A Broken Home

1 A Broken Life


Notas iniciais
Há um bom tempo que isso está guardado, acho que preferi soterrar todas as lembranças pra ver se doia um pouco menos, mas doi exatamente do mesmo jeito.
Espero que entenda, esse é meu jeito distorcido de dizer: eu te amo, e não vou esquecer.
Nunca, fairlady.

Não era tempo de guerra, esse havia passado anos antes que eu o presenciasse, ainda assim a paz insistia em afastar-se daquilo que eu, por puro habito, chamava de lar. O barulho, os gritos, as palavras chulas desconexas que nada poderiam ensinar já faziam parte da minha vida a ponto de quase não incomodar-me. Ignorar. Havia aprendido o sentido dessa palavra de uma forma razoavelmente desconfortável, mas isso importava muito? “Pensar é uma coisa perigosa.” Dizia meu pai, ele parecia ainda viver os tempos negros na guerra, onde não se podia expressar nenhuma opinião sobre nada. Eu tentava não refletir muito a respeito, assim como não refletia sobre a maldita casa com suas janelas quebras, portas velhas e pintura descascada que pedia urgentemente que fosse lhe dada alguma atenção.

Com o quarto já havia me acostumado, e na verdade nunca havia me importado muito com o caso, era minúsculo com uma pequena janela onde havia uma visão privilegiada do telhado caindo aos pedaços além de um terreno baldio logo atrás da residência. Ainda assim ele era confortável. Sem muito esforço cobri as paredes com alguns desenhos, os quais foram fortemente criticados por minha mãe por parecerem “coisas de um louco”, segundo ela. Particularmente não creio que fossem assim, eu gostava dos desenhos, eram a única coisa que gostava verdadeiramente em toda a casa, meus desenhos. Meu preferido era o do lobo que tinha asas, passei algum tempo para fazer esse e realmente gostei do que vi. As asas pareciam com as dos grandes anjos de Michelangelo e o lobo me lembrava meu pobre cachorro que fora tão cruelmente assassinado por meu pai no meio de uma bebedeira. Ele se assustou com os barulhos da casa e latiu e uivou e fez-se ser notado. À medida que a paciência do bêbado acabou foi no miserável cachorro que ele deferiu sua raiva. Não sobreviveu ao final daquela noite.

Sinto falta dele, do cachorro. Se ele fosse humano diria que era um bom amigo, mas como não era, digo que no mínimo sua companhia silenciosa era melhor que companhia nenhuma. Era um bom animal, ainda assim não chorei quando fui obrigado a cavar um buraco de tamanho razoável para enterrar o coitado no terreno baldio logo atrás da casa. Quem sabe ele não esteja até mesmo melhor que eu agora? Não que eu ache que a morte é a saída, mas em alguns momentos é inegável o quanto ela é tentadora. Algumas vezes o desejo de entregar-me a ela vinha até mim, mas eu o desprezava, de alguma forma estranha eu tinha medo que ela pudesse ser pior que isso, como se houvesse algo pior que isso!

O cheiro. Tudo aqui fedia a algo podre ou mofado ou velho ou qualquer coisa que o valha, não havia nada que escapasse, mas depois de algum tempo você para de sentir ele, mais ao menos não se incomoda o tempo inteiro. O odor vinha de todo o lixo que jogavam no terreno logo atrás, era como eu me iludia. No fundo eu só não queria admitir que aquilo estava impregnado nas paredes, tão fundo como se fosse parte da alma dela. Aquilo nunca sairia da casa. Nem eu.

As outras casas da rua não eram muito diferentes da minha. Não importa o que se fizesse, você está na lama, você será tratado como lama.

Lembro quando dos Gallton, eles reformaram há algum tempo, a casa ficou realmente bonita. Eles pintaram tudo de azul claro e branco, concertaram todas as portas e colocaram vidro nas janelas que faltavam, derrubaram a velha cerca e construíram um muro, o telhado foi trocado e ao que parece não havia mais goteiras, dava gosto de ver, trabalharam nela semanas a fio, mas tudo aquilo não durou muito tempo. Alguns dias depois McCarter e seus amigos trataram de deixá-la tão destruída quanto às outras, se não mais.

