CAPÍTULO NOVE

Era uma manhã ensolarada e agradável em Vilavelha. “O dia será limpido e quente, como costumam ser os dias de celebração na Campina” uma das jovens aias comentou ao acordar a noiva de Victarion para despedir-se de seus pais. “Um casamento afortunado, os Sete estão feliz com vossa união, milady”. De certo não ouvira as histórias sobre os outros casamentos do Capitão de Ferro.

Desmera as ouvira, oh, sim... Na noite da anunciação de seu noivado sentiu o peso dos olhares compadecidos sobre ela, ouviu os murmúrios de velhas que se apiedavam e ouviu os lamentos dos homens que ela própria havia rejeitado. Na manhã seguinte, a moça que viera trocar-lhe perguntou, com olhos arregalados: “Ouvi dizer que seu noivo enviuvou matando a antiga esposa com as próprias mãos. Não tens medo, milady?”
Mas não, Desmera não tinha medo. Não fora capaz de sentir nada nos primeiros momentos. A noite de seu noivado não dormiu, mas degustou as horas escuras e amargas da madrugada como se faz a um vinho tinto seco: pouco a pouco, sentindo a língua amargar e suavizar, repetidamente, até o raiar da aurora.

A mãe não viera a ter com ela, nem o pai, ou Horas. Hobber veio a ver no meio da noite. Entrou em seu quarto quase arrebentando a tranca da porta, bêbado e cheirando a vinho. Chorava. Abraçou-a, despediu-se. Na manhã seguinte, quando deixaram Jardim de Cima, notou a ausência do tio, Mace Tyrell. Quem lhes fez as honras da despedida foram Lady Olenna e seu neto, Willas, que pela aparência cansada também passara a noite em claro.
Achava que Hobber partiria com eles, mas quando partiram sem esperá-lo perguntou à mãe onde estava o gêmeo mais novo. Mina Tyrell enterrou o rosto nas mãos e chorou penosamente, soluçando e tentando recuperar o fôlego para falar, mas sem sucesso. Foi Horas quem veio lhe contar.

- Hobber partiu, Desmera. – sua voz e expressão eram frias, duras. – Após o banquete da noite passada, ele chegou para falar com Lord Mace sobre seu casamento. Não preciso dizer que ele não aprovou seu marido – lançou para a irmã um olhar ressentido, como se fosse ela culpada – Disse que à aquele assassino não entregariam você, jamais. Que se a Rainha dos Espinhos quisesse uma aliança para proteger suas ilhas, pois bem, que casasse Loras ou Margaery, era provável que os Greyjoy não notassem maior diferença do que Renly havia notado.

Desmera engoliu em seco. Era difícil acreditar no que dizia Horas, mas sabia que Hobber não ficaria sem reagir à situação. Esperou que o irmão mais velho terminasse.

- Não preciso dizer que isso enfureceu Lord Mace. Não pelo fato de insinuar que Loras e Renly... Você sabe... Mas especialmente por insinuar que quem governa a Campina é Lady Olenna. Ele expulsou Hobber das terras do Sul, obrigou nosso pai a deserdá-lo e enviou um corvo para Porto Real pedindo aos Lannister que não lhe deem abrigo dentro de seus domínios. Papai lhe deu um navio e um baú de ouro antes que partisse. Desmera, em todos estes anos eu jamais havia visto nosso pai fraquejar, jamais! – Horas elevara a voz, e agora teve de abafá-la. Ele a culpava, sabia disso. – Ontem, Lord Paxter Redwyne chorou ao mandar embora um de seus filhos. Hoje, entregará sua filha donzela à um inimigo de nossa casa, e ela irá de bom grado. – então o herdeiro da Árvore calou-se, remoendo mágoas e sem poder fitar os olhos da irmã caçula.

-x-

Na tarde de sua partida, o cais do Porto das Gaivotas em Vilavelha estava apinhado de gente. Nobres e populares vinham despedir-se da jovem noiva que os salvaria das invasões dos Homens de Ferro. Passara o dia ao lado dos pais, que partilharam dos últimos momentos juntos antes do casamento de sua filha caçula. Nenhum deles iria à Pyke para vê-la em trajes de noiva a jurar seus votos para a Casa Greyjoy e ao Capitão da Frota de Ferro.

