A Bruxa De Liveway.
5 Capítulo 5 - A Festa De Roman
Notas iniciais
...
Agradeço à:
> Carolisle
> DOMINIQUI
> Lilith
> LuLerman
> Miss Death
> Delicate
^ ^ E obrigada à todos aqueles que compreenderam o motivo de minha demora.
Beijos,
EUQOPÉ-ELLE3
Capítulo Cinco – A Festa de Roman.
Minha primeira semana agitada em Liveway chegava ao fim.
O que aprendi?
Todo mundo no cemitério é cheio de segredos. Alice e Alexander principalmente, já Roman, era o ser mais honesto que eu havia conhecido. Ele era um livro aberto estendido sobre uma escrivaninha. Esperando qualquer um aparecer e ler as linhas. Qualquer pergunta que eu fazia era logo esclarecida por ele. Tirando, claro, quando minha pergunta se dirigia à Alexander ou Alice. Aí ele dizia que isso era assunto deles.
Alice vivia trancada naquela mini-igreja no mausoléu, que eu descobri possuir uma porta nos fundos que dava diretamente para a sua sala, ninguém, que não fosse ela, tinha o direito de entrar lá dentro. Já Alexander, eu acertara quando eu disse para deixá-lo quieto. Ele não mexia comigo e eu não mexia com ele. Só queria saber o que ele tanto cavava naquele cemitério. Hora ou outra eu encontro um buraco recém cavado, que no dia seguinte já foi tampado e que, em cima, já repousa uma cruz de algum corpo não identificado.
Eu gostaria de saber se isso é apenas para ocupar espaço ou se ele realmente encontra montes de corpos mortos só para enterrar...
Falando assim ele até parece um psicopata.
Naquele fim de tarde, eu revirava o meu closet em busca de uma boa roupa para se ir a uma festa. Eu queria uma roupa que dissesse que eu tinha vontade de “conhecer gente nova”, mas que não dissesse que eu era umazinha que dava para todo mundo.
Missão difícil quando você vive de preto.
Revirei o meu armário em busca de alguma coisa e só consegui encontrar um vestido preto justo (que eu creio que meu pai deu ordens às pessoas que trouxeram a minha roupa para colocarem no fundo, para eu não encontrar em caso de emergência). O vestido era tomara que caia, justo e bem apertado no busto para não cumprir sua promessa (a de cair), e com o comprimento generoso. Eu duvidava que alguém fosse sair me chamando de vadia por aí.
Encontrei um salto alto preto e dourado que ficou perfeito.
- O.K. Estou pronta – murmurei adorando o resultado no espelho, enquanto terminava de passar o batom vermelho, tinha que dar uma descontraída do preto!
Saí do quarto e fui para a sala. Adivinhem quem estava com meu papaizinho do coração lá?
Mer... Meredith.
- E então aconteceram tanta coisas-... – ele dizia até o seu olhar cair sobre mim, e ele cuspiu quase todo o seu uísque em cima da pobre coitada mosca morta. – Aonde você pensa que vai vestida assim?! – gritou.
Meredith se virou para me olhar, mas – diferente do meu papai – ela sorria aprovando o meu visual.
- Vou à uma festa na casa do Roman – respondi apoiando-me no braço do sofá enquanto eu colocava a chave de casa na bolsa preta (apesar de eu poder usar uma pedra como chave também, para quebrar a porta de vidro, assim o meu pai precisaria comprar outra). – Oi, Mary.
- Oi, Anabelle – ela cumprimentou-me. – Está bonita.
- Obrigada – agradeci dando um sorriso. – Tá vendo? Larga a mão de ser careta.
- Careta? Eu? – Ele parecia incrédulo. – Desde quando?! Eu sou o pai mais liberal que eu conheço!
- Deveria conhecer mais pais, então – retruquei amavelmente lhe dando língua. – Eu já vou então. Acho que vou ter que ir a pé, já que eu não tenho carro...
- Eu posso te levar – Meredith se ofereceu.
- Não se preocupe com isso – sorri me levantando. – Não vou estragar a sua conversa com o meu papi. Já vou indo.
- Anabelle! Quatro e meia! E te quero sóbria – ele avisou.
- Tudo bem, eu irei me lembrar. Tchauzinho crianças, não façam o que eu não faria.
