A Breath of Snow and Roses
9 Capítulo 7
Notas iniciais
CAPÍTULO SETE
Era uma noite quente nas terras do Sul, e o ar denso carregado do aroma de vinho e especiarias alastrava-se por Jardim de Cima. Ouviam-se as vozes de cantores e menestréis abafadas pela agitação que aos poucos tomava conta do salão principal da Casa Tyrell, mas poucos andares acima a euforia e o entusiasmo da noite festiva davam lugar a angustia da jovem Redwyne.
Haviam lhe cedido alguns minutos para que Desmera ficasse sozinha em seu quarto, mas só até que trouxessem as essências e perfumes para sua preparação. O vestido grená que usaria aquela noite fora estendido por sobre a cama, para que ela pudesse vê-lo com mais clareza ao escolher as joias que usaria para combinar, mas nada que possuísse rivalizasse com o presente que ganhara de seus irmãos.
No momento em que pegava os brincos para prová-los, ouviu baterem na porta do recinto. Eram as amas de Lady Alerie, que vieram vestir e perfumar a jovem noiva.
Abriu-a sem antes espiar pra certificar-se de quem se tratava e deparou-se com um homem alto e de vestes escuras. Tinha parte dos lábios coloridos, num tom azulado quase roxo, como se tivesse comido frutinhas que mancharam-lhe a boca. Além disso, nada mais viu, pois fechou a porta em um estrondo ao se dar conta que era um homem, antes que o mesmo pudesse dizer ou tentar qualquer coisa. Um homem...
E a vira seminua, vestida apenas com as finas e transparentes roupas de algodão que usaria por baixo do vestido de baile. Podia ouvir o próprio coração a palpitar frenético, sob os seios que se elevavam e tornavam a baixar com a respiração vacilante que o susto causara. Aquele homem diria a qualquer um que cruzasse seu caminho que havia visto a donzela nua na noite de seu noivado. Ele murmurara um ‘milady’, numa tentativa frustrada de desculpar-se enquanto ela tentava desvencilhar-se do embaraço.
Quando bateram na porta pela segunda vez, eram de fato as amas da Senhora Tyrell. Começaram abrindo os frascos dos óleos e essências aromáticos, inebriando o ambiente com cheiros doces e até provocantes, que faziam a moça suspirar e sentir o corpo acalorar-se. Esfregaram gentilmente todo seu corpo com aqueles perfumes, e pentearam seus cabelos castanhos até que ficassem sedosos e brilhantes.
Por fim, vestiram-na em grená e dourado. O modelo era recatado na parte da frente, não deixando exibir os seios em excesso, como era corriqueiro à Margaery Tyrell, mas possuía toda a parte das costas aberta, deixando à mostra tez alva de Desmera Redwyne.
Foi escoltada até o pequeno hall do salão por um pequeno grupo de moças mais jovens, também de linhagens de Casas nobres da Campina. Mace Tyrell esperava, em seu gibão verde e dourado e os cabelos que lhe restavam penteados cuidadosamente. Sorriu ao ver a sobrinha:
- Pequena rosa, vestida em carmesim e grená – beijou a fronte da moça – Respire fundo, e lembre-se de sorrir. Em tempos como este, uma jovem graciosa é um armamento poderoso. Diga-me, aprendeu a cantar e tocar harpa?
- Sim, meu senhor – a voz dela soou hesitante e trêmula.
- Então cantará esta noite. – e sorriu, acenando para que abrissem às portas do salão.
Ao contrário da maioria dos salões festivos, o Salão das Rosas era totalmente aberto, sem paredes, sem teto, apenas demarcado pelo piso em mármore róseo. Altas colunas erguiam-se no entorno do salão, como se desejassem atingir os céus. Ao redor delas haviam arranjos de folha de videira e rosas, simbolizando as Casas Redwyne e Tyrell.
