Notas iniciais
Olás ^^ Dedico esse capítulo a FuriousKidLaufeyson por ter recomendado a fic, muito obrigada, chuchu! Obrigada a todo mundo que está acompanhando ♥ Boa leitura!

Eu odeio quando você liga, mas atendo novamente

porque você não se importa com as duas horas da manhã

Eu preciso de você, eu quero estar mais perto...

Everything in between — Michael Ray

Custo a acreditar que Bruce me ligou, e assim, tão de repente. Depois de três meses sem qualquer contato, confesso que sinto um alívio imediato ao ouvir sua voz ao telefone. E também uma alegria boba quando ele diz meu nome com a doçura de praxe, que faz parte de quem ele é.

Sim, o Dr. Banner é teimoso como um jumento, mas também é doce feito caramelo. Admito que é meio impossível não me derreter e esquecer, pelo menos por alguns instantes, que ele foi embora por livre e espontânea estupidez, deixando-me a ver navios num cais solitário.

Essa situação é como uma faca de dois gumes, sabe? Você não percebe que pode se machucar feio até tocar uma das extremidades. Ainda assim, acaba aceitando certo risco porque a doçura do sujeito te atrai mais do que o perigo de sofrer. Sem perceber, você passa a acreditar que tudo vale a pena. Essa sou eu agora.

Fecho os olhos por um momento e faço um esforço para afastar esse pensamento e a sensação de esperança que me traz. E essa sou eu recobrando a lucidez.

Convencida de que não preciso ser mal educada, mas que certamente devo ser mais racional e manter minha atração por Bruce sob controle, indago do jeito mais despretensioso que consigo:

— Como você está, Verdão?

— Bem, bem... eu estou bem — responde de um jeito meio incerto e ansioso. Em outras palavras, é uma mentira deslavada. — E você?

— Ótima! Melhor impossível! — retribuo na mesma moeda, como uma forma de me preservar.

Ao me lembrar da visita de Coulson e de algumas coisas que ele deixou no ar, pego-me realmente preocupada com Bruce e retruco:

— Ei... Tem certeza que você está bem? Quero dizer, está tudo tranquilo e normal por aí?

— Como assim? — Quase vejo a ruga de desconfiança na testa de Bruce quando ele rebate minha pergunta.

Rio um pouco e desconverso:

— Apenas checando. Você sabe, por via das dúvidas.

Bruce não se manifesta de imediato. Acho que não o convenci totalmente de que só estou curiosa. Mesmo assim, ele acaba respondendo devagar:

— Sim, está tudo tranquilo e normal por aqui.

— Mesmo?!

Oops... Tenho certeza que isso soou muito suspeito da minha parte.

— Amelia.

Droga... Seu tom de voz ainda mais intrigado me dá a certeza disso.

Bem, não posso contar que Coulson me visitou há pouco e insinuou que a S.H.I.E.L.D. não é a única interessada no paradeiro do Gigante Esmeralda. Isso iria alarmá-lo, talvez sem necessidade, deixando-o paranoico.

Ao saber que Coulson está em seu encalço de forma constante, Bruce também poderia desaparecer de vez, enfurnando-se em algum buraco mais profundo, dificultando ainda mais a sua localização. O que complicaria uma convocação da Iniciativa Vingadores em caso de uma ameaça verdadeira surgir.

Quanto a mim, não posso confessar que andei a sua procura por conta própria, valendo-me de um talento escuso que eu nem sabia que tinha tão aflorado. Tal confissão seria meio humilhante e abalaria meu orgulho feminino. Algo assim faria Bruce se sentir o último Bis da caixa, e eu não quero isso. Ou então ele iria me recriminar por ter assumido esse risco. Uma bronca é a última coisa que preciso agora.

Mesmo assim, não consigo deixar de me preocupar com ele. Preciso que Bruce se cuide, que esteja em alerta, que tome cuidado sempre. Não me perdoaria se algo lhe acontecesse porque eu não fiz a minha parte.

Ocultando os detalhes principais, insinuo:

— Ok, talvez eu tenha ouvido algo, de alguém, nada que venha ao caso ou que importe realmente. De qualquer forma, eu só quero ter certeza que você está tomando cuidado. Sabe, no dia a dia, para atravessar a rua, não falar com estranhos, mastigando devagar...

