioso soldado” que ficou com o caso, para que motivo nós iríamos querer as fotos?

Jay Lee vira o rosto, tampa a boca do microfone e resmunga:

─ Metido desgraçado.

O rapaz não gostava do modo como a CIA e outras organizações enfatizavam as palavras referentes à Flousey, porque faziam de um modo para jay Lee perceber que, sem sua irmã extraterrestre, a corporação Nerak não era de nada. Ele respira fundo e volta à falar no telefone já em tom de provocação:

─ Eu não sei se fizeram de propósito, mas acho que vocês ficaram com uma foto do caso. Uma foto muito importante.

─ Uma foto de quem?

─ A de uma moça chamada Rumiko. Acho que ela era uma faxineira ou cozinheira de Gengetsu, mas agora precisamos do depoimento dela sobre um caso.

─ Nós lhe enviamos todas as fotos retiradas do caso Gengetsu, diretor.

─ Então nem mesmo vocês da inteligência da Inglaterra têm fotos de Rumiko? Que lástima.

Desta vez foi o diretor da CIA que ficou com vontade de xingar, mas se o fizesse, ele não iria tampar a boca do telefone. Então ele responde com certa firmeza na voz.

─ Caso vocês da Nerak e seus amiguinhos da DeWars não saibam, só existe uma foto de Rumiko. E essa fotografia só existe, porque foi tirada pelo próprio Gengetsu.

─ O quê? Como você sabe?

─ Não levamos a palavra “inteligência” na nossa sigla de brincadeira.

─ Vocês... vocês ainda têm essa foto por aí?

─ Como eu disse, por ordem da própria DeWars, enviamos à vocês todas as fotos do caso Gengetsu. Mas em todo o caso, vou ver se temos algumas cópias por aqui. Me dê dois minutos.

Jay Lee fica no aguardo enquanto ergue a mão e pede um copo de café forte para uma funcionária da corporação que via pelo vidro de sua sala. O diretor da CIA senta-se diante de um computador enorme, que era ligado com o computador central da corporação, o qual por sua vez, continha uma assustadora rede de informações sobre pessoas de vários cantos do mundo.

Ele filtra as buscas por caso, depois por data e depois por nome. Até que chega no caso Gengetsu. Então abre uma janela de busca e tecla “Rumiko”. A resposta veio mais rápido do que ele esperava.

─ O quê? – o homem aproxima-se da tela escura do monitor, fitando confuso a resposta da busca que dizia “not found”.

O diretor então abre o diretório manualmente e faz sua busca, pasta por pasta.

─ Não está aqui? Mas como...? Como é que...?

O homem ergue o telefone ao ouvido e começa a falar:

─ Alô, diretor?

─ Sim, estou na linha – responde Jay.

─ Não está mais aqui. Nem a foto e nem os parcos arquivos sobre essa pessoa chamada Rumiko.

─ Como assim não está mais aí? Para mim você não mandou.

─ Claro que não. Eu lhe enviei o pacote inteiro. Se Rumiko não está aqui então é lógico que também não estaria no pacote que você recebeu. Tínhamos o conhecimento de que havia arquivos de Rumiko no pacote, mas parece que eles nunca existiram.

─ Tudo bem. Eu queria compará-la com uma foto de Rumiko que tenho aqui. Mas se você não a tem mais, então tudo bem.

─ Onde conseguiu essa foto da qual está falando?

─ Estava dentro do pacote que você me enviou.

─ Com o nome Rumiko?

─ Não! Estava com o nome de...

Subitamente a linha dois de seu receptor telefônico acende, fazendo um som distinto.

─ Espere um momento, diretor... – Jay Lee aperta o respectivo botão da chamada – Pronto!

─ Senhor Jay Lee. Encontramos o carro do presidente. Ainda está em Jaú.

─ Certo. Me envie uma cópia impressa do mapa agora, por favor.

─ Já está à caminho.

Em segundos, o fax de Jay Lee solta uma copia do que a tela do computador do seguro exibia. E Jay Lee rapidamente converte a localização em coordenadas. Então volta à linha principal do telefone, agradece e dispensa o diretor da CIA. Já havia percebido que eles não estavam protegendo Rumiko, como suspeitou de início.