Quando juntos atravessaram o salão para sentarem-se nos lugares de honra, à mesa mais elevada, a moça pôde sentir olhares deslizando sobre ela, e comentários sobre suas vestes e seu corpo, e tentou ignorá-los. Procurava por rostos conhecidos entre as mesas, na multidão, e então reconheceu Paxter Redwyne, que vinha encontrar a filha caçula e o cunhado.
Subiram os três no tablado onde estava a mesa de honra, na qual as duas casas das quais Desmera descendia jantariam juntas naquela noite. Diante de todos os presentes, o Senhor da Árvore iniciou sua fala, elevando a voz rouca e firme:
- Senhores, boa noite! É com prazer que a Casa Redwyne apresenta à corte da Campina seu ramo mais novo: Desmera Redwyne, a Donzela das Uvas.
Ouviram-se gritos e clamores acalorados quando Lord Paxter anunciou sua filha. Era um homem bem-visto e muito respeitado como líder, braço direito de Mace Tyrell e descendente do fabuloso Ryam Redwyne.
Mace deu início ao banquete. Não era necessário anunciar o desejo de casar a jovem dama, o convite para àquela noite já havia sido claro o suficiente, como sempre são as obras da Rainha dos Espinhos.
Desmera sentou-se entre os pais, e estes foram ladeados pelos gêmeos Horas e Hobber. Ao lado de Horas sentava-se Mace Tyrell, e então seu herdeiro Willas, lady Alerie, ladu Olenna e por fim Margaery e Loras, que conversavam animadamente, trocando sorrisos.
Garland não pudera vir a ter com sua família naquela noite, mas mandara uma grossa pele de urso negro para a prima. “Eis o urso que desejava a donzela. Não tenha medo.” Sendo breve e encorajador, como de costume.
Travessas de javali assado com alho e ervas, cisnes com cogumelos e ostras, tortas picantes de porco, pato ao molho de gengibre e mel e peixes preparados das mais variadas maneiras, tudo regado com generosos cálices de vinho da Árvore, do mais claro ao tinto, e uma safra especialmente fermentada para as bodas de Lady Desmera, de uvas negras com romã e gengibre, simbolizando sua doçura e o caráter forte dos Redwyne.
Vez ou outra a jovem noiva recebia um olhar ou um sorriso vindo das outras mesas, e quando se findou o jantar e os menestréis começaram a cantar suas canções, a Donzela das Uvas caminhava por todo salão com Hobber e Willas, dançando ora com um, ora com outro, e conversando com outras jovens da Campina.
Ela sorriu para um jovem escudeiro que a observava, era Luthor Tyrell, e ele veio falar-lhe. Tinha o mesmo nome do avô dela e este foi o tópico principal de sua breve conversa: como um dia ele seria conhecido e valoroso tal qual seu antecessor. Não deveria ter mais de 10 anos. “Jovem demais, até mesmo para mim” ela riu ao pensar.
Cumprimentou Horas com um sorriso ao encontrá-lo, e ele lhe apresentou a um rapaz da Casa Bulwer de Coroanegra, que gaguejava ao falar-lhe sobre as políticas atuais de Westeros, e constantemente trocava olhares com o herdeiro da Árvore procurando apoio e aprovação.
Enquanto olhava ao redor viu novamente o homem que batera em seu quarto, e ele lhe sorriu um sorriso com o canto da boca, de escárnio e provocação. Rapidamente a donzela desviou o olhar e pediu licença para Horas e o jovem Bulwer, que a olhou como se pedisse desculpas por entediá-la.
Muitos mais lhe fizeram cortesia e sorriram, até que Margaery veio trazendo pelo braço um rapaz alto e loiro, cujos músculos dos braços sobressaiam sob os trajes carmesim que usava. Apresentou-lhes e saiu dando risinhos. O cavaleiro era Daven Lannister, um sobrinho de Tywin. Ouvira os irmãos falarem sobre suas justas e como ficava irascível se derrotado. Cheirava a vinho e vez ou outra a olhava com lascivia enquanto falava. Quando Desmera pediu-lhe licença para buscar um pouco mais de vinho doce, o Leão pareceu ofender-se e fez uma mesura cortês e seca, como que concedendo de má vontade que ela fosse.
