A Bela, o Outro Cara & Eu
9 Porquês e mais porquês
Notas iniciais

Veja a pedra jogada em seus olhos
Veja o espinho cravado em seu lado
E eu espero por você
Num passe de mágica e num desvio de destino
Em uma cama de pregos ela me faz esperar
E eu espero... sem você
Com ou sem você
Com ou sem você
Eu não posso viver
Com ou sem você
With or without you — U2
Há uma coisa que vocês precisam saber sobre mim. Quando alguém diz “Fique à vontade, a casa é sua”, eu levo ao pé da letra e não me faço de rogada. Afinal, seria até grosseiro dispensar tanta gentileza e hospitalidade, certo?
Por isso, não hesitei nem por um segundo quando Tony soltou essa frase, pouco antes de desaparecer do meu alcance de visão sob o pretexto de que precisava fazer uma ligação particular urgente e que retornava em poucos minutos. Tratei logo de procurar a cozinha da sua fortaleza, planejando tomar uma boa xícara de café e talvez afanar uns biscoitinhos e algumas torradas, já que acordei muito atrasada e não tive tempo de fazer a primeira e sagrada refeição do dia como se deve.
Fico feliz por ainda me lembrar do caminho que logo me traz à cozinha — a Torre dos Vingadores pode ser um verdadeiro labirinto se você não tiver o mínimo de memória espacial. Também me pego meio nostálgica por recordar das inúmeras vezes em que estive aqui ao visitar a Liv, num passado que parece estranhamente distante agora.
Penso na minha melhor amiga e na saudade que sinto da maluca fora da casinha que ela é, enquanto procuro uma caneca em um dos armários. E já estou diante da moderna máquina de café, capaz de preparar uma gama de variedades da bebida, quando ouço passos em algum lugar atrás de mim.
Por instinto e imaginando que é Stark, viro-me na direção da entrada, já com meu mocha devidamente pronto. Para minha surpresa, vejo Bruce entrando na cozinha. Distraído, meio descabelado e de pijama, ele não percebe minha presença logo de cara.
Talvez eu não devesse, mas aproveito a oportunidade para analisá-lo com certa atenção. Na verdade, é impossível não achá-lo gracioso com a simples combinação de cinza e preto da sua roupa de dormir. Tampouco ignorar que a calça do pijama está perigosamente baixa. O suficiente para me causar uma palpitação e um calor imediato.
Isso é uma das coisas que admiro em Bruce: a sua capacidade de ser atraente de uma forma natural, sem chamar muito a atenção de olhos habituados aos estereótipos musculosos, mas chamando a minha atenção mesmo assim pela sua simplicidade e beleza crua. Bruce Banner é um homem com cara de homem. Dono de uma doçura viril.
Tentando brincar com o efeito que ele ainda causa em mim, solto em tom despretensioso:
— Ô lá em casa...
Ergo o olhar aos poucos, de propósito, para que ele me pegue terminando a análise criteriosa e encontre meus olhos ao final dela. Funciona, como o previsto.
Bruce estanca no lugar e sua expressão traduz bem o conceito de branco feito um fantasma. Chega a ser engraçado observar a surpresa e o embaraço em seu rosto. Não sei se por me ver aqui, na sua zona de conforto, ou em virtude do que eu fiz e disse.
Outras coisas que adoro nele: sua timidez e seu jeito meio atrapalhado. É realmente encantador. Me dá vontade de levar para casa e cuidar.
Controlo a vontade de rir do meu último pensamento e me lembro que estou tentando ser sua amiga agora. Apenas isso.
— Amelia, o que... O que você está fazendo aqui? — Bruce gagueja, parecendo meio tenso.
Ele contrai os ombros, encolhendo-se como um bichinho assustado. Disfarçadamente, aproveita para ajeitar a calça do pijama, subindo-a um pouco.
Que pena!
— E eu que sei? Pergunte ao Tony — replico, dando de ombros.