Retornando à linha dois, onde aguardava a companhia de seguro do senado, ele ordena com veemência:

─ Certo! Já o localizei pelo mapa. Agora travem o carro imediatamente.

─ Travar o carro, senhor?

─ Isso mesmo. Portas, janelas, tudo! Travem o carro.

─ Mas é o carro do presidente.

─ A corporação Nerak assume qualquer responsabilidade. Agora, trave a droga desse carro.

─ Tudo bem, tudo bem... Já estou entrando com os comandos.

Resmungando de irritação, o diretor da Nerak desliga o telefone e pega seu comunicador, com contato direto à sua irmã.

─ Flousey? – ele diz em voz alta, incomodado com o barulho do vento que soprava no local onde a nerakyana estava, que era no topo de uma enorme antena, ao píncaro de um arranha-céu.

─ Fala Jay, estou ouvindo.

─ Já tenho as coordenadas do automóvel de Velasqueses e já mandei travar o carro. Vá para o extremo norte do estado.

─ De novo? – retruca Flousey num tom baixo, com a intenção de que seu irmão não ouvisse.

No entanto, ele responde:

─ Sim, de novo. Volte para onde você estava e me avise quando estiver chegando. Eu lhe darei o local exato de onde o carro está.

─ Maravilha! Já estou indo!

Em questão de minutos, Flousey chegou ao local indicado. Considerando de que ela estava sempre pronta a alçar voo, não havia nenhum outro meio de transporte que fosse tão rápido. Entretanto, ao chegar no local, veio a surpresa, que não foi tão desagradável porque já era esperada. O cadilac do presidente estava vazio e, como não havia sinal de luta ou arrombamento, significava que ele já estava vazio quando foi travado pela empresa do seguro. Isso já era esperado, porque o carro seria rastreado automaticamente após duas horas caso o veículo saísse do estado sem se notificar. Então seja lá quem fosse que roubou o carro, deveria ter conhecimento político para prever isso. E todos sabiam, ou pelo menos desconfiavam que Rumiko era uma assassina política.

O que mais irritava Jay Lee era que, de acordo com os relatos de Flousey, o carro havia sido limpo com alguma substância perfumada e eficiente, diminuindo totalmente a possibilidade de se encontrar digitais. A corporação Nerak já tinha em poder a adaga usada para matar Lomar e, nela, as impressões da suposta assassina, mas Jay queria ter certeza de que o assassinato de Lomar e o de Velasqueses foram cometidos pela mesma pessoa. Coisa que agora não seria mais possível.

Jay Lee ordena que Flousey permaneça no local, aguardando o pessoal da perícia que já estava a caminho e usasse a fotografia da suspeita para ver se algum morador local a teria visto. Não havia mais nada para ela fazer além disso. Mesmo ele não sabia mais o que fazer. Então mordia a ponta de seu lápis, com os pés jogados sobre a mesa, visivelmente irritado com o fato de sentir que corria em círculos enquanto o criminoso fugia em linha reta.

─ Ela ta brincando com a gente – resmunga ele, apertando o lápis nos dentes.

O rapaz estica a mão até o aparelho de comunicações ao lado telefone, na intenção de pedir mais um copo de café, mas recolhe o braço rapidamente. Ele tinha noção de que já bebera café demais por um dia e isso estava começando a atrapalhar seu raciocínio.

Súbito, seu telefone toca.

─ Senhor diretor! Marisa na linha três.

─ Pode passar – Jay Lee pega o telefone do gancho e espera uns segundos.

─ Senhor Lee? – Diz Marisa com seu jeito típico de falar.

─ Não quero ser rude comandante, mas é bom que tenha uma boa notícia.

─ Tenho uma ótima, dependendo do ponto de vista.

─ Estou ouvindo.

─ Sabe aquela moça do retrato? Aquela que você tinha suspeitas de ser Rumiko?

─ Sim – o rapaz se posiciona melhor, apreensivo.

─ Nós a encontramos.

─ Sério? E onde ela está?

─ Deixa eu ver aqui... hmm…ah, achei! Cova nº 334, Cemitério Oxford, centro de Ipoh, Malásia.