Com essa lambança de palavras, arranco um riso baixo do cientista do outro lado da linha. Confesso que uma parte de mim estava com saudade de ouvir esse som tão raro. Quando dou por mim, estou sorrindo feito uma idiota. Ainda bem que isso não é uma vídeo chamada.

— Eu não sei por que você está falando desse jeito, mas não precisa se preocupar tanto comigo. O Outro Cara me mantém a salvo, lembra? Inclusive de engasgar acidentalmente com a comida.

Bruce Banner fazendo piada. Não é todo dia que se ouve isso. Apesar de achar graça, também fico incomodada por sentir minha fraqueza à mostra. Então desmancho o sorriso e argumento contrariada:

— Eu não me preocupo tanto assim com você, só estou sendo gentil.

— Obrigado pela gentileza então.

Bruce Banner sendo sonso e, de certa forma, bem convencido. Outro momento raro. Claramente, não está me levando a sério.

Percebo que tenho que ser mais incisiva. Então, reforço entredentes:

— Não por isso.

A ligação fica em silêncio por alguns instantes. Respiro fundo e mudo o celular de orelha. Enquanto levanto do sofá, vou direto ao que interessa:

— A que devo a honra, Bruce? Por que está me ligando? Eu pensei que tínhamos um acordo. Sem ligações, lembra?

Ele permanece mudo. Acho que o peguei de surpresa.

Que fique bem claro que eu não perguntei nada disso de forma rude, só um pouco mais séria porque, na verdade, o momento é sério. Bruce parece ter esquecido tudo o que está envolvido numa simples ligação como essa. É meu dever lembrá-lo que não vou admitir que brinque com o meu interesse por ele e com algo que possivelmente sinto.

— Me desculpe, isso foi inadequado da minha parte.

Fecho os olhos e posso imaginar seu semblante constrangido agora. Sorrio inevitavelmente e me apoio no parapeito da varanda. Abro os olhos e deixo as luzes da cidade me fazerem companhia quando o desafio:

— Tudo bem, apenas explique o motivo. Eu quero ouvir. Por que você ligou?

Novamente, Bruce demora um pouco para se manifestar. Mas, por fim, o faz:

— Isso vai soar estranho e ainda mais inadequado, mas eu meio que... sonhei com você.

Desta vez, quem fica surpresa sou eu. Não esperava por uma confissão dessas e, claro, fico bem feliz ao constatar que mesmo com a distância, Bruce não se esqueceu de mim.

Meu coração inventa de bater mais forte. É muito bom descobrir que habito os pensamentos do meu Vingador favorito a tal ponto. Sim, estou me sentindo o último Bis da caixa.

— Oh... entendo. — Limpo a garganta e rio ao assimilar a surpresa inicial. — E aí? Eu mandei bem?

Diante do silêncio absoluto do outro lado da linha, franzo o cenho. Mudo o telefone de lado mais uma vez. Uma risada me escapa quando ouço sua respiração irregular. Ele parece nervoso, tenso...

— Por favor, não me diga que você ficou vermelho. Você é tão fofo, Bruce...

Aos gaguejos e, provavelmente, com vergonha mesmo, ele deixa os detalhes do misterioso sonho no ar e, como se não tivesse me dito nada de importante, recomeça:

— Eu... eu sei que você foi clara e que... Bem, que o acordo era sem ligações, mas quando percebi, eu já tinha pegado o telefone e te ligado. Foi isso. Eu precisava ouvir a sua voz.

A última frase parece ter escapado da sua boca sem que ele se desse conta do peso. Meu coração acelera mais um pouco.

A fim de provocar Bruce, permito-me flertar de um jeito mais direto:

— Interessante... Parece que alguém está sentindo a minha falta, hum? Continue assim e, de repente, você pode aparecer na minha porta qualquer dia desses, Dr. Banner.

Ainda estou tentando abafar o som do meu sorriso, quando sua resposta me atinge como um balde de água fria:

— Eu gostaria que isso fosse possível.

A resignação no seu tom de voz e o próprio teor do que disse me transportam para a nossa despedida, há alguns meses, na fazenda de Olivia, no Texas. De repente, tudo volta. Nossa conversa, sua decisão de partir, o adeus, minha promessa de seguir em frente.

Meu sorriso se esvai, meu coração se encolhe, minha consciência grita. O que diabos eu estou fazendo? Me iludindo de novo?

Dou as costas para a visão de Nova York e digo de um jeito dedutivo e firme:

— Mas não é possível, certo? Porque você tomou uma decisão e não vai voltar atrás. Porque nada mudou, não é?

