A Bruxa
1 Minha ida ao outro mundo
O crepúsculo dificulta minha chegada ao esconderijo, carrego comigo um bornal que contém os ingredientes para a finalização da receita. Hoje é o dia esperado. Tomo cuidado para não ser avistada pelas forças locais, que estão à minha procura. Enquanto sigo a rota para meu destino, me deparo com um holograma de procurados – Hologramas esses que estão espalhados aleatoriamente por todo o mundo. – E minha foto estava estampado junto com todos os outros foragidos, entretanto a minha recompensa era definitivamente a maior de todas.
Eu me recordo do dia que tirei essa foto, o dia em que minha vida se tornou um desastre. No dia eu estava sentada no gramado da escola, com o cabelo arrumado numa franja que terminava na altura do peito. O loiro platinado que eu tenho era destaque na escola, não havia nenhum outro igual. Estou distraída na foto, meus olhos azulados não estão pousados na câmera, e sim para algo além dela, a fumaça alaranjada que se aproximava, vinda do horizonte.
Volto minha atenção para a rota, seguindo o caminho apressadamente. Avisto a rocha de cinco metros que impede minha passagem para a entrada, estalo os dedos e a rocha desaparece, entro rapidamente, olhando para trás e, ao estalar os dedos mais uma vez, a rocha estava lá novamente.
—Onde você estava, Auld? –Ouço Shabat, minha gata, perguntar assim que chego no centro do esconderijo.
—Coletando os ingredientes que faltavam... –Respondo cansada.
Despejo todo o conteúdo do bornal sobre a mesa junto ao caldeirão. Estalos os dedos mais uma vez e a fogueira sob o caldeirão acende. Me apresso em pegar os ingredientes restantes, já coletados anteriormente, e os coloco junto aos outros.
— Me diz a ordem, Shabat –Grasno nervosa. –Por favor, não erre.
Ela então, pula sobre a mesa e encara o teto do esconderijo, nele está escrito a ordem dos ingredientes necessários para elaboraçãp a receita. Caso misturados na ordem errada, as consequências são extremamente perturbadoras.
—Preste atenção no que vou dizer...
(...)
Olho para Shabat, que me encara de volta com medo. A poção estava pronta, ando em direção ao espelho velho localizado no fundo do esconderijo, e o ponho no chão, com o vidro virado para cima, despejando em seguida o conteúdo da poção sobre ele. Então, ao entrar em contato com o vidro, ela passa a incorpora-lo, descascando-o lentamente, transformando a miragem que refletia o teto num enorme vazio negro. Shabat sobe na mesa novamente e me encara com piedade.
—Cuidado do outro lado... –Começa, cabisbaixa. –Faça como o plano: Não use sua magia desleixadamente, lá não é como aqui; enfeitice uma boa família e se adapte à realidade deles, você precisa se adaptar, senão será descoberta. –Ela então desce da mesa e começa a se esfregar em minha perna. -... Eu vou sentir saudades de cuidar de você, little devil...
Seguro o choro, não podia demonstrar tamanha tristeza para Shabat. Fico de joelhos e aceito a nos braços, deixo escapar algumas lágrimas, que desaparecem sob a penugem negra da gata. Beijo o topo de sua cabeça peluda e levanto, com os olhos fixados no vazio.
—Adeus... –Me despeço, dando um passo para o espelho.
Assim que piso sobre ele, Sou envolvida por uma massa negra pegajosa, que sobe pela minha perna até cobrir meu corpo totalmente. Logo após sou sugada para baixo. Me desespero, não esperava que fosse tão sufocante o trajeto. Minha cabeça começa a doer de forma inimaginável, a massa, que continua cobrindo meu corpo, passa a me apertar com força, até que começo a sufocar, e então minha visão escurece.
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