Sua taça foi servida por um homem de longa e escura barba e cujos cabelos eram ralos no alto da cabeça. Bebia goles largos que faziam o vinho da Árvore escorrer pela lateral de sua boca, mas era uma companhia agradável, de certa forma. Ele contou à jovem dama que viera do Norte para buscar uma esposa para seu filho e herdeiro, mas concluiu que “esta noite apenas aproveitaria o banquete, pois a ‘milady’ estava muito acima do merecimento de seu rebento”.
- Minha dama daria uma rainha formidável para nosso Jovem Lobo! – ele enalteceu a imagem do Rei do Norte como se fosse seu próprio filho. – É claro, Lady Catelyn, já planeja uma aliança com os Frey das Gêmeas, mas...
- Caro Lord Glover, é um prazer para nossa Casa receber valorosos homens do Norte como vós! – Hobber Redwyne interrompera o discurso do nortenho, que sorriu com gentileza e o cumprimentou com um abraço. Todos eram camaradas enquanto bebiam sob o teto de estrelas dos Tyrell. – Minha dama, nosso pai gostaria de ouvir-te cantar para nossos convidados. Mandei que trouxessem a harpa de Lady Olenna.
Desmera franziu o cenho em desagrado, mas por fim concordou em apresentar-se. Sorriu afetuosa para os rostos que a observavam, e anunciou uma canção que aprenderam com o jovem Samwell Tarly, fazendo com que Meleessa Florent, sua mãe, sorrisse ao ouvi-la cantar.
Era uma balada tristonha, mas ainda assim de beleza ímpar, que narrava uma história de amor na qual uma jovem nobre fora prometida à seu amor, mas impedida de casar-se quando ele teve de ir a guerra. Anos passaram-se sem que ele regressasse, então ela decidiu secretamente procurá-lo, mas perdeu-se e acabou perecendo ao sul da Campina, sendo seu corpo encontrado e reconhecido pelos próprios irmãos que também lutavam na guerra. Ao descobrir o que sucedera com sua donzela, o nobre guerreiro em sua loucura atirou-se ao mar de um penhasco, e então os deuses transformaram-no em uma gaivota, para que não morresse, mas sempre pudesse ir ao mar e regressar a terra onde sua amada perecera e assim conservar seu amor.
Quando sua voz silenciou, e os dedos tocaram na harpa os últimos acordes, Desmera pode ver seu pai e Lady Olenna Tyrell parados junto ao tablado que lhe servira de palco, e Lord Paxter acenou para que a filha se aproximasse, e entraram os três em uma pequena câmara anexa ao Salão das Rosas.
- Desmera, nós recebemos uma proposta de casamento de uma Casa Real mais ao norte de Westeros. – sussurou a Rainha dos Espinhos.
- Foi apenas cogitado, terá outras opções caso não lhe agrade. Além da Campina os lugares são ermos e frios, é longe de casa, e muitos homens valorosos anseiam por uma aliança com uma descendente de Luthor Tyrell...
- Fiz minha escolha, pai. Não encontrarei meu destino aqui. – a jovem noiva retorquiu, decidida. Algo dentro de si dizia que esta era sua sina, e que estava fadada a encontrá-lo de uma maneira ou de outra.
Em silêncio, dirigiram-se os três à parte mais alta e destacada do Salão.
- Caros senhores – uma voz imperiosa e forte retumbara dos lábios de Olenna, contrapondo a sua imagem tão frágil e pequena. – A Donzela das Uvas fez sua escolha. Neste dia afortunado tenho a honra de anunciar a aliança o casamento de Desmera da Casa Redwyne com Victarion Greyjoy.
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