Acho que há mais do que dedução e firmeza nas minhas perguntas retóricas, há certa frieza também. É isso, estou sendo fria com Bruce. Porque, de repente, estou com uma tremenda raiva dele e não posso esmurrá-lo até ele ficar verde. E, principalmente, estou decepcionada comigo mesma por ter me esquecido da sua partida, atendido sua ligação, sido gentil, atenciosa e demonstrado preocupação com o seu bem-estar, quando deveria ter desligado assim que descobri que era ele.

— Eu sinto muito. Eu não devia ter ligado, foi um momento de fraqueza. Isso não vai se repetir.

Suas palavras mansas de Madalena arrependida entram no meu ouvido e se dissipam enquanto constato que eu já devia ter seguido em frente há muito tempo. Eu disse que faria isso, prometi a mim mesma, porém o que fiz foi justamente o contrário. Mantive a esperança de que ele voltaria, invadi o sistema da S.H.I.E.L.D., tentei localizá-lo por minha conta e risco, fui estúpida e sentimental.

Odeio ser estúpida e sentimental!

Nervosa e irritada, volto para o interior do apartamento ao mesmo tempo em que despejo do jeito mais seco e resoluto que consigo:

— Ótimo, porque eu falei sério sobre o acordo, Bruce. Quando foi embora, você abriu mão de qualquer possibilidade, qualquer chance e qualquer tipo de contato. Nada mudou para mim também. E obrigada por me lembrar disso. Por um momento, eu tinha esquecido, mas não vai acontecer de novo.

— Amelia, me desculpe. Eu sinto muito mesmo e... eu não devia ter...

Não deixo Bruce prosseguir. Simplesmente explodo:

— Pare de se desculpar o tempo todo, mas que coisa! E pare de me chamar de Amelia também! Não é fofo, é irritante e eu não gosto mais! Nunca gostei!

— Claro, certo, como você quiser, eu só...

Imaginá-lo todo atrapalhado, tentando consertar o que não tem conserto com mais pedidos de desculpa, intensifica a fúria dentro de mim. Quando dou por mim, já o cortei mais uma vez:

— Apenas conviva com a sua escolha, Bruce, e me deixe viver com a minha em paz! É isso. Passar bem. E não me interessa se você é o Hulk, tome cuidado! — Antes de encerrar a ligação, ainda arremato cheia de orgulho: — Ah! E bons sonhos! É só o que você vai ter de mim, fique ciente disso. — Despenco sentada no sofá e desabafo comigo mesma a plenos pulmões: — Pelo amor de Deus! Eu tinha esquecido ele me tira do sério com toda essa calma e palavras mansas! Cruzes! Me livrei de um chato de galocha, com certeza! Quer saber? Melhor assim!

Tomada pela desagradável sensação de que me comportei como uma idiota nos últimos tempos, iludindo-me sem perceber, esperando por um homem que não pode ou não quer ser meu, jogo o celular longe no mesmo instante em que alguém abre a porta do apartamento.

Assustado, Josh arregala os olhos e segura o aparelho no ar, antes que ele atinja o seu lindo rosto e faça um estrago desnecessário. Com um receio visível, ele ergue as mãos em sinal de rendição e brinca:

— TPM chegou mais cedo, Amelinha?

Vejam bem, Josh é meu irmão, é minha família, meu melhor amigo, eu o amo muito e para sempre. Mas se olhar matasse, o coitado estaria esticado no chão agora mesmo, duro feito um animal empalhado.

— Amigo, amigo, amigo... — ele repete, aproximando-se com cautela, como se estivesse diante de uma fera raivosa e incontrolável.

Certo, exatamente eu no momento.

— O que aconteceu, gata? — indaga, depois de colocar o celular sobre a mesa de centro e sentando-se de frente para mim.

— Bruce Banner aconteceu — disparo, ainda à flor da pele. — Ou melhor, não aconteceu, se é que você me entende.

Josh segura minhas mãos em seu colo, num claro gesto para me acalmar.

— Entendo, sim. Ele ligou, foi?

Solto um riso possesso ao confirmar com outra pergunta:

— Você acredita nisso? Em tamanha cara de pau?

Meu irmão acaricia meus dedos, me encara e questiona:

— E você atendeu por que...?

— Eu não sabia quem era antes de atender — defendo-me, já imaginando aonde Josh quer chegar.