Eu ri maleficamente e saí de casa.
Descobri que Roman e eu éramos praticamente vizinhos, no entanto, meu queixo caiu ao ver a enorme casa em que ele morava. Caramba. Para começar, no primeiro andar, havia uma pequena escadinha de mármore, que fazia conjunto com as paredes e as colunas que sustentavam o piso superior, a porta era de vidro – parecida com a da minha casa – e as janelas mais largas e altas, com formato abóbada. No segundo andar, a maioria das janelas eram grandes, mas estavam com cortinas fechadas.
Bem, a casa era inegavelmente maior que a minha — eu já achava a minha grande! -, grande o suficiente para acomodar cinco carros em sua fachada. E os carros ainda brigavam por espaço na rua. Cara, ainda bem que eu não aceitei a carona. Isso sem contar os casais e amigos que estavam do lado de fora só conversando ou se “pegando”.
Sentindo-me incrivelmente deslocada, respirei fundo comecei a subir a desprezível escadinha que me levaria à porta de vidro que estava aberta. Eu ia entrar, mas parecia tão abafado lá dentro que eu fiquei receosa. Eu não era claustrofóbica, mas não gostava de tumulto. David, que descanse em paz, que diga. Eu não gostava de ir a boates, o que gerava muita briga entre nós dois porque ele sempre foi de curtir balada.
“Não pensa nele agora, Anabelle. Ele não te merecia. Você andar de preto por aí já é mais do que necessário” minha consciência me repreendeu.
- Anabelle! – Roman veio saltitante até mim com um sorriso enorme no rosto magro, e me prendeu em um abraço forte. – Você veio!
- Pensei no seu caso. Eu é que não iria querer ficar perdendo tempo em casa, muito menos interromper a conversa dele com a Senhorita Meredith – respondi sorrindo.
- Ela está lá de novo? – perguntou surpreso. – Bem, vem cá.
Roman tomou a minha mão nas suas e me puxou pela pista de dança, ele só parou para gritar em meus tímpanos:
- Não solta desta vez!
Eu ri com ele e ele voltou a me arrastar. Esbarrei-me em um casalzinho que estava para se comer ali mesmo – no pior sentindo da sentença – e pedi desculpas, não que isso parecesse importar, mas assim que vi de quem se tratava, realmente pareceu importante pedir desculpas.
- Você aqui?! – exclamei surpresa.
Alexander ergueu uma sobrancelha em ameaça. Acho que entendendo que eu não o havia julgado como festeiro. Ele usava um chapéu com risca de giz – parecido com o de um gangster -, com uma fita vermelha, sua camiseta era branca e usava um colete preto sobre ela, usava calça jeans escura e botas de cano curto. E não era que o bichinho estranho dançava bem? Ele estava prestes a se acasalar com uma ruiva ossuda, que mais parecia uma modelo, que segurava um copo de cerveja.
- Some da minha frente, Malback – ele gritou sobre a música voltando a agarrar a ruivinha.
Olhei questionando Roman, este deu de ombros.
- Achei que seria uma falta de educação não convidá-lo depois da impressionante história que dividimos – ele explicou. – Sem contar, que ele é bastante... Faminto, acho que é isso o que provoca o mau humor dele. Sem contar que precisava de homens bonitos para a minha festa também, se não as gatinhas não viriam.
Ele gargalhou e voltou a me puxar.
Saímos do sufoco e ele me levou até o barzinho. Onde identifiquei Erika, com um vestido estampado de guitarras, um bolero por cima, e tênis All Star, Joshua, com um blazer, uma camiseta branca, tênis da Nike brancos e calça jeans preta, Anabeth com um vestido vermelho justo ao corpo, meia calça preta rasgada e botas de cano curto com uma corrente fina de prata no cano, Elizabeth com um vestido do mesmo modelo que a irmã só que azul, não usava meia calça e colocara um pipitue preto para combinar com o cinto que envolvera em sua cintura.
Bem, todos estavam bem. Incluindo a gêmeas que, mesmo um tanto vadias, tinham corpo para mostrar e certamente nenhuma reputação a guardar.
— Anabelle! – Anabeth, toda feliz foi a primeira a me ver e veio saltitando até mim. – Você está linda!
