A Bela, o Outro Cara & Eu
6 Válvula de escape
Notas iniciais

E você continua voltando, voltando novamente
Continue correndo em volta
Correndo em volta
Correndo em volta da minha cabeça
Certain Things — James Arthur
As palavras de Bruce ecoam nos meus ouvidos e causam uma reação imediata e esquisita dentro de mim. É como receber uma descarga elétrica enquanto o tempo congela a minha volta. Fico estagnada, presa ao meu infinito particular. Meu coração — idiota — acelera com teimosia. Minhas pernas fraquejam, como se eu estivesse com uma baita fome ou passando mal.
Eu senti sua falta. Foi tudo o que o herói na minha frente disse. Por essa, eu não esperava.
Essas quatro e simples palavras têm um peso muito importante para mim, confesso. Me tiram da defensiva por um segundo. Apenas por um segundo de fraqueza.
Logo recobro a razão e me convenço que não posso esquecer que Bruce foi embora, ficou distante por um ano inteiro, voltou há duas semanas e não me contou nada ou me procurou. Nem sequer pretendia, o que é ainda pior e faz a raiva e a mágoa que sinto se misturarem perigosamente. Sou uma bomba relógio prestes a explodir.
Antes que eu tenha a chance de fuzilá-lo com o olhar, Bruce afasta as mãos das portas e recua um passo, permitindo que o elevador comece a se fechar. Salvo pelo gongo.
Nesse breve momento, penso no que lhe responder. Afiada e no último instante, despejo o que acredito que ele mereça ouvir:
— Vai pro inferno, Bruce.
Só queria ter dito isso mais alto e de uma maneira mais incisiva. Tenho a impressão de que minhas palavras soaram como um sussurro. Talvez ele nem tenha compreendido direito.
É tarde demais para reforçar o recado, já que a estreita abertura, que ainda permitia nosso contato visual, se extingue de vez. De repente, o elevador está descendo.
Apoio as costas na parede de aço e solto a respiração presa em minha garganta. Meu coração, antes estupidamente animado com a confissão murmurada por Bruce para me amolecer, passa a bater de um jeito incômodo e pesado.
Quando as portas do elevador se abrem no andar onde fica o departamento de criação e marketing, hesito e não consigo me mexer. Percebo que não vou ter cabeça para trabalhar hoje e que, por ter acobertado a mentira do amigo, Tony me deve um dia de folga.
É isso, eu preciso urgentemente de um tempo para assimilar o que aconteceu. Convencida disso, aperto o botão que me levará ao estacionamento.
Algum tempo depois, entro no meu carro. Antes de dar partida, envio uma mensagem para o meu chefinho, afinal, apesar de tudo, devo-lhe certa satisfação.
Sem esperar por resposta, desligo o celular para não ser incomodada. Também me certifico de que estou calma o suficiente para não causar um acidente na primeira esquina. Deixo a sede das Indústrias Stark assim que consigo colocar meus pensamentos minimamente em ordem e apaziguar os nervos.
***
Depois de zanzar por Nova York sem rumo certo, finalmente paro num shopping local. Passo boa parte do dia batendo perna e vendo vitrines sem enxergá-las de fato. Só me interessei de verdade quando meus olhos encontraram uma bomboniere.
Chocolate é sempre uma ótima pedida para aliviar o estresse e melhorar o humor, então não hesito em entrar no estabelecimento e deixar uma boa quantia de dinheiro para trás. Isso sem o menor peso na consciência porque, para mim, gastar com chocolate é um investimento pessoal. Por isso mesmo, comprei logo quatro caixas do meu bombom favorito. Um estoque para a semana.
No começo da tarde, depois de ter ficado um bom tempo sentada num banco do shopping, observando as pessoas e pensando na vida enquanto saboreava a oitava maravilha do mundo, decido checar os filmes em cartaz. Um pouco de entretenimento também é ótimo para nos distrair, certo?
Dispenso os romances água com açúcar, deixo os de terror para um dia melhor e invisto num clássico de ação, lançado no ano em que nasci, e que o cinema está exibindo promocionalmente essa semana: Duro de Matar. Um dos meus favoritos do gênero.
Dou umas boas risadas com o melhor policial do mundo, John McClane, e esqueço da vida até os créditos do filme subirem diante dos meus olhos. Relaxada e mais calma, reconheço que é hora de voltar para a vida real.
No entanto, basta alguns segundos ao volante de novo e volto a remoer o reencontro com Bruce mais cedo. Minha irritação ressurge das cinzas com força total e nem as doses cavalares de chocolate surtem mais o efeito tranquilizante.
Me distraio pensando no dito cujo e esqueço da direção. E essa momentânea cegueira mais o trabalho de desembrulhar o próximo bombom, de uma das caixas que repousa no banco ao meu lado, são suficientes para que eu não perceba que algum ser, surgido do nada, atravessa a rua. De repente, ele se materializa a poucos centímetros do para-choque.
