A Breath of Snow and Roses
14 Capítulo 11
CAPÍTULO ONZE
As Terras Fluviais tinham um clima ameno na maior parte do tempo, mas aquele dia havia amanhecido cinzento e chuvoso, e a noite castigava as tropas nortenhas com uma chuva torrencial. O lodo se formara onde a água encontrara a terra pisoteada e desgastada pelo caminhar de homens e animais, e o acampamento jazia em um silêncio fúnebre, exceto apenas pelos resmungos de soldados que haviam ficado acordados para fazer a vigília.
Dentro do castelo, entretanto, a música cortava o frio e o calar da noite nos aposentos do Hoster Tully. Catelyn mandara trazer uma harpa ao quarto do pai e tocava para ele à noite, crente que lhe ajudaria a ter um sono mais tranquilo e tentando convencer-se de que o velho ainda distinguia dias de noites em meio a seus delírios. Era uma canção triste, em letra quanto em melodia. Falava sobre um velho rei que, mutilado em combate perde a capacidade de andar, e assim pede aos filhos que lhe matem para que não sofra da humilhação da invalidez.
O cântico a fazia pensar no próprio pai, aprisionado em seu corpo, nas próprias ilusões. Teria Hoster Tully feito o mesmo pedido à Edmure, se soubesse o que enfrentaria em sua velhice? Em um sobressalto, a viúva de Eddard foi trazida de volta a realidade por um bater insistente na pesada porta de carvalho dos aposentos do pai.
Ela deixou a harpa e caminhou em passos rápidos para a entrada do quarto, onde atendeu um jovem escudeiro com a expressão carrancuda de quem não gostaria de receber mensagens em hora tão adiantada.
– M-minha senhora – o rapazote se apressou em dizer, nervoso – Lady Catelyn, há homens no portão que exigem uma audiência com o rei do Norte. V-vestem o negro, minha senhora...
– E o que espera que eu faça? Este assunto diz respeito à meu filho, não a mim. – ela retorquiu rispidamente
– Lady Catelyn.... Eles... Eles devem ter o consentimento de Lord Hoster Tully para adentrar as muralhas de Correrrio.
Catelyn sentiu cada palavra como uma pequena agulha entrando em sua pele. O senhor de Correrrio já não era capaz sequer de autorizar quem transitava entre seus domínios.
– Diga que entrem e lhes uma refeição quente. A viagem deve ter sido dura até aqui. – e fechou a porta atrás de si, deixando o rapaz a encarar a madeira.
–x–
Vozes exaltadas ecoavam pelo salão que Robb escolhera para fazer as reuniões de seu Conselho de Guerra. Haviam cadeiras, mas ninguém estava sentado. Havia uma mesa, mas sobre ela, apenas vinho e mapas. A luz trêmula das velas iluminava rostos cansados com feições preocupadas.
Robb discutira com Lord Glover sobre enviar parte das tropas nortenhas mais ao sul do Tridente para findar de vez as ameaças inimigas, atacando com força total e dispersando as hordas juramentadas aos Lannister, que saqueavam vilas e destruíam plantações numa tentativa de escassear o alimento dos aliados do Norte.
Entretanto, o Jovem Lobo temia perder mais homens do que o necessário, caso investisse em um ataque mal sucedido, e em seu íntimo sabia que as chances de falhar em um combate como este eram grandes. O Norte era superado em número e provavelmente também em poder bélico, dado o fato de que lutavam contra uma das casas de maior fortuna em Westeros.
Ultimamente os assuntos de guerra faziam Robb sentir os ombros pesar mais e mais a cada noite, e quando podia deitar a cabeça no travesseiro para dormir o sono demorava a vir.
A vida que vivera em Winterfell lhe parecia agora um sonho confuso. Tudo perdera-se do dia para a noite. Jon estava na Muralha, lutando ao lado do tio Benjen para defender os Sete Reinos de perigos que lhes eram desconhecidos, as irmãs estavam cativas em Porto Real e os meninos que antes mal sabiam ler, se tornaram jovens príncipes, responsáveis pelo andamento da sede da casa Stark.
E quanto ao pai, Lord Eddard, pensar que jamais voltaria a ver aquele sorriso afetuoso ou ouvir sua voz retumbante nos Conselhos do Norte fazia Robb perder o chão por alguns instantes. Era Rei do Norte agora, como foram tantos antes de si. Mas devolveria sua coroa de bom grado para poder ver o pai novamente, ao menos uma vez.