─ Como é que é? – Jay Lee quase grita – Ela está morta?

─ Exato! A moça que você está procurando está morta. Ela morreu alguns anos depois do acidente com o mundo de uma doença grave, que você deve conhecer bem, pois assusta o planeta até hoje.

─ Sei. O vírus D4.

─ Isso mesmo! Ao que parece, Gengetsu não pôde salva-la do vírus, então, para se redimir com os familiares da moça, ele enviou seu corpo para Malásia, sua terra natal. Resumindo, essa moça não é e nunca foi a Rumiko que procuramos.

─ É uma merda! Mas eu já esperava por algo do tipo.

─ Que quer dizer?

─ O diretor da CIA já havia me avisado que aquela moça não poderia ser Rumiko. Ele disse que a foto de Rumiko estava com o nome de Rumiko e não com um outro nome qualquer. Por falar nisso, vocês da DeWars sabiam que só existe uma foto de Rumiko na rede?

─ Sim!

A resposta rápida e sem duvidas de Marisa deixa Jay Lee um tanto abalado. Tanto que ele demora um pouco para voltar a falar.

─ Sabiam? E porque não me disseram?

─ Senhor diretor, você foi o único responsável pelo caso Gengetsu. Se há alguém que deveria saber disso, esse alguém é você, certo?

─ Mas então... Se vocês sabiam que só há uma foto de Rumiko, porque não me avisaram de início que aquela minha suspeita poderia estar errada?

─ Porque diretor, assim como você, nós nunca vimos essa tal Rumiko. Não tínhamos como saber se aquela moça era ou não a nossa suspeita, então nosso dever era procurar. Não estou certa?

─ Sim. Acho que sim. Você ainda tem as fotos do caso Gengetsu?

─ Não! Todas as fotos que recebemos da CIA seriam enviadas à vocês da Nerak. Mas como vocês já as tinham em poder, o comandante Savage mandou apagá-las.

─ O comandante Savage? Por quê?

─ Sei lá. Pergunta para ele. Se quiser eu transfiro a chamada para ele agora mesmo.

Jay Lee ainda pensa na proposta, mas logo desiste. Apesar de também ostentar o mesmo cargo que Marisa, Jay Lee não se sentia tão seguro e confiante quando conversava com Paul Savage, o 2º comandante em chefe. Savage era rústico e direto e tinha um poder de observação impressionante, o que fazia qualquer profissional se sentir um idiota.

─ Não, não. Pode deixar. Só me diga mais uma coisa. Se existiu uma cópia online dessa foto na rede, será que existe ela impressa?

─ Creio que não, diretor Lee.

─ Como é que pode? Como pode uma pessoa não ter nada? Nenhum registro para usarmos como base de pesquisa?

─ Não vejo nada impressionante nisso. Ela não é a única no mundo e o senhor sabe disso.

─ Sim, mas... Como pode ninguém ter guardado essa foto ou alguma informação de alguém tão suspeito?

─ Senhor Lee... – Marisa faz uma pausa, querendo xingar a falta de percepção de Jay Lee – pra começar, Rumiko não era tão importante antigamente. A única foto dessa menina só existe porque foi Gengetsu que tirou. Mas foi tirada na época em que nem mesmo Gengetsu era visto como uma real ameaça.

─ Isso é outra coisa que me intriga. O diretor da CIA também enfatizou isso, dizendo que Gengetsu tirou a foto e tal. O que isso tem a ver, afinal?

─ Eu não acredito muito, mas ouvi dizer que não é qualquer um que pode tirar uma fotografia de Rumiko.

─ Por que não?

─ Não sei. Não sei o que isso quer dizer, por isso disse que não acredito. Mas acho que é porque...

Marisa se cala, pois nesse momento ouvia seu laptop avisar da chegada de uma mensagem eletrônica. Ela pede para Jay Lee aguardar um minuto, vai ao seu e-mail e lê a mensagem com um meio sorriso. Então retorna ao telefone com uma voz mais animada:

─ Senhor Lee! Eu te ligo mais tarde.

─ Aconteceu alguma coisa?

─ Sim! Encontramos Gigo, o sobrevivente do ataque à Velasqueses. Estou indo para lá agora.

