A Body In The Garden
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Caso você saiba a letra da música, acredito que poderá ver alguns trechos dela perdidos no meio do texto. Also, se você leu A Tormenta de Espadas, talvez encontrará algumas coisinhas do livro também.
Divirta-se.
“Não mais sonhando como uma garota
Tão apaixonada pelo mundo errado”
—Florence + The Machine;
Blinding
Sansa não era mais aquela menina. Menina ingênua e tola, que acreditava em histórias, cavaleiros e amores indestrutíveis. Não era mais a garotinha que pensava que a vida era uma história que a Velha Ama lhe contava quando ainda estava em Winterfell. Agora sabia que os príncipes nem sempre são generosos e bravos. Sabia que dentro de castelos moram ratazanas, aranhas e cães. Sabia que o carmesim e dourado eram as cores da morte. Sabia que Porto Real fedia a fezes e traição. Sabia que tronos podem fazer o sangue jorrar. Sabia que leões matam os lobos e também as trutas. Agora sabia. A areia que cegava seus olhos havia voado para longe assim como a cabeça de Eddard Stark havia se separado se seu corpo quando Sor Ilyn Payne a decepou com sua própria espada, Gelo. Nada podia fazer para impedi-los, mas não estaria vivendo uma ilusão novamente. Sentia o sabor da verdade e não gostava. Tinha gosto de sangue e lágrimas, dor e solidão.
Lembrou-se de como a neve derretia nos cabelos de Robb quando o abraçou no dia em que partia para Porto Real e como a bola de neve que Arya tentava fazer não parava de se desfazer em suas mãos. Pensei que minha canção estava começando naquele dia, mas tinha quase terminado. Sentia-se pateticamente estúpida quando se dava conta na garotinha terrivelmente inocente que era. Uma criança tão cheia de sonhos e fantasias que não tinha ideia de como a vida realmente poderia ser.
Era como se tivesse sido mantida em um profundo estado de sono. Era uma simples turista naquele mundo acesso e acordado, mas Sansa nunca estava completamente desperta. Beijos e palavras gentis faziam com que adormecesse mais profundamente, mas a lâmina de Gelo na garganta de seu pai a fez abrir os olhos e a espantar as ilusões que anuviavam sua mente. Viu a verdade. Sentiu a verdade. Sentiu em seus punhos e em seus pés, em suas pálpebras e através de seu crânio. Sentiu através de sua coluna e abaixo de sua espinha. Sentiu a verdade quando viu a cabeça de Ned Stark espetada em uma lança. Sentiu a verdade quando os hematomas que Joffrey mandava estampar em seu corpo doíam. Sentiu quando seus lábios sangravam. Sentiu quando as lágrimas escorriam.
Pensamentos nada comuns para a menina que era antes rondavam sua mente com frequência. Toda vez que via algum Lannister, pensamentos cheios de gritos de dor e sangue chegavam a sua cabeça. Queria mata-los, queria mata-los um por um. Queria arrancar os lábios gordos de Joffrey, queria destruir a bonita face de Cersei, queria perfurar o coração de Tywin Lannister. Desejava cheirar a dor e a morte, numa carnificina que a faria dar gargalhadas tão altas como se estivesse assistindo aos gracejos do bobo Abatedouro. Aquilo jamais passaria em sua mente quando ainda estava em Winterfell. Tinha pavor desse tipo de coisa. Mas agora tudo estava diferente. Agora era tudo o que mais ansiava. Minha pele se transformou em porcelana, em marfim, em aço.
Tinha aversão pelos Lannister, mas isso não se aplicava a Tyrion. Ainda não gostava do Duende, achava-o absurdamente feio e asqueroso, mas não o odiava como odiava o resto de sua família. Ele havia cancelado o ritual de núpcias e não a forçara a consumar sua união. Sansa era grata por isso. Não o odiava, mas também não particularmente gostava dele. Se tivesse a chance de matar os Lannister, Tyrion seria o único que deixaria vivo.
