Os dias foram passando na mansão do Dr. Do Jin. Ele ficou uma semana sem ir a empresa e tampouco pediu para que ela fosse. Anya sabia que aquilo era apenas para fazer de conta que estavam em lua de mel. Durante todo esse tempo, Do Jin evitou falar com Anya. Vinha para o quarto depois que ela já estava dormindo e saía antes que ela acordasse. Quando Anya percebeu que ele a evitava, passou a colaborar com ele, esperando que ele terminasse o café para então se servir. E durante o almoço, ela permanecia em silêncio. Com certeza, os empregados estariam fazendo comentários sobre aquele casal frio e silencioso, mas como Do Jin não se importava, tampouco Anya se importaria.

Depois de uma semana, foram juntos para o trabalho. Quando desceu do seu quarto, já vestida para a ocasião, viu que Do Jin a esperava no lobby de entrada.

— Eu posso ir de metro ou de ônibus, não quero incomodá-lo.

— Precisamos manter as aparências. Você vem comigo. – respondeu ele, evidenciando o seu desagrado.

Anya não quis discutir. Anuiu em silêncio, pensando que seria muito difícil para ela manter as aparências agora que eram casados. As pessoas esperariam uma intimidade que eles nunca compartilharam.

O trajeto até a empresa foi feito num silêncio constrangedor. Quando chegaram, antes mesmo de saírem do estacionamento, Do Jin segurou sua mão, enlaçando seus dedos nos dela. Anya sentia-se estranha com aquilo e tinha medo do que poderia acontecer dali pra frente.

As pessoas cochichavam por onde os dois passavam. Agradeceu quando chegaram na presidência. Só então, Do Jin largou sua mão e foi para a sua sala. Anya fez um muxoxo, aborrecida com a indiferença que Do Jin lhe reservava. Não esperava uma história de amor sincero com ele, mas não imaginou que ele a trataria como um dos móveis da casa e da empresa.

Quando abriu a porta de sua sala, levou um susto. Rachel estava ali, com um sorriso que ia de uma orelha a outra.

— Rachel, não esperava que você viesse tão cedo. – falou ela, surpresa por ver a nova secretária sentada em sua cadeira.

— O Almeida falou que você é obrigada a me treinar. – disse a agora secretária.

— Sim, claro... – falou Anya se aproximando. Mesmo sabendo que Anya agora era a esposa do presidente, Rachel ainda mantinha aquela pose arrogante.

— Agora... acho que tenho que te chamar de madame, não é, Anya – falou Rachel, carregada de cinismo e ciúme.

— Não sou madame, mas serei sua chefe por enquanto. Trate-me como Sra. Anya ou Sra. Do Jin... – falou Anya, contente com aquela breve vingança. Não queria o mal para Rachel. Sabia que ela era amarga porque nunca havia conseguido o emprego que queria, mas também, Rachel fora muito má com ela quando deveria ser grata.

Treinar Rachel não foi tão simples quanto imaginou. A ex-recepcionista era teimosa e tinha dificuldades em escrever.

— Você terá que desenvolver sua técnica de escrita. — Concluiu Anya quando já era perto do meio dia.

Rachel estava frustrada, mas não respondeu nada. Ambas saíram para o hall de entrada da presidência, onde Anya tomou mais um susto. Sua amiga Beth estava sentada no sofá que Anya as vezes usava para conversar com algum fornecedor.

— Beth, o que está fazendo aqui? – perguntou ela, aproximando-se de sua amiga. Depois de abraça-la, segurou as mãos da amiga. Estava realmente feliz por vê-la. Antes conversava com ela todo dia e sentia sua falta. Já estavam uma semana afastadas uma da outra.

— Sou a recepcionista da presidência.

— A presidência não tem recepcionista.

— Agora tem.

Anya franziu o cenho. Havia feito realmente aquela solicitação. Deixar Rachel como secretária da presidência e Beth como recepcionista do Centro Comercial. Não imaginou que seria tão cedo, nem que teria Beth perto de si. Imaginou se aquela ideia não fora de Do Jin. Teria ele sido sensível ao contratar Beth para ser a recepcionista da presidência? Se fora ideia do seu marido ou não, Anya agradecia.