─ Espere! Onde ele está?

─ Não se abale. Ele está me esperando para interrogá-lo. Depois eu entro em contato.

─ Comandante...Espere!

A mulher desliga e Jay, irritado, volta a bater na mesa.

─ Maldição!

Em seguida ele liga para o comunicador de sua irmã, que acompanhava o trabalho da perícia no Cadilac do presidente.

─ Pronto Jay!

─ A DeWars já encontrou Gigo. Marisa está indo agora falar com ele. Quero que volte para a base agora mesmo.

─ Voltar? Mas e Rumiko?

─ Estamos na estaca zero. A fotografia que lhe dei não é de Rumiko. Essa pessoa não está mais viva e sequer enterrada aqui em Vera Cruz. Portanto pode jogá-la fora.

─ Então o nome “Rumiko” é mesmo o nome da assassina?

─ Ainda não sei, mas é bem provável. Volte já e vamos esperar Marisa entrar em contato.

─ Certo!

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Gigo olhava para o vazio, fingindo não ouvir as impertinentes perguntas dos policiais da primeira delegacia de Jaú, algumas delas relacionadas à sua espécie. O híbrido estava sentado numa cadeira, atrás de uma mesa de cozinha, com os braços e as pernas presas para trás, por algemas especiais da força de defesa para criminosos de alto nível. Ele não podia reagir ou tentar fugir. Sequer se mover. Mas isso não queria dizer que ele era obrigado a falar.

De repente, o barulho de um carro freando em frente ao barraco é ouvido. Um dos policiais sai na porta e vê que é um Sedan preto, com placa da famosa e sonhada corporação deWars.

─ Chegaram! – ele diz baixinho e depois em voz alta para dentro do barraco – agora você está ferrado, híbrido.

Marisa fecha a porta de seu carro com força e entra com altivez na pobre residência. Era uma casa civil, de pessoas simples e de baixa renda, usada como cativeiro para um criminoso. Isso não era certo. Ela focaliza o local e nota um total de cinco policiais de Jaú. Os homens lhe batem continência e ela, com um aceno de cabeça, caminha lentamente até o híbrido cativo.

─ Olá senhor Gigo – diz ela ao se aproximar.

─ Comandante – responde ele abaixando a cabeça e fechando os olhos em reverência.

─ Está tudo bem? Quer alguma coisa?

─ Eu estou com sede. Disse isso aos seus homens antes, mas eles não se importaram.

Marisa vira o rosto para encarar um dos policiais e pede para ele buscar uma garrafa de água.

─ Sim, comandante!

A mulher faz uma volta na mesa, por trás de Gigo, e percebe as mãos e os pés presos por algemas de alta contenção. Marisa olha de esguelha para outro dos soldados.

─ Por que ele está imobilizado?

─ Ele é um híbrido, minha senhora. É considerado perigoso.

─ Mas ele não trabalhava como defesa para Velasqueses?

─ Hã, bem, sim, mas...

─ Se ele é tão perigoso, como é que o prenderam sem machuca-lo?

─ Bom... ele permitiu ser preso, é verdade, mas...

─ Solte-o! – diz Marisa colocando as mãos na cintura, de modo que o soldado perceba sua irritação.

─ Sim, comandante!

O policial se aproxima de Gigo e solta-lhe as pernas e os braços. O híbrido acaricia os pulsos, sentindo a liberdade e coloca as mãos abertas sobre a mesa, mostrando que não iria tentar nada. Quando o homem enviado para buscar água voltou, três minutos depois, Marisa agradeceu, entregou a garrafa ao híbrido e ordenou sem olhara para os policiais.

─ Tenho dois homens da DeWars que vieram comigo para Jaú. Eles estão na base policial do centro da cidade. Peça para um deles se encontrar comigo aqui. Depois vocês podem voltar para a sua corporação.

─ Um de nós pode ficar com a senhora, se desejar.

─ Não! Eu não quero. Obrigado mais uma vez e façam o que eu disse.

─ Sim, minha comandante.

Assim que Marisa fica à sós com o híbrido, ela pega um documento de várias páginas que trazia num dos largos bolsos internos de seu casaco militar e começa de forma exclamativa:

─ Então o senhor é o guarda-costas que manteve Velasqueses vivo durante todo esse tempo?