— E quando descobriu, foi toda fofa com o bofe? Aposto que sim. Estou certo? — seu tom crítico fica mais evidente agora.

Josh, como já me deixou claro algumas vezes, aprovaria um envolvimento entre mim e o lerdo de jaleco. Porém, depois que foi embora, Bruce entrou, automaticamente, para a lista negra de bofes que não servem para a sua querida irmãzinha.

Sentindo-me acuada, mas incapaz de mentir para ele, admito:

— Sim, eu fraquejei. Fiquei tão feliz por ouvir a voz dele de novo que, por um momento, esqueci de tudo.

Josh balança a cabeça de um lado para o outro, faz um barulho com a língua em sinal de reprovação também. Desapontado, mas não surpreso, arremata:

— Sabia que você não ia resistir. Mulheres...

Ao me lembrar de um detalhe importante, no entanto, ressalvo com certa animação e um sentimento de vitória:

— Mas depois eu recobrei a razão, disse umas boas verdades e desliguei na cara dele! Duvido que Bruce volte a me ligar depois disso.

Quando termino de falar, a raiva finalmente se dissipa dentro de mim e dá lugar a outra coisa. Uma espécie de tristeza e conformismo, mas também de alívio e determinação. Fiz a coisa certa. Sem dúvida, foi melhor assim. Cortei o mal pela raiz e fui superior.

— E como você está? Por ter tomado essa atitude? Como se sente agora? — Josh retoma, com um meio sorriso de aprovação e orgulho, mas também com uma nuance tangível de preocupação no olhar fraterno e atencioso que mantém sobre mim. — Seja sincera comigo, eu sei quando você mente desde que destruía minhas Barbies e negava até a morte.

Penso sobre suas perguntas e no que a ligação de Bruce significou para mim. Reflito sobre o que sinto agora, depois que a indignação maior passou, e finalmente respondo:

— Eu me sinto ótima — diante do olhar de descrença que recebo, decido explicar melhor: — Eu não gosto da forma como as coisas aconteceram e não aconteceram entre mim e Bruce, claro, mas agora eu sinto que estou pronta para aceitar a derrota e virar a página. Pra valer dessa vez, entende? Porque, dessa vez, é o que eu quero de verdade. Nessa cilada, eu não caio mais, juro.

Meu irmão me analisa por algum tempo, como se tentasse enxergar minhas intenções através dos olhos — segundo ele, as janelas da alma. Por fim, abre um sorriso e me puxa para um abraço carinhoso. Segura meu rosto entre as mãos e dá o veredicto:

— Eu estou muito orgulhoso de você. É assim que se fala, gata. Quem não te quer, não te merece. Ponto final e quem perde é o bofe retardado.

Mais relaxada, dou risada do seu jeito que eu tanto adoro; despojado, divertido e sem papas na língua.

Deito-me no sofá, aninhando a cabeça em seu colo e encolhendo o corpo. Fecho os olhos, enquanto Josh passa os dedos por meu cabelo. Lembrando de algo que ele mencionou como exemplo antes, digo:

— Desculpe pelas Barbies. Eu só queria brincar, mas elas eram tão frágeis, qualquer coisa quebravam, eu nunca entendi direito... Brinquedos deveriam ser mais resistentes, não?

Meu irmão ri antes de responder:

— Bem, digamos que você era um pouco bruta com as coitadas, né? Mas tudo bem, está perdoada há muito tempo.

Então ficamos em silêncio. E aproveito isso para pensar mais um pouco. Sinto-me realmente bem e decidida. Seu apoio e carinho me deixam com uma sensação boa de segurança e de que tudo vai melhorar. Vou dar a volta por cima. Já dei o primeiro e mais importante dos passos hoje. Agora é só seguir as conchas e continuar a nadar, como Olivia certamente me diria se estivesse aqui. Antes que a saudade que tenho dessa maluca me deixe pra baixo, volto à posição inicial no sofá e mudo de assunto:

— Ei... Você não ia passar essa noite com o Dr. Bonitão?

Às vezes, sinto que meu irmão nem mora mais comigo. Vive enfurnado no apartamento do Dr. Christian Patel, com quem está firme e forte há mais ou menos um ano.

— Ele tem pacientes muito cedo amanhã. — Josh olha para o relógio em seu pulso e, em virtude do horário bem avançado, corrige: — Digo, hoje. São pacientes humildes que ele atende uma vez por mês, sempre no último sábado. Achei melhor dar uma folga para o pobrezinho descansar. Não quero que ele apareça no consultório cheio de olheiras por minha causa. Então nós só jantamos e fizemos um pouco de hora.