— Seu marido deve gostar mesmo de você para me dar essa chance. Como está a vida de casada.....?

Anya não respondeu de imediato. Nunca mentia para Beth. Ela tinha a capacidade de saber a verdade no que se tratava de Anya. Durante o período de noivado, conseguiu evita-la, mas agora seria bem difícil.

— Vamos almoçar juntas e você não vai me esconder nada. – reiterou Beth.

— Acho que terei que arruinar esses planos. – falou Do Jin com um belo sorriso, saindo da sala dele. – Tenho um almoço com um fornecedor. Queria que você fosse comigo, querida...

— Ah, que pena. Não faz mal, conversamos outra hora – disse Beth, entrando no elevador junto com Rachel que permanecia quieta até o momento.

— Vamos...? – disse Anya, fazendo menção em entrar no elevador.

— Espera...- disse ele, segurando sua mão. Em seguida, sem que Anya pudesse antecipar, Do Jin puxou-a para si, segurou seu rosto com ambas as mãos e beijou-a.

Anya ficou sem saber direito o que fazer, mas ao sentir aquela carícia doce e terna em seus lábios, não conseguiu controlar as próprias emoções. Seus braços enlaçaram seu marido e ela fechou os olhos, sentindo estranhas sensações em seu corpo. Tão imprevisível quanto o beijo iniciou, ele terminou, com Do Jin afastando-se dela. Anya ficou surpresa. Seu corpo ainda desejava aquele contato. Ruborizada, Anya percebeu que a porta do elevador havia fechado. Não havia mais testemunhas. Por isso, Do Jin retornou a usual frieza.

— O Gil da Bender está reclamando do nosso próximo contrato. Preciso que vá comigo no almoço para acertar esse contrato. Acho que ele vai pedir para aumentar o preço do produtos.... Mas... – Do Jin parou de falar ao ver que Anya fizera uma cara de indignada. – O que foi Anya? Você devia imaginar que eu pudesse fazer alguma manifestação de carinho próximo de outras pessoas.

— Sim, eu sabia. Só não imaginei que seria assim... – disse ela, sem conseguir segurar um tom amargurado.

— Assim como?

— Eu não consigo fingir tão bem. Um beijo pode não ser nada pra você. Mas pra mim é muito importante. Pra mim é um carinho que só deve ser trocado com as pessoas que você ama de verdade.

Do Jin sorriu ironicamente, fazendo Anya sentir-se ainda pior.

— Anya, Anya... Percebi no beijo que você está desenvolvendo sentimentos por mim. Eu lhe disse, menina, não se apaixone por mim.

Anya sentiu sua face ferver e virou o rosto, apertando o botão do elevador.

— Vou lhe dizer algo para o seu bem – disse Do Jin, num tom sério – Se você se apaixonar por mim, você irá sofrer. Eu não sou o homem que pensa que sou. Não sou o seu príncipe encantado que salvou você de sua mãe. Eu estou mais para o lobo mau. Se eu tiver que destruir você para salvar minha empresa, eu o farei, Anya. Por isso, não aja como uma esposa ofendida. Aja sempre como a minha funcionária, pois é isso que você é... Nada mais.

A porta do elevador se abriu para o alívio de Anya que entrou rapidamente. Do Jin ficou ao seu lado e apertou o botão para descer no estacionamento. Amargando as palavras de Do Jin, Anya tentava controlar a respiração, os batimentos cardíacos e as lágrimas que vieram rapidamente aos olhos.

Já era tarde. O aviso veio tarde. Ela já havia se apaixonado por ele. Sentiu isso em cada fibra do seu ser durante aquele beijo que para ele foi só encenação. Para ela, contudo, cada carícia, cada toque que ele lhe fazia reacendia emoções que Anya julgava mortas em si. O desejo para amar ainda vibrava nela. Contudo, o que ele lhe falara também estava correto. Ele a fazia sofrer com sua indiferença, com o seu escárnio. Era só um negócio para ele. Ela é que estava confundindo as coisas.

Ela precisava matar aquele amor. Mas como matar um amor que não pediu autorização para nascer?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.