A Bela, o Outro Cara & Eu
15 Poeira e estilhaços
Notas iniciais
Quem está na sua sombra?
Quem está pronto para jogar?
Somos os caçadores?
Ou somos a presa?
Não há rendição
E não há escapatória
Somos os caçadores?
Ou somos a presa?
Game of survival — Ruelle
É como se eu tivesse voltado no tempo. Cinco anos atrás, ataque alienígena em Nova York, caos por toda a parte. Entretanto, diferente daquele dia, não há um exército de Chitauris atacando a cidade sob o comando de um deus nórdico trapaceiro. Tampouco meia dúzia de espécimes dos seus soldados imundos me cercando enquanto eu, desnorteada pelo pânico e querendo acreditar que fui parar num mero pesadelo envolvendo ficção científica de gosto duvidoso, fujo na direção contrária da que deveria, como os outros cidadãos nova-iorquinos sabiamente não fizeram porque seguiram a orientação de um enérgico e esforçado Capitão América.
Diferente daquele dia, não vejo esse herói ao longe, muito menos os outros Vingadores em parte alguma da névoa de poeira e estilhaços que tomou conta do mundo à minha volta. Ao fazer um esforço para enxergar melhor e me situar no momento presente, percebo que um elemento é bem parecido com aquele dia: Bruce também está aqui.
Não do jeito como eu o conheci naquela época. Não com a forma verde e esmagadora que cruzou o meu caminho pela primeira vez. Ainda assim, sua presença ao meu lado me dá a mesma sensação de segurança daquele dia. Não há soldados Chitauris para ele lançar para longe de mim agora, mas me sinto a salvo do mesmo jeito. Sei que, independentemente do que esteja acontecendo hoje, tudo vai ficar bem porque Bruce Banner está comigo.
Bom, pelo menos era o que eu acreditava há até meio minuto. Agora que finalmente consegui me recompor um pouco, ignorando uma dor latejante no ombro direito, e me pus de pé, essa certeza é enfraquecida pela imagem caótica que tomou conta de Nova York.
Pessoas feridas correm por toda a parte. Algumas choram e percorrem com um olhar perdido a nuvem de incertezas e confusão que se formou em volta delas. Há muita fumaça e estilhaços pairando no ar. O barulho frenético de buzinas e sirenes se mistura a gritos que parecem vir de todos os lados possíveis. Nova York está mergulhada em pânico.
Sentindo essa atmosfera me envolver cada vez mais, luto para retomar o foco e procuro o olhar de Bruce atrás de mim. Fico surpresa ao constatar que ele ainda se encontra no chão e que não parece disposto a levantar tão cedo.
Curvado sobre o próprio corpo e com os punhos fechados com força contra a calçada da cafeteria, essa imagem me transmite a clara mensagem de que ele não está bem.
Sempre achei que o Hulk mantinha Bruce protegido fisicamente, então a possibilidade de que ele tenha se ferido durante o imprevisível ataque acende uma dolorosa preocupação dentro de mim.
E se ele estiver machucado de alguma forma? E se ele for vulnerável no final das contas?
Antes que eu enlouqueça de preocupação, engulo em seco e tento me fazer audível ao sondar o terreno:
— Bruce?
O alívio que sinto quando ele ergue a cabeça em minha direção se esvai no mesmo instante em que percebo algo diferente em suas retinas em pânico. Há um tom esverdeado nelas. A mesma cor que noto ficar mais intensa nas veias das mãos e do seu pescoço. Essas veias ficam mais saltadas a cada instante e o verde se espalha sobre sua pele até onde a camisa me permite enxergar.
— Corre... — Sua voz soa baixa e meio engasgada, como se ele tivesse feito um enorme esforço para falar algo tão simples. — Amelia, corre! Corre... agora...
Acho que os clientes da cafeteria notam algo diferente nele também, já que, à medida em que se erguem do chão, se mantêm por perto, encarando Bruce e a mim, ao invés de irem para o mais longe possível daqui e se protegerem de seja lá o que for que houve na cidade e ainda pode acontecer.
Percebo que era o que eu deveria fazer também, se ouvisse o lado racional e se tivesse vindo sozinha para cá. Nesse caso, eu deveria me afastar desse local exposto demais, procurar um lugar seguro, ir em busca de ajuda e respostas quando a situação se acalmasse.
Mas não consigo me mover porque não é essa a situação que estou vivendo agora. Não há espaço para a razão ou para o instinto de sobrevivência quando só consigo ouvir meus batimentos tensos e pesados no peito. Eu não estou sozinha aqui, eu vim com alguém e só saio daqui com ele.