Ainda não entendo o que estou fazendo aqui. Meu chefe apenas requisitou, por meio de uma curta e direta mensagem, que ao invés de ir para as Indústrias Stark, eu devia me dirigir à Torre essa manhã. Então, nesse ponto, estou tão confusa quanto Bruce aparenta estar. Meu palpite é que Tony está a fim de trabalhar via home office hoje. Por que isso me envolve, não sei ao certo.
— Desculpe... eu não quis soar grosseiro. — Bruce coça a nuca por um instante e tudo nele transparece um arrependimento tocante.
Demoro a entender que ele está se referindo à pergunta que titubeou antes. E incapaz de ficar indiferente à tamanha fofura, replico num tom tranquilizador:
— Não se preocupe. Vacas irão voar antes que Bruce Banner consiga ser grosseiro com alguém.
Um olhar agradecido e gentil rompe suas retinas e me aquece de um jeito acolhedor.
Ficamos assim, apenas nos encarando, durante um bom tempo. Por um momento, parece que nada mais precisa ser dito. Há uma tensão no ar, mas ela é incrivelmente agradável e envolvente. Não sou muito fã de longos silêncios, porém estou convencida de que poderia ficar assim para sempre. Apenas olhando para Bruce e sendo observada de volta. É como um ímã.
Em dado instante, ele quebra esse silêncio, explicando-se de novo:
— Eu só não esperava te ver por aqui, é isso.
Meço seus trajes mais uma vez e constato rindo um pouco:
— Bem, isso eu percebi. Você não esperava mesmo por visitas, hein?
O alter ego do Incrível Hulk fica ligeiramente corado ao ser confrontado com essa brincadeira e recua dizendo:
— Desculpe... Eu devia me trocar. É que eu não sabia que você...
— Não se incomode comigo, Bruce. — Solto uma leve risada. — Eu sou totalmente capaz de sobreviver a você de pijama, acredite.
Ele fica meio desnorteado com meu comentário. Não sei o que se passa na sua cabeça, mas juro que logo depois vejo um meio sorriso surgir e desaparecer rápido.
— Eu tenho que falar com o Tony... É, eu preciso conversar com ele, agora mesmo. Com licença.
Não tenho tempo de dizer mais nenhuma palavra pois, antes que eu abra a boca, Bruce meneia a cabeça, despedindo-se por ora, e desaparece pelo corredor com passos urgentes.
— Bom dia para você também — assinto, já sozinha.
Alguns segundos se passam, porém algo me impede de retomar o que eu estava fazendo antes de ser surpreendida pela aparição relâmpago de Bruce. Minha curiosidade me mantém estagnada, fitando o extenso corredor adiante, com as retinas fixas no ponto exato em que ele desapareceu ao virar para o corredor adjacente.
Tomo um gole do café e hesito um pouco, batucando as unhas na caneca. Então, quando aquele famoso diabinho, que sempre fica ao pé do nosso ouvido, nos incitando a fazer algo que não parece certo, finalmente me convence a ceder, dou o primeiro passo.
Os passos seguintes são mais fáceis, uma vez que já tomei a decisão e não sou de voltar atrás. Certo ou errado, quero ouvir a conversa de Bruce com Tony. Nem sei por que exatamente, tampouco se é apenas curiosidade mesmo ou algum tipo de sexto sentido; o fato é que preciso fazer isso, pura e simplesmente.
Tão logo reconheço a voz de Tony, ainda ao celular, diminuo o ritmo dos passos até parar por completo. Imaginando que Bruce deve estar na sua frente agora, esperando a oportunidade de se manifestar, e também convencida de que é perfeitamente possível ouvir tudo daqui, escondo-me no corredor anterior ao que desemboca na sala principal da Torre, onde os dois estão.
Aguardo um pouco e deduzo que meu chefe encerrou a ligação assim que a voz de Bruce ressoa bem firme:
— O que você está tentando fazer, Tony? Seja lá o que for, por favor, pare.
Há um longo e estranho momento de silêncio, durante o qual posso até vislumbrar a cara de paisagem que o Homem de Ferro deve estar esboçando diante do que ouviu. Suponho que ele não tenha captado o X da questão porque eu mesma também não entendi do que se trata.