— Obrigada – agradeci.
Roman assoviou no meu ouvido e eu corei instantaneamente. É diferente quando se é elogiado por um homem ou por uma mulher. Assim como aconteceu com Joshua – eu corei -, mas com Erika e Elizabeth eu agradeci também.
— Você está muito tensa – Elizabeth disse. – Toma – me passou um copo de cerveja, mas eu neguei.
— Não bebo, mas obrigada – sorri.
As gêmeas trocaram olhares.
— Careta – resmungaram virando a lata.
— Ei! Isso não é água não – Joshua disse, provavelmente, também não bebia.
Elas jogaram as latinhas de maneira ensaiada no lixo e me agarraram pelos braços.
— Esse careta aí e a bêbada ali – apontaram para Joshua e Érika – só querem saber de ficar no cantinho aí. Mas você é das nossas, não é? Vamos dançar!
— Eu... tenho meio que vergonha – comentei.
— Você supera – Roman respondeu me puxando com elas.
“Eles são legais Anabelle, não tem porque tem medo” minha consciência sussurrou em meu ouvido.
Respirei fundo e mandei minha vergonha para qualquer lugar que não fosse ali. Vi tantos bêbados dançando mal que eu não tinha porque me envergonhar. As gêmeas começaram a dançar juntas, como duas verdadeiras... pois é... eu não iria julgá-las. Que elas fossem felizes essa noite.
Roman me puxou e começou a dançar comigo, com tamanha intimidade que algo dentro de mim sabia que ele queria alguma coisa essa noite. Mas eu tinha certeza de uma coisa, eu não seria mais uma de suas conquistas. Ele dançava bem, tão bem quanto Alexander – que havia sumido para “aliviar a tensão” com a ruiva -, mas nunca se atrevia a tocar em lugares que não devia.
E ele é que se atravesse...
Eu faria como naqueles países. Roubou corta a mão! Estuprou, corta o seu “orgulho”!... Se ele colocasse a mão em algo que não fosse meus ombros ou minha cintura eu me esqueceria que ele era o meu amigo e cortaria os dois.
Dançamos durante um bom tempo. E estava tudo bem até ele me puxar pela cintura contra o seu corpo e sussurrar no meu ouvido:
- Você está linda.
Ele lambeu o meu lóbulo e eu me afastei, sentindo o meu rosto quente. Provavelmente eu estava tão vermelha quanto um tomate.
- Roman, você é um cara legal... – completei e pude ver sua expectativa brilhando em seus olhos. – Mas eu não vou ficar com você.
Ele não ficou deprimido, não se desesperou, não gritou, não ficou com raiva e muito menos encabulado por ter levado um fora da sua nova amiga. Na verdade, ele gargalhou e sorriu para mim.
- Eu deveria ter esperado – respondeu sem ressentimento algum, voltando a dançar como se nada houvesse acontecido. Rodopiou-me enquanto sorria. – Mas esse vestido é bonito.
- Meu pai bem que tentou esconder de mim – eu disse rindo.
Ele riu também até certo tempo, quando o seu olhar ficou perdido em alguma coisa. Aqueles orbes azuis escuros ficaram sombrios por um breve segundo – literalmente, ficaram negros! – porém, quando olhei de novo, eles estavam azuis escuros novamente e agora me fitavam como quem se desculpa.
- Eu já volto – ele disse com a voz um pouco rouca e ele tossiu.
Saiu cambaleando da pista de dança. Olhei para onde ele havia olhado, mas atrás de mim só tinha uma enorme janela e uma brilhante e altiva lua cheia. Que antes eu não havia percebido por estar coberta por nuvens negras. Elizabeth e Anabeth vieram até mim, uma em cada lado do meu ombro.
- Aonde o Roman vai? – perguntaram curiosas.
- Disse que já voltava – respondi dando de ombros.
- Ahh – responderam juntas, esclarecidas. Então continuaram em uníssono: — Vem, você pode dançar com agente!
Elas disseram me chamando para aquela dança depravada. Tudo bem que eu não dancei como elas, ainda mais porque meu vestido não permitia – o tecido era muito grosso -, mas as acompanhei até certo momento. Quando algum engraçadinho começou a dançar atrás de mim e passou a mão onde não devia. Não, não foi na minha bunda, foi mais nos meus seios. Na maior cara-de-pau.