De repente, é como se minhas pernas tivessem congelado de vez. Presa ao chão e incapaz de deixar meu coração para trás, escuto Bruce ordenar mais uma vez:
— Corre! Fique longe de mim, Amelia... Por favor.
Sinto um arrepio ao quase não reconhecer sua voz habitualmente tão doce e gentil. Ela soou muito grave e rouca, como se não fosse mais o Bruce, como se uma fera enjaulada estivesse prestes a se libertar. Isso finalmente leva as pessoas feridas a nossa volta a recuarem um pouco, apreensivas. Entretanto, eu continuo aqui, parada diante dele, pensando numa forma de ajudá-lo a retomar o controle e impedir o Hulk de assumi-lo.
— Não — digo em negativa. — Vai ficar tudo bem, Bruce. Você só precisa se acalmar... Você consegue, lembra?
Dou um passo em sua direção ao conseguir vencer a sensação paralisante que tomava conta do meu corpo até então, porém estanco no lugar ao ver a camisa de Bruce esticando, rasgando em alguns pontos e deixando a pele cada vez mais verde à mostra.
— Eu não quero te machucar... — diz, fazendo um claro esforço para soar como ele mesmo.
— Tudo bem, você não vai — asseguro, aproximando-me e abaixando diante dele com cautela, mais para não assustá-lo e piorar as coisas do que por medo.
Bruce franze o cenho e me encara de um jeito intrigado e temeroso ao mesmo tempo. Cerra os punhos ainda com mais força, lutando para manter o controle e quem sabe domar o Hulk antes que o inverso aconteça. Suas roupas esticam ainda mais. Novos rasgos surgem.
— Como você pode ter tanta certeza? — questiona com mais um esforço.
Nesse breve instante de silêncio que se estende entre nós, um filme passa diante dos meus olhos. Uma sequência do ataque de Chitauris em Nova York e os vários momentos em que tive vontade de contar a Bruce por que me tornei uma grande fã do Gigante Esmeralda.
Lembro que eu só não abri o jogo porque senti que Bruce me escondia algo importante sobre o seu retorno. Lembro que prometi a mim mesma que só contaria o meu segredo quando ele fizesse o mesmo. Lembro que Bruce começou a revelar o motivo que pôs fim ao seu exílio, pouco antes da imprevisível explosão perto da gente impedi-lo de me dar mais detalhes. Por fim, me convenço de que posso fazer o mesmo agora, lhe contando o mais importante e deixando os detalhes para um momento mais calmo e propício para ter um diálogo de verdade.
— Porque eu conheço o Outro Cara — revelo, olhando fixamente para os seus olhos. O tom verde parece se estagnar no mesmo instante em que reencontro a doçura humana que tanto amo. — E quero acreditar que ele é capaz de se lembrar de mim também.
Não sei o que acontece comigo, mas é como se o peso do que revelei, a força do que sinto por Bruce, a surpresa confusa em seu olhar e todo o tempo que esperei por ele se misturassem de uma maneira intensa, despertando um desejo genuíno e urgente por seu beijo. Bem aqui e agora.
Sem pensar, me lanço mais à frente e envolvo sua nuca com meus dedos trêmulos. No entanto, quando estou prestes a encerrar a mínima distância que ainda nos separa, Bruce parece perceber o que eu pretendo e se apressa em dizer:
— Me beijar não vai... me acalmar...
Em outra situação, acho que eu riria e me sentiria bem lisonjeada por mexer tanto assim com o seu nível de adrenalina e excitação. Mas agora sei que devo ajudá-lo a se estabilizar e não piorar as coisas com um beijo apaixonado. Foi uma ideia idiota mesmo.
— Desculpe. — Balanço a cabeça e fecho os olhos por um instante, convencida de que é melhor mesmo não brincar com fogo. Limito-me então a dar um beijo rápido em sua testa, passo um braço de Bruce em volta do meu pescoço e digo: — Vem, vamos sair daqui. Mantenha o foco e tente ficar calmo, tudo bem?
Não espero resposta, simplesmente o ergo do chão com um grande esforço. E quase o solto por puro instinto quando o peso do seu corpo recai inteiramente no meu ombro dolorido, arrancando-me um grito de dor involuntário.
Disfarço como consigo e caminho com passos trôpegos, levando Bruce para o meio da rua e calculando quanto tempo, seguindo esse ritmo de tartaruga desnorteada, levaremos até a Torre dos Vingadores.
— Você se machucou — Bruce diz em tom afirmativo, não como uma pergunta. — É minha culpa...
Reviro os olhos e deixo a raiva responder por mim:
— Ah, pelo amor de Deus! Não começa com isso! Agora não!
