A Besta
3 Capítulo 3 A Vida dos Jovens
3 A vida dos jovens
Richard andava muito lentamente para sua casa, se é que se podia chamar de sua. Ele acabara de terminar todos os trabalhos e tarefas extraclasses e demorou o máximo que pôde neles. Sua vontade era de nunca mais voltar àquela casa para ser tratado do jeito que era tratado.
O garoto morava com a família de sua tia, pois sua mãe o abandonara e saíra para o mundo, e seu pai, morrera vítima de uma terrível doença quando o menino tinha apenas três anos.
A tia, por parte de pai, não queria de maneira alguma um garoto órfão para criar. Mas, sabia que era a única parenta viva, pelo menos de que se tivesse conhecimento.
Sua vontade era de jogá-lo em um orfanato qualquer, só não o fez porque não queria que os outros pensassem nela como uma tia cruel sem coração, o que realmente ela era.
A rua estava quase vazia, a não ser por algumas crianças brincando. Um vento fraco soprava sobre a face do menino e ele aproveitava para respirar o ar gélido da tarde. Algumas folhas secas voaram-lhe no rosto, ele fechou os olhos e parou. Hesitou então, mas continuou caminhando e foi a caminho da porta da casa.
Ele demorara bastante para sair da escola hoje, mas sabia que ninguém se preocupou realmente, só se importavam mesmo de ele não estar lá para servir-lhes de escravo.
Richard respirou, e girou a maçaneta lentamente. O barulho da porta se abrindo fez com que seu primo, um pirralho mimado, viesse na direção de Ricky (era assim que Richard era chamado aqui). O pestinha o olhou de cima a baixo com uma careta em seu rosto e por fim disse:
-Ah Ricky! Como ousas chegares atrasado desse jeito, sabendo que eu posso sentir fome e sede enquanto espero que me atendas?! Tens que fazer o meu leite agora mesmo seu garoto preguiçoso!
Ricky respirou fundo contendo a fúria interior que lhe dava vontade de torcer o pescoço do primo. Ainda não completamente calmo, e com olhar furioso, disse dirigindo-se ao primo:
-Roy, seu grande garoto mimado, tu tens que saber que eu sou seu primo e não seu criado! Sou mais velho, portanto, respeita-me, você entendeu?!- Richard repreendeu o garoto tentando fazê-lo entender, com seu olhar e voz ameaçadores, de que Richard era muito superior a Roy, muito maior e mais inteligente. E que, se assim era, Roy deveria temê-lo e não deveria nem sonhar em ter tamanha audácia.
Mas isso, de nada adiantou! O pirralho emburrou a cara e fez bico de choro. Logo então correu pelas escadas chorando escandalosamente e gritando para que a mãe brigasse com Richard.
Este, acostumado com o comportamento infantil do primo, limitou-se a subir a escada para entrar em seu quarto, e fechou a porta. Antes que a porta se fechasse por completo só disse à tia:
-Roy me entendeu errado, foi só o que houve. Daqui quinze minutos descerei para fazer minhas tarefas.
Fechou a porta então e sentou-se ali mesmo, no chão de seu quarto, aproveitando os minutos de paz e tranquilidade que ali lhe restavam antes de ter que descer e ser tratado como escravo perante a sua própria família. Pelo menos era assim que se sentia.
***
Julia chegara à casa distraída pelos próprios pensamentos. Alice foi tomar um banho e colocar o uniforme para sua aula de defesas pessoais. A rotina das duas era pesada: todos os dias elas chegavam da escola, se arrumavam e iam para a aula de defesas pessoais. Depois ainda, no final de semana participavam do grupo de escoteiros onde faziam acampamentos e aprendiam a sobreviver em lugares hostis.
Os pais das meninas, a Prefeita Ashley e o Delegado Benjamin, consideravam essencial para as garotas aprender a lutar e a se defender caso houvesse uma situação de risco.
Alice era quem se opunha mais a essa exigência dos pais, pois não suportava lutar e muito menos os treinamentos de resistência do grupo de escoteiros. Tudo o que ela queria era poder ir ao shopping ou passear com as amigas. Ela queria curtir a vida, mas, para ela isso era impossível com os pais que tinha.
Julia, em seus pensamentos, refletia sobre o mundo e sua situação atual. Ela não se conformava, porque tudo o que via era perdição! Ela tentava ter esperanças de que a inocência, amor verdadeiro e puro, que humanos ainda existissem no planeta.
Agora ela repassava as coisas que vira e ouvira na escola hoje, em sua mente: garotos falando de garotas sem mínimo respeito, referindo-se a elas como um objeto sem valor. Garotas escutando o que esses meninos falavam delas, mas sem nem se importar. Garotos mais velhos comentando sua experiência com drogas, e se gabando por isso. Meninas “ficando” com um garoto por semana, achando que isso é normal, ótimo. “Que horror, como eu odeio esse mundo!”, pensou Julia inconformada.
As meninas chegaram tranquilamente na aula e Alice, como sempre, trazia no rosto uma carranca de puro desprezo. A professora pediu que elas se alongassem e em seguida fizessem 50 flexões.
Julia se alongou e começou com as flexões sem nenhum problema, mas Alice, fazia tudo de qualquer maneira, sem nem se esforçar, e continuava com uma careta. A professora, vendo isso, deu um empurrãozinho em Alice para que ela caísse deitada no chão, e disse com tom sério, querendo mostrar que não era um pedido e sim uma ordem:
-Alice, faça direito! Eu não quero gracinhas aqui, a senhora me entendeu? Se quiser moleza vá fazer natação que é fácil! A propósito, adicione mais vinte e cinco flexões por esse mau comportamento.
Alice emburrou mais ainda, mas fez o que a professora mandou. “Eu odeio, odeio isso de verdade! Quem dera eu estar realmente fazendo natação ou algo que não fosse essa porcaria de aula!”, pensou irritada.
A vida das duas irmãs era complicada. Julia também não era puramente apaixonada pelas aulas, mas ela não queria de forma alguma decepcionar os pais. Eles a adotaram e deram a ela um lar e uma família, e ela sentia como se devesse algo a eles, isso tudo além do amor que ela tinha pela sua família.
Alice, também amava os pais, mas não tinha essa noção de gratidão para com eles, pois era filha biológica, e isso a deixava isenta de qualquer dívida, pelo menos era nisso que ela acreditava.
A garota queria apenas um pouco mais de liberdade, apenas para poder fazer o que gosta. Ela gostaria comprar roupas extravagantes, pintar seu quarto inteiro de rosa, se encontrar com as amigas no parque para comentar as fofocas, e tudo o mais que uma adolescente normal faça.
E, apesar de tudo isso, as duas se sentiam infelizes. Julia sofria, pois nunca se sentia incluída a família de verdade, e percebia que o amor que tinha pelos pais não era recíproco. Alice sofria com as imposições e exigências feitas pelos pais em relação a sua rotina e sua vida. Os achava superprotetores.
O dia acabou e elas retornaram ao lar, exaustas, o lar que no momento parecia ser a única coisa que elas queriam. Tomaram um banho e reuniram-se com os pais para jantar. Logo após, adormeceram profundamente, Foi um longo dia.
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