- Ou – eu reclamei me virando para a figura, um garoto que eu já vi uma vez nos corredores do colégio. – Desculpe, mas meu peito não é o da estátua de Julieta não!
O garoto de cabelos loiros, olhos castanhos e sorriso Colgate riu como se eu houvesse dito uma piada.
- Logo se percebe – teve a coragem de dizer e de sussurrar no meu ouvido: — São bem mais saborosos.
Anabeth e Elizabeth trocaram olhares de repulsa com o cara.
- Urgh, isso certamente deve funcionar com qualquer umazinha, mas não comigo – eu disse o empurrando. – Não te dei essa intimidade.
- Mas eu quero ter essa intimidade – ele retrucou agarrando-me por um dos meus braços.
- Seu calhorda – eu disse desferindo uma tapa na cara dele.
Minha paciência tinha limites e eu sabia que Anabeth e Elizabeth estavam me apoiando, porque elas me mandaram dar mais uma tapa na cara do desgraçado. E eu até quis, mas me contive. Com raiva, ele agarrou o meu outro braço.
- Então quer dizer que Roman pode e eu não, certo? – ele disse de forma asquerosa.
Preparei-me para dar mais uma tapa na cara do infeliz, mas alguém fez o favor de dar um soco nele. Surpreendi-me ao ver que fora, olhem só, Alexander.
- Larga a minha garota, ela está acompanhada – ele disse com raiva, enlaçando a minha cintura e me puxando para um beijo avassalador.
Eu estava acompanhada?! Desde quando?! Cara, ele me jogou num buraco essa semana! Eu deveria dar um chega para lá nele como eu fiz com Roman e com o outro! Mas... céus, como ele beijava bem.
Eu podia sentir, com prazer, seus lábios roçando nos meus, incendiando-os, enquanto ele sugava o meu lábio superior e mordiscava o meu lábio inferior, enquanto sua língua pedia passagem e começava a brigar desesperadamente por espaço em minha boca. O sabor de sua boca ia além de um gosto de bebida bem forte. Tinha ferrugem e sal mesclados com o gosto de forte álcool. Apesar de ser uma combinação estranha, era deliciosa. Pelo incrível que me pareceu, minha pele incendiou e meu coração parecia querer sair pela boca.
Ele se afastou arfante, dolorosamente, enquanto mordiscava o meu lábio inferior. Fiquei até tonta. Vi estrelas com aquele simples beijo e acho até que soltei um suspiro. Eu estava doidona sem ter bebido nada.
- É melhor tirar suas patas do que não é seu – ele brigou me puxando para o bar, claro que Elizabeth e Anabeth nos seguiram com curiosidade.
- Que história foi essa? – eu perguntei quase sem voz e sem ar.
- Por quê? Quer voltar lá? – ele perguntou com grosseria.
- E a história de “Some da minha frente Malback”? – perguntei rindo. – Ou a ruiva que você estava praticamente comendo enquanto dançava?
- Quer saber, vou te deixar com aquele lunático – ele disse puxando o meu pulso e me levando de volta para pista de dança.
- Não! – eu gritei me soltando da sua mão, então corei ao dizer: — Obrigada, é que eu pensei que você me odiava.
- “Odiava” é eufemismo – ele retrucou pondo a mão nos bolsos.
- Então por que você me salvou? – eu perguntei cruzando os braços.
- Não é da sua conta pirralha – ele respondeu.
Ergui uma sobrancelha.
Cara, ele me salvou de um idiota que queria fazer coisas que só poderiam ser feitas em quatro paredes e não era da minha conta? Alexander é um sociopata. Só pode ser um bipolar que sofre de sociopatia*.
- Anabelle! – as gêmeas se aproximaram e sorriram para Alexander. – Quem é o seu namorado? Acho que já o vi pela cidade antes.
- Ele não é o meu namorado – eu respondi bufando. – Ele é Alexander Van Qualquer-coisa, trabalha comigo no Cemitério Montecristo.
- Van Cruce – ele sibilou para mim. – Ao menos se lembre do meu sobrenome.