As paredes foram pichadas com ofensas de todos os tipos, algumas janelas foram quebradas e as margaridas que a Sra. Gallton teve tanto trabalho para plantar no pequeno canteiro da nova varanda foram destruídas. Em verdade, a única coisa que deixaram intacta foi o muro, mas somente porque agora ele serve para que Julian McCarter e os outros agarrem suas namoradas nele, e com toda a certeza eles fazem mais que só agarrá-las ali, mas isso não é da minha conta, nada do que acontece aqui é e eu não pretendo fazer com que seja, contudo, se algum dia morar em um bairro como esse você vai entender o quanto é impossível não conhecer a vida de cada um dos seus vizinhos. Mais do que isso, é impossível que eles não saibam, ou ao menos inventem, coisas da sua vida.

Considerando minha aparência, é até obvio que eu seja um alvo de falatórios. Traços finos, magro em excesso, pálido, um perfeito doente e andrógeno ainda por cima. Costumavam perguntar a minha mãe porque eu não saia pra brincar na rua “Não importa”, ela respondia para os vizinhos, nunca gostou que se metessem em sua vida, talvez tenha puxado isso dela. A verdade era que todas às vezes que tentei me socializar com os garotos do “Heaven’s Place” acabei levando uma surra deles, eles diziam que não queriam bichas junto com eles. Analisando bem... É impressionante a velocidade em que eles aprenderam a dizer xingamentos, tínhamos sete anos no máximo... A casa deles não deve ser diferente da minha. Depois de ir ao hospital duas vezes para engessar o mesmo braço fiquei proibido de chegar perto dos garotos, como se fosse preciso me proibir, eu não chegaria perto deles por nada, o que não quer dizer que eles me deixariam em paz. Não eram muito piores que meu pai, mas assim como ele, são pessoas que você aprende a ignorar a existência, pelo menos quando não estão com os punhos no seu estômago.

A hora preferida para me atacarem era quando eu voltava da escola, a única escola pública do bairro inteiro. Nunca me esperavam no portão da saída como se vê nos filmes, não é assim que acontece por aqui. Eles pegam você em algum lugar onde ninguém possa ver, absolutamente ninguém. Antes de eu trocar o horário para a manhã eles simplesmente saiam correndo antes de mim e esperavam na Magelles, lá não havia casas, era a única rua pelas redondezas onde só havia lojas, que viviam sendo assaltadas pelos caras do Stenlley, um bairro vizinho, com os quais McCarter conseguiu a arma para ameaçar a mãe uns meses atrás, mas nada que valha a pena se comentar. Eu poderia desviar daquela rua, é claro que sim, o único problema seria contornar todo o bairro pela avenida, o que me custaria 40 minutos enquanto indo pela Magelles eu levava 7 minutos para andar e 15 a 20 apanhando, ou seja, quando eu chegasse em casa apanharia do meu pai devido a demora... Acabava preferindo os garotos, pelo menos eles não tinham um sapato de couro.

Não que meus pais se importassem comigo. Na verdade eles mal notavam quando eu estava em casa ou não, a única coisa que notavam era quando eu não estava lá para fazer o jantar, minha única obrigação ali, além de me manter quieto é claro. Meu pai dizia que a comida da minha mãe é horrível, quase todas as noites ele grunhia entre as garfadas “Até mesmo uma criança cozinha melhor que você, Satin”, ele era a única pessoa pra quem ela não respondia.

