Notas iniciais
*Não sei o que há de errado com a formatação deste capítulo, por algum motivo ele ficou diferente dos outros, embora eu tenha tentado arrumá-lo de várias maneiras. Enfim, espero que aproveitem a leitura assim mesmo! ♥

CAPÍTULO OITO

— E então ainda não se sente confortável sobre a carta? – o silêncio dos estábulos foi interrompido pela frágil e trêmula voz de Samwell. As mãos rechonchudas tremiam enquanto ele tentava debilmente desencilhar o potro cinzento que montara naquela tarde, quando saíram juntos a uma pequena comitiva de patrulheiros.

— Na verdade, eu havia me esquecido... – sussurrou Jon, enquanto guardava a sela usada. – Está curioso, Sam? – sorriu o bastardo, de leve, aquele sorriso de canto, misterioso e encantador. “Quantas donzelas teriam suspirado por aquele sorriso?” Samwell refletiu.

— Estou preocupado, é isso. Sabe, somos amigos... Notei como reagiu à carta, e depois de tudo que aconteceu, digo... Seu pai, sua família, eu achei... – e então calou-se ao ver aqueles olhos azul-acinzentados o encarando atônitos. – Jon, eu não quis dizer, POR FAVOR, me desculpe!

— Tudo bem, Sam, está tudo bem. É só que às vezes me esqueço de que tudo aconteceu, e há tão pouco tempo. Como se fosse outra vida, aqui na Muralha. Não sou mais Jon Snow, o bastardo de Winterfell. Tenho meu dever com Intendente Jon Snow da Patrulha da Noite. – respondeu o rapaz com uma voz tranquila, tentando disfarçar as emoções que borbulhavam dentro de si. Ajudava o amigo à desencilhar o cavalo pacientemente, para que Sam tentasse aprender mais uma vez.

Quando haviam já escovado os cavalos, higienizado e guardado os equipamentos, e finalmente fechado as portas do estábulo, subiram as escadas para a janta que estava sendo servida: guisado bovino temperado com cebolas e pimenta rosa, e certamente batatas para engrossar o caldo. O cheiro dos condimentos preenchia o ar com seu calor, era até de certa forma aconchegante.

— Robb quer que eu retorne – as palavras caíram como blocos de gelo sobre o prato de Sam logo depois do outro rapaz sentar-se ao lado dele. – Mas eu não vou, Sam... – Jon rapidamente acrescentou ao notar o olhar atônito do amigo.

— Ora, p-por quê não, Jon?

— Sam, meu lugar é aqui agora! Eu tenho meus deveres, tenho um compromisso a honrar. Nós juramos, Sam, juramos guardar a Muralha, juramos proteger os Sete Reinos do que quer que esteja além dela – sua voz estremeceu – Não importa o que aconteça em Westeros, Sam, nosso dever é aqui. É nosso dever.

De repente a refeição perdera o gosto e nem mesmo o vinho doce apetecia a Jon. O jovem intendente suspirou desejando não ter falado ao Irmão daquela maneira. Desde que o autodeclarado “Covarde” Samwell Tarly chegara à Muralha, o “Bastardo” havia sido seu amigo mais próximo. De certa forma suas fraquezas haviam os aproximado, e poder dividir o peso dos deveres na Patrulha era bom. Foi injusto ter lhe dirigido a palavra de maneira tão rude como acabara de fazer.

Sem dizer nada, Jon ofereceu um pouco do guisado à Fantasma, que farejou e mordiscou timidamente a refeição antes de terminá-la. Tocou o ombro de Sam e tentou sorrir, mas não achou que tivesse sido convincente ao ver que o companheiro também forçara um sorriso de volta.


-x-


Após terminar a refeição da noite, Sam subiu aos aposentos de Meistre Aemon para levar-lhe leite doce e uma ceia modesta. O ancião estava sentado próximo à janela banhada pela luz da lua, lendo com a ajuda de uma vela cujo fogo já extinguia-se. Riu ao ver o corado jovem entrar em seu quarto com a comida.

— Meu bom rapaz, atrasou-se um pouco hoje... – inclinou-se para tentar vislumbrar o conteúdo do prato – Uma porção tão pequena que me perguntou se um certo alguém andou confiscando um pouco para si!