- Oi, sou Anabeth e essa é a minha irmã Elizabeth – a da mexa rósea se apresentou. – Obrigada por ter salvado a nossa amiga. Rudolph é realmente muito nojento e sem vergonha. Ele é filhinho de papai.
Isso explica a atitude do desgraçado.
Foi logo passando a mão no que não era dele e falando como se eu fosse sua. Típico. Nem eu que fui mimada por meu querido papai tinha esses traços ridículos. Ainda bem. Só de pensar nele me deu raiva.
Fiquei tonta e quase caí em cima do meu salvador, que não tinha cavalo branco e muito menos um reino, apenas a boa aparência e um modo suspeito de se agir. Ele me segurou.
- Tudo bem? – Elizabeth perguntou preocupada.
- Sim, só me senti um pouco tonta – respondi recuperando o equilíbrio. – Obrigada VAN CRUCE – enfatizei seu sobrenome.
- De nada – ele respondeu só por educação, pois seus olhos diziam outra coisa. – Vou voltar para o meu canto, e você... se afaste da escória.
- Isso inclui você? – perguntei sem perder a chance de dar uma alfinetada, era o que eu mais desejava fazer naquele momento.
- Claro. Para você é difícil. Pois os semelhantes se reconhecem – ele retrucou.
- Então foi assim que você me reconheceu? – perguntei.
- Quer saber, Malback, vou chamar aquele garoto de novo para dar um trato em você. Hoje o seu desespero por homem está terrível – ele retrucou.
- Vai voltar para a sua ruivinha, vai – provoquei magoada com o que ele disse.
“Como é que você é capaz de tratar assim uma pessoa que acabou de te salvar de um garoto mau caráter e que ainda lhe deu um dos melhores beijos da sua vida? Talvez a maluca aqui seja você, Anabelle” ouvi a minha consciência reclamar.
“É. Você tem razão” eu respondi com um peso na consciência.
– Tá bom, Van Cruce, chega desse bate-rebate. Obrigada por ter me salvo naquela hora e espero realmente que você passe a me tratar melhor.
Estendi a mão, e ele novamente não a apertou.
- Vou voltar para a minha “ruivinha” – disse com drama e se afastou.
Anabeth me beslicou.
- Ai!
- Como você deixa um homem desses sair assim? Garota, você é cega? – Elizabeth reclamou pela irmã. – Você é sapatona, é isso? Disse não para o Roman e agora disse não para ele?
- Ele não gosta de mim, na verdade me odeia – eu expliquei. – Um dia desses ele me jogou num buraco, só faltou ele me cobrir de terra e colocar “Aqui jaz Isabelle Malback. Filha que não foi tão querida. Amiga amada e usurpadora de lugares.”
- Pode até ser, mas ele é um gato – Elas murmuravam.
- Você viu a visão de trás? – Anabeth comentou se abanando com a mão.
- Eu prefiro a da frente – Elizabeth disse. – Ele tem algo escondido que parece ser bem saboroso.
Senti náuseas pelo rumo que a conversa estava tomando.
- Acho que vou tomar um refrigerante – eu disse.
- Tá. Ah, beba apenas os que estão fechados na geladeira da cozinha, os outros podem estar batizados – Anabeth avisou.
Tudo bem... Se eu encontrasse a cozinha daquele lugar.
Passei por uma enorme escada de mármore, sem corrimão nem nada, apenas a escada com um carpete branco sobre os degraus, havia uns sons muito estranhos vindos do andar de cima. Tentei ignorar e segui até um grande arco que deu direto na cozinha de granito e branca. Ofuscou até os meus olhos, pois a sala não era a coisa mais clara do mundo.
Andei até a geladeira e peguei um refrigerante fechado.
Vir-me-ei para voltar para o pessoal, mas minha curiosidade foi atiçada por aquela escada mais uma vez. O que tinha lá em cima. Quartos? Claro, mas eu sentia que havia algo mais. Eu não sabia se eu deveria ficar assustada pelos barulhos assustadores que estavam sendo abafados pela música. Era como se uma fera enorme estivesse sendo presa lá dentro.
“Anabelle, você não é bisbilhoteira” disse a minha consciência, e concordei indo até o bar com o meu refrigerante. Mas parei “Mas... cara, eu estou curiosa” respondi de volta.
