A Bela, o Outro Cara & Eu
11 Experimento Científico
Notas iniciais

Ela disse: aonde você quer ir?
Quanto você quer arriscar?
Eu não estou procurando por alguém
com dons sobre-humanos
Um super-herói
Uma felicidade de conto de fadas
Apenas algo para que eu possa recorrer
Alguém que eu possa beijar
Eu quero algo assim
Something just like this — Coldplay/Chainsmokers
Não sei o que eu esperava quando decidi convidar Bruce para sair. Claro, cada parte de mim torcia para que ele aceitasse o convite, como de fato fez. Isso demonstra que ele também está interessado em descobrir aonde essa história pode nos levar e prova que eu fiz bem em esquecer o lance de "só amigos" por ora. Apesar disso, não consigo conter certo choque e uma alegria genuína por Bruce ter vindo mesmo.
Isso é um grande progresso, convenhamos. Pensei que a batalha já estava perdida até ele confessar, com todas as letras, que não se acha capaz de ser apenas meu amigo. Bruce, com certeza, deu um passo importante ao me encontrar essa noite. Tenho que reconhecer sua coragem.
Logo esqueço a sensação estranha de ter visto — ou pensado que vi, não sei ao certo — um antigo namorado meu, Kurt, conversando com Bruce. Com certeza, era só alguém meio parecido com o falecido que não vejo há séculos e espero não ver nunca mais.
Como tudo o que realmente importa agora é que Bruce veio e ainda deixou escapar que está feliz pela escolha que fez, alcanço sua mão e o convoco:
— Vem comigo!
Sem esperar por resposta, arrasto-o pela multidão caótica e subo dois lances de escada. Finalmente alcanço o mezanino, área em que algumas mesas estão dispostas e onde os bartenders preparam variados drinks atrás de um moderno balcão.
Procuro um lugar vago, sento-me à mesa e Bruce do outro lado, ficando de frente para mim. Sorrindo ainda meio incrédula, reflito:
— Se chover hoje, eu já sei de quem será a culpa.
Só então me dou conta que ainda estou segurando a mão dele junto a minha. Com mais força e calor do que seria apropriado. Não a larguei nem mesmo quando me acomodei no assento estofado que circunda a pequena mesa. Com certeza, Bruce teve que fazer algum contorcionismo para se sentar a minha frente por causa disso. Deve ter sido uma cena cômica de se assistir, como se estivéssemos grudados feito gêmeos siameses.
Claro que agora, ao me dar conta da trapalhada, solto seus dedos no susto, por não querer que ele pense que eu estou avançando algum tipo de sinal, apressando as coisas ou sendo grudenta demais.
— Desculpe. — Engulo em seco e minhas bochechas ardem. De repente, é como se eu fosse uma adolescente ou nunca tivesse saído com alguém antes dessa noite.
Se fosse qualquer outro cara, tenho certeza que eu estaria tranquila e não veria o menor problema no meu gesto. Mas com Bruce me sinto... diferente. Na maioria das vezes, sua timidez e jeito meio recluso são desafios instigantes que atiçam minha segurança feminina e interesse por ele. Porém, agora, me sinto nervosa e uma tremenda retardada. Acho que não estava mesmo pronta para uma resposta positiva ao convite.
— Tudo bem, eu... gostei — ele confessa, causando-me uma surpresa muito agradável.
Com isso, é automático, volto ao meu estado normal e mais confiante. Logo mais à vontade, repouso minha mão sobre a sua, sem me importar em demonstrar meu interesse dessa vez, e indago:
— Bebe alguma coisa comigo?
— Eu não bebo. Digo, não sou muito de beber. Prefiro ficar sóbrio porque...
Divertindo-me internamente, pois parece que agora quem está tenso é Bruce, sugiro:
— Cuba libre? — Viro-me para o balcão sem esperar por um sim e aceno para um dos rapazes. — Danny! Duas Cubas, por favor! Ah! E coloca na conta!
— Em um minuto, linda! — O rapaz pisca em resposta.
Volto-me para Bruce e sua expressão é um tanto curiosa. Demora alguns instantes até expor de maneira retórica:
— Você vem muito aqui, não é?
— Como você sabe?
— Só um palpite, linda. — Ele sorri com timidez.
Meu coração palpita de um jeito sem dúvida anormal, feliz com o que ouvi. Demoro a entender que Bruce só está reproduzindo o que Danny me disse. Ou será que ele me acha bonita também e aproveitou a chance? Linda, foi o que falou na verdade.
