A Bela, o Outro Cara & Eu
17 O Outro Cara
Notas iniciais
Às vezes estou derrotado, às vezes despedaço
Porque às vezes esta cidade não é nada além de fumaça
Existe um segredo? Existe um código?
Podemos melhorar? Porque estou perdendo a esperança
Me diga como ficar neste mundo
Me diga como respirar e não sentir dor
Me diga como, porque eu acredito em algo
Acredito em nós
Us — James Bay
À medida em que me aproximo da cela impenetrável que mantém o Hulk enclausurado, minhas mãos suam e um estranho aperto no estômago me impede de respirar de forma natural.
Não estou com medo do ser verde e imponente dentro do transparente compartimento, estou com medo de não saber o que lhe dizer para mudar esse cenário e trazer Bruce de volta. Estou com medo de falhar e piorar o que já não está nada bom.
Ao mesmo tempo, admito que me sinto meio hipnotizada pela figura colossal do outro lado da parede especial e ultra resistente desenvolvida por Tony. É mais do que gratidão pelo Hulk ter me salvado há alguns anos, é um respeito e uma admiração que ultrapassam a reverência e mal cabem em mim. Acho que só sentiria algo parecido diante do Bono do U2.
Talvez Tony esteja certo. Talvez eu seja mesmo uma fangirl maluca e sem a menor noção do perigo. Porque, apesar do que me trouxe até aqui, é muito bom sim estar mais perto do meu Vingador favorito.
Tenho que fazer um grande esforço para colocar essa euforia de lado — e não sei se consigo totalmente. Então paro a uma curta distância da parede circular e vítrea que nos separa, limpo a garganta e digo a primeira coisa que me vem à cabeça:
— Bela bermuda, Hulk. Mas eu preferia quando era uma calça.
Eu sei, nada bom. Mas como eu disse, foi a primeira coisa que pensei no calor do momento.
Além disso, pelo menos serviu para alguma coisa fora ter arrancado uma risadinha debochada de Tony. Agora o Hulk parou de me ignorar, como claramente fazia enquanto eu me aproximava. Bom, ele me olhou por cima do ombro e resmungou um ruído indecifrável; o que já é um pequeno progresso. Em seguida, volta a zanzar dentro da cela, com passos pesados e visivelmente insatisfeito por estar enclausurado. É compreensível; ninguém gosta de ficar de castigo.
Ciente de que devo dizer algo decente desta vez, engulo a ansiedade e decido ir direto ao ponto:
— Eu quero falar com Bruce Banner.
Tão logo termino de falar, percebo que o pedido não parece ter sido uma boa ideia. O fato do Gigante Esmeralda ter se virado bruscamente, se aproximado com duas passadas rápidas e esmurrado a parede com o punho fechado confirma isso. Recuo por puro instinto enquanto ele berra enraivecido:
— Não tem nenhum Banner aqui! Só o Hulk! Pra sempre Hulk!
Um tremor percorre meu corpo, uma resposta natural ao gesto violento que — confesso — me assustou um pouco e ao peso da sua recusa. Não a ponto de me fazer desistir. Eu sabia que não ia ser fácil e comecei com o pé esquerdo, é verdade. Mas vou encontrar uma maneira de mudar esse cenário. Se o Hulk quer ser teimoso, eu serei muito mais insistente. Até dobrá-lo e conseguir o que quero.
— Sério? Talvez se você tivesse dito as palavras mágicas, Amy. — O tom irônico de Stark ressoa em um sistema de som acoplado numa parede perto de mim. — Pena que eu não trouxe a pipoca. Um momento desses... Algo me diz que será divertido e vergonhoso. Boa sorte, de qualquer forma.
— Cala a boca, Fracote de Ferro! — O Hulk se irrita, e eu tenho vontade de aplaudi-lo e abraçá-lo ao mesmo tempo por ter traduzido o meu desejo nesse momento.