– Senhores – Robb usou um tom de voz elevado para chamar atenção de seus juramentados que discutiam entre si. – Senhores, declaro encerrado o conselho desta noite. Até que não tenhamos segurança de vitória, não atacaremos novamente nosso inimigo, mas manteremos nossos cativos até lá e estaremos prontos para um ataque surpresa da parte deles.
E então um a um foram dispersando-se, com cumprimentos de despedida. Theon o olhou preocupado, mas ultimamente o rapaz que fora seu melhor amigo durante a infância lhe dirigia pouco a palavra e apenas deixou o salão. Quando o último dos homens saiu, um garoto entrou apressado sem pedir permissão ao jovem rei, que achou graça em repreendê-lo por isso.
– M-me desculpe, vossa graça, mas parecia-me tão urgente que esqueci minha própria educação – ele balbulciou, temendo ser castigado.
– O que pode ser tão urgente à uma hora dessas, garoto? – o Rei do Norte riu ao ver o pobre e assustadiço menino torcer os dedos de nervosismo ao falar-lhe.
– Chegaram há pouco tempo dois homens que dizem ter grande necessidade em falar-lhe, meu senhor. Vêm do Norte, e vestem negro.
“E vestem negro” foram as palavras que ecoaram em sua cabeça quando Robb deixou os mapas e o vinho sobre a mesa e andou à passos largos para a cozinha, onde sabia que os convidados teriam sido recebidos. A Patrulha da Noite era respeitada e contava com a hospitalidade de todas as Casas de Westeros.
Desceu os degraus pulando de dois em dois, tentando chegar o mais rápido possível a seus hospedes inesperados. A esperança de rever o irmão revolvia seu peito de modo a fazer com que Robb quase pudesse sentir a presença dele.
E quando entrou na cozinha lá estava Jon, sentado em suas vestes negras e o cabelo negro e desgrenhado cobrindo a cabeça em cachos disformes. Sorriram um para o outro e abraçaram-se no meio da cozinha, como os irmãos de sangue e de fé que eram. Naquele abraço, ambos sentiram o tempo parar por alguns segundos e a ilusão de que tudo voltara a ser como antes, que abririam os olhos e estariam em Winterfell novamente.
Mas quando abriram os olhos, ainda estavam na cozinha de Correrrio. Em silêncio, sentaram-se lado a lado no banco paralelo à mesa e beberam vinho quente, sem saber ao certo o que dizer um ao outro. Então Robb percebeu o olhar constrangido do acompanhante de seu irmão, um homem gordo e de bochechas rosadas que devorava seu prato de bacon e ovos com cuidado para não fazer barulho algum, talvez pensando que o Rei do Norte não o iria notar ali se ficasse quieto o suficiente.
Pela primeira vez em muito tempo, Robb sorriu para seu irmão, que também observava Samwell Tarly em sua frustrada discrição.
– É um prazer tê-los aqui, patrulheiros. – o jovem Stark iniciou em voz formal, e no exato momento os olhos arregalados de Sam voltaram-se para ele. – Sob meu teto têm minha hospitalidade e tudo o que lhe for necessário enquanto de sua estadia.
– Obrigado, senhor. – Sam apressou-se em dizer, e então Robb e Jon desataram a rir gargalhadas. Atônito e sem entender, o gordo intendente da Patrulha limitou-se a franzir as sobrancelhas e continuar sua ceia.
– Este é meu irmão, Robb Stark – Jon apresentou o Jovem Lobo ao companheiro de viagem. – Robb, este é Samwell Tarly, intendente da Patrulha da Noite.
– Ainda assim, é o Rei do Norte. – retorquiu o sulista – Devería tratá-lo assim, Jon.
– Meu pai jamais permitiu nosso tio Benjen de chamá-lo por qualquer título, e não farei com que você o faça também, Jon. E Samwell, também lhe ordeno que se dirija a mim por meu primeiro nome. E enquanto estiverem em meus domínios, é sua obrigação me obedecer! – e tornaram a rir os dois nortenhos, sob o olhar confuso do sulista.
E naquela noite, dormiram lado a lado como quando eram crianças. O Corvo da Patrulha e o Jovem Lobo, irmãos de sangue.