Afoita, freio de maneira brusca ao reconhecer o vulto de um enorme cachorro, porém não consigo evitar o impacto a tempo. Um grunhido agudo se mistura ao meu grito de susto.
Demoro alguns segundos para assimilar o que aconteceu até que a culpa se acumula em um nó na minha garganta. Ignorando as buzinas atrás de mim, desafivelo o cinto de segurança e saio do carro às pressas.
— Não, não, não! Por favor, não esteja morto! Não faça isso comigo! Eu não matei um cachorro! Eu não...
Paro de me torturar com a possibilidade de ter ceifado a vida de um bichinho inocente ao alcançar a frente do carro e ver que o São Bernardo sobreviveu à batida. Está assustado e zonzo com o ocorrido, é claro. Com os olhos castanhos arregalados cravados em mim. Fora isso, parece bem e indubitavelmente vivo. O mais importante: não há qualquer indício de sangue ou fraturas expostas em meio ao seu pelo castanho com nuances brancas.
Aliviada, levo a mão ao coração e solto a respiração devagar.
— Obrigada... Muito obrigada por não ter batido as botas.
Buzinas tornam a se propagar pelo ar e motoristas me xingam por obstruir parte do trânsito. Em outra situação, eu os xingaria de volta e faria gestos obscenos para complementar as ofensas, porém agora só consigo fingir que eles não existem e me concentro no animal aos meus pés.
Sem pensar duas vezes — e, portanto, arriscando ser tratada com hostilidade por tê-lo atropelado —, aproximo-me mais um pouco e abaixo diante do animal.
— Desculpe, desculpe, desculpe! Mil perdões, cachorrinho. Isso não foi nada gentil, foi?
Graças a Deus, não sou atacada de volta, pois, ao que tudo indica, o São Bernardo decidiu não guardar rancor. Talvez, lá no fundo do seu coração canino, ele saiba que foi totalmente sem querer, um acidente de percurso mesmo.
Claro que ele não sabe disso, só estou pensando assim para me sentir menos culpada.
Enquanto ele tenta se levantar e vacila sobre as patas, olho tudo em volta à procura de sua origem. Não tenho ideia de onde ele veio ou quem é o seu dono. Não há ninguém por perto que pareça ter perdido um cachorro desse tamanho. O fato de não usar coleira nem qualquer tipo de identificação me deixa ainda mais no escuro diante dessa situação.
O que devo fazer? Eis a pergunta que não quer calar.
Incapaz de abandoná-lo a própria sorte, tomo uma decisão. Depois que o animal finalmente se levanta, aproximo minha mão do seu pescoço e arrisco fazer-lhe um carinho. Ele recua num primeiro momento, porém acaba me dando um voto de confiança segundos depois.
— Não se preocupe. Eu vou cuidar de você. Vou me redimir por isso, prometo.
Lentamente, dou alguns passos para a lateral do veículo sem romper o carinho. Assim, atraio o gigante peludo até a porta traseira. Abro-a devagar e deixo a passagem livre para ele.
— Vamos, pode entrar. Vai ficar tudo bem, amigão. Pode confiar em mim. Eu não vou te machucar. Digo, não vou te machucar mais, entendeu?
Reviro os olhos, sentindo-me meio patética por estar conversando com um cachorro no meio de um trânsito caótico causado por mim mesma. Mas, de novo, ele me surpreende ao demonstrar que compreendeu o recado de alguma forma. Talvez pelo meu tom de voz tranquilo e firme, além de mais um afago em seu pescoço. Pelo menos, é o que parece, já que ele me encara com a língua de fora e depois aceita a oferta, pulando para dentro do carro.
Nesse momento, tenho certeza que o São Bernardo tem dono. Alguém que possivelmente possui um veículo e o leva para passear de vez em quando sobre quatro rodas. Talvez o dono ou dona esteja por perto, em algum estacionamento ou loja da região. Talvez o animal tenha escapado acidentalmente e corrido para o meio da rua por pura inocência. Talvez estivesse procurando por eles, quando eu o atropelei levianamente.
Culpa. Ela volta a me assombrar. Enterro a sensação dentro de mim como posso e fecho a porta do carro.
Até descobrir a quem o cachorro pertence, abraço a responsabilidade de zelar pelo seu bem-estar.
Finalmente volto para o meu lugar na direção. Desta vez, xingo os motoristas atrás de mim, colocando a cabeça para fora da janela e fulminando os mais abusados.
Relativamente mais calma, respiro fundo e me recomponho. Determinada, dirijo rumo à clínica veterinária mais próxima.
***
São quase nove horas da noite, quando destranco a porta do meu apartamento e de Josh. Vejo-o de relance pela abertura da porta, enquanto a empurro e entro com certa dificuldade por estar com as caixas de chocolate e a bolsa.
Pela visão periférica, vejo Josh se erguer do sofá de imediato. Deduzo que está ansioso e vai fazer um escândalo por que eu não dei notícias o dia inteiro.
— Amy! Graças à Cher! Posso saber aonde foi que a senhorita se meteu? Eu estava preocupado... Nós estávamos, na verdade. O que aconteceu com o seu celular?
