A Boneca
1 One-Shot
Notas iniciais
A boneca
O barulho dos carros correndo em alta velocidade, as vozes indistintas que soavam ao longo da rua e a ventania agiam como agulhas em seus tímpanos. Sempre odiara sons altos. Porém, era somente o começo de uma longa noite. Ainda teria de ir a uma festa que a empresa para a qual trabalhava armara.
Aumentou as passadas e atravessou trotando por uma das ruas. Um carro passou acima do nível permitido. O som lhe atingiu novamente. Desgraça. Olhou com desgosto para o veículo que desceu a rua. Ainda rogando pragas ao motorista, continuou o caminho. Mais algumas quadras e logo estaria no Khay, o local onde estaria havendo a festa.
Porém, quando passava na frente de um antigo teatro, ouviu uma música sair de dentro dele. Parou imediatamente de andar. Curiosa, aproximou-se da porta e colocou o ouvido na mesma, procurando ver se conseguia escutar algo ou constatar se havia sido apenas sua imaginação. Por que haveria música dentro de um teatro que fora fechado há dez anos? Impossível? Sim. Debilidade mental? Quem sabe...
Se não voltasse a percorrer o caminho para chegar ao Khay, se atrasaria o que não era visto com bons olhos pelos seus chefes, mas... A música era tão encantadora! As notas suaves embalavam sua mente em uma agradável dança. Talvez não fosse tão ruim dar uma rápida olhada no que propagava o som.
Abriu a porta e assim que o fez, esta rangeu como se fosse uma clássica cena de filme de terror. Fechou-a. O interior do antigo teatro também fazia juz a um ambiente de terror: o ambiente estava escuro, apenas sendo iluminado pela luz da lua, cadeiras estavam quebradas e algumas jogadas em cima das outras, as cortinas vermelhas encontravam-se rasgadas e presas por apenas um lado. Fitou o palco. Um homem de madeixas negras, que trajava roupa social preta e tendo uma máscara cobrindo parcialmente parte de seu rosto tocava a melodia que ouvira anteriormente.
O homem parou de tocar e imediatamente virou-se para ela. Ele abriu um sorriso que revelava seus dentes perfeitos e brancos. Estendeu uma de suas mãos, pedindo para que ela se aproximasse. A mulher, em dúvida sobre o que deveria de fato fazer, aproximou-se timidamente. Ele aumentou o sorriso.
_ Não se acanhe, pode vir. Eu não mordo... – ele sussurrou e aquilo, de alguma forma, soou de um modo sexy.
A garota aumentou as passadas, e assim que estava subindo os poucos degraus para o palco, ele a puxou pelo pulso, puxando-a de encontro ao seu peito. Ela corou levemente com a proximidade de seus corpos e com a superfície maciça do peitoral do desconhecido. De fato, ele era muito bonito, seus olhos azuis pareciam conseguir captar qualquer pensamento que tinha.
_ O que achou?
_ O que achei do quê?
_ Da música – ele disse, esperando pela sua resposta.
Ela sorriu ainda constrangida por estar tão perto dele, mas respondeu a pergunta que ele lhe fizera:
_ Achei-a muito bonita.
_ Só isso? – ele arqueou uma de suas sobrancelhas.
_ B-bem... A melodia é agradável, as notas são firmes e, de certa forma, é como se eu já a tivesse ouvido antes. Mas deve ser impressão minha.
Não seria melhor se afastar dele? Afinal, mal o conhecia, e não é, de qualquer modo, certo estar com um completo estranho. Afastou-se lentamente, ainda mantendo contato visual com ele.
Ele notou um pouco da inquietação que ela demonstrou. Tinha de agir o quanto antes, mostrar seus dotes como ator...
_ Sei que está com pressa, mas poderia esperar eu tocar apenas mais uma música? Esta tenho certeza que conhece – abriu um sorriso amigável e caloroso.
Deveria? Não tinha nada de mal em esperar mais cinco minutos, para que ele tocasse uma última música, certo? Ela meneou a cabeça afirmativamente. O homem de olhos safira se dirigiu ao piano. Sentou e seus dedos moveram-se pelas teclas, iniciando a tocar uma bela canção.
Conhecia aquela música, sim, tinha certeza disso. Mas de onde? Aquilo era no mínimo estranho...
- x -
Enquanto tocava, lançou alguns olhares à garota, e estes se tornavam cada vez mais longos e intensos. Era sempre assim. Sorriu. Ela estava cada vez mais se entregando e cada vez mais sendo domada. Era assim que as coisas funcionavam.
