Notas iniciais
Hellos! Esse não é um capítulo fácil de ler e definitivamente foi o mais difícil de escrever. Demorei muito para escrever, editar, revisar e chegar na versão final. Para terem uma noção, a ideia original era ser pela visão do Philip/Kurt e como um flashback. Mas eu não consegui seguir desse jeito e coloquei no momento presente mesmo, pela visão da Amy. Tentei deixar o mais claro possível, mas ele tem muitas informações e explicações, tensão e angústia, então apreciem com moderação porque o bagulho é doido kssksksk Espero que gostem ♥

Uma parte de mim ainda quer acreditar em um milagre. Quer acreditar que eu e Bruce vamos sair daqui, juntos e razoavelmente bem. Entretanto, se essa parte de mim está completamente equivocada, quero ao menos juntar todas as peças do terrível quebra-cabeças que estamos vivendo. Quero respostas antes de enfrentar o que vier.

Foi por isso que exigi que Philip Sterns, o falso Kurt Lockwood, contasse toda a verdade sobre ele mesmo e como trilhou o plano de vingança contra Bruce.

Na época em que namoramos, eu jamais desconfiei do lado sombrio de Kurt. Jamais imaginei que ele sequer tivesse um. Muito menos que fosse capaz de se envolver em algo tão monstruoso quanto à HYDRA.

Claro, no meu íntimo, eu sempre soube que ele era um vagabundo e que não valia muita coisa. Mas daí vir a se tornar alguém tão calculista e cruel no futuro? Nunca.

É perturbador imaginar que caminho ele trilhou até chegar aqui. Ao mesmo tempo, desperta uma curiosidade que preciso saciar.

Por isso, quando ele pergunta por onde deve começar, articulo a primeira de muitas perguntas que martelam na minha cabeça:

— Desde quando você está ligado à HYDRA?

Sem demora, demonstrando até certo prazer, ele responde:

— Eu fui recrutado um pouco depois que a nossa história terminou, Amy. Um pouco depois de fugir de Nova York e te deixar para trás. — Philip lança um rápido olhar para Bruce do outro lado do covil. — Aliás, deve ter sido traumático quando ele fez o mesmo com você. Quando foi embora e despedaçou o pobre coraçãozinho de Amelia Prescott. Parece que o seu destino é sempre ser abandonada, deixada para trás, como alguém totalmente dispensável. Já parou para pensar nisso?

Philip finge uma expressão de choro, enquanto noto o semblante de Bruce se verter em arrependimento, em tortura, por ter me ferido naquela época. Por mais que eu não guarde mais mágoa, nesse momento percebo que ainda é um assunto do qual Bruce se envergonha.

Com raiva, encaro Philip e, num tom tão cruel quanto o que ele adotou, esclareço:

— Bruce não fez o mesmo que você. Ele foi embora acreditando que estava me protegendo assim e porque precisava de um tempo para se entender melhor. Ao contrário de você, que só pensou em salvar a própria pele e agiu como o covarde nato que é.

Enquanto ele esboça um sorriso frio e desgostoso, Nadia, até então concentrada num computador no mezanino, protesta com certa ira:

— Lave sua boca antes de falar qualquer coisa do meu filho, sua vadia imunda, ou eu mesmo acabo com você num piscar de olhos.

Duvido. Eles vieram até aqui planejando que o Hulk... desse um jeito em mim, não vão jogar tudo para o alto agora.

— Vadia imunda? — repito, como se tivesse me ofendido. — Poxa. O que aconteceu com querida e meu bem? Eram falsos, mas pelo menos mais gentis. Só porque eu falei umas verdades sobre o filhinho da mamãe mereço ser destratada desse jeito?

Nadia lança um olhar gélido na minha direção e, por um instante, imagino-a pulando do mezanino só para me estrangular com as próprias mãos aqui embaixo.

Bruce, por sua vez, exala preocupação e pede:

— Amelia, não a provoque. Por favor.