–x–
Foram acordados na manhã seguinte por batidas insistentes na porta do quarto em que os dois patrulheiros haviam hospedado-se. Procuravam pelo Jovem Lobo, que desaparecera de Correrrio, e a suspeita recaíra sobre os visitantes que chegaram no dia de seu desaparecimento. Quando o próprio Robb Stark atendeu à porta, Brynden Tully suspirou aliviado e explicou a seu rei o que se passara, tentando falar-lhe com respeito, mas em seu íntimo pensando em como seu sobrinho-neto assustara a todos naquela manhã. “Travessuras de um garoto”, pensou consigo mesmo o Peixe-Negro.
Andaram juntos para o desjejum, Robb Stark e seu tio-avô, porém Sam e Jon ficaram para trás pois haviam de ocupar-se do motivo que os trouxera às terras fluviais: oferecer o ofício da Patrulha da Noite para os prisioneiros de menor importância das masmorras de Correrrio.
Quando o Jovem Lobo caminhava para a primeira refeição do dia, surgiu em sua frente uma jovem de cabelos longos e louros, reluzentes como o Sol. Ela curvou-se perante seu rei e quando seus lábios abriram-se para falar Robb soube que tratava-se de uma dama de alto nascimento, apesar das vestes simples.
– Vossa Graça, Lady Catelyn pede que compareça aos aposentos de Lord Hoster Tully. Ela deseja falar-lhe, aparentemente com urgência.
– Lady Catelyn não especificou de que se trata este assunto de tanta importância, senhora Brienn.
– Me chamo Alys, vossa graça. Perdõe-me em corrigi-lo, mas Lady Brienne também é loura, no entendo ela serve à vossa mãe e eu sirvo ao senhor apenas – ela disse com firmeza. Encarava-o nos olhos, e isso perturbava o Jovem Lobo – Alys da Casa Karstark, senhor.
– O Sol do Inverno – completou Brynden Tully, com um sorriso gentil.
A jovem, porém, limitou-se a desviar o olhar por um momento e observar as feições do velho que lhe sorria, voltando-se novamente à Robb como se não desse importância:
– Creio que vossa mãe deseja saber onde esteve esta noite, e também quem são os homens que chegaram vindos da Muralha.
– Irei vê-la após reunir-me com meu Conselho. – ele concluiu e retomou sua caminhada para tomar o desjejum com seus homens, como de costume.
Quando percebeu que a moça o acompanhava, olhou de relance para o tio, como que perguntando o que ela prentendia. O Peixe-Negro limitou-se a indicar, com um olhar, as marcas avermelhadas nas mãos da jovem: cicatrizes mínimas, provavelmente causadas por lâminas e marcas da corda de um arco longo.
Rickard Karstark perdera dois dos filhos mais velhos no Bosque dos Murmúrios, mortes que lhe fizeram questionar sua própria lealdade, Robb sabia disso. Deixara o herdeiro em Karhold, como que pressentindo o mal que poderia acontecer a sua casa, e agora enviara a filha caçula para representá-lo no Conselho de Guerra do Norte, enquanto levara os corpos dos filhos para velar e enterrar em seu castelo. O Jovem Lobo simplesmente não podia acreditar.
Por um momento esquecera-se de Arya, sempre curiosa para os assuntos da guerra, e mais, esquecera-se da tia Lyanna, famosa por suas habilidades bélicas tão incomuns para uma mulher. Sentia-se insultado, e agora mais do que nunca pensava em Karstark como um velho louco cuja sanidade mental vinha se deteriorando.
Mas quando chegaram os três ao salão, o Sol do Inverno, o Jovem Lobo e o Peixe Negro, e Robb viu seus homens levantarem-se e cumprimentarem tanto à ele quanto à moça loura e o tio.
Ele percebeu que naquele alvorecer o sol havia nascido com um brilho distinto, como se trouxesse novos ares e uma motivação forte para as tropas Nortenhas que logo enfrentariam uma ameaça poderosa nas cores de carmesim e dourado. A vinda dela dava lume novo aos soldados e senhores de guerra que antes discutiam incessantemente e pareciam em nada concordar.
Ouvira histórias sobre Alys Karstark antes, contadas entre conversas ébrias por soldados rasos, nunca dera atenção à tais rumores de uma jovem com talento nato para a guerra, cujo pai insistia em incentivar, muito embora jamais permitindo que a filha donzela saísse dos muros de sua fortaleza. Seu nome percorrera o Norte quase como uma lenda. E, no entando, ali estava ela.
E naquela manhã, todos viram o Sol do Inverno brilhar com a esperança que traz o raiar de um novo dia.
The Winter Sun will rise
*na foto: Nós nunca sabemos o quão altos (grandes) somos até sermos chamados a ascender.
*legenda: O Sol do Inverno se levanta.
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