Olhei ao redor e percebi que os únicos que me olhavam eram garotos que ficavam me secando. Dei um sorrisinho discreto e, assim que viraram o rosto, comecei a subir as escadas rapidamente para não ser vista. Me deparei com um corredor de paredes amareladas pálidas com um carpete vermelho espalhado pelo chão.
Havia várias portas, a iluminação era precária e havia uma enorme janela abóbada no fim do corredor. Olhei pelas portas e me aproximei do barulho. Cheguei à porta no fim do corredor. A música ainda era tão alta que pulsava pela casa, mas agora eu ouvia melhor o som de algo sendo rasgado, sendo quebrado e rugidos.
Ouvi a voz de outra pessoa também, parecia que alguém estava brigando com alguma coisa.
Encostei meu ouvido na porta e a pessoa que reclamava parou de gritar, mas a coisa que lá dentro se movimentava ainda rugia e rasgava... alguma coisa. Achava que com a música pulsando e os rugidos, jamais seria descoberta. No entanto, não foi bem assim.
Abriram a porta e eu quase caí.
- O que você está fazendo aqui? – perguntou Alexander, com a camiseta rasgada e a calça malmente abotoada. Oh céus! Por favor, que não fosse o que eu estava pensando.
- Eu estava procurando o banheiro quando escutei uns sons estranhos – a resposta pulou para fora de minha boca sem ser pensada, mas fora convincente.
Ele revirou os olhos, e a ruivinha apareceu atrás dele, abraçando-o pela cintura.
- Muito bem, parece que você realmente está precisando de um homem – ele resmungou. – Nem sabe o que é sexo. Se você não teve uma noite agradável, não estrague a minha.
Dito todo esse desaforo, ele fechou a porta na minha cara.
Tudo bem, ele estava na casa do Roman, em um quarto que obviamente não era o dele! E isso sem contar que ele tirara sarro da minha virgindade. Eu não sou nenhuma santinha, mas se eu decidi não me entregar profundamente a ninguém é uma escolha minha! Ele não tem o que se intrometer!
Bufei furiosa e fui embora para baixo.
Ao descer as escadas, segui para o pequeno bar naquele canto.
As gêmeas já haviam voltado para a pista de dança e estavam cercadas por garotos. Eu preferi me sentar em um dos bancos do mini-bar do pai do Roman do que ficar dançando. O meu salto alto estava me matando.
Foi então que eu percebi o casal se pegando atrás do bar. Que lugar para Erika e Josh ficarem aos beijos... É, acho que eu havia sobrado. E Roman não aparecia para me fazer companhia. Era uma falta de educação eu ir embora sem me despedir do anfitrião.
Olhei então, para as garotas me chamando para a dança.
Juntei-me às gêmeas e dancei durante longas horas com elas. Meu olhar se encontrou com o de Alexander apenas mais uma vez, ele havia colocado um sobretudo em cima de sua roupa rasgada, mas resolvi não comentar nada e me fiz de indiferente. Não querendo demonstrar a raiva que eu senti ao vê-lo fazendo aquele tipo de comentário sobre mim e ele me lançava olhares frustrados.
Olhei no meu relógio e vi que já eram quatro da manhã. Meu horário limite eram Quatro e meia. Tinha que ir.
Abri caminho até Anabeth e Elizabeth.
- Garotas, eu já vou. Digam para o Roman que eu sinto muito por não poder ficar mais – gritei para as duas.
Elas fizeram cara de choro, mas assentiram com a cabeça.
Eu sorri e dei um abraço nas duas.
- Tchau – me despedi. – Digam para Josh e Erika que eu já fui.
- E onde eles estão? – elas perguntaram.
- Fazendo... bebê – eu insinuei.
Elas deram um riso assustador e eu me fui. Passei pelos casais se pegando e rodas de amigos bebendo e vi Alexander encostado em um Empala preto enquanto olhava para a lua.
— Eu já vou Van Cruce, obrigada por ter me ajudado naquela hora – eu disse, sei lá por que, pareceu-me o educado e o certo a se fazer.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você vai para casa sozinha? À essa hora? Está maluca? Quer morrer? – sua voz não se alterou, mas havia uma rudeza nela.
— Claro que eu corro risco em uma cidade cuja população é de um por cento – eu brinquei revirando os olhos. – Aqui não acontece quase nada. As delegacias estão às moscas.