Mas Nadia parece comprometida demais com algo no computador e releva o que eu disse. Concentrando-se na tela e fazendo o ruído suave do teclado se espalhar pelo covil, ela se limita a orientar o filho:

— Eu estou quase terminando por aqui. Se faz tanta questão de explicar qualquer coisa para essa infeliz, faça logo. Nós temos que sair daqui juntos.

Engulo em seco e não preciso olhar para Bruce para saber que o pânico o atingiu em cheio também. Nadia e Philip pretendem nos deixar sozinhos, depois de trazerem o Hulk de volta com uma fúria mortal, numa base abandonada da HYDRA. Uma base que a S.H.I.E.L.D. desconhece a localização e que fica isolada no meio do oceano.

Respiro fundo e procuro não pensar nisso agora. Volto a olhar para o monstro diante de mim, e ele de pronto retoma o relato:

— Bom, você deve se lembrar que eu já era um hacker e tanto na época em que via alguma graça em você, Amy. E que fugi porque fui descoberto pela instituição cujo sistema eu invadi com maestria. Era um pessoal dos grandes. Nada de bancos, como era a minha especialidade e você deve ter acreditado se tratar na época, mas algo muito maior e mais perigoso. — Ele faz uma breve pausa, recostando-se melhor na cadeira, soando orgulhoso de si mesmo. — Digamos que eu mexi num vespeiro. E quando fui rastreado pelas pessoas que faziam parte dele, ao invés de eliminado, eu fui acolhido. Pela minha mãe. — Philip olha com carinho para Nadia no mezanino, que vindo dele é perturbador. — Tanto eu como Samuel pensávamos que ela estava morta há anos. O desgraçado do nosso pai não concordava com a instituição que a esposa queria tanto entrar. Ela pretendia levar todos nós para a HYDRA, e ele discordava, pensava pequeno, um pobre diabo. Quando descobriu o plano dela, nosso pai fugiu comigo e Samuel, depois de inventar que nossa mãe tinha morrido. Ele nos manteve longe dela com mentiras e mudanças constantes de endereço. Como eu era muito pequeno na época, foi fácil me enganar. E Samuel... Bom, ele acreditava em qualquer coisa que o nosso pai dizia, era o ídolo dele. Imagine a minha surpresa quando reencontrei nossa mãe viva, depois de tantos anos acreditando numa mentira cruel!

— Então você hackeou a HYDRA? — Bruce contribui com o interrogatório, antecipando a pergunta que eu mesma faria.

— A S.H.I.E.L.D., na verdade. Mas a HYDRA estava infiltrada nos alicerces dela na época e uma coisa levou à outra. Foi a HYDRA que me localizou no fim das contas, enquanto eu fugia pensando que estava encrencado.

Enquanto luto para assimilar tanta insanidade, uma enxaqueca começa a me torturar.

— E por que você hackeou a S.H.I.E.L.D.? — pergunto.

— Eu estava procurando o meu irmão, claro. — Philip esclarece de pronto. — Eu nunca acreditei que ele tinha morrido. Sim, foi isso que me falaram depois de um incidente que ele teve na universidade onde lecionava e fazia pesquisas. Um incidente envolvendo quem? O Hulk e o Exército. E não foi a HYDRA, organização do mal, mas a S.H.I.E.L.D. mesmo, teoricamente o lado bom da força, que tentou me enganar.

— E depois? — Bruce o incentiva a continuar o relato, e percebo que, enquanto está falando, Philip se distrai do que tem em mente para nós.

Não sei se fará muita diferença, já que Nadia não parece ter esquecido. Ao contrário, está empenhada com a tarefa misteriosa no computador, algo com certeza relacionado ao plano final. Ainda assim, é bom ter alguma esperança.

