A Biblioteca
4 A Capa Vermelha
Notas iniciais
Música que inspirou o capítulo:
_Red Riding Hood - Brian Reitzell (Trilha sonora de "A garota Da Capa Vermelha)
[...]
Seus olhos seguiram curiosos e temerosos a trilha de gotas de sangue que se estendiam pelo piso claro convidando a render-se ou assombrá-lo. Poderia simplesmente seguir as manchas vermelhas, mas seu instinto dizia para olhar ao redor. Os vidros poderiam confundi-lo, mas ele não podia correr o risco de perder a vida. Tentou andar o mais silencioso possível vendo finalmente alguma vantagem das distorções e ilusões que os espelhos faziam, dessa forma ele poderia se camuflar na confusão de imagens.
Determinado, perseguiu as manchas em esferas perfeitas de sangue, às vezes chocando-se ou fundidas em uma só. O cheiro ficava mais forte a cada passo e ele quase podia sentir o gosto doloroso do ferro na garganta seca. Engoliu em seco. Seja o que fosse estava muito machucado e indefeso, poderava sua conciência imaginando que talvez não fosse preciso usar o caco de vidro para se defender.
Não guarde! gritou o instinto novamente, alarmado, prevendo o pior.
Por segurança e, também, para acalmar seus próprios nervos ele manteve a arma em punho. Sua respiração falhou por um instante quando percebeu um movimento onde a trilha dolorosa de sangue terminava e esgueirou-se a uma coluna próxima observando atentamente o ser que estava perto das torneiras velhas e enferrujadas, mas que tinham um brilho levemente opaco.
Não pode reconhecer o que era já que, o que lhe parecia ser uma pessoa sentada, estava totalmente oculta por uma capa vermelha escura que estendia tocando o chão como se atraísse a trilha dos círculos perfeitos de sangue em sua direção, sugando-os. O tecido parecia grosso e pesado, amargo, como se carregasse um fardo maior do que o que poderia aguentar e cedesse não suportando mais o peso.
Amaldiçoou a sua curiosidade naquele instante, quando pensou que poderia chegar mais perto para apenas observar e não ser percebido, mas sua perna direita encostou em um espelho suspenso e o derrubou. O som do espelho de partindo era cortante e doloroso como se gritasse e dividisse uma dor em milhões de pedaços que espalharam avisando o perigo que estava por vir. Temeroso, puxou o caco de vidro que tinha como defesa em direção ao ser coberto com a capa vermelha que também fez o mesmo, assustado com o barulho abrupto, porém com o choque ele bateu a cabeça na base da pia e se encolheu abraçando-se, rendendo-se.
Totalmente vulnerável.
Coberta pela pesada capa vermelha a garota se escondia como um gato assustado, mas pronta para atacar ou fugir como um tigre quando se sentia ameaçado. O tecido vermelho já era bastante grande para a pequena silhueta e ela o puxava contra si escondendo algo ou pronta para se defender.
Aquilo deveria fazer seu instito gritar que não deveria desistir se ela ousasse atacá-lo, mas o semblante inocente e calmo, a pele branca como marfin contrastando com os grandes olhos marrons, agora confusos, derretendo e entrando em sombras fechando-se em si não a fazia parecer uma amaeça.
Porém, seu braço levemente trêmulo não se abaixou.
Percebeu que devido ao breve susto ofegava baixo e a adrenalina fazia seu corpo ficar quente, estava sentindo seu coração batendo contra o peito, doendo alarmado, pronto para fugir ou atacar a qualquer momento. A garota também estava no mesmo estado, mas seus lábios rosados se franziram quando ela os contraíu assim como uma flor prestes a se desabrochar, então ela finalmente falou:
– Quem é você?
Parecendo um robô, sua mandíbula travou, como se esquecesse monentâneamente como deveria separar os lábios e mover a boca soltando as palavras. Hesitou e sua apreensão aumentou, sua consciência estava confusa, porque estava agindo daquele modo?