Olho para trás e, infelizmente, vejo que Tony não ficou nem minimamente abalado ou sem graça. Na verdade, ele parece bem à vontade agora. Está sentado numa poltrona reclinável de couro perto da entrada do verdadeiro calabouço que construiu para o amigo. Há um tipo de dispositivo na orelha direita. E um microfone conectado a pequena peça desce em direção à sua boca.
Eu devia ter entendido o que ele quis dizer quando mencionou que iria ouvir toda a conversa. Tony quer mesmo ouvir tudo, à distância para não irritar ainda mais o Hulk, bem confortável e sem perder nenhum detalhe importante.
Quando ele tem a audácia de acenar um “oi" e fazer um gesto para me apressar a prosseguir, respiro fundo, conto mentalmente até dez e me viro para a cela. Eu imaginava que, a essa altura, o Hulk já teria voltado a caminhar de um lado para o outro para extravasar a fúria. É por isso que não consigo evitar certa surpresa quando percebo que, durante esse breve momento, ele estava olhando para mim. Exatamente como continua fazendo agora. Fixo e de um jeito meio intrigado.
Não tenho ideia se é este o motivo, contudo decido arriscar:
— Você está se lembrando de mim, não é? Quase seis anos atrás, bem aqui em Nova York, aqueles Chitauris liderados por Loki. E de ontem também. Eu sei que você me viu. Por um relance, no meio daquele caos todo, mas viu. Não foi?
— O quê?! — A voz do Homem de Ferro soa mais alta agora e, definitivamente, ele parece perplexo. — Você já conhecia o Verdão de outros carnavais? E não me disse nada? Como se atreveu a manter uma informação dessas em segredo? De mim! Eu quero detalhes mais tarde, Srta. Prescott. É o mínimo que você me deve depois dessa.
Antes que eu tenha tempo de mandá-lo calar a boca dessa vez, esclareça que nunca o vi como um confidente e argumente que nem mesmo Bruce tem conhecimento de como conheci seu lado verde, o Hulk se afasta da parede transparente, volta a andar e nega numa postura muito defensiva:
— Não! O Hulk não lembra! Porque Hulk não se apega a nada e ninguém! Só Banner é assim, porque é um fracote, burro e sensível! Hulk só esmaga!
O chão treme levemente embaixo dos meus pés quando a gigantesca massa verde despenca com violência e senta de costas para mim. Parece uma criança birrenta que foi contrariada com alguma verdade incômoda e a única maneira de lidar com a situação é fugindo dela.
Juro que tenho vontade de socá-lo por ter falado assim de Bruce e por fugir desse jeito do assunto. A ideia de confrontá-lo é irresistível e chego a abrir a boca para retrucar no mesmo tom mal criado, mas sei que esse é um campo perigoso e acho melhor abortar a ideia. Não posso alimentar a sua ira e temperamento difícil. Tenho que ganhar sua confiança, tranquilizá-lo e convencê-lo a abaixar a guarda.
Mais do que isso, preciso descobrir por que não deixou Bruce retomar o controle até agora, tanto tempo depois que o perigo passou. Entender o que aconteceu ontem e por que o Hulk está se comportando tão mal e com tanta teimosia desde então é o caminho sensato que devo seguir.
Agarrada a esse plano, dou a volta na cela. Devagar, para ficar de frente para o Hulk de novo. E, à medida em que faço isso, me dou o direito de criticar seu alter ego também. Mas apenas numa tentativa de amansar a fera.
— Ele também me tira do sério, às vezes. Bruce Banner, você sabe. Deve ser um dom natural. Mas, ainda assim, ele tem os seus méritos e acho que nós dois precisamos dele, não é?
Mal paro na sua frente e já recebo mais uma resposta atravessada:
— Hulk não precisa de ninguém, Hulk é o Vingador mais forte e sabe esmagar tudo! Você diz que preciso do Banner só porque gosta daquele fracote sem graça e quer ele de volta. Bela não gosta do Hulk!