— Depois do incidente na Universidade Culver, Samuel foi levado para um hospital da região. Ligaram para mim porque eu era o contato de emergência, nosso pai tinha falecido há dois anos e Samuel era tudo o que eu tinha. Nós éramos unha e carne. — Philip fica nostálgico por um momento. E pesaroso logo depois. — Quando eu cheguei lá, sem chão e desesperado, descobri que não poderia ver o meu irmão. Simplesmente não me deixaram vê-lo. Então, um sujeito de terno veio falar comigo na recepção e pediu que eu me acalmasse. Ele falou que meu irmão não tinha resistido aos ferimentos e que o assunto envolvia segurança nacional. Por isso, eu não poderia vê-lo nem enterrá-lo. Dá para acreditar? Sabe qual era o nome do sujeito? Agente Philip Coulson. Meu xará! Um verdadeiro filho da mãe. E o idiota nem me reconheceu quando me prendeu há algumas semanas... Eu mudei um pouco, é claro, mas Coulson não me reconheceu simplesmente porque não era importante guardar o meu rosto. Eu devia ir atrás dele também, talvez um dia eu vá.

Não sei o que dizer. A história fica cada vez mais complicada e, por um momento, até sinto pena de Philip por ter sido afastado do irmão. Por outro lado, imagino que seja trabalho da S.H.I.E.L.D. cuidar de possíveis ameaças. Talvez tenham pensado que Samuel Sterns representava algum tipo de perigo. Talvez até para si mesmo. Não acho que justifica tudo, mas ao menos explica um pouco.

Em dado momento, ouço a réplica de Bruce, ele articula com cautela e devagar:

— Eu não estou justificando o que Coulson fez, mas a S.H.I.E.L.D. sabe que radiação Gama é algo perigoso e deve ter pensado que seria igualmente arriscado para você manter contato com Samuel. Por isso achou melhor afastá-lo de você até entender o caso e descobrir uma forma de ajudá-lo.

Philip lança um sorriso sem emoção a ele.

— Estranho ouvir isso de você agora. Não foi você que fugiu da S.H.I.E.L.D. por anos, Dr. Banner?

— Só até entender que ela nunca foi minha inimiga de verdade — Bruce retruca, sem pestanejar. — A S.H.I.E.L.D. não é perfeita, mas ao menos tenta fazer o que é certo, pensando na segurança da maioria.

Philip dá de ombros e comenta com asco:

— Uma escória bem-intencionada que me separou do meu irmão. — Ele se levanta da cadeira de repente, arrastando o metal contra o piso escuro, despertando um alerta dentro de mim. — Eu não consegui desistir dele, como vocês perceberam. Era meu irmão, afinal. Continuei procurando por Samuel, usando meu conhecimento em sistemas para seguir qualquer pista, qualquer rastro, me agarrando a qualquer esperança por anos. Criei uma identidade falsa para isso. Foi um caminho árduo e sem volta, mas finalmente consegui derrubar o firewall da S.H.I.E.L.D. Isso me levou à HYDRA, à minha mãe e ao meu irmão em coma.

— E então? — incentivo-o a continuar, a fim de protelar o desfecho do seu plano.

— Infiltrada dentro da S.H.I.E.L.D., minha mãe tinha conseguido recuperar Samuel, mantinha o meu irmão em sigilo e aos cuidados dos melhores médicos e cientistas da HYDRA. Quando a S.H.I.E.L.D. ruiu, foi fácil levá-lo junto conosco. E quando eu descobri que você era o responsável pela condição do meu irmão, Banner, abracei de vez o desejo de justiça.

Pesando tudo que ouvi, me sinto inclinada a dar uma opinião franca:

— Eu tenho um irmão, você deve se lembrar dele. Eu amo Josh desde sempre, ele é meu melhor amigo, além de família e parte de quem sou. Eu também iria revirar céus e terras para encontrá-lo. Se alguém o machucasse então, ia querer que essa pessoa pagasse pelo que fez. Mas eu nunca, nunca confundiria justiça com vingança.

Philip esboça um sorriso mínimo e entediado na minha direção.