Havia prometido a si mesma. Não mais sonharia como uma garota tão apaixonada pelo mundo errado. Havia crescido, havia despertado. Jurou perante os deuses que, mesmo que nada pudesse fazer, não se esconderia em outro manto de ilusões. Jurou aos deuses antigos de seu pai e jurou aos Sete. Mas quase pôde ouvir sua promessa se estilhaçando quando os Tyrell chegaram. Aquele bonito jardim de rosas embelezava a Fortaleza Vermelha que era tão manchada de mentiras. Traziam o perfume das flores à cidade fedida que era Porto Real. Suas tão tentadoras propostas de leva-la a Jardim de Cima e casa-la com Willas fizeram com que ela sonhasse novamente, sonho esse que foi rapidamente destruído quando a casaram com Tyrion.
Mas os sonhos ainda estavam ali, martelando em sua alma e em seu coração. Principalmente quando olhava para ela. Margaery Tyrell, A Pequena Rainha, como costumavam chama-la. Era uma donzela tão linda e inteligente, com seus olhos e cabelos castanhos e sorriso polido. Margaery lhe tratava com tanta gentileza e era tão formosa que Sansa se viu prestando mais atenção nela do que em Sor Loras. A esperança parecia crescer dentro de si a cada vez que Margaery a pegava pelo braço e a levava para um agradável passeio pelos jardins do castelo, contando histórias de sua infância e de hábitos sulistas. Ela fazia Sansa rir, coisa que há muito tempo não fazia. Margaery lhe contou uma história sobre uma de suas primas, uma história engraçada que havia feito Sansa rir. O som de seu riso é adorável e fico feliz em saber que fui eu quem o provocou, disse Margaery docemente, com os olhos castanhos brilhando tanto quanto seu sorriso, mas gostaria de ouvi-lo mais vezes. Poderia rir e sorrir mais vezes para mim? Sansa corou e, com os lábios franzidos em timidez, murmurou algo como posso tentar.
Não adormeça novamente, não sonhe, mantenha-se acordada, pensava Sansa, em um mantra quase constante. Mas era tão difícil não ser abraçada pelas fantasias quando tudo parecia bem quando estava com Margaery. Sua presença era acolhedora e cheia de paz e Sansa havia descoberto que, sim, poderia rir e sorrir mais vezes para Margaery porque era exatamente o que acontecia quando a via. Tentava resistir às tentações de sonhar, mas era tão difícil quando aquela bela donzela do Sul lhe trazia tanta esperança. Suas palavras carinhosas e toques quentes nada ajudavam na luta de Sansa em não ser uma menina tola outra vez.
Porém, todo o seu esforço de se agarrar na realidade caiu por terra quando Margaery a beijou. Ela tinha lábios macios que tinham gosto de vinho e bolo de limão, e Sansa adorava bolos de limão. Sua língua era suave e atrevida e dançou uma coreografia lenta e gostosa com sua própria língua. Seus lábios se encaixavam com perfeição e tudo o que queria era beijar sua boca até que seus pulmões estivessem prestes a explodir com a falta de ar. Sete infernos, amaldiçoou Sansa quando imagens dos campos floridos de Jardim de Cima apareceram atrás de seus olhos, com Margaery usando pequenas rosas coloridas nos cabelos enquanto dizia que a amava.
Lá estava Sansa novamente, com os impossíveis sonhos de uma criança ingênua. Talvez a Rainha Cersei esteja certa. Sou apenas uma menina tola. Mas deuses, como era difícil não sonhar. Como poderia não sonhar quando tinha a boca da mais bela donzela dos Sete Reinos grudada a sua? Como poderia não sonhar se a pele de Margaery era tão tênue e quente? Como poderia não sonhar quando se sentia tão feliz?
Não posso, quero tanto, mas não posso. Não poderia permitir-se cair na mesma armadilha novamente. Mesmo quando se sentia tão alegre e cheia de vida, não poderia sonhar. Era feliz antes, mas arrancaram-lhe a felicidade sem a menor piedade e não lhes custaria nada arrancarem-na mais outra e outra vez. Era difícil e doloroso, mas era assim que precisava ser. Aquilo preservaria seu coração já tão machucado. Sandor Clegane costumava a chamar de passarinho e, se ficasse cega como antes, voaria tão alto que cairia e sangraria, beijaria a morte e depois nada. Seria apenas um corpo no jardim.
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