─ Eu não era o único, comandante. Tínhamos um grupo de oito soldados.

─ Não seja modesto senhor Gigo. Tenho aqui comigo todos os seus feitos – Marisa folheia algumas páginas do documento – sua brilhante atuação na defesa de Velasqueses no México, seu impedimento de assassinato ao presidente no Peru, sua também brilhante participação na tentativa de mantê-lo vivo nos ataques que ele sofreu quando foi à São Paulo, aqui em Vera Cruz. As atividades de um híbrido genuíno não são fáceis de ignorar. Só o fato de vocês aparecerem em público já é motivo para dar as caras nos jornais.

─ Não fiz nada disso para aparecer ou me promover. A minha função era proteger Velasqueses e, até o dia de sua morte, eu cumpri minha obrigação. Não pode dizer o contrário.

─ Não! – concorda Marisa, ficando de frente para Gigo, do outro lado da mesa – ninguém pode dizer o contrário. Você cumpriu seu papel e, a julgar por quem defendia, você fez mais do que o necessário. Outros de sua espécie o veriam como traidor.

Gigo vira o rosto emburrado. O presidente Velasqueses foi um dos grandes nomes que assinaram a preconceituosa lei conhecida como PdR, a “Pirâmide do Respeito”, cuja qual defendia a tese de que os híbridos não eram nada além de “animais evoluídos” e que portanto deveriam servir os humanos de modo fiel e sem se queixar. Muitos híbridos seguiam essa lei sem questionar, pois é mais fácil de se viver num lugar onde você aceita que outros o tratem como seres inferiores. Mas sempre há alguém que discorde. E esses híbridos que discordam, são vistos como criminosos ou rebeldes, por mais justos e corretos que sejam.

─ Serei punido por não cumprir meu dever, comandante? – diz Gigo ainda de rosto virado.

─ Óbvio que não! Se depender de mim, será até condecorado com a medalha de honra do exército de Vera Cruz. Claro, dependendo do que disser.

─ Dependendo do que eu disser?

Marisa tira seus óculos de grau e de lentes escuras, cerrando os olhos.

─ Quem fez isso, senhor Gigo? Quem matou o presidente Velasqueses?

O híbrido encara os olhos claros de Marisa, depois toma sua garrafa de água até o fim. Em seguida, profere:

─ Acho que já deve saber, comandante. Provavelmente foi a mesma assassina que matou o senhor Armstrong.

─ Rumiko! – replica Marisa, de modo afirmativo, mas esperando uma concordância do híbrido.

E ele concorda, balançando a cabeça e também dizendo o misterioso nome.

─ Rumiko.

─ Pode me contar como foi? Como ela encontrou vocês?

─ Ela já estava lá.

─ No campo de golfe?

─ Sim. Não saberia dizer como ela entrou e nem à quanto tempo esperou, mas ela já estava lá quando chegamos. O presidente não teve tempo de dar nem sua primeira tacada, já que ela veio até nós intrépida e decidida assim que nos avistou.

─ Estava com uma adaga?

─ Não! Ela usava uma espada comum.

─ Uma espada? Uma espada japonesa?

─ Não sei dizer comandante. Mas não era parecida com as de meus companheiros soldados.

─ Pode me dizer como ela era?

─ Como era... “ela”? A espada?

─ Não, senhor Gigo. A assassina. As feições da assassina. Sei que um dos atributos de um híbrido é adquirir memória fotográfica. Sei que você pode descrevê-la com perfeição para mim.

─ As feições dela....? – Gigo abaixa a cabeça e olha para o vazio.

E ergue-se no susto quando Marisa bate na mesa com a mão espalmada e com força quase que suficiente para partir o móvel em dois.

─ Não brinque comigo, senhor Gigo! Você pode descreve-la, não pode?

O híbrido aspira uma boa quantidade de ar, mostrando-se decidido.

─ Sim! Posso sim.

─ Ótimo!

Do mesmo bolso onde estava os documentos, Marisa retira uma caneta esferográfica e um lápis com borracha na ponta. Por fim, pega uma folha em branco.

─ Comece, por favor!