— Isso porque você não entende que são sinônimos. — Sem esperar mais, volta-se para Bruce e anuncia: — Chega de papo. Vamos acabar logo com isso.

Animado de um jeito muito perigoso, Philip caminha até a banqueta e pega a seringa com brutalidade. De repente, parece ter pressa em concluir tudo por aqui.

No mezanino, Nadia sorri com satisfação, afastando-se do computador e avisando ao filho:

— Tudo pronto. Aplique a fórmula de uma vez e vamos embora antes que o efeito comece. Podemos assistir longe daqui.

— Claro, mãe. Agora mesmo.

Em pânico ao ver Philip se aproximar cada vez mais de Bruce, grito em desespero:

— Espera! Espera, por favor!

Talvez numa reação natural ao susto que desperto com o berro, talvez curioso para saber o motivo do pedido inflamado, Philip se detém no meio do caminho e, a contragosto, pergunta:

— O que foi agora?

Penso rápido, trocando um olhar desnorteado com Bruce.

— Eu tenho uma última pergunta.

Philip ri sem o menor humor.

— O tempo para perguntas já acabou.

Ao vê-lo dando um novo passo, grito mais uma vez:

— Por favor, Kurtie! Lembra que eu te chamava assim? Você gostava.

E apelo para qualquer resquício de empatia que ele talvez sinta pelo nosso passado.

Seu corpo se retesa na mesma hora.

— Filho... — Nadia começa a dizer.

Mas ele a interrompe, erguendo a mão numa ordem de silêncio, e gira o corpo devagar até me encarar de novo. Entredentes, exige:

— Fala logo, princesa. O que diabos você ainda quer saber?

Seguindo uma forte desconfiança, despertada por toda a história que ouvi até aqui, vou direto ao ponto:

— Eu quero saber como alguém tão inteligente como você, de um jeito maligno e desprezível, claro, foi tão facilmente manipulado por aquela... — Olho para Nadia por um instante. Arrisco um sorriso enviesado. — Por aquela vaca imunda ali em cima.

O silêncio pesa de imediato. Por um arrastado momento, tudo o que ouço ao longe é a respiração entrecortada de Bruce. Aposto que ele está apavorado com as consequências que essa ousadia pode me trazer.

Mas o que posso fazer? Se eu vou cair, vou cair lutando e com muita classe! Não vou deixar barato!

Nadia parece transformada numa estátua de tão tensa que fica. Um forte indício de que a minha desconfiança tem fundamento.

Já Philip demora a assimilar o que ouviu. Pisca várias vezes, visivelmente confuso. Quando rompe o silêncio sepulcral, tudo que sai é...

— O que você disse?

— Ela está blefando! — Nadia se apressa em dizer, com uma voz rascante e um olhar duro na minha direção.

— Estou? — retruco em desafio. Depois, volto-me para Philip. — Pois então me deixe contar a mesma história, só que com outro olhar. Um olhar de fora.

Engulo em seco, tentando disfarçar o quanto estou nervosa e sabendo que isso pode ser apenas um tiro no escuro. Mas também posso acertar os meus palpites em cheio e, por ora, decido manter a fé nessa possibilidade.

— Philip, nós não temos tempo. —Nadia começa a descer a escada de ferro, cada passo pesado ecoando com ferocidade pelo covil. — Precisamos ir agora.

Para seu desespero, o filho ergue a mão mais uma vez, ordenando que se cale e, com isso, faz a mãe estancar na metade da escada.

Com o aval para prosseguir, me esforço para organizar os pensamentos a mil dentro de mim e despejo do jeito mais certeiro que consigo:

— Primeiro, eu aposto que o seu pai não afastou você e Samuel da querida mamãe. Nadia Sterns abandonou a família porque quis e fez isso pela HYDRA. Ah! E todas as vezes que mudou de endereço com os filhos a tiracolo deve ter sido uma tentativa de protegê-los porque, uma vez dentro da organização asquerosa, ela deve ter recebido ordens de eliminar qualquer laço com o passado.