— Por isso é que é perigoso – ele respondeu. — Se nenhum bandido está preso, é perigoso, não concorda?
Arqueei uma sobrancelha. Essa era uma ótima interpretação.
— Anda, eu te levo para casa – ele mandou abrindo a porta do passageiro para mim.
— Minha casa fica aqui perto – eu respondi. – Não quero provocar a fúria do poderoso Van Cruce. É melhor encerrar enquanto estamos mais ou menos de bem.
— Nós não estamos mais ou menos de bem, você estragou o meu sexo garantido. Mas você vai me deixar furioso se realmente não entrar no meu carro agora – ele bufou. – Entra logo na porra do meu carro e não me enche o saco.
— Eu mal te conheço e você é suspeito – eu disse. – Está agindo muito estranho hoje. Uma hora me salva, outra hora manda ficar distante... Daqui a pouco você vai dizer que seu nome é Romualdo da Silva.
Vi que ele suspirou e contou até dez para não me matar.
- Você quer saber o porquê que eu estou agindo estranho hoje? – ele perguntou com raiva. – Alice me pediu para ficar de olho em você e não deixar nada de ruim te acontecer... Claro que ela também falou alguma coisa sobre “Aliviar a tensão”, mas preferia não ter dado ouvidos. Agora você vai entrar nesse carro! Nem que eu tenha que te empurrar para dentro!
Tudo bem, certamente o problema de Alexander ia além da falta de mulher – ou ter uma vida sexual ativa demais também poderia ser um problema -.
Ergui minhas mãos em rendição e entrei em seu carro, que tinha um misterioso perfume de hortelã com perfume de mulher barata. O vi fechar a minha porta com força e contornar o carro. Como eu estava com uma bomba relógio ao meu lado, minha consciência me avisou que era para ficar calada, mas eu não consegui.
- Por que Alice parece se preocupar com a minha segurança? – perguntei indiferente.
- Porque ela passa tempo de mais se preocupando com todo mundo – ele respondeu de má vontade.
- Por que você tem ciúmes dela? – perguntei.
- Porque não é da sua conta pirralha – ele respondeu de má vontade.
- Por que você não gosta de mim? – perguntei.
- Porque eu acho que tenho direito à não gostar de quem eu quiser – ele respondeu de má vontade.
- Por que...
- Chega! – ele gritou freando bruscamente, quase me fazendo bater com a cabeça, fui impedida pelo cinto de segurança.
Outra coisa que me chamou atenção foi o baque de alguma coisa pesada em seu porta-malas. Será que se ele abrisse aquele porta-malas eu encontraria um arsenal de armas como as do Dean Winchester de Supernatural?
– Você está me dando nos nervos, minha vida é minha vida. E creio que Deus tenha dado uma vida para todos para cada um cuidar da sua!
Ele ligou o som do carro querendo que isso me impedisse de falar.
“Seria mais fácil se hora ou outra você me escutasse” minha consciência me passou sermão.
Suspirei e resolvi olhar pela janela. Claro que durou pouco tempo, até eu reconhecer a narração e logo depois o som pesado da minha banda favorita. Meu Deus! Era The Revenant Choir, da banda Versailles ~The Philharmonic Quintet~!
- Você gosta de Versailles? – perguntei.
- Gosto – ele respondeu neutro. – É a minha banda favorita.
- A minha também – respondi sorrindo com um sorriso bobo. – Eu adoro o jeito que eles misturam o contemporâneo ao antigo... sabe, há épocas elegantes e tudo o mais...
Ele ficou um tempo em silêncio.
- Eu me identifico muito com as músicas deles – ele murmurou. – Principalmente Suzerain.
- Eu adoro essa também. Na verdade, adoro todas as músicas deles – respondi animada.
Ele ficou em silêncio enquanto ouvíamos Kamijo – o vocalista – cantar sobre sua ressurreição. Claro, pois a música falava de um clã de vampiros que, depois de muitos anos adormecidos, despertam no futuro. Sempre mesclavam ares sombrios, com vampiros e amores impossíveis. Talvez por isso eu gostasse. Amores impossíveis eram lindos.