Quando passei a estudar de manhã tive certo tempo de bonança, os garotos não podiam simplesmente me bater na frente de todos, por isso não tardaram a encontrar uma nova maneira de fazê-lo, a solução foi me arrastar para o quintal da casa de Henry Morrison que ficava logo no começo da rua sem contar que era afastado o suficiente para que ninguém escutasse meus gritos, como se eu fosse me atrever a gritar muito. Quanto aos pais de Henry, só me consta que a mãe nunca esteve ali, e o pai só aparecia à noite.

Bem, foi nessa época que aprendi uma lição importante: casacos com capuz são muito úteis, principalmente em se tratando de evitar questionários da já idosa dona do mercado a respeito das marcas no meu rosto.

Hoje em dia todos estudam de manhã e agradeço pelo fato da maioria participar de atividades ilícitas até altas horas da madrugada o que os deixa cansados o suficiente para não me bater todos os dias.

A noite está mais silenciosa que o de costume, primeira sexta-feira do mês, dia de ir para o bar. Meu pai não está em casa e provavelmente só vai chegar quando o sol nascer o que significa que não vou conseguir dormir até tarde amanhã. Tudo que espero é que não quebre a porta do banheiro de novo, é bem desconfortável tomar banho com as pessoas vendo sua nudez, a janela em frente à porta está quebrada... Pensando bem, ela nunca esteve ali, pelo menos não que eu me lembre.

Deitado na coberta do lado de fora da janela termino de fumar um maço de cigarros, o segundo em três dias, se continuar nesse ritmo vou à falência antes mesmo de poder apreciar o tão falado câncer de pulmão que segundo especialistas é o fim de todo fumante. Acho que vou ter que cortar grama ou ajudar a dona do mercado com a arrumação das prateleiras no domingo se não quiser passar o resto da semana sem cigarros. Da última vez que isso aconteceu fiquei tão louco que roubei dois do professor de matemática, acho que ele não notou, do contrário eu não teria passado na matéria dele.

A idéia de deitar sem nenhum cigarro no quarto é perturbadora, não vou consegui dormir, tenho certeza. Eu poderia dormir com meu pai batendo as portas, com minha mãe assistindo TV no último volume ou até mesmo com os gemidos das garotas perdendo a virgindade no muro dos Gallton, mas não sem os cigarros.

Deixei a preguiça de lado, peguei o casaco mais uns centavos remanescentes e sai sem dizer palavra alguma para minha mãe que parecia realmente interessada em como a tal mulher ia matar o marido na novela, como eu odiava aquela novela! Do lado de fora não estava tão quente quanto as outras noites do verão, mesmo assim o casaco era um exagero, apesar disso algumas experiências noturnas me ensinaram que o tempo nessa droga de cidade é instável de mais para se sair desprotegido, em qualquer estação do ano. De qualquer forma eu tinha pela frente um longo e solitário caminho até o posto de gasolina na avenida, 40 minutos de caminhada. Eu poderia comprar no outro posto que fica a menos de 5 minutos daqui, mas o risco de sair de lá com um olho inchado não é minha definição de convidativo, de qualquer forma eu não estou preocupado em chegar cedo em casa.

- Dois marços de Pall Mall– não era Pall Mall que eu queria, mas era o que eu podia pagar. Iludia-me com a lembrança de Johnny Depp fumando desses em Secret Window, mas isso não fazia deles melhor.

- Você deveria parar com isso, garoto – ele sempre dizia a mesma coisa. Bill “Estranho” Joson, ele obviamente, como todos ali, não tinha moral para falar de mim, e assim como todos, ele falava.

- Faça-os virar ilícitos e eu os deixo – deixei o dinheiro sobre o balcão e me virei para sair.

Não suportava quando alguém falava assim comigo. Como se eu fosse algum tipo de idiota e não soubesse o que estou fazendo. É obvio que sei o que estou fazendo, assim como todos ao meu redor sabem o monstro de gelo que criaram em mim. Não sabem?

Notas finais
De todo o coração pra Tay, Naty, Mih, Luana, Dudu e Eline. Vocês podem até não saber, mas cada letra não teria sido escrita se vocês não existissem, então, obrigada por existirem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!