- x -
Assim que ele terminou de tocar, ela sentiu como se estivesse saindo de um transe. Certamente, a música atuava como uma potente hipnose sobre ela. Contudo, agora, tinha de voltar à realidade e cumprir com seus deveres, a noite mágica alguma hora necessitaria acabar e o momento de tal chegara.
_ Estou indo. Agradeço pela deleitosa melodia – se virou para descer os degraus do palco, porém, o homem a segurou pelo pulso novamente.
Ela se virou assustada com a repentina ação do homem.
_ O que foi?!
_ Prometa-me que voltará? – seus olhos perfuravam seu âmago.
_ Não sei se vou voltar – articulou incerta _ No mais, interprete como um adeus.
_ “Até logo” você deveria dizer. Sei que vai voltar.
_ Como pode ter tanta certeza disso?
- x -
Ele sorriu. Essas mesmas frases já haviam se tornado uma rotina cansativa, mas mesmo assim não diminuíam o prazer que tinha em continuar com o jogo. Era só uma questão de tempo...
- x -
_ Por quê? Está óbvio que gostaste das canções que toquei.
Ele tinha razão, realmente gostara das canções, todavia não tinha certeza se voltaria a vê-lo por algo tão insignificante. Girou os calcanhares e pôs-se a caminhar para fora do teatro abandonado, com o intuito de chegar ao Khay.
- x-
Ela voltaria para ele. O jogo apenas tinha começado, e ela podia ser facilmente manipulada. Ele tinha o controle da situação. Ele, o ventríloquo, ela a marionete.
Era sempre assim...
-x-
Após a noite que passara no Khay, na companhia de colegas de trabalho e de seu chefe, bebendo e se divertindo com piadas e comentários babacas, dirigiu-se para sua casa. Ao chegar, foi recebida pelo seu pastor alemão branco que a aguardava na sala. Acariciou seu pelo, relembrando o que acontecera no teatro. A circunstância fora muito bizarra: primeiro, ouvira música vindo de um teatro antigo. Segundo, havia um homem tocando piano. Terceiro, ele pedira para que ela voltasse. Seria o correto ignorar o pedido dele e esquecer tudo o que ocorrera naquela noite.
Deitou-se em sua cama e logo mergulhou em um sono profundo.
Eu disse para você voltar...
Alguém segurava com firmeza seu pulso. Virou-se para ver quem era. Era ele. O homem do piano. Ele estava sério, diferentemente de quando o vira. O que tinha para lhe dizer? O homem empurrou-a para o outro lado da sala. Caiu. Ele a fitava intensamente. Olhou o piano que misteriosamente surgira no outro lado do aposento. O mascarado deslizou seus dedos pelas teclas. O que ele queria?
Ele abriu um sorriso que lhe provocou arrepios na espinha.
Vamos escutar sua ária de morte?
Um som pesado produzido pelo piano ecoou por todo o ambiente. O homem não o tocava; o piano tocava sozinho. Ele, o homem, pegou uma corrente que surgiu em cima do piano e voltou-se para ela. Seu corpo, instintivamente, a fez se arrastar para longe dele. Precisava sair dali. Observou ele se aproximar sorrindo, enquanto girava a corrente. O barulho do metal ressoou em seus ouvidos, junto da melodia apavorante. Tentou gritar, porém não tinha voz. Ele alargou seu sorriso.
O dúbio lançou a corrente contra a mulher, que sentiu suas costelas estalarem com a pressão do objeto. Tentou gritar, mas não havia som. Os olhos azuis encontraram os seus. Ele podia sentir o cheiro de medo que ela exalava. Apertou a corrente. Os orbes da mulher se encheram de lágrimas.
Dor...
Ela sentiu algo quente escorrer por seu abdômen. Olhou para baixo. Sangue. O cheiro metálico do líquido da vida lhe causou enjôo. Por causa da pressão da corrente em seu corpo, sua respiração começou a sair entrecortada. Não havia escapatória. Certamente, o fim.
Ele se aproximou de seu ouvido e sua voz pronunciou em um tom sobrenatural:
_Quer provar da agonia uma vez?
Sentiu a corrente perfurar seu abdômen, o sangue caindo descontroladamente. Pingos do líquido encontravam-se no rosto dele, que ainda sim sorria.