— Bela? — Quase engasgo ao repetir o apelido carinhoso que ele, claramente, deixou escapar sem querer. Tenho que controlar certa vontade de rir também porque, no fundo, achei isso bem fofo vindo de alguém naturalmente tão bruto e com um vocabulário bem limitado. — Para quem não se lembra de mim, é muita consideração me chamar desse jeito. Obrigada, eu gostei. Quer saber? Eu também te acho bem bonitão. Você parece... sei lá, um deus guerreiro. É tão poderoso e forte. Sem falar que verde cai muito bem em você.
— Com licença, eu estou atrapalhando alguma coisa? Parece que temos um clima rolando por aqui ou, no mínimo, uma rasgação de seda muito suspeita — Tony, mais uma vez, decide ser inconveniente. — Banner não vai gostar de saber disso. Mas eu, como melhor amigo, precisarei contar, é claro.
— Pelo amor de Deus, fica quieto! — explodo, lançando um rápido e mortífero olhar para o lugar de onde o engraçadinho assiste a tudo e tece seus comentários desnecessários.
Acho que Tony finalmente lembra do que está em jogo aqui, que esse senso de humor fora de hora pode piorar tudo e deixar o Hulk mais irritado — porque eu mesma já cheguei ao meu limite. Ele ergue as mãos em rendição e pelo olhar que retribui de volta, entendo que vai se comportar a partir de agora.
Talvez Tony tenha usado essas piadas de forma quase inconsciente. Talvez seja a sua maneira distorcida de lidar com essa situação e não pensar de verdade sobre o problema maior envolvido: o Hulk ainda estar no controle.
Eu, por outro lado, só consigo pensar nisso. E tentando resolver a complicada equação, retomo a conversa com o Outro Cara:
— Então, quer dizer que você me acha jeitosinha? Bela, melhor dizendo. — Uma risada sincera me escapa e reflito um pouco. — Valeu mesmo, Hulk. Sem dúvida você levantou a minha autoestima. Toda mulher gosta de elogios, sabe? Os homens precisam aprender muito com você.
É esquisito, mas o Hulk parece ficar incomodado logo depois disso, já que gira o corpo e me dá as costas de novo, mirando o outro lado do calabouço de um jeito bem grosseiro.
— Não importa o que Hulk acha — resmunga. — Só importa o que todo mundo acha do Hulk. Inclusive você.
Por um momento, não sei o que fazer. Não sei bem se estou entendendo como sua cabeça funciona. Mas decidida a desvendá-lo e ganhar sua confiança de uma vez por todas, torno a dar a volta pelo exterior da cela para encará-lo de novo.
— E o que eu acho de você, Verdão? — indago com curiosidade, retribuindo com um apelido também e o tom de voz mais amigável que consigo.
Ele ergue um olhar diferente na minha direção. Um olhar envergonhado. Ainda assim, com uma nuance de agressividade e autodefesa.
— Que o Hulk é um monstro.
Novamente, me sinto perdida por um instante. Conversar com ele está se mostrando mais difícil do que imaginei. Parece que a insegurança é algo intrínseco não só de Bruce, mas do Hulk também.
Sinto que estou pisando em ovos e que devo tomar muito cuidado com as próximas palavras. Ao mesmo tempo, tenho um pressentimento que devo ser sincera porque ele, definitivamente, não é burro.
Subo um tipo de degrau que circula toda a cela, ficando mais perto do que nunca do Gigante Esmeralda, ultrapassando a faixa amarela que Tony me orientou a respeitar.
Se não houvesse a parede, eu estaria a menos de dois metros do Hulk. Em seguida, me abaixo devagar e sento no degrau.
— Enganou seu. Eu não acho isso, nunca achei — esclareço com franqueza e estranhamente calma. — Você salvou a minha vida, Hulk. Não só ao afastar aqueles aliens medonhos de mim, mas de uma maneira que nem imagina. Eu estava completamente perdida até aquele dia. Até você chegar.
Ao confessar isso em voz alta, mergulho no passado e revivo sensações adormecidas. Sem graça por falar de algo tão pessoal, me posiciono de costas para o Hulk e fico apoiada na parede da cela sem olhar para um ponto específico do calabouço. Olho para dentro de mim apenas.