— Como assim? — É a voz de Stark, e ele parece mesmo perdido.
— Não banque o desentendido comigo. Você sabe muito bem do que eu estou falando.
O jeito como Bruce insiste, soando até um tanto bravo e ainda mais firme ao elevar a voz sutilmente, me causa uma reação imediata. Um inconveniente e delicioso arrepio.
Queria não sentir as coisas que sinto quando estou perto dele, realmente queria. Mas parece que meu corpo ignora totalmente o que quero e continua reagindo a Bruce teimosamente.
Respiro fundo e me obrigo a retomar o foco. Inclino um pouco o rosto, apurando os ouvidos para escutar melhor a réplica do meu chefe:
— Do que você está falando, eu não tenho a menor ideia. Agora... de quem, talvez eu tenha alguma noção. Me diga, por acaso, ela tem olhos azuis, cabelos castanhos, é espirituosa na maior parte do tempo e muito assustadora algumas vezes?
— Também não banque o engraçadinho. Por favor. Isso é sério.
Franzo o cenho, confusa e boiando. Estão falando de mim ou é impressão minha?
De repente, com um tom de voz muito certeiro, Stark insinua:
— Parece que você já esbarrou com a minha visita por aí, hum? — Ele faz uma pausa e emenda de um jeito cômico: — Cruzes, Banner! Você podia ao menos ter tomado um banho, escovado os dentes e colocado uma roupa mais apresentável e decente. O que a doce Amy está pensando de você agora?
Ao finalmente confirmar que eu sou o assunto, tenho um tipo de estalo seguido de uma vontade de rir quase irresistível. Nem sei bem como a controlo — talvez a curiosidade ainda maior me ajude a ficar quieta e no mais absoluto silêncio, feito uma estátua.
Uma pessoa normal talvez ficasse ofendida por Bruce estar incomodado assim, porém tudo o que sinto é uma grande satisfação pela minha presença ter mexido com ele a esse ponto. Sinto que estou cutucando uma onça. E gosto da ideia de que a onça reaja de alguma forma.
Ainda estou saboreando essa sensação e contendo um sorriso bobo insistente, quando Bruce torna a se pronunciar:
— Já que você é direto, eu também vou ser. O que Amelia está fazendo aqui?
Meu nome em sua boca. Outro arrepio. Tenho que parar de sentir essas coisas... Mas como?
— Ela é minha funcionária. Minha assistente pessoal agora, lembra? Foi promovida há dias e está mais do que na hora de colocá-la a par da próxima Feira Expo Stark. O evento será em poucas semanas, mas com a Pepper viajando de novo, talvez eu tenha esquecido de definir alguns detalhes. Tipo, o planejamento geral e a execução prática. Enfim, acho que seria bom demandar um pouco. Ou muito, sei lá.
Ao assimilar as palavras de Tony, vislumbro a trabalheira que me aguarda e murmuro baixinho com certo desânimo:
— Oh, não... Escravidão, aí vou eu.
Por outro lado, agarro-me à ideia de que será uma oportunidade e tanto para aprender algo novo, adquirir experiência e começar a crescer profissionalmente. Também me sinto honrada por Tony, com uma baita equipe de especialistas em eventos à sua disposição, pensar logo em mim para conduzir tudo. Além disso, acredito que será ótimo manter a mente ocupada. Com sorte, pode até ser bem prazeroso.
É isso, de repente, o desafio me deixa profundamente animada.
— Mas por que aqui? Por que logo... aqui? — Bruce balbucia, retomando a conversa.
— E por que não aqui? — Tony retruca, de um jeito incisivo e, ainda assim, meio suspeito.
É quase como se houvesse algo nas entrelinhas. Algo que não estou captando direito, mas que Bruce parece ter pegado no ar por conhecer Tony melhor do que eu.
— Caso não se lembre, às vezes, eu trabalho de casa. Logo, nada mais justo que... — Ele para de falar por um momento. E soa ainda mais suspeito quando muda o foco e questiona: — Espera, por que eu estou explicando algo elementar, meu caro Banner? Qual o problema afinal?