Embora uma parte de mim esteja intrigada por Bruce acreditar que o que aconteceu, de alguma forma, é sua responsabilidade, procuro manter o foco em afastá-lo da muvuca a nossa volta e tenho uma ideia. Sem pensar duas vezes, procuro por seu celular, já que minha bolsa ficou para trás no meio da confusão, e encontro o aparelho no bolso da sua calça.
— Tony... — Bruce murmura, como se tivesse lido meu pensamento. — Ótima ideia... Ele pode me tirar daqui e garantir a segurança de todos...
— Fica quieto! — perco a paciência de novo, irritada com a preocupação excessiva que ele direciona para todo mundo em detrimento do seu próprio bem-estar.
Não consigo realizar a chamada, todavia. É difícil me equilibrar com o peso de Bruce no meu ombro ferido, manter um ritmo razoável de passos, enxergar algum caminho em meio a névoa de poeira, veículos e pessoas correndo por todos os lados.
Tampouco consigo procurar a agenda de contatos e o número de Tony, uma vez que a quantidade de mensagens não lidas saltando na tela do celular de Bruce me desconcentra. Uma delas em específico, e que parece ser a mais recente de todas, chama a minha atenção mais do que qualquer outra coisa.
“Bem-vindo de volta, Hulk. Me perdoe pela demora em dizer Oi.”
O mais surpreendente, a mensagem é uma legenda sob uma foto registrada há alguns minutos. Uma foto que mostra Bruce e eu conversando bem perto um do outro, sentados à mesa da cafeteria.
Talvez numa outra situação eu entendesse o significado disso rapidamente, porém agora tudo o que consigo é me sentir mais e mais perdida.
Olho para o homem ao meu lado em busca de alguma explicação, mas Bruce está concentrado em manter o controle e mal olha para o texto sombrio e a imagem que o celular em minha mão exibem.
É então que o segundo ataque acontece.
A nova explosão faz o mundo vibrar a minha volta com uma força assustadora e descomunal muito mais intensa do que a primeira. Vindo de algum lugar bem mais próximo que o atentado anterior, a onda de impacto se espalha no ar com rapidez e violência avassaladoras.
Quando dou por mim, já fui afastada de Bruce de forma abrupta — e arrancada do próprio chão também. Caio em algum ponto da calçada e bato no que deduzo ser uma parede. O choque me arranca um gemido de protesto.
Ao mesmo tempo, novos gritos ressoam em meus ouvidos como uma canção perturbadora e macabra. O pânico impera por toda a parte e me deixa desnorteada por um incalculável momento.
Quando consigo me recompor um pouco, estreito o olhar e o passo por todo o perímetro perto de mim procurando por Bruce. O que encontro me deixa atônita e imóvel.
Poucos metros adiante de onde caí, vejo uma forma gigante e verde se erguer e cambalear com um rugido animalesco e enfurecido. Os estilhaços, a poeira e a atmosfera de perigo parecem mexer com ele de uma forma mais intensa do que com pessoas comuns. Todo esse clima o deixa em alerta e visivelmente louco para esmagar alguma coisa.
Enquanto a aparição do Hulk leva as pessoas a ficarem mais confusas e em pânico, faço um esforço e consigo me levantar do chão com dificuldade. Meu ombro não é a única coisa que dói agora, mas a adrenalina me ajuda a ignorar tudo e dou o primeiro passo na direção do Vingador. De alguma forma, que ainda não sei como, preciso acalmá-lo.
— Bruce — chamo baixinho, embora eu desconfie que quem ele é nesse momento não me atenderá por tal nome. Pensando assim, mudo de estratégia: — Hulk! Aqui!
À medida em que me aproximo devagar, ele ergue um pouco a cabeça e olha por sobre o ombro, para trás, como se procurasse a origem do chamado em meio aos gritos e buzinas que disputam sua atenção. Por fim, se vira com rapidez, em claro alerta, e encontra o meu olhar soltando um resmungo gutural que me estremece inteira.
Estanco o passo e luto para enxergá-lo com mais nitidez em meio à neblina anormal que nos separa. Meu coração bate tão depressa, mas sei que não é por medo, como o resto das pessoas perto dele certamente estão. O que sinto é admiração por sua força e gratidão por ter me salvado. E esses dois sentimentos tão fortes me levam a retomar o caminho até ele com mais determinação.
Será que o Hulk se lembrará de mim? Será que sabe que salvou a minha vida num passado turbulento como o dia de hoje? Será que vou conseguir estabelecer alguma comunicação com ele e acalmá-lo por fim?
Sou impedida de prosseguir com o incerto plano e descobrir se funcionaria ou não, já que um ruído mecânico paira no ar, levando-me a erguer a cabeça à procura de sua origem.