Não sei como isso foi acontecer, em um instante estávamos em um silêncio constrangedor e com um leve ar hostil, depois estávamos nos esgoelando cantando as letras da música.
- Our clan’s blood will not stop forever.
If you wish, I would become a rose.
Our clan’s blood is a lifetime lover.
Stay, choir of sorrow and pains! – cantavámos juntos.
Olhamos para cara um do outro e explodimos em gargalhadas enquanto ele parava o carro na frente da minha casa. Pela primeira vez, eu vi o coveiro – sim, ele agia e parecia um coveiro, o que de fato era já que ele cavava covas – gargalhar e isso me fez parar de rir e ele me encarou.
- Desculpe, é que eu nunca te vi rir. Isso foi... estranho – eu comentei.
- É. Foi – ele concordou friamente.
“Bipolar” acusei, assustada, mentalmente, enquanto o via contornar o carro para abrir a porta para mim. Pensei que tipo de garotos como ele não fossem capazes de tal ato, sempre o imaginei dizendo: e eu lá tenho cara de motorista por acaso?
- O passeio acabou – ele disse perdendo o pouco do bom humor que mostrara, enquanto segurava a porta para que eu saísse de seu carro.
Assim o fiz. Vi que seus olhos demoraram apenas breves segundos em minhas pernas, e isso me fez ficar constrangida. Ele era maluco, bipolar, me jogou dentro de uma cova, me salvou, reclamou de minhas “virtudes”, dormiu com uma mulher na casa de outra pessoa (O.K. QUASE dormiu com uma mulher, eu interrompi), mas ainda era homem. Certo? E, modéstia parte, eu me achava razoavelmente bonita.
- Hm, obrigada de novo – agradeci pela última vez, vendo-o encostar-se ao seu carro. – Por acaso isso significa que estamos de pazes feitas? – arrisquei estendendo a mão.
Ele ponderou com a cabeça enquanto pensava. Até que me olhou e concordou com a cabeça, apertando – pela primeira vez – a minha mão, mas se apressando ao completar:
- Mas isso não significa que somos... urgh, amigos.
- Tudo bem – eu concordei. – Então, tchau, Sr. Van Cruce.
Ele bufou, mas não se desencostou do carro enquanto eu entrava em casa. Vir-me-ei para trancar a porta e vi, pelo vidro, que ele ainda me olhava. Ele apenas se desencostou do carro quando a chave girou na tranca. E foi embora.
Silenciosamente andei para a cozinha escura. Ainda estava um pouco iluminada pelas janelas grandes e que quase ocupavam uma parede completamente. Vi apenas a sombra de uma cabeleira bagunçada deitada em cima da mesa. Meu pai deveria ter caído no sono enquanto me esperava, pobrezinho. Não seria a primeira vez.
“Você gosta de dar preocupação aos outros, né dona Anabelle?” minha consciência acusou.
Com cuidado, abri a geladeira para pegar uma garrafa de água. Comecei a beber, mas congelei com a água na boca quando ouvi um gemido de uma mulher. Estendi automaticamente o braço para o interruptor e a luz da cozinha iluminou os dois corpos deitados em cima da mesa de jantar.
A garrafa caiu de minha mão, e a água que eu não engoli foi cuspida em puro reflexo.
- O que é isso?! – eu gritei em choque.
E eu sentindo pena do meu pai!
- A-anabelle! – a senhorita Nightray disse se sentando, envergonhada.
Ela tinha uma marca de nascença no seio esquerdo. Não era para eu saber disso, mas não tinha como quando eu encontro uma mulher que encontrei ontem, completamente nua ao lado do meu pai.
- A-anabelle, eu posso explicar... – meu pai disse ao se dar conta da minha presença ali.
- Agora, a ideia do sininho parece ser bem convidativa – eu murmurei em choque, sentindo-me nauseada. – Vamos fazer assim: Eu vou fingir que cheguei bêbada em casa, capotei na cama e isso não passa de um sonho para lá de estranho.
Ainda chocada, esqueci da garrafa de água no chão e fui para a porta do meu quarto e me virei uma última vez.
- Urgh, tinha que ser na mesa de jantar? – reclamei. – Nós comemos comida aí.
Notas finais
SOCIOPATIA: Desequilíbrio patológico que se manifesta num comportamento anti-social e impulsivo ou agressivo
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