Há mais um estranho silêncio durante o qual me faço a mesma pergunta. Qual é o problema, Bruce?
— Nenhum — ele balbucia sem muita firmeza. Limpa a garganta e reforça: — Problema nenhum.
Ele está mentindo. Sinto em seu tom de voz.
— Eu só queria ter certeza que isso não é um tipo de estratégia, Tony. Uma tentativa de... para...
Uno as sobrancelhas, cada vez mais intrigada com a reação de Bruce à minha presença na Torre.
Talvez cansado de esperar que o amigo formule a frase inteira, Stark o interrompe e despeja algumas sugestões:
— Para aproximar vocês? Forçar uma situação? Bancar o cupido? — Uma breve pausa e então transborda drama: — É essa a ideia que você faz de mim? Estou chocado, Verdão! E ofendido! Fique sabendo que você me magoou muito...
— Tony. Pare.
Quase não ouço a repreenda de Bruce para o outro Vingador. Isso porque minha cabeça fervilha enquanto luto para absorver as palavras que acabei de ouvir e o que elas significam em conjunto. Tony está tentando nos aproximar? Romanticamente falando?
Por fim, não sei se devo esganá-lo pela intromissão descabida ou se lhe agradeço por demonstrar amizade e apoio assim. Não sei se fico feliz ou irritada. Talvez eu esteja as duas coisas.
Ainda nem tenho certeza se Tony agiu mesmo com essa intenção, até que ele admite de forma clara:
— Tudo bem, eu confesso. A princípio, foi exatamente o que passou pela minha cabeça. Eu estava entediado e pensei que seria divertido dar um empurrãozinho em vocês. Pronto, falei.
Vou esganá-lo, está decidido. O Homem de Ferro está com os dias contados. Com os minutos contados! Como assim divertido?
— Você o quê...? — Bruce soa desapontado, porém não surpreso.
— Mas eu posso apagar essa ideia absurda da minha cabeça agora mesmo, se você preferir — propõe de súbito, fazendo um silêncio sepulcral se instalar na sala.
Silêncio que só é vencido quando ele mesmo acrescenta pausadamente segundos depois:
— Afinal, você e a Amy são apenas bons amigos. E você está totalmente bem e conformado com esse destino, não é? Bem e conformado, como deve ser. Certo, Bruce?
As perguntas de Tony mexem comigo, porém o que realmente me pega de surpresa é a ausência de resposta do receptor. Foram perguntas simples. Diretas e audaciosas, mas simples.
Então, por que Bruce não diz nada? Por que não disse nada ainda? Por que permanece no mais completo silêncio pelos segundos que se arrastam?
E por que esse suspense faz o meu coração disparar? Por que, de repente, vejo-me muito ansiosa por sua resposta? O que ela mudaria para mim?
Entendam bem, eu realmente coloquei Bruce na friendzone. Não foi da boca para fora apesar de, no fundo, não ser o que eu realmente gostaria de fazer. O fato é que eu estava decidida a virar essa página de uma forma ou de outra, de uma vez por todas. E essa me pareceu a única maneira, a opção previsível, a coisa certa a se fazer.
Em outras palavras, com o retorno de Bruce, percebi que não consigo abrir mão de tê-lo em minha vida. Mas como sei que tudo é muito complicado para ele e que desse mato não vai sair coelho, pensei que poderíamos ser amigos, sim. Acreditei nisso e apostei minhas fichas nessa possibilidade quando conversamos no meu apartamento, há pouco mais de uma semana.
E agora... Agora todas as minhas certezas estão desmoronando, ruindo. Tudo por culpa de um maldito silêncio aterrador!
O que isso significa? O que Bruce está pensando? Por que não responde de uma vez? Por que eu estou feliz com a sua hesitação? Isso é uma hesitação?
Se pelo menos eu pudesse ver o rosto dele, talvez entendesse o que está acontecendo. Talvez captasse a resposta em seu semblante.