Josh dá uma piscadela maliciosa, e eu retribuo com um cutucão entre suas costelas, arrancando-lhe um riso abafado.

Enquanto ele se recompõe, assimilo que já passou da meia-noite e reflito:

— Sábado... Sábado e eu aqui, no sofá, de pijama e chinelo. Quer saber? Essa não sou eu.

Com um olhar empolgado e cheio de interesse, Josh pergunta:

— No que você está pensando, maninha?

Respondo na lata e igualmente animada:

— Que seria ótimo sair para dançar um pouco. Você sabe, exorcizar meus demônios na pista, beber algo forte, extravasar até o dia clarear.

Balançando a cabeça em afirmação e com um brilho alegre no olhar, Josh confessa:

— Eu gosto muito dessa ideia. Extravasar é comigo mesmo!

— E eu não sei? — Levanto num pulo e deixo a sala correndo enquanto aviso: — Um banho rápido e me arrumo voando!

— Eu cuido da maquiagem — meu irmão cantarola da sala.

— Sempre! — respondo, já preparando-me para o banho revigorante e logo para a noite que marcará minha saída definitiva do fundo do poço.

Adeus, Samara Morgan. Meu lugar não é com você, querida.

***

Algum tempo depois, Josh e eu chegamos na boate Inferno. Vínhamos muito aqui com a Liv, antes de Loki ter sido jogado para escanteio na Terra, dos dois se envolverem, mudarem-se para Asgard, enfim, antes de tudo. Vocês conhecem a história.

É impossível não ficar nostálgica, mas não deixo que passe disso. Hoje quero celebrar meu recomeço, marcar a virada oficial da página Bruce Banner, me divertir e, quem sabe, me dar bem com algum cara interessante. Quero viver. Ser feliz. Nada mais importa, só a minha felicidade. É como tem que ser.

Com esse espírito, viro as primeiras doses de tequila e me jogo na pista como se não houvesse amanhã.

Uma sequência incessante de luzes fortes pisca por toda a parte, espalhando cores diversas e intensas pelo ambiente predominantemente pouco iluminado e deixando-o com um clima ainda mais caótico.

Homens e mulheres dançam, bebem e flertam nos diferentes cantos do lugar. Há pequenos assentos nas extremidades do enorme salão, onde aqueles que já deixaram muito suor na pista se recuperam na base de energéticos. Outros aproveitam para conversar, tirar selfies ou dar bons amassos em seus parceiros.

Em dado momento, perco Josh de vista, mas sei que ele está arrasando em algum ponto da multidão de corpos frenéticos ao meu redor. Sei também que isso é o máximo que ele fará esta noite. Josh está mesmo apaixonado por Christian, levando o relacionamento a sério, só tem olhos para o terapeuta bonitão e, portanto, se algum desavisado se aproximar dele com segundas intenções, tenho certeza que não vai rolar.

Bem, não posso dizer o mesmo de mim.

Enquanto deixo When doves cry invadir meus ouvidos e dominar meu corpo numa dança ininterrupta, penso que agarrar alguém interessante iria selar de vez o início da minha nova fase. Ou melhor, a minha volta à ativa e meu reencontro comigo mesma.

Sempre fui assim, me mantive assim, aberta a possibilidades que uma boa balada pode trazer. Até tentei ser romântica e regrada incontáveis vezes, porém as coisas não deram muito certo.

Então, talvez seja hora de aceitar que romance e relacionamentos estáveis não são mesmo para mim e que tudo bem se não forem. Eu vou sobreviver, não preciso de um amor verdadeiro, só preciso de carinho masculino de vez em quando e de uma boa diversão. Está cheio de caras por aí que podem me dar muito disso, sem compromisso ou grandes expectativas.

É hora de voltar a curtir a vida pura e simplesmente, como a mulher livre e desimpedida que sou. Uma mulher que só quer se permitir, relaxar, conhecer caras divertidos com essa mesma intenção e esquecer os seus nomes quando for conveniente.

Eu só quero viver e me divertir, e isso não é nenhum crime. É no que estou pensando quando encontro um olhar intenso cravado em mim.

A uma curta distância de onde estou, um rapaz bem jeitosinho me observa dançando enquanto uma lata de energético reluz em sua mão. Ele bebe devagar, sem parar de me encarar em nenhum momento.