— Isso é um ultraje! — Nadia protesta, com uma indignação que me soa incrivelmente hipócrita. — Eu nunca ouvi tamanho absurdo! Philip, você não pode acreditar nessa víbora...

— Continue! — Philip exige, a voz retumbante e o semblante envolto por uma máscara indecifrável.

Abro a boca exatamente para retomar o fio da meada, sentindo que minha desconfiança faz mesmo sentido, porém Bruce se pronuncia primeiro:

— Quando Coulson levou o seu irmão para a S.H.I.E.L.D. e te afastou dele, a HYDRA estava infiltrada nela. Ele recebia ordens de cima naquela época. É muito provável que a ordem tenha partido de alguém da própria HYDRA. Talvez... até dessa mulher que você se orgulha tanto em chamar de mãe. Foi por isso que Coulson não virou alvo da vingança, porque ele seria o primeiro a juntar as peças e desmascará-la.

Nadia pisca algumas vezes, desnorteada, acuada, definitivamente numa baita saia justa.

— Isso é...

Ela não consegue completar o raciocínio. Então, olho para Bruce com animação e reconheço:

— Genial! Obrigada, meu amor, excelente ponto! Eu não tinha pensado nisso, mas faz todo o sentido!

Às pressas, Nadia termina de descer a escada e caminha até o filho. Agarra-se ao seu braço e, com certa relutância, ele se volta na direção dela.

— Philip, eu cuidei do seu irmão todos esses anos! Eu sofri por ele! Movi tudo que pude para ajudá-lo a acordar do coma!

— Porque ela ama Samuel! — intrometo-me, recebendo um olhar congelante na sequência e outro intrigado. — Mesmo de um jeito torto, sua mãe ama o seu irmão. Apenas ele.

— Não! — Nadia parece cogitar me alcançar, porém, talvez imaginando que isso daria força ao meu argumento, escolhe permanecer ao lado de Philip. — Você também, filho! Do mesmo jeito!

— Não, com você é outra coisa. Ela enxergou uma possível utilidade.

— O quê?! Sua...

— Continua, Amy — Philip ordena, de um jeito apático. — Depressa, antes que eu me arrependa.

Não sei de onde tirar foco e sangue frio para prosseguir. No fim, apenas deixo as palavras ganharem forma de um jeito afoito mesmo:

— Sua mãe ficou com Samuel por anos em sigilo, mesmo sabendo que você tinha estado naquele hospital procurando por ele, mesmo desconfiando que você não ia desistir, ela não deu a mínima para a sua dor. Ela podia ter permitido o reencontro há muito tempo, muito antes, mas continuou mantendo ele longe de você. Porque ela quis assim. Porque você era um segundo filho e inconveniente que talvez a HYDRA não aceitasse tão bem quanto o primeiro.

Os olhos de Nadia ficam arregalados e sua boca se escancara. Eis o semblante nu e cru da dissimulação em pessoa.

— Absurdo! Mentirosa! Cale essa maldita boca!

Ela faz menção de vencer a distância entre nós, mas o filho a impede, segurando seu braço com força brutal. Mesmo daqui, vejo a pele ficar vermelha com o apertão e a dor abalar a máscara de Nadia.

Minha respiração está ofegante. Minha cabeça, girando conforme a verdadeira história ganha forma.

Cortando o breve e pesado silêncio, Bruce emenda num tom sombrio:

— Aposto que mesmo amando o filho mais velho, ela deixou que os cientistas da HYDRA fizessem o que bem entendessem com ele. Experimentos...

— Para ajudá-lo! — Nadia se defende, cada vez mais furiosa.

Balanço a cabeça em negativa, atraindo de novo a atenção de Philip, e argumento um pouco mais calma:

— Para ganhar tempo e usá-lo como uma moeda de troca lá dentro. Aposto que até hoje a HYDRA deseja usar Samuel Sterns como uma arma. E só não fizeram isso ainda porque não descobriram como. É aí que você entra, Philip.