Ao conjecturar sobre isso, acabo dando alguns passos à frente, esgueirando-me pelo corredor, buscando ouvir a resposta com clareza assim que ele decidir desembuchar.
Me movo mais um pouco, porém não com a atenção suficiente para enxergar um tipo de aparador no meio do caminho. Não com a destreza necessária para não tropeçar no inconveniente móvel. Não com agilidade o bastante para evitar que o maldito vaso sobre ele balance de forma miserável e despenque no piso frio sob meus pés logo depois. Tampouco com uma capacidade mágica de impedir que o barulho de dezenas de cacos se propague fatalmente no ar e alcance a sala, denunciando para Bruce e Tony que eles não estão sozinhos.
— Inferno... — xingo entredentes, ciente de que não há nada que possa reverter essa situação.
Convencida de que fui pega no pulo ou que é uma questão de pouco tempo para isso, ergo o olhar para o final do corredor, na direção da sala. No mesmo instante, uma silhueta surge na entrada dela, encarando-me de volta com um par de olhos surpresos e curiosos. Tony aparece ao lado de Bruce em seguida.
Claramente, estou em apuros. Felizmente, costumo pensar rápido quando me vejo no meio de uma saia justa como essa. Sendo assim, a primeira coisa que determino é que não posso deixar os dois — principalmente Bruce — deduzirem que eu estava ouvindo a conversa. O que seria bem constrangedor não só devido a falta de educação de minha parte, como pelo teor do que foi dito e das perguntas que ficaram no ar.
Agindo rápido e do jeito mais natural que consigo, sorrio e me ponho em movimento ao mesmo tempo em que cravo o olhar em Tony e digo:
— Desculpe, mas você estava demorando horrores, e eu cansei de esperar naquela cozinha cheia de tentações para quem está de dieta, como eu. Ah! Foi mal, acho que quebrei um vaso no caminho. — Aponto para o corredor atrás de mim. — Você gostava muito dele? Porque, na minha opinião, era horrível, de gosto duvidoso e totalmente dispensável para a decoração.
Isso mesmo, manipulo a situação para que eles pensem que eu acabei de passar pelo corredor, esbarrando acidentalmente no maldito aparador e derrubando o vaso ridículo.
— Foi um presente da Pepper — Stark esclarece, afiado, arqueando uma sobrancelha.
— Oops — murmuro, envergonhada pela gafe, afinal acabei de criticar um presente da namorada do meu chefe que, a propósito, é minha superior também. — Era bem bonito, na verdade.
Tomo um gole do café, na esperança que o clima estranho se dissipe enquanto me distraio com a bebida, porém de nada adianta.
A atmosfera esquisita continua pairando na sala e sinto que não é devido ao que eu soltei sobre o tal presente da Srta. Potts. É devido ao olhar insistente de Bruce sobre mim e do olhar desconfiado de Tony. Continuo em apuros, ao que parece; eles não estão convencidos.
Visto minha melhor cara de sonsa e faço-me de desentendida:
— Desculpe... É uma hora ruim? Eu interrompi alguma coisa? Vocês estavam conversando sobre futebol ou algo assim? Mulheres, talvez?
Os Vingadores na minha frente trocam um rápido olhar, meio cúmplice, como se se comunicassem em silêncio e debatessem sobre eu estar sendo sincera ou não. Noto que pelo menos um semblante relaxa um pouco, instantes depois. Não sei se Bruce acredita mesmo na minha inocência, mas o fato é que ele finalmente se manifesta:
— Não, você não interrompeu nada, não se preocupe.
— Ótimo — balbucio, mais tranquila, tomando mais um gole do café e sorrindo primeiro para um, depois para o outro.
No entanto, desmancho o sorriso ao encontrar um olhar estreito cravado em mim. Um olhar de rapina, de alguém que ainda está desconfiado, quase convencido de que eu estou mentindo, o olhar de Tony Stark.
Como isso pode ser apenas paranoia da minha cabeça, finjo que não percebo essa postura estranha e volto a atenção para Bruce, procurando a sua aconchegante serenidade. Encontro bem mais do que isso. Encontro um olhar que não sei explicar o que diz exatamente, mas que parece conter todas as palavras do mundo, todas as respostas.