Até hoje, eu só tinha conversado sobre o ataque de Nova York e sobre como o Hulk me salvou com Josh e Olivia. Depois que conheci Bruce, passei a acreditar que ele seria o próximo a ouvir essa história. Não podia imaginar que contaria para o próprio Hulk antes. Muito menos com a plateia de Tony. Mas pelo menos os comentários sem noção desse último cessaram.
Como o Gigante Esmeralda também permanece em silêncio, entendo que despertei sua curiosidade e decido resumir o restante:
— Digamos que eu não era uma pessoa digna de orgulho naquela época. Era meio... inconsequente e fiz coisas das quais não me orgulho. Mas então... você apareceu e eu senti que tudo ia ser diferente. Eu me senti segura e com muita sorte. Quando a vida me deu uma nova chance através de você, eu percebi que precisava mudar, que queria mudar e ser alguém melhor. — Sorrio fraco e me convenço de que já falei demais de mim por ora. Limpo a garganta e mudo um pouco o foco: — E você salvou a vida de muita gente lutando ao lado dos Vingadores também. Um monstro não age assim, um monstro não se importa nem se apega a nada, a nenhum propósito e a ninguém. Por isso, não interessa o que digam hoje, se uma ou outra pessoa não te entende ou tem medo. No fim de tudo você é um herói. O mais forte e o melhor que existe, na minha humilde opinião. — Stark pigarreia, ressentido. Ignoro e arremato o raciocínio: — Fique sabendo que eu não estou dizendo isso da boca pra fora ou pra te agradar. Estou dizendo porque é a verdade, é no que eu acredito. Você devia acreditar também, dar mais crédito a si mesmo. Pelo amor de Deus, você é o Incrível Hulk.
Finalmente me sinto confortável para me virar e espiar o interior da cela de novo. Sou surpreendida por olhos gigantes e firmes que me encaram. Deduzo, com um misto de satisfação e constrangimento, que o Hulk estava mergulhado nas minhas palavras, prestando mesmo atenção. Fora isso, no entanto, sua expressão é indecifrável.
Em paralelo, é um alívio ver como, aos poucos, ele foi se acalmando. Ainda assim, Bruce segue perdido em algum lugar dentro dele, impedido de voltar por algum motivo. O que me lembra que ainda não atingi o objetivo principal dessa conversa.
Tony tinha razão quando disse que tem alguma coisa fora dos eixos dessa vez. O Hulk permanece no controle simplesmente porque quer isso. Não tem a ver com raiva ou adrenalina, é uma decisão consciente e teimosa.
Preciso mudar isso.
— Eu sei, você deve estar se perguntando por que foi colocado nessa cela então — retomo e, como ele permanece em silêncio e me encarando, entendo que acertei e prossigo: — Olha, eu não vou passar a mão na sua cabeça. Você está preso aí dentro porque, dessa vez, fez besteira e se descontrolou além da conta. A questão é: por quê? O que aconteceu lá fora? — Ao me lembrar da última vez que o Hulk surtou como ontem, quando Wanda manipulou a mente de Bruce e despertou seus piores pesadelos, arrisco: — Você estava com medo de alguma coisa?
De maneira brusca e repentina, ele se ergue do chão, parecendo ainda mais corpulento visto de onde me sentei. E sem dúvida muito ofendido com a suposição, fecha a cara para mim, se aproxima do vidro como se quisesse me intimidar e esbraveja:
— Não! Hulk não tem medo de nada! Nada pode parar o Hulk!
Apesar da sua reação exagerada, não recuo um milímetro sequer, tampouco me abalo ou estremeço dessa vez. Ao invés disso, permaneço com o olhar fixo nele por longos instantes, analisando-o com a mesma atenção que ele reservou a mim há pouco.
— Foi mal então, me enganei. — Dou de ombros. — Mas alguma coisa diferente deve ter acontecido para te deixar mais... — procuro uma palavra que não seja ofensiva — obstinado a esmagar tudo daquele jeito. Alguma ideia do que pode ter sido?