Fico desnorteada quando uma luz esbranquiçada e extremamente forte ofusca minha visão. Protejo o rosto com uma das mãos enquanto uma brisa artificial bagunça meu cabelo. Apesar do mundo caótico que tomou conta de Nova York, logo reconheço a armadura do Homem de Ferro a poucos passos de mim.
— Srta. Prescott — ele diz com um tom muito tenso que em nada lembra seu jeito naturalmente brincalhão. —, segure firme.
— O que...
Não tenho tempo de assimilar o que Tony quis dizer com isso. Um instante depois, seu braço de ferro me puxa para junto da armadura e ele me pega no colo ao mesmo tempo em que se eleva do chão com rapidez. Me seguro como posso, ignorando, não sei com qual força de vontade, a dor lancinante no ombro.
Meio zonza, vejo o Hulk ficando cada vez menor embaixo de nós e finalmente compreendo que Stark está me levando para longe dele.
— Não... — sibilo em discordância, com a ansiedade se alastrando dentro de mim. — Eu quero voltar! Tony! Me leve de volta!
— Sinto muito, fangirl maluca. Não vai rolar.
Sua negativa me deixa profundamente zangada. Principalmente porque tudo o que quero é acalmar o Hulk e trazer Bruce de volta. Não estou me comportando feito uma fangirl, só quero ajudar como eu puder.
O jeito que o Hulk parou e olhou para mim me deram a sensação de que talvez eu fosse capaz de conseguir tal proeza. Mas como, graças a Tony, estou me afastando cada vez mais dele, fica impossível prosseguir com a tentativa.
Com o vento zunindo nas orelhas e algo quente escorrendo pela testa, olho para baixo, ignoro certa vertigem e vejo a figura verde e musculosa investindo contra o que sobrou de uma loja e mergulhando em seu interior. Deduzo que foi lá que a segunda bomba explodiu e é onde o Hulk deve acreditar que o inimigo a ser esmagado se encontra.
Voando com o Homem de Ferro, logo não consigo enxergar mais nada, apenas a fumaça cada vez mais densa lá embaixo.
Em questão de poucos segundos, pousamos em algo sólido e ele me solta com cuidado. Mais zonza e ainda com mais raiva, luto para permanecer em pé ao mesmo tempo em que reconheço o hangar da Torre dos Vingadores.
Sem pensar duas vezes, fulmino Tony com o olhar, fecho os punhos com força e desfiro uma sequência de empurrões contra a armadura. O maldito mal se move do lugar e eu me sinto patética por continuar tentando causar algum efeito nele.
— Eu mandei você me levar de volta!
— E eu disse que não vai rolar! — rebate, gritando também.
— Eu posso ajudar! Me deixe ajudar o Bruce! Me leve de volta! — insisto, tentando não pensar na tontura estranha que começo a sentir. — Eu quero falar com o Hulk!
— E eu adoraria devorar um cheeseburger agora mesmo, mas a questão é essa. Nem sempre temos o que queremos!
Franzo o cenho diante da comparação esdrúxula que ele usou e me preparo para mais uma réplica. Desisto quando Tony ordena para a sua Inteligência Artificial:
— Sexta-Feira, análise diagnóstica completa.
Por um momento, penso que ele está se referindo a possíveis danos sofridos na armadura, mas como ela parece intacta para mim, percebo que eu devo ser o objeto de estudo. Isso é confirmado quando Stark avisa num tom sério:
— Ele vai te levar à ala médica, Amy. Se comporte e colabora.
— Ele quem? Eu estou ótima! Eu quero voltar... Por favor...
A tontura me impede de continuar insistindo. O mundo gira. Sinto minhas forças desmoronando e o foco se perdendo em algum lugar da minha desnorteada mente.
Tenho certeza que eu cairia no chão, se algo não tivesse me segurado antes. Reconheço uma armadura da Legião de Ferro bem atrás de mim. Sou levada para longe do hangar por ela, rumo ao interior da Torre, como se tivesse me transformado numa boneca de pano. Carregada no colo, parece mais que estou flutuando e prestes a cair num sono profundo a qualquer momento.
E eu odeio tudo isso. Odeio me sentir fraca, vulnerável e prestes a desmaiar feito uma donzela em perigo. Quero voltar para a ação. Quero encontrar o Hulk e guiar seu alter ego rumo à superfície. Quero ajudar e entender o que está acontecendo. Por que não posso fazer o que quero?
Infelizmente, certos desejos fogem do nosso controle e o que impera nessas horas é a sensação de impotência. Parece que vou ter que esperar. Parece que não tenho escolha. Parece que vou mesmo apagar a qualquer instante.
A última coisa que vejo, antes de mergulhar na escuridão envolvente, é o Homem de Ferro alçando voo rumo ao centro do caos.
E a última coisa que escuto, antes de perder a consciência, é uma terceira explosão ao longe.
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