Respostas.
De repente, recordo das últimas perguntas que Tony lhe fez e das palavras não ditas. De repente, estou de volta àquela atmosfera de suspense e esperança, querendo descobrir o que Bruce ia dizer, o que realmente pensa de mim e da nossa recente amizade estabelecida. Por um momento, esqueço de todo o resto e me concentro apenas nisso.
Quando dou por mim, não consigo parar de olhar para ele. O surpreendente é que Bruce também parece ter esquecido da vida e do mundo girando ao nosso redor. Tudo o que ele faz é me encarar de volta. De um jeito... carinhoso, eu diria. Fofo e intrigado ao mesmo tempo. E algo me diz que esse olhar que continuamos trocando não é de apenas bons amigos.
O momento só é quebrado quando Tony estala os dedos na altura dos nossos rostos e, com isso, nos desperta para a realidade. Para a realidade não dita. Para a realidade na qual nada mudou.
Subitamente sem graça, Bruce recua alguns passos e começa a se justificar:
— Eu preciso... preciso ir. Preciso fazer...
— Precisa parar de gaguejar e tomar um banho antes de qualquer coisa — Tony completa, laçando um sorriso forçado para o amigo.
— É, é isso — ele assente, pigarreando um pouco, lindamente ansioso e envergonhado. Antes de se afastar de vez, me olha por mais um instante e despede-se: — Fique à vontade, Amelia.
— Eu já estou, valeu.
— Com licença de novo.
— Toda, Bruce.
Inevitavelmente, sigo-o com o olhar. Não sei o que se passa na minha cabeça, simplesmente fico fora do ar por um tempo que não sou capaz de precisar. É aquele maldito ímã de novo, atraindo-me, prendendo-me a Bruce. Que inferno!
Tenho certeza que continuaria assim, fora de órbita, se a voz de Tony não me despertasse ao soltar:
— Oh, por favor... Procurem um quarto.
Pega de surpresa, volto-me para o engraçadinho e o vejo revirar os olhos, ao mesmo tempo em que cruza os braços com cara de tédio.
Incrédula e meio envergonhada por ter deixado transparecer algo que deu fundamento para Tony fazer tal comentário, rio sem humor e retruco:
— Você pensa antes de dizer essas gracinhas ou é só abrir a boca que as bobagens sem sentido saem naturalmente?
Minha tentativa de contornar a situação não funciona como eu gostaria. Ao invés de se dar por satisfeito e quem sabe me pedir desculpa, Stark se faz de sonso:
— Bobagens sem sentido? Oh! Okay, que falha a minha. Por um momento, eu esqueci que você e Banner são apenas bons amigos. Certo, Amy?
Fico em silêncio. Nem sei por quê. Por que estou muda? Por que não digo nada? É uma pergunta simples, quase retórica. Eu devia responder. Mas não consigo. Não sei se seria sincera caso afirmasse que é isso mesmo. Não sei se é verdade e, nesse momento, a ideia de mentir me incomoda. Não só mentir para Tony, mas principalmente para mim mesma.
O que está acontecendo comigo? Por que minha determinação ruiu de uma hora para a outra? Por que não tenho mais certeza de nada? De repente, é como se minha conversa com Bruce, de alguns dias atrás, nunca tivesse acontecido.
Confusa, percebo que a melhor alternativa é mudar de assunto. Cruzo os braços e encaro meu chefe de um jeito mais sério, fechando a cara para mais piadinhas que ele esteja pensando em fazer.
— Por que eu estou aqui, Tony? Diz logo.
— Como se a essa altura você não soubesse. Me poupe. — Ele ri, como se tivesse alguma vantagem ou carta na manga, e se joga no sofá atrás de si. — Não escutou o suficiente enquanto estava escondida no corredor, mal-educada?
A suspeita paira no olhar dele. A certeza, melhor dizendo. Sei que é inútil negar, porém me agarro à ideia de dissuadi-lo, ou pelo menos tentar. Afinal, seria vergonhoso admitir a culpa.