Há um longo e significativo silêncio entre nós. Imagino que o Hulk está lembrando da sequência de ataques de ontem em busca de uma explicação também e ponderando se deve responder minha pergunta ou não.
Enquanto isso, eu me pergunto se aconteceu mesmo algo atípico que potencializou a sua fúria daquela maneira ou se preciso, desesperadamente, encontrar uma justificativa para aliviar a culpa que Bruce sentirá quando voltar a si e tomar consciência do rastro de destruição que o Hulk deixou.
Uma enorme sombra paira sobre mim quando o Gigante Esmeralda torna a se sentar. Não no centro da cela dessa vez, e sim bem na minha frente, bem perto. Volto a sentir aquela emoção intensa por estar perto dele e, aparentemente, por ter ganhado sua confiança. Ou ao menos começado a ganhar.
— Fumaça... diferente — balbucia com um olhar distante. — Agonia em Hulk. Dor. Raiva.
A enorme mão verde passa por sua cabeça e desliza pelo pescoço enervado, simbolizando a sensação que experimentou devido às explosões.
Quase imediatamente, junto as peças e monto uma teoria assustadora. Algo que me faz compreender a dimensão do que pode ter ocorrido.
Com base na mensagem que vi no celular de Bruce depois da primeira explosão, a reação exagerada do Hulk em resposta ao ataque e a revelação que este fez agora, sou levada a acreditar que havia algo estranho com as bombas. Algo além de explosivos, placas e fios. Talvez uma substância nociva ou um tipo de gás venenoso que se misturaram à poeira e à fumaça. Algo suficientemente maligno e poderoso para atingir o Hulk e deixá-lo transtornado, mas que não atingiu as outras pessoas do mesmo jeito.
Será possível?
Engulo em seco, em pânico e sem saber o que fazer com essa teoria. Mais do que nunca, desejo falar com Bruce. Preciso descobrir se ele tem alguma ideia de quem está por trás disso e se minha explicação faz sentido.
Como não posso perguntar nada a ele no momento, me dirijo a quem continua no controle:
— Você viu alguém suspeito durante as explosões? Ou algo que possa explicar a fumaça diferente?
Ele balança a cabeça em negação.
— Hulk ocupado demais esmagando tudo. Não viu nada. Só pessoas correndo e paredes caindo.
Com o cérebro a mil, porém ciente de que devo manter o foco, faço um esforço e retomo do jeito mais centrado que consigo:
— Olha, Verdão, é obvio que, eventualmente, o Bruce vai precisar da sua ajuda. Mas agora, nesse momento, ele não precisa mais. Está tudo bem, o perigo passou e a fumaça esquisita não vai mais te incomodar. É hora de descansar.
Para meu desespero, ele demonstra teimosia quando retruca:
— Não! Hulk precisa estar pronto! O perigo vai voltar. Hulk sente que vai.
Maravilha! A paranoia também é algo em comum com Bruce.
— Hoje não, nem agora — insisto, valendo-me de mais uma dose de autocontrole. — Quando algo assim acontecer de novo, se acontecer, eu sei que você estará lá para o que der e vier. Mas, por hoje, você pode mesmo ficar na sua e voltar a dormir. É sério, está tudo bem. Tudo sob controle lá fora. Relaxa.
O Hulk não diz nada em resposta. Apenas me encara mais uma vez. Mais uma vez, de um jeito indecifrável. Por um momento, acho que está reavaliando se pode confiar em mim ou não.
Seja lá o que havia nas bombas que explodiram bem embaixo do seu nariz, deve ter sido algo desenvolvido especialmente para mexer com ele de verdade, para atingi-lo em cheio e pessoalmente, já que permanece em alerta até agora. Tenso e desconfiado, embora tenha parado de zanzar, esmurrar a cela e até se acalmado desde que começamos a conversar.
