A Bruxa Bastarda
2 I
"Aberração!"
"Você não se toca? Fique longe de nós!"
"Te quero longe daqui, pessoa estranha!"
"Não podemos ser amigos..."
Essas frases ecoavam o tempo todo na cabeça de Annie. Sentada em sua cama, ela tentava se esconder do mundo. Nunca entendeu bem o porquê de todos a tratarem mal. Nunca entendeu muito bem como fora parar ali.
Levantou e correu até o espelho e se analisou: nada demais. Apenas uma garota pálida com grandes olhos escuros. Nada demais.
A porta abriu com tudo, assustando a menina.
—Posso saber o que faz aqui?! — a diretora do orfanato gritou.
—Ma-madre... Eu... — ela gaguejou.
—Já para a sala!
—Não posso, não...
—Você vai!
A diretora entrou com tudo no quarto e arrancou a menina a força, levando-a empurrada até a sala de aula.
Lá chegando ela abriu a porta e jogou com força a menina para dentro da sala, que com o impacto do empurrão, caiu no chão com força. Todos na sala riram.
—Annie, onde estava? — perguntou a professora com certa preocupação.
Annie se levantou com dificuldade e encarou a professora.
—A caminho.
—Menina mentirosa! — disse a diretora — VÁ PARA O SEU LUGAR!
Annie a encarou, com a raiva costumeira crescendo dentro dela, o olhar da diretora mudou, se transformando de raivosos à apreensivos. A diretora se virou e saiu.
—Pode se sentar, Annie, acredito que não tenha perdido nada.
A voz da professora a tirou do transe e ela se virou para ir ao seu lugar, os olhares das pessoas ao seu redor estavam parecidos com o que a diretora dera a ela antes de sair correndo. Sentou-se no fundo da sala, ao lado de Alex.
—Hey, você está bem? — ele cochichou.
—Estou — disse ela fria.
Alex percebeu e se virou para a lousa, Annie permaneceu imóvel até o ultimo minuto da aula.
Assim que o sinal soou, ela saiu correndo para o seu quarto novamente. Estava sem fome, porém algo nela estava mudando. Não aguentava mais tanta humilhação, não aguentava mais não saber o motivo que todos olhavam para ela de um jeito estranho. Todos, menos ele, Alex.
Uma batida na porta a fez despertar, não sabia quanto tempo estava dormindo. Se levantou e foi abrir a porta.
—Hey, trouxe isso para você — Alex trazia um pacote nas mãos — posso entrar?
Annie deu um passo para o lado e ele passou. Ela fechou a porta.
—Não precisava — ela disse baixinho.
—Não te vi no refeitório.
—Eu não costumo ficar perto das pessoas, normalmente já não costumo fazer isso há uns... 16 anos...
—Eu sei...
—Você só me conhece a seis anos e...
—Já é o suficiente. Você poderia comer? — ele sorriu fraquinho.
Ela assentiu e comeu em silencio, com ele ao seu lado.
—Nunca te perguntei isso, porque normalmente não perguntamos isso, mas... Como você veio parar aqui?
—Eu não sei — disse ela de boca cheia e ele a encarou sorrindo — mas gostaria de saber.
—Eu sei a minha historia, e não é nada boa. Sorte a sua por não lembrar.
—Sorte a minha — ela repetiu com desdém — que sorte.
—Não ligue para o que eles falam.
—Essa não é a questão.
—Então qual é?
—Sinceramente? — ela suspirou e deixou o pacote de lado — você já reparou como as pessoas olham para mim?
—Sim... Mas eu não entendo.
—Se você não entende, imagina eu... Mas a questão é que eu nunca consegui me socializar, nunca consegui ser agradável, e... As vezes sinto muita raiva.
—Raiva é um sentimento comum em um orfanato.
Ela o encarou.
—Você sente raiva também?
—Sim. Na verdade, não muito. Mas já senti muitas vezes...
—E suas mãos levam pequenos choques?
—O que? — Alex se assustou.
—Sim, quando fico com muita raiva minhas mãos ficam tremulas e sinto como se eu estivesse tomando choque...
—Não — ele sorriu pensando que seria somente uma invenção dela — não sinto isso. Mas deve ser porque você é especial.
—Especial, mais conhecida como estranha.
—Estranha nunca...
Eles se olharam. Alex era a unica pessoa que conseguia entender Annie e que acreditava nela, e quem ela mais confiava para contar suas aflições.
—Eu queria conhecer minha história... — Annie começou.
—Eu poderia ajudar.
—Temos muitas pedras no caminho até eu realmente começar uma investigação.
—Tá falando da madre?
—Sim, dela mesma. Essa mulher me detesta — ela parou e pensou — aliás, quem gosta de mim? E isso é o que mais me revolta — ela se levantou — sei que você já disse que eu não sou estranha. Mas olhe para mim — ela esticou os braços para a frente — vê alguma coisa? Sou um ser humano normal...
—Sim, você é. Linda, normal e super carismática.
Annie fechou mais a cara.
—Pare de falar asneiras.
—As vezes você fala como se não fosse da nossa época. Isso eu acho estranho, já que você quer que eu ache algo estranho em você.
—Talvez... Mas sabe o que eu acho, que todos sabem muito de mim e eu sou a unica que não sei.
—Pode ser... Mas eles não te conhecem de verdade — ele apontou para a comida que ela tinha deixado na cama — e sei uma coisa sobre você: que precisa comer.
Ela assentiu, sentou novamente ao lado dele, e começou a comer. Alex colocou uma mecha do cabelo dela atrás de sua orelha.
—Nunca se esconda.
Uma batida na porta fez os dois olharem a porta. Annie correu para abrir.
—O que faz aqui com Alex, srta. Annie?
A madre entrou no quarto com a pior cara possível.
—Eu estava ajudando Annie, madre — Alex levantou — mas já estou indo.
Ele se direcionou até a porta e saiu. A madre esperou ele fechar a porta e se virou para Annie:
—Em primeiro lugar, onde você faz as refeições é no refeitório, então faça o favor de comer lá da próxima vez. Em segundo, me acompanhe.
Annie acompanhou a madre, elas seguiram para o corredor onde ficava diretoria. Madre Heloísa abriu a porta para a menina, que entrou sem pensar. Quando se viu diante de uma mulher vestida elegantemente, algo em seu coração fez ela recuar. A mulher encarava ela com indiferença.
—Então você é a garotinha que meu irmão tanto fala. Sente-se.
A mulher apontava para a cadeira, Annie ouviu a porta se fechar e viu a madre entrar e sentar em sua cadeira.
—Não ouviu o que a moça disse? Sente-se Annie.
Ela então o fez, a mulher elegante encarou e começou:
—Ora, você é mais diferente do que eu pensei. E acho que você chegou a hora de acertarmos algumas pendências.
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