Ele franze o cenho. Com raiva, comprime os lábios numa careta. Aos poucos, solta o braço de Nadia e leva a mão livre aos próprios cabelos. Esfrega o rosto.

— Como assim? Do que você está falando? Não... Você só quer me jogar contra a minha mãe!

Animada com o sentimento de dúvida do filho, Nadia se aproveita do momento de fraqueza assentindo com vigor:

— Exatamente, meu querido! Exatamente! Não dê ouvidos a ela!

Estreito o olhar na direção dela. Depois, nele. Com gás renovado e incapaz de deixá-la sair vitoriosa, coloco mais lenha na insana fogueira:

— Você conseguiu derrubar o firewall da S.H.I.E.L.D. A HYDRA estava lá o tempo todo, viu o que você fez e Nadia finalmente enxergou algo valioso em você. Um talento, uma utilidade. Então ela decidiu te recrutar, te mostrou Samuel como estratégia emocional e, com o tempo, te manipulou. Te manipulou para que você retomasse as pesquisas dele, para que focasse no Hulk, para que abandonasse a sua vida por completo e acreditasse que queria essa vingança tanto quanto ela!

O silêncio volta a pesar. O rosto de Philip é pura tortura e decepção. Nadia, o ódio mortal em pessoa.

Em meio a essa atmosfera tão pesada, de repente, ouço uma voz suave me chamar:

— Amelia.

E assim que olho para ele do outro lado, as palavras mais doces do mundo escapam de sua garganta:

— Eu te amo.

Embora meu peito se aqueça por ouvir isso e meu coração dispare em resposta, acabo repreendendo o romantismo fora de hora:

— Bruce! Eu também te amo, mas agora não tem clima pra isso.

Sem se importar, como se o mundo não estivesse mais prestes a desabar sobre nós, ele acrescenta com um olhar caloroso fixo em mim:

— E eu amo o seu cérebro. Muito! Eu sempre soube que você era uma mulher inteligente, Amelia, mas isso? Você é brilhante! Se não estivesse preso aqui, nessa maldita câmara, com clima ou sem clima, eu beijaria você agora...

Um sorriso bobo acaba me vencendo. Meu pulso martela depressa. Não resisto em sonhar e arqueio as sobrancelhas sugerindo:

— Talvez mais tarde?

Antes que Bruce tenha chance de responder qualquer coisa, Philip explode numa onda maligna de fúria:

— Não haverá mais tarde! Vocês não vão sair daqui! Não vão sair dessa, deu para entender?

Incrível como alguém pode ser tão cego. É frustrante que, mesmo tendo ouvido tudo o que eu e Bruce lhe dissemos, Philip ainda prefira conceder o benefício da dúvida à mãe monstruosa que possui.

Enojada diante da relação doentia dos dois, só me resta jogar a cartada final:

— Eu sei que talvez eu não saia mesmo dessa. Mas o Bruce? O Hulk não vai deixá-lo morrer. Vocês podem fazer o que quiserem com esse lugar, que ele vai sobreviver. E isso me leva ao último ponto. Nunca foi intenção da sua mãe destruir o Hulk. Se vingar sim, mas matá-lo? Nunca. Ela sabe que não pode. Quando tudo isso acabar, ela vai entregar Bruce para a HYDRA. Com base no seu trabalho, Philip, eles vão usá-lo como uma arma.

Minhas próprias palavras me arrepiam pelo horror que carregam. Mas é a única coisa que faz sentido no fim. A HYDRA não deixou mãe e filho se vingarem pessoalmente sem exigirem nada em troca. Um Vingador derrotado e contido parece uma boa moeda de troca.