— Como assim? — é tudo o que consigo formular, fingindo que ouvi um grande absurdo.
Sem rodeios, o Homem de Ferro é taxativo:
— Eu tenho câmeras por toda a parte, Srta. Prescott. O engraçado é que não preciso checá-las para saber que você estava naquele corredor há mais tempo do que disse. Não subestime a minha inteligência. Eu sou um gênio, lembra?
Estreito o olhar, convencida de que é mesmo inútil tentar negar. Se eu fizer isso, Tony pode simplesmente me confrontar com as imagens registradas, então limito-me a permanecer em silêncio. Um silêncio que já diz muito, convenhamos.
É nesse momento que ele acrescenta, elevando a voz de forma gradativa:
— Também não preciso olhar as câmeras para afirmar que agora quem está ouvindo a conversa é o Dr. Bruce Banner. Que feio! Outro mal-educado!
A princípio, não acredito muito nisso. Até que a curiosidade fala mais alto e olho na direção da escada, na sequência. Juro que vejo uma sombra se movendo rápido, com o dono dela tentando evitar um flagrante. Bruce finalmente desaparece, confirmando a teoria de Stark. Ele estava mesmo nos ouvindo. A questão é: por quê?
Penso um pouco e imagino que talvez seja pelo mesmo motivo que eu fiz isso, minutos atrás. Stark fez a mesma pergunta para nós dois e, assim como eu fiquei curiosa sobre o que Bruce responderia, acho que ele também pode ter ficado. O problema é que nenhum de nós respondeu de fato.
Por que não respondemos?
Quando torno a olhar para Tony e percebo um sorrisinho vitorioso e irritante na sua cara deslavada, decido não pensar nesse assunto por ora e me concentro no que realmente vim fazer aqui.
Já sem me importar em confirmar que eu estava bisbilhotando a conversa antes, vou direto ao ponto:
— Então... Feira Expo Stark, não é? O que diabos eu preciso fazer, boss?
Algumas horas depois
Uma das coisas que odeio em Bruce Banner é quando ele foge, desaparece, evapora no ar sem deixar vestígios, por razões que a própria razão desconhece.
Pelo amor de Deus! Ele é o Incrível Hulk! Devia honrar mais as cuecas que rasga quando se transforma no Gigante Esmeralda. Ao invés disso, recua em determinadas situações, feito um bichinho assustado, como um fracote, e isso me dá nos nervos.
Sim, eu estou me referindo ao passado, mas principalmente à situação atual.
Há horas que estou ouvindo as orientações e ordens de Tony acerca do evento de lançamento de novas tecnologias da sua empresa. E durante esse período, Bruce não deu mais o ar da graça. Nem mesmo quando fizemos uma pausa para almoçar e Tony ordenou que Sexta-Feira — a Inteligência Artificial que substituiu J.A.R.V.I.S. — chamasse-o para se juntar a nós. Segundos depois, Sexta-Feira reportou que Bruce não estava com fome e que se limitou a agradecer o convite.
Queria acreditar que ele só não quer nos atrapalhar, mas minha sensibilidade feminina está convicta de que não se trata disso. Sinto que Bruce pode estar me evitando. Talvez pensando na pergunta de Tony para nós dois, talvez evitando pensar na resposta.
O fato é que eu não consigo mais fugir nem me desligar do assunto. Até tento me concentrar apenas no trabalho, porém continuo pensando em Bruce enquanto faço as últimas anotações no meu tablet sobre o cronograma da Feira Expo Stark e as medidas necessárias para que tudo transcorra como deve ser.
Quando Tony me dispensa por hoje, vou a um dos toaletes da Torre. Depois de me ajeitar um pouco, fico me olhando no espelho por um longo tempo. Com certa raiva, pego a bolsa sobre a pia e preparo-me para ir embora.
Enquanto sigo pelo corredor que me levará à saída, mudo de ideia e de caminho.
Determinada, tudo o que almejo agora é obter minha maldita resposta. E não vou sair daqui sem ela.
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