Dito e feito.
Respiro fundo e abro passagem para que o São Bernardo entre também.
— Pode vir, amigão. Fique à vontade. Mi casa és su casa.
— E por tudo o que há de mais sagrado —, Josh exclama, aturdido e cheio de uma surpresa desagradável. — o que é essa coisa peluda e enorme?! Um urso?!
— Ah... Só um cachorro fofinho que eu atropelei a caminho daqui.
— Você o quê?!
— Longa história — limito-me a adiar as explicações para outro momento.
Atento-me ao fato de que Josh disse "Nós estávamos” anteriormente e deduzo que Christian está aqui também. Enquanto tranco a porta e equilibro as caixas de bombons em um dos braços, vejo-o se mexer ao lado do meu irmão pelo canto do olho, também levantando do sofá.
Reconhecendo que deveria ter avisado Josh que eu tiraria o dia de folga, me explico:
— Desculpe, desculpe, foi mal, eu me rendo. Não surta, tudo bem? Eu estou viva, sã e salva. Ninguém me sequestrou ou tentou roubar os meus órgãos numa banheira de gelo. — Caminho rumo a mesa de jantar e, enquanto coloco a bolsa e as caixas sobre ela, emendo: — Digamos que o dia começou esquisito e eu precisava de uma válvula de escape. Por falar nisso, você não vai acreditar em quem teve a cara de pau de voltar! Em quem ressurgiu das cinzas, saiu das sombras, surgiu no meio da sala do Tony essa manhã e ficou me encarando com uma tremenda cara de tonto!
Abro uma das caixas às pressas ao sentir que recordar a situação reacendeu a raiva dentro de mim.
— Amy, querida, você tem... — meu irmão começa a dizer.
Não o deixo prosseguir, pois preciso concluir o meu raciocínio antes.
— Bruce Banner! — revelo em alto e bom tom, finalmente erguendo o olhar, ao mesmo tempo em que desembrulho um bombom e o levo aos lábios.
É nesse fatídico momento que percebo que Josh realmente tem companhia. Porém, descubro que, ao contrário do que supus a princípio, não é o seu namorado e terapeuta da S.H.I.E.L.D que está na sala. Fecho a boca e desisto de saborear meu chocolate por ora. Pega de surpresa, sinto meu rosto queimar ao dar de cara com o alter ego do Incrível Hulk. Exato. Bruce está aqui.
Nossos olhares se cruzam pela terceira vez hoje. E pela terceira vez, meu coração insiste em disparar.
Visivelmente constrangido e também com um estranho alívio no semblante, ele mantém o olhar em mim e coloca as mãos nos bolsos do casaco escuro. O mesmo que usava mais cedo, o que me leva a questionar há quanto tempo está aqui me esperando.
— Você tem uma visita — Josh completa o raciocínio.
Tenho certeza que está me lançando um olhar bem específico agora. De quem diz em silêncio: "Eu tentei avisar e evitar a gafe, mas você não me deu chance, criatura!"
Só paro de olhar para Bruce, quando meu irmão entra no meu campo de visão, me surpreende com um abraço apertado e se justifica:
— Eu fiquei mesmo preocupado com você, sua maluca irresponsável. Nunca mais faça isso, entendeu?
— Desculpe... — lamento, meio sem jeito e envergonhada pela primeira vez desde que cruzei a soleira.
De repente, um estridente barulho metálico se espalha por todo o apartamento, fazendo com que nos soltemos de imediato e alarmados. Como não vejo o São Bernardo em parte alguma da sala, deduzo que ele foi explorar o novo território e derrubou alguma panela na cozinha.
Josh — que é a pessoa mais organizada e metódica que eu conheço — me lança um sorriso nada feliz e afirma:
— Sinto muito, mas o Cujo não pode ficar aqui.
Retribuo o sorriso e esclareço obstinada:
— Sinto muito em te decepcionar, mas ele fica.
Meu irmão revira os olhos e desiste de discutir o assunto por ora, pois é óbvio que existe uma pauta mais urgente no ar. Ele olha para trás, na direção de Bruce, depois torna a me encarar de um jeito muito significativo. De repente, me puxa para mais um abraço e exclama excessivamente emocionado:
— Nunca mais desapareça assim!
Confusa com o claro exagero em sua atitude, uma vez que eu já entendi que cometi um deslize, dou alguns tapinhas nas suas costas e assinto:
— Okay.
Fazendo-me entender que, na verdade, o abraço não passou de um pretexto para se aproximar de forma estratégica da minha orelha, Josh afasta meu cabelo e sussurra depressa:
— Eu também não entendi por que Bruce voltou e imagino como isso está te afetando, mas a única coisa que você precisa ter em mente agora é: seja superior.
Antes de me soltar e me deixar a sós com a última pessoa que eu queria conversar agora, dá uma piscadela para reforçar o conselho.
Seja superior. Repito em pensamento, tornando a olhar para a visita indesejável em minha sala.
Juro solenemente que vou tentar.
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