— Nesse ponto, você errou, Srta. Prescott — Nadia me corrige, exalando prazer em fazê-lo. — Com base no trabalho do meu filho, nós podemos criar quantos Hulks quisermos agora. Nós temos a Epinefrina Gama e o antídoto capaz de reter a transformação. Bruce Banner, vivo ou morto, ficará para sempre perdido. Corroendo-se de culpa pela besta que carrega dentro de si ter destruído a mulher que ele amava. Porque esse será o seu fim, ser destruída por ele.

Engulo em seco. A frustração e o medo se misturando dentro de mim. Parece que nadei, nadei só para morrer na praia. Não importa o que eu diga, o que Bruce diga, a nossa tentativa de jogar mãe contra filho e quem sabe sairmos daqui, nada disso.

Nunca tivemos essa chance realmente... É mesmo o fim da linha. E, por mais que eu confie no Hulk numa situação normal, não sei se a fórmula desenvolvida por Philip vai permitir que o Gigante Esmeralda me reconheça quando for dominado pela dor e pela fúria cega.

Estou remoendo essa sensação horrível de impotência e incerteza, quando a voz de Philip, alta, gélida e nítida, volta a soar pela sombria base:

— Nesse ponto?

Segundos depois, confusa, Nadia replica um murmúrio:

— O quê?

Philip trinca o maxilar por um instante. Depois, encara a mulher ao seu lado com um olhar duro e cheio de epifania:

— A senhora disse... “Nesse ponto, você errou.” E os outros pontos, mãe? Ela acertou, não foi?

Esperança renovada! A cobra mordeu a própria língua! Philip entendeu o x da questão. Todos os xis! Por mais remota que seja, agora eu e Bruce temos uma chance de escapar. Só não sei exatamente como, mas semear a discórdia entre Nadia e o filho me parece promissor.

O silêncio pesa. Domina. Arrasta-se por toda a parte. Por um momento, penso que ela vai confessar tudo.

Ao invés disso, no entanto, Nadia acolhe o rosto dele entre as mãos e continua com o teatro:

— Filho... Ah, meu filho querido, eu... — Ela o observa de um jeito emocionado para, logo depois, ser dominada por uma expressão vazia. — Eu não tenho tempo para isso.

Acontece muito rápido.

Num instante, as duas mãos de Nadia estão trêmulas no rosto dele. No outro, uma delas desce rápido pelo corpo e arranca alguma coisa escondida na lateral do cinto que marca o longo e negro vestido.

A arma reluz sob a iluminação fraca do covil. Ouço o som da arma sendo preparada com agilidade. Empunhada na direção do pescoço de Philip. Posso imaginar o dedo esguio prestes a apertar o gatilho, mas quando o disparo se faz audível, não é o homem que perde as forças nas pernas. É Nadia Sterns.

Em choque, demoro a compreender que Philip agiu mais rápido do que ela. Parece que, no último instante, segurou a mão de Nadia com mais agilidade e frieza do que ela poderia esperar. Virou-a na direção oposta e apertou o gatilho junto com ela.

— Nem eu, mãe.

O disparo, que atingiu em cheio o peito de Nadia, espalha uma mancha avermelhada e pegajosa pelo vestido. Pálida e desnorteada, ela busca apoio no filho enquanto um grito sufocado, rouco, escapa por entre os lábios sem cor.

E, como se tudo já não fosse bizarro e chocante o bastante, Philip age como um bom filho agora, servindo mesmo de apoio no momento final. Ele segura a mãe com cuidado, para que não caia de mal jeito, e faz com que ela se deite no chão frio devagar, abaixando-se junto com ela.

Fica ao lado de Nadia quando o último suspiro de vida evapora e tudo que resta na expressão dela é um olhar vítreo, congelado pelo horror diante do algoz.

Então, Philip acaricia seu rosto suavemente, aproxima os lábios e dá um beijo demorado na testa da mãe morta.

— Hail HYDRA — murmura baixinho, ao mesmo tempo em que fecha os olhos de Nadia para sempre.

Notas finais
Faltam 3 capítulos e a cena pós-créditos ♥ PS: Lembrando que teremos segunda temporada ;-)