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O clima naquela casa era tranquilo e sossegado. O único som ouvido no momento era da TV que vinha do quarto do velho senhor Smith, ligada em um canal de variedades onde passava um programa de perguntas e respostas. O velho porém, não estava em seu quarto. Continuava do lado de fora da casa, observando um jardim florido e muito bonito, onde borboletas passeavam e pássaros, às vezes pousavam para procurar migalhas de alimentos, que eram jogadas pela dona da casa, Sofia.

Rumiko aproveitou que o dia estava belo e perguntou se poderia lavar algumas de suas roupas no tanque de Sofia, e a mulher não negou:

─ Pode usar a máquina automática se quiser – ela disse.

─ Oh, não senhora. Rumiko prefere lavar com as próprias mãos.

─ Hun... ser jovem e forte é tão bom, não é?

─ Ser forte é bom. Mas Rumiko não entende a preferência da senhora por querer ser jovem.

─ Não tem medo de envelhecer?

─ Rumiko deveria?

─ Bom...não. Acho que não. Mas aproveite bem a vida enquanto ainda é uma criança. Pois a infância e a juventude não voltam mais depois que se vão.

─ Hai! Rumiko fará o possível. Obrigado pela dica.

─ E não demore muito, o almoço está quase pronto.

─ Sim, senhora.

A moça corre para o quarto e pega seu uniforme nipônico completo, em sua bolsa de academia, o qual usou para atacar Velasqueses e Lomar. A luta com Gigo no campo de golfe o deixou sujo de barro e grama, do contrário Rumiko ainda não o lavaria. Ela leva suas peças de roupa até o tanque, onde liga a torneira e o deixa encher e, nesse ínterim, ao se virar, ela percebe a presença do velho Smith, sentado em sua cadeira de rodas em frente à uma das muitas portas do casarão, a qual dava para o pequeno jardim.

Rumiko não sabia exatamente o porquê, mas o velho passava uma tristeza enorme ao seu coração. Ela teve a sensação de que, mesmo sendo o pai do atual dono da casa, ele não recebia o respeito ou a atenção merecida por tal cargo. O velho olhava sempre para frente, portanto não poderia saber que Rumiko estava ao seu lado, embora estivesse distante. A moça, por sua vez, volta-se para o tanque, fecha a torneira e começa a lavar suas roupas.

A essa altura, Roberto, o atual dono da casa, já não estava mais no estabelecimento. Ele trabalhava num campo distante, mesmo tendo o seu próprio para cuidar. Mas o modo como trabalhava era mais útil e necessário para ele, pois trabalhava em seu campo para plantar e colher comida para si e sua esposa, e trabalhava num campo vizinho em troca de um mísero salário, para poder comprar os remédios necessários para seu pai e pagar as contas de água e luz.

Pouco mais tarde, Rumiko teve um almoço agradável à mesa, junto com sua anfitriã, mas sentia falta de algo. E fez questão de perguntar:

─ E quanto ao senhor Smith? Ele não vai almoçar?

A mulher observa Rumiko, sem dizer nada por um bom tempo. Rumiko apenas continua seu almoço, insinuando com sucesso de que sua pergunta não foi maldosa ou capciosa. Sofia, enfim, responde.

─ O vovô Smith não gosta de comer conosco. Como eu disse antes, ele é meio rabugento. Gosta de comer sozinho.

─ É uma pena. Rumiko queria conversar com ele.

─ Já disse que não é uma boa. Ele pode não gostar e te xingar de vários nomes.

─ Ele pode agredir Rumiko fisicamente?

─ Puff – a mulher bufa, quase rindo – ele só tem movimento em um dos braços. E mesmo assim quase não tem forças para move-lo. A única coisa que realmente funciona bem nele é sua cabeça e sua boca.

─ Se ele não pode se mexer muito, então ele não pode ferir Rumiko. E palavras ofensivas não doem.

─ Minha querida. Você não conhece o senhor Smith.

─ Não. Mas se me permite a rudeza, Rumiko acredita ser uma incongruência uma pessoa que é dona da casa não poder almoçar em sua mesa junto à membros de sua família.