Ao me perguntar de que forma Bruce foi atingido no meio dessa armadilha toda e se ele pode estar sofrendo com algum tipo de dor agoniante até agora, uma onda de desespero me invade. Logo, não consigo mais manter essa preocupação sob a superfície. Só quero que isso acabe logo.
Meus olhos ficam mais úmidos de repente e tudo que eu queria era poder abraçar Bruce, confortá-lo e depois, com calma, descobrir o que diabos os ataques de ontem significam.
— Bela, mas triste — o Hulk murmura, observador, me despertando desses pensamentos torturantes. — Por quê?
Com a tristeza que não passou despercebida por seus olhos incrivelmente grandes e concentrados, sorrio fraco e insinuo num tom óbvio:
— Você sabe por quê.
Seu olhar se estreita e sua expressão se fecha consideravelmente numa reação imediata. O Hulk se levanta de novo e me dá as costas de maneira brusca. Mais uma vez, é uma criança birrenta. Quando ele volta a se pronunciar, a insatisfação na voz é bem clara:
— Você ainda quer o Banner de volta! O fracote!
— Quero — confirmo simplesmente porque não há motivos para negar o óbvio.
— Hulk não entende!
— Desculpe, não é algo que eu consiga evitar.
Espero um pouco, na esperança que o Hulk ouça a voz da razão — quem sabe até soe como a voz do próprio Bruce na sua consciência —, e abaixe a guarda de uma vez.
Entretanto, como o tempo transcorre e nenhuma mudança acontece, expiro com força e dou a milésima meia volta ao redor da cela para obrigá-lo a olhar para mim. Bato no vidro com uma suavidade incisiva.
Mesmo relutante e emburrado, ele ergue o olhar na minha direção.
Sem fazer mais o mínimo esforço para disfarçar o desespero e a ansiedade crescentes, decido jogar a última ficha. Um último e inflamado apelo é tudo o que me resta a tentar.
— Você sempre vai ser o meu herói, Hulk. Sempre terá a minha gratidão e o meu respeito. Por tudo o que você já fez pelo mundo e por tudo o que representa pra mim, eu sempre vou te admirar! Mas agora eu preciso dele! Do Banner fracote, como você diz. Para com essa teimosia e me dá ele logo! Agora!
O silêncio fica pesado e paira por todo o calabouço. Não me arrisco a olhar para Tony que, para minha grata surpresa, parece mesmo ter desistido das piadas por ora.
O suspense e a tensão do momento são quase palpáveis e muito incômodos. Odeio essa expectativa, odeio depender da decisão que o Hulk tomará ou não, odeio não ter controle de nada e ter que me contentar apenas com a frágil esperança que luto para manter.
— Por favor — insisto, aflita, sentindo uma lágrima me vencer por fim. — Eu preciso dele.
Num gesto delicado demais para alguém tão gigante e bruto, o Hulk ergue a mão direita na direção da parede, bem na altura do meu rosto, até encostar o polegar no vidro resistente.
Demoro alguns segundos para entender que a lágrima chamou sua atenção e que sua intenção é acompanhá-la conforme desce pela minha bochecha.
O Hulk percorre o caminho que ela faz com um olhar curioso e atento. Quando a gota morre em algum lugar abaixo do meu queixo, continua com a mão no vidro. Os outros dedos se abrem aos poucos e se espalham na superfície vítrea logo depois.
— Hulk lembra de Amelia — afirma incrivelmente calmo e firme.
Nesse momento, entendo que ele estava analisando não só a lágrima, mas meu rosto por inteiro. Aposto que relembrava o dia em que nos conhecemos. De alguma forma, o Hulk se conectou a mim de verdade com esse gesto e por fazer tal confissão.
De alguma maneira, tenho certeza que consegui transpor a barreira intimidante e irredutível que ele vinha mantendo até aqui. Sinto que ele, finalmente, abaixou a guarda. O fato de ter dito meu nome dessa vez é um sinal de que relaxou o suficiente e mudou de postura.
E talvez, apenas talvez, meu nome em sua voz grave seja um prelúdio da influência de Bruce no subconsciente. Talvez meu nome tenha soado com suavidade na mente do Hulk. Com a suavidade da voz dele.