A garota continuava a esperar e seu semblante pareceu suavizar-se. Engoliu em seco.
– Eu me chamo Oliver – disse ele, ainda receoso.
– Você parece confuso... – a garota observou em um murmúrio.
Oliver esperou que ela também se apresentasse, mas ela não o fez. Agora, tranquila, ela lhe deu as costas, sua atenção em outro lugar. O sangue pingava do braço longo e fino, dançando de forma sinuosa sob a pele de marfim pintando em vermelho a capa, que escurecia ainda mais a cada nova gota de dor. No entanto, a garota cantarolava baixo, sua voz melodiosa ecoando como uma névoa sutil em meio à escuridão, trazendo um momento de paz, mas ao mesmo tempo como se seduzisse para o precipício.
Então, isso queria dizer que haviam outras pessoas presas ali dentro como ele e... essa garota.
Talvez os gritos enquanto dormia, não fossem apenas sonhos.
Olhou ao redor, um pouco intimidado pela sua recente descoberta, porém os espelhos o cortavam em milhões de pedaços, estraçalhado lentamente sua pele nos finos espinhos azulados que brilhavam ansiosos, deixando-o completamente disforme. A sensação era tão intensa que poderia sentir a dor em sua mão, enquanto as pontas quebradas dos espelhos penetravam na pele deleitando-se na carne, bebendo o sangue que deslizava, banhando-se com o calor e suplicando por mais.
– Você vai se machucar se continuar com isso – a voz melodiosa da garota pareceu subir três tons, alerta. Oliver arregalou os olhos despertando ao ouvir a voz da garota e quando viu sua mão levemente cortada na palma, estremeceu.
O que parecia um pensamento, uma ilusão, tinha acontecido de verdade.
– Quem é você? — indagou Oliver, voltando a fitá-la e ela o ignorou continuando a cantarolar baixinho aparentemente alheia as suas palavras.
Então, outro pensamento voltou a atormentar sua mente, os gritos desesperados, que agora poderiam não ser mais ilusões. Isso o inquietava e seu instinto gritava, apavorado.
– Você está sozinha? — perguntou novamente e esperou a resposta respirando fundo tentando aquietar seu ânimo assombrado. A garota continuou a cantarolar por algum tempo até finalmente responder.
– Não. Eu preciso entregar algo para Lionel – a garota murmurou, agora mexendo na capa e como um felino se pôs de pé silenciosa, em um pulo ágil que Oliver pensou que ela cairia e se quebraria com os espelhos. Os grandes olhos marrons brilhavam o fitando com ansiedade como um escondessem um segredo obscuro.
O corpo de Oliver petrificou, enquanto sua mente trabalhava. Ele não devia estar ali, agora poderia trancar-se para sempre dentro da sala da lareira e proteger-se, mas assim não encontraria a saída, ponderou. Sobreviver estava acima de sair daquele lugar?
Não, retrucou em pensamento.
– Você é um covarde, Oliver? – a voz da garota e da sua mente ecoaram em timing perfeito, espantando-o. Mas, ele permaneceu em silêncio, sem saber o que deveria responder – Pegue.
Ela lhe estendeu um perfeito pássaro feito de papel, e ele percebeu que deveria ser um origami. Os espelhos também refletiram o pássaro que se multiplicou ameaçando cortá-lo com suas pontas aparentemente frágeis se ele o pegasse.
– O quê?
Não houve tempo para questionamentos, quando ele sentiu o o animal transformado em papel roçar suavemente a palma da sua mão, ouviu mais espelhos se quebrarem e passos ruídosos ecoaram deixando-os em alerta. A garota estava séria fitando ao redor dos espelhos, pronta para qualquer movimento brusco, como se esperasse a hora certa para agir.
Oliver viu, talvez um pouco fascinado, a forma que o corpo escondido pela capa vermelho-sangue se moveu, ágil e veloz, dando um chute certeiro no maxilar de um homem robusto, que se aproximava sorrateiramente pensando que ela não o perceberia, quando ela girou, graciosa como um cisne nadando em um lago sombrio.