Ao embarcá-la no navio Silêncio de Euron Greyjoy, Horas beijou-lhe a fronte e sussurrou seu perdão ao ouvido da irmã. Não estava lhe pedindo perdão. Dizia que a perdoava. Desmera não o respondeu, nem sorriu. Trocou olhares com o irmão e então voltou-se para a mãe.

Lady Mina não chorava mais, pelo contrário, sorriu-lhe e disse à menina que sorrisse também. “A Deusa Mãe nunca abandona suas filhas. Os deuses estão sempre ao lado daqueles que a eles recorrem, Desmera, sempre.” E então a beijou e entregou um anel redondo e que ocultava em seu interior um pó avermelhado. Veneno, sem dúvidas. Antes de entregá-la ao pai para despedir-se, Mina ainda ocultou nas vestes da filha um punhal de cabo ornamentado, e beijou aquele pequeno rosto pela última vez.

Paxter Redwyne tocou o queixo da Donzela das Uvas e passou os dedos naquela pele macia. Olharam-se profundamente, com a força, sem desviar o olhar.

- Há quem diga que nosso destino está ligado a nossa terra, Desmera, que ela é parte de nós assim como nós somos dela. Mas outros dizem que o destino é costurado como um tecido onde a vida de um determina a de muitos outros. É a única coisa que buscamos, ou que lutamos para mudar... Alguns nunca encontram o seu verdadeiro destino, minha filha, mas outros são levados a ele, como você está sendo. Não olhe mais pra trás, Desmera, você sabe onde esteve. Olhe para frente, pois agora você precisa saber para onde vai.

E abraçaram-se com devoção. O Senhor da Árvore entregou à filha um embrulho em seda, mas ela relutou em abri-lo ali, na frente de todos. Virou-se e subiu no Silêncio onde Euron a observava com o rosto indecifrável. O silêncio é algo difícil de ser lido, e era impossível saber se o Olho de Corvo divertia-se com a despedida da donzela ou estava impaciente com tudo aquilo.

Assim que o navio afastou-se do porto e Desmera perdeu de vista Vilavelha, ele aproximou-se silenciosamente por trás de seu corpo, fazendo-a sobressaltar e virar-se de encontro a ele.

- Ora, minha dama, tenha calma – ele disse, com um sorriso em seus lábios azuis – Eu não vou machucá-la, a não ser que você queira – Euron riu como se fizesse uma comentário engraçado.

- Eu gostaria de descansar agora, se possível. Quero deitar-me e ficar a sós – a Donzela das Uvas apressou-se em dizer.

- Creio que posso providenciar seu descanso, Lady Desmera – Euron silvou por entre os dentes, enquanto afastava uma mecha do cabelo de Desmera para trás dos ombros dela, expondo melhor o decote de seu vestido. – Entretanto, não posso deixar que fique sozinha em um navio cheio de homens. Não acha que seria muito arriscado, pequenina? – Falava em tom de diversão enquanto a conduzia para a cabine do navio que ele mesmo ocupava usualmente – Providenciei novas damas de companhia para ti quando soube que nenhuma Casa na Campina desejou mandar suas jovens para servi-la. Veja só, agora terá minhas próprias filhas para ajudar-lhe com as pequenas tarefas. Mas não se preocupe, elas não lhe incomodarão com conversas tolas e falatórias sobre seu futuro noivo. Elas não falam, e nem ninguém mais aqui além de nós dois. Eu mesmo me certifiquei disso.

E deixou-a na cabine com as duas moças, sorrindo com sarcasmo. Desmera sequer as encarou, pediu-lhes vinho doce e frutas, mas não lhe trouxeram nada. Não havia nada para lhe trazer além de peixe salgado e o vinho seco que viera como presente de noivado com seu dote. Então a Donzela das Uvas deitou-se e desejou dormir. Se havia de encontrar seu destino, que o tempo não demorasse a passar em seu sono. Tinha esperanças de encontrar a bússola que a ajudaria a navegar no alto mar do casamento entre um sonho e outro.

Que a Deusa acalme esse mar de emoções


\"\"