— De maneira nenhuma, meu senhor! – Sam corou. Meistre Aemon era sempre muito afável com ele, e agradecia aos Sete por isso. Pensar que poderia estar no lugar de Jon, lidando com o Velho Urso, causava-lhe mal estar e até um arrepio na espinha.

Com o cuidado que lhe era característico, Samwell Tarly retirou os livros e colocou a refeição do velho senhor sobre a mesa. Atiçou as brasas que ardiam tímidas e fez o fogo reacender com vigor, brilhando forte e alaranjado. Gostava de ver como o Meistre observava as chamas com atenção e familiaridade, e também a maneira como parecia nunca sentir frio quando seu intendente vinha reacender o fogo à noite. “Um Targaryen, de fato. Gostaria tanto de poder ter visto os dragões, e ter vivido na época em que Jaehaerys, o Sábio e Alysanne, a Boa reinavam. Naquela época, até a Muralha era um lugar bom para se viver, não um lugar para condenados...”

— Como vai a organização de nossos registros, Samwell? – a voz fraca de Aemon assustou o jovem ao tirá-lo de seus pensamentos e o fazendo derrubar alguns pedaços de lenha. – Ou tens tido mais preocupações nos dias que se passaram?

-Nossos registros vão bem, senhor – ele apressou-se em responder. – Temos muitas listas e dados que precisam ser copiados para não serem perdidos, e toda a despensa e os livros de controle de estoque precisam de uma organização. Acha que tenho andado distraído, Meistre? – a pergunta atrevida escapou dos lábios do rapaz gorducho antes mesmo que ele pudesse perceber.

— Realmente, eu notei que andavas um pouco descuidado nos últimos tempos. Algo lhe incomoda?

Sam hesitou em dizer, mas, no fundo, sabia que o Meistre estava apenas lhe dando uma chance de dizer com suas próprias palavras algo que ele já sabia.

— Há um dos Irmãos que está indeciso sobre a vida da Patrulha, Meistre Aemon. Acredito que parte dele deseja verdadeiramente ficar aqui e defender a Muralha conforme manda o juramento que todos prestamos... mas ele conserva em si também o anseio pelas batalhas que agora assolam os Sete Reinos. Ele gostaria de lutar ao lado de seus irmãos, defender o Reino onde cresceu e ver o irmão ser coroado Rei do Norte – Aemon riu quando seu intendente traiu-se e revelou a verdadeira identidade do “Irmão”. – Mas Jon também sente que seu dever é aqui, honrando seu juramento e cumprindo os deveres que seu posto lhe incumbe.

— Meu bom rapaz, Jon Snow deve decidir por si mesmo o que fazer com a vida que lhe foi dada. Não há nada em que sua preocupação possa ajudar, Samwell... Concentre-se em suas tarefas, é o melhor que pode fazer. Eu tentarei resolver o problema do jovem Snow, se isso lhe fizer trabalhar melhor.

Ao ouvir aquilo, o intendente mal pôde conter sua excitação. Ele sorriu e torceu os dedos das mãos, querendo na verdade poder abraçar o velho homem que pacientemente terminava a taça de leite adoçado.

— Muito obrigada, Meistre Aemon.

— Não agradeça, garoto. Faço isso pois um dia quis que pudessem fazê-lo por mim. Você é um homem inteligente, Sam, embora pareça esquecer-se disso às vezes. Sabe tudo o que observei daqui, como vi minha família declinar e desaparecer como fumaça e cinzas levadas pelo vento. Pouco do nosso fogo restou, diluído em sangues de outras Casas, e nenhum dragão voltará a voar... Eu falarei com o Velho Urso, Samwell, pedirei a ele que mande Snow recrutar jovens prisioneiros de Robb Stark. Precisamos de mais braços para defender a Muralha.

— Sim, senhor. – concordou automaticamente.

— Antes de ir, Samwell... Diga a Jon Snow que guarde minhas palavras... Mais difícil do que cumprir com um dever, é conhecer o seu verdadeiro dever, meu bom rapaz. Há outros homens aqui que poderiam assumir o posto de Intendente do Senhor Comandante, mas há outro irmão para quem Robb Stark poderia pedir conselhos e dividir o peso da coroa? Os Sete nos deram apenas um dever neste mundo, Samwell: o de sermos felizes. Nenhum outro dever deve subjugar este.