O modo como ela se movia... Parecia estar voando.
Talvez sem perceber, ele havia se escondido em uma coluna apenas observando, obstinado a não fazer nenhum barulho que trouxesse o homem em seu recente esconderijo. Então mais dois apareceram e Oliver ficou apreensivo, mais uma vez sem saber o que fazer.
A garota se esquivou da rasteira do homem robusto e encarou friamente os dois que haviam chegado. Seus braços se ocultaram nas sombras da capa enquanto ela parecia ponderar sobre o que deveria fazer. Só havia uma saída e ela teria que tomar medidas drásticas se quisesse sair sem ser capturada.
Oliver piscou. Porque estavam atrás dela?
Suspirando ela parecia desistir de alguma idéia e se deixar levar pelo momento. Os dois homens que haviam chegado depois do robusto o ajudaram a se levantar desajeitados, porém rápidos o suficiente para encuralar a garota, os espelhos ruíram em protesto chocando-se, suas lâminas espelhadas e afiadas tinham deixado marcas no rosto claro de barba mal-feita do homem robusto. O sangue começava a escorrer lentamente sugando a cor da pele.
O homem baixo de sobrancelhas grossas, mas com o dorso bem definido e o negro de roupas claras e semblante calmo se aproximaram ao mesmo tempo e avançaram afim de imobiliza-la, mas a capa vermelha girou pela segunda vez e ela lançou os espelhos na direção dos três que, espantados foram cortados pelas afiadas pontas espelhadas. Os espelhos jogados se chocaram contra os outros trovejando em uma chuva prateada gélida e mortal.
Uma breve distração.
Os espinhos espelhados cortaram deliciados a pele exposta dos homens que não estava coberto pela roupa, manchando-as e o pintando chão claríssimo de respingos e bolhas disformes de sangue.
Oliver só percebeu que a garota já estava na saída do recinto, enquanto os homens tentavam se proteger da chuva de cristais que caía impiedosamente sobre seus corpos fracamente protegidos pelas poucas roupas grossas, quando ela foi pega pelo negro de roupas brancas que mantinha o semblante calmo, embora parecesse um pouco surpreso.
Ela estava cercada e foi colocada de joelhos, ainda presa pelo homem negro, enquanto esse esperava o outro homem, um ruivo, baixo e mirrado amarrar os pulsos da garota com um nó cego. Terminada a tarefa ele sorriu para si mesmo satisfeito.
O robusto ignorou a chuva de espinhos espelhados que cessou, e reclamando sobre a dor no rosto e dos cortes profundos, chutou com força o rosto da garota que se manteve impassível.
– Vadia de merda! – vociferou raivoso.
Os lábios voltaram a se franzir formando novamente uma flor rosada, enquanto uma gota de sangue deslizou para fora e pingou, voltando a pintar o chão dolorosamente de vermelho, uma nova trilha de círculos de dor formando-se, enquanto ela era rudemente arrastada pelos dois homens para fora e longe dali, vigiada de perto pelo homem negro que voltou seu olhar brevemente para o recanto gélido dos espelhos que brilhavam ansiosos.
Por um momento Oliver pensou que ele o havia visto, com seus olhos castanhos avermelhados, queimando.
Enfim, suspirou quando ele saiu deixando-o aparentemente sozinho com os espelhos traiçoeiros, que zombavam dele brilhando maliciosamente sob a fraca luz, e seu consciente ecoou, sárcastico.
"Agora ela deve ter a resposta"
Oliver franziu o cenho se sentindo pior do que poderia sentir se tivesse ao menos tentado. A dor física não podia se comparar com a psicólogica, porque ele ainda poderia lidar melhor com ela.
Fitou o pássaro em papel e deu um passo à frente, agora parecia seguro sair e voltar para a sala da lareira. Mas, ele olhou estupefato para o origami, quando esse se mexeu lentamente sob a palma da sua mão.
[...]
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