Sofia fica abismada com tais palavras e não diz mais nada. Rumiko termina seu almoço, coloca as mãos unidas rente ao rosto e agradece pela refeição. Em seguida, a moça se levanta pegando seu prato e também o de sua anfitriã, que já estava vazio.

─ Permita que Rumiko lave os pratos, senhora. É o mínimo que posso fazer por um almoço tão divino.

─ Hã... oh sim... obrigado.

Rumiko vai até a cozinha e começa seu serviço, com Sofia apenas a acompanhando de boca entreaberta. Rumiko deixou a mulher sem reação ou resposta. Até hoje, a pedido de seu marido Roberto, ela apenas empurrava a questão de ter um velho em casa como um “trabalho” a mais para se fazer. Um alguém a mais para tomar conta e dar atenção necessária, mas que, à pensamentos maldosos, não faria falta se sumisse. Só que agora, depois dessa simples conversa com Rumiko, ela não entendia bem o porque, mas sentia se horrível. Sentia-se culpada de algo que ela ainda não sabia o que era.

A tarde chega, passa sem novidades e, no início da noite, quando as luzes da casa eram acesas, o velho senhor Smith era levado para seu quarto pela mulher, e às vezes pelo seu filho quando chegava cedo. E lá ele ficava, assistindo televisão até chegar a hora que o casal fosse jantar e depois dormir. Nessa hora, um deles ia até o quarto e ajudava o velho senhor a se deitar na cama.

Rumiko estava em seu quarto, deitada sobre a cama, já com seu pijama de dormir, que colocava sempre depois do banho. Ela lia um livro de capa marrom escura, que havia encontrado numa estante da casa. Como não tinha nada para fazer e o casal Smith não era muito de conversar, ela perguntou se poderia ler aquele livro e Roberto permitiu. O livro falava sobre reflexões da vida e do modo de agir do ser humano de uma maneira bastante filosófica e bem tediosa. Mas Rumiko se aprofundou no livro com um interesse acima do normal. Nunca tinha lido um livro como aquele.

A moça vira a capa e procura o nome do autor. Estava escrito Krishnamurti. Ela lê com a mente, mas não ousa pronunciar em voz alta.

Subitamente, alguém bate na porta de seu quarto.

─ Pode entrar – diz a moça se ajeitando na cama.

A porta se abre e Roberto entra, trazendo consigo um jornal impresso. Ele pede licença, pergunta se está tudo bem e, após a resposta positiva, joga os papéis sobre a cama de Rumiko e senta-se na outra beirada. Rumiko olha para a primeira capa do jornal e vê em letras garrafais a noticia de que Velasqueses estava morto e que não havia nenhum suspeito por enquanto.

─ É disso que estava falando? – questiona Roberto – quando disse que seu crime era grave, era disso que falava?

─ Sim senhor – Rumiko responde sem esperar sequer um segundo – Caramba! Os grandes jornais agora têm edições vespertinas?

─ A notícia fala que não há suspeitos, mas que pode ser o mesmo que matou Lomar Armstrong. O caso Lomar também foi obra sua?

─ Hai. E antes de Lomar houve mais alguns, que os jornais de Vera Cruz não notificaram com a mesma importância.

─ Entendi. Foi mesmo um crime grave. Diga, Rumiko... nós corremos risco de vida?

─ Olha, senhor Roberto. Rumiko promete que os senhores ficarão bem, mas se o senhor quiser, Rumiko pode ir embora amanhã, já que está tão preocupado.

O homem sorri e pega o jornal de volta. Ele não era um bom anfitrião e sabia que se livrar de Rumiko seria a melhor ideia, mas estava de olho no pagamento que ela lhe prometeu.

─ Hunf! Estava apenas checando. Você está brincando com fogo, mas isso não é da minha conta. Vou cumprir a minha parte do negócio e deixar você ficar pelos próximos dois dias, mas depois eu não quero ter ver nunca mais. Entendeu?

Rumiko levanta sua mão direita, com o punho fechado em figa, e colocando o outro sobre o peito, como se prometesse, replica:

─ Nunca mais!

Notas finais
Desculpem a demora. Ainda não estou em condições de voltar ao ritmo de antes, mas ainda não desisti e garanto mais alguns capítulos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.