Sem muita paciência para joguinhos de sedução, reviro os olhos e resmungo:

— Talvez você sirva. Só não demore muito para tomar a atitude.

Apesar da música alta abafando qualquer som que saia da minha boca, parece que o sujeito entende o meu recado de alguma forma já que, na sequência, aproxima-se de mim, ora caminhando sorrateiro, ora dançando. Logo, está mexendo seu corpo junto comigo. Logo, junto ao meu.

O contato visual é inevitável a essa altura. Um sorriso maroto se revela no rosto dele, e tenho que admitir, é um belo sorriso. Retribuo sem pestanejar e continuo dançando.

Flertamos com olhares e sorrisos pelos instantes seguintes. Suas mãos estão fincadas na minha cintura, meus braços jogados em seu pescoço. O estranho sorri mais uma vez, e eu canso de esperar. Fecho os olhos e o beijo entre luzes pulsantes e a música que me contagia.

Não é a oitava maravilha do mundo, mas até que o sujeito tem certa pegada. Dá pro gasto, realmente serve. Aproveito. Estou me divertindo afinal.

Tudo estaria quase perfeito, se eu não tivesse rompido o contato em dado momento e me dado conta de algo surpreendente e inexplicável. Tomo um verdadeiro susto ao descobrir que, durante esse tempo todo, eu estava agarrando o Bruce. O que, convenhamos, não faz o menor sentido.

Pisco algumas vezes, na esperança de que a miragem se dissipe e eu recobre a lucidez, mas o alter ego do Incrível Hulk continua aqui, diante de mim, me desafiando com o seu sorriso fofo e tímido, com as sobrancelhas meio unidas, me encarando.

De repente, ele se reaproxima e diz no meu ouvido:

— Qual o problema, gata? Parece até que viu um fantasma.

Oh, não! Até a voz é igualzinha a de Banner! O que diabos está acontecendo comigo? Perdi completamente a razão? Enlouqueci de vez?

Ao mesmo tempo em que me pergunto essas coisas, digo para mim mesma que não vou dar esse gostinho para ele. Não vou mesmo!

Esta noite é o meu recomeço e nada nem ninguém vai estragar os meus planos. Muito menos Bruce Banner, que nem está aqui de verdade.

Nem que eu tenha que fazer lavagem cerebral, vou tirá-lo da minha cabeça!

Pensando assim, tomo uma atitude um tanto drástica e impulsiva, empurrando o tal Bruce e ordenando com um grito:

— Pare de me assombrar! Me deixe em paz!

Me surpreendo de novo. Desta vez por rever o rosto do cara que dançava comigo há poucos instantes. Como num passe de mágica, ele está de volta. Sem mais nem menos. Visivelmente confuso, aliás. Até um pouco bravo, a julgar pela sua expressão de desgosto.

— Você é maluca?!

Não tenho tempo hábil de mandar o cara para o inferno — literalmente —, pois antes disso ele dá um tapa no ar e se afasta, perdendo-se em meio à multidão como num segundo passe de mágica.

Tudo bem. Como diria aquela famosa música do Coldplay, ninguém disse que seria fácil. Mas certamente ficará mais fácil nas próximas tentativas e, em breve, terei que fazer um esforço descomunal para me lembrar quem é mesmo Bruce Banner. Talvez, nem querendo muito, eu consiga visualizar o seu rosto, o que será ótimo!

Tudo o que me resta agora é continuar tentando até esse dia chegar. E tenho certeza que ele vai. Logo, em breve.

Recuperando o ânimo, sigo decidida rumo ao bar no mezanino da boate. Mais uma bebida vai me ajudar a relaxar com certeza. Ainda quero me divertir muito esta noite. E vou!

Peço um daiquiri e bebo rapidamente, com goles generosos. Coloco a taça vazia sobre o balcão e me volto na direção da multidão lá embaixo.

Não demora nem um minuto e encontro um olhar em minha direção. Analiso o sujeito da cabeça aos pés e constato que vale a pena investir. Sem pensar duas vezes, sorrio para ele e desço para a pista com um desejo genuíno martelando na minha cabeça.

Viver. Eu só quero viver.

Notas finais
No próximo capítulo haverá uma passagem de tempo, então vamos ver se a Amy conseguiu superar o Brubru mesmo XD Qualquer review (respeitoso, claro) é bem-vindo. Não se acanhem ♥