A enorme mão, ainda esparramada no vidro diante de mim, é como um convite para que eu aproxime a minha. Então, imitando o seu gesto e seguindo esse instinto, espalho meus dedos contra a superfície lisa, chamando a atenção imediata do seu olhar.
Ele observa meus dedos na altura dos seus. Minha mão contra a sua. Talvez, assim como eu, fica admirado por perceber que a sua é, no mínimo, umas quatro vezes maior.
Apesar da frieza do vidro que impede um contato efetivo, sinto uma espécie de calor, conforto e uma conexão intensa. O contato é real, mesmo não sendo. A parede existe, mas não está aqui agora. Minha admiração e carinho pelo Gigante Esmeralda crescem ao mesmo tempo em que me vejo mais calma também e presa a esse momento. Realmente gosto muito dele.
— Amelia nunca esqueceu o Hulk — retribuo, sorrindo para ele com esse misto de emoções fervilhando.
Decido ainda aproveitar a oportunidade para dizer algo que não foi possível falar quando ele me salvou há alguns anos, já que tudo aconteceu muito rápido. O Hulk desapareceu do meu alcance pouco depois, mergulhando numa luta esmagadora contra os Chitauris, que continuavam brotando feito uma praga pelo buraco de minhoca no meio do céu de Nova York.
— Obrigada por tudo. Você foi e é mesmo incrível.
Uma nova lágrima me surpreende e começo a me sentir meio boba por deixar o lado emocional guiar minhas reações desse jeito. Afasto a mão do vidro e enxugo os olhos depressa.
No mesmo segundo, o Hulk bate no vidro em protesto. Tenho a impressão que se esquece da cela logo depois, já que arranha o vidro com certo desespero, como se quisesse agarrar a minha mão através dele.
— Amelia...
Antes que eu faça menção de estabelecer o contato de novo, seu corpo musculoso se afasta com um movimento brusco e ele cambaleia consideravelmente com as mãos na cabeça. Não parece nervoso, no entanto, apenas aturdido e meio desorientado.
Quando ele cai no centro da cela, me abaixo junto por puro instinto. Por um momento, desejo ter o poder mágico de atravessar a parede que nos separa para alcançá-lo do outro lado. No momento seguinte, percebo que o tom verde em sua pele está ficando mais suave. Cada vez mais suave.
Com alívio e o coração batendo pesado, percebo também que os músculos robustos estão diminuindo. Todo a gigantesca massa que o Hulk é vai se reduzindo pouco a pouco diante dos meus olhos, enquanto ele se contorce no chão. Sua pele fica mais pálida, perde o tom característico de esmeralda por completo.
Algo me diz que esse é um processo doloroso para o ser humano que emerge aos poucos. A cela parece aumentar em volta dele, mas sei que é apenas uma ilusão. É seu corpo que diminui em comparação ao do Hulk. Até que, por fim, ele volta ao normal.
Bruce se encolhe do lado oposto da cela, abraçando o próprio corpo, como um animal assustado e ferido. Com uma expressão cansada e os cabelos suados grudados na testa, ergue um olhar na minha direção. Um olhar cheio de confusão, pesar e culpa.
Sou atingida em cheio pela dor que emana de Bruce. Pela vergonha que está torturando sua mente.
Em algum momento, ouço Tony murmurar um comando e sinto as paredes da jaula vibrarem sob sua voz. Logo, elas começam a se mover para baixo, rumo a um compartimento ao redor da base.
Bruce e eu continuamos nos olhando enquanto a barreira vai desaparecendo pouco a pouco. As palavras que eu sei que ele precisa ouvir para se sentir um pouco melhor me fogem.
Tudo o que experimento agora é uma dolorosa desconfiança. A desconfiança que o Hulk voltou a ser um empecilho para ele ficar comigo. O pressentimento de que Bruce Banner vai tentar me afastar da sua vida de novo tão logo consiga colocar a cabeça atormentada em ordem.
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