Levantou ofegante de sua cama. Havia sido apenas um pesadelo, apenas um pesadelo, mentalizava. Depois desse evento, tinha certeza de que não voltaria mais a aquele teatro, muito menos se encontraria com aquele homem.
- x -
Duas semanas haviam passado e todas a noites tinha pesadelos semelhantes ao primeiro pesadelo que tivera com o pianista. Estava ficando cada vez mais angustiante ter de aguentar aquela situação, e o único meio de acabar com aquilo seria voltar ao teatro, mesmo que visse que ele não estaria mais lá. Somente assim poderia voltar a ter paz em seus sonhos.
- x –
Já se passava das 21:30 quando chegara ao teatro. Um pouco apreensiva com o que aconteceria, abriu a porta, e esta rangeu como na primeira vez que visitara aquele lugar. Seus pelos se eriçaram. Caminhou na escuridão do lugar, indo de encontro ao palco vazio. Subiu os degraus, avançou em direção ao centro.
_ Você voltou – uma voz se propagou pelo ambiente. A voz dele.
Uniu coragem dentro de sim e tentou aparentar estar normal.
_ É-é o que parece.
_ Fico feliz em te ver. Achei que não voltarias — ela o viu subindo os degraus e indo de encontro a ela.
“Também pensei que não voltaria. Quem me dera...”
O pianista ergueu as extremidades de sua boca, como se tivesse escutado o que ela pensara. Bobagem de sua cabeça.
_ Então... Veio para escutar outra ária? – ele sorriu misteriosamente.
Ária...
_ Não. Só me deu uma vontade de visitar este lugar – mentiu.
_ Imagino... – ele sussurrou, com seus olhos safiras analisando-a.
- x –
Era a hora do check-mate.
- x –
Ouviu uma música de piano ressoar no recinto. A mesma música de seus pesadelos. Tapou sua boca com uma de suas mãos para não gritar. Ele a fitou com um sorriso. O que estava acontecendo?!
O homem pegou uma corrente que surgira no chão. Ele começou a balançá-la para os lados. O som do metal e do piano juntos...
Tentou correr, todavia ele a enlaçou com o objeto. Suas costelas estalaram com o aumento da pressão. Urrou de dor, enquanto caía no chão e ele a puxava. Suas unhas arranhavam o piso de madeira. Era tudo o que podia fazer.
_ Não se preocupe, tudo vai terminar bem.
_ VOCÊ É UM DOENTE! – ela iniciou a chorar e gritar _ COMO ESPERA QUE ISSO TERMINE BEM?! DESGRAÇADO!
O sorriso na face dele desapareceu.
_ Eu não permito que meus brinquedos falem assim comigo – rosnou.
_ EU NÃO SOU SEU BRINQUEDO!
Desferiu-lhe um tapa no rosto.
_ Não queremos estragar uma bela obra de arte, não é mesmo? – ele a segurou pelo queixo, fazendo com que seus olhos encontrassem os dela.
Ele a colocou de pé. A música produzida pelo piano lembrava uma música de funeral. O homem mirou as lágrimas que escorriam pelo rosto da moça. Limpou-as, entretanto de nada adiantou, ela choramingava descontroladamente. E então, selou seus lábios aos dela. Sentiu quando ela deixou de ser alguém. Olhou-a de novo com um novo sorriso estampado em sua pálida face. Ela se tornara em seu brinquedo, assim como também acontecera o mesmo com outras.
A mulher havia se tornado em uma boneca. Muito bonita, por sinal. Uma de suas melhores. Ela iria fazer parte de sua coleção, o que já tinha decidido desde quando ela aceitara participar do jogo.
Colocou-a sobre seus ombros e levou-a até uma ala escondida no fundo do teatro. Abriu uma porta e acendeu a luz. Sorriu para todas as bonecas que havia ali.
_ Sentiram minha falta, queridas? – ele questionou como se elas pudessem responder _ Olha o que eu trouxe: uma nova amiga.
Depositou a boneca próxima as outras. Fitou-as. Ele tinha uma esplêndida coletânea. Agora, ela estava confinada em uma jaula para todo o sempre.
Ele ouviu o choro das mulheres presas no corpo daquelas bonecas, o que nenhum ser humano era capaz de ouvir.
_ Não chorem, queridas. Logo teremos um novo show.
Ele fechou a porta e voltou para o palco. Seu piano o aguardava no centro. Sentou no banquinho e começou a tocar uma nova canção, esperando pela próxima que se tornaria em sua mais nova boneca.
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