Por que meu rosto está queimando de novo? Maldição!
Faço um esforço para não parecer uma boba mais uma vez e retomo o foco ao responder sua pergunta anterior:
— Eu vinha muito aqui com a Liv e ainda venho com Josh de vez em quando. Dançar é minha válvula de escape, uma das coisas que eu mais gosto de fazer para relaxar, sabe? Me liberta do estresse, exorciza meus demônios, esse tipo de coisa. — Paro de falar quando noto que Bruce achou graça em algo que citei. — O que foi?
Ele hesita um pouco, transparecendo certo acanhamento, porém acaba abrindo o jogo:
— Nada, só me perguntando como um anjo como você pode ter algum demônio para exorcizar.
Apreciando o singelo flerte, relaxo mais um pouco e retruco:
— Você já me viu brava e estressada, lembra? Eu pareço um anjo nessas horas? Só se for com Lúcifer.
— Oh, certo! Eu tinha esquecido disso. Realmente, você tem razão. — Ele também parece ter ficado mais à vontade com a recordação divertida. — Se dançar te ajuda a manter a calma, continue fazendo isso. A humanidade agradece.
— Bruce Banner fazendo piada? — surpreendo-me. — Quem diria? Vem tempestade das grandes por aí.
Ele fica em silêncio porque Danny se aproxima da mesa, trazendo as bebidas. Agradeço jogando um beijinho no ar e logo meu amigo bartender se vai. Só então, e soando meio sem jeito de novo, Bruce volta a se manifestar:
— Desculpe, eu não sei como me comportar nessas situações. Você sabe, em encontros.
— Você está indo bem, não se preocupe — tranquilizo-o, achando Bruce um tanto neurótico, afinal gostei sim da piada e tudo está indo muito bem até aqui.
Enquanto dou o primeiro gole, ele insiste na questão:
— Você acha mesmo? Porque... faz muito tempo que eu não saio com alguém. Mais do que isso.
Paro para prestar mais atenção nele, tomada pela curiosidade, pois parece que Bruce tem algo importante a dizer, algo íntimo.
Com o olhar cravado no meu, ele se abre sem rodeios:
— Faz muito tempo que eu não permito que alguém se aproxime de mim. De verdade. Como agora, eu quero dizer.
Fico mexida com sua confidência. Percebo o esforço que Bruce precisou fazer para colocar o tópico Hulk numa gaveta, vir até essa boate hoje para me encontrar e assim permitir que eu me aproxime. De verdade, como frisou.
Constato, mais uma vez, que nada é fácil em se tratando dele. Por isso, valorizo muito a sua coragem e decisão. É um milagre e devemos valorizar quando acontece.
Sentindo uma euforia me aquecer por dentro — não devido ao rum, mas sim pelo significado implícito da sua confissão —, replico com um sorriso sincero:
— Fico feliz que você finalmente fez isso, Bruce. Sabe, dado esse passo, enxergado além da muralha ao seu redor, abaixado o seu maldito escudo. Eu já estava conformada que não ia rolar...
Tomo um gole generoso da Cuba Libre e o líquido desce raspando em minha garganta porque me dou conta de como a última frase soou mais insinuante do que as anteriores. Prova disso é que Bruce arqueia um pouco as sobrancelhas, levemente admirado também.
Engasgo. Tusso por alguns instantes. E gaguejo ao tentar consertar:
— Não que agora... eu esteja pensando que... sendo pretensiosa ou imaginando que vá... Eu preciso calar a boca.
Bruce sorri e abaixa a cabeça, parecendo se divertir com o meu embaraço, algo relativamente raro. Enquanto isso, me xingo em pensamento por ter deixado o efeito do que sinto por ele comprometer o funcionamento normal do meu cérebro mais uma vez.
Se Olivia estivesse aqui, diria que eu fui vítima de uma tremenda macumba poderosa. Josh zombaria de mim, alegando que fui flechada por um cupido sádico. Mas eu prefiro dar o nome certo aos bois: estou apaixonada por Bruce. Irremediavelmente apaixonada por ele.
É por isso que agora está sendo difícil não parecer uma idiota perto dele e não me atrapalhar. Porque, dessa vez, não é um cara qualquer por quem estou atraída apenas superficialmente e nada mais. É diferente, intenso, maior.
Ainda estou tentando compreender as emoções que se agitam dentro de mim, quando Bruce solta:
— Tudo bem, você está certa. Talvez eu tenha mesmo abaixado o meu maldito escudo.
Meu coração palpita. Estreito o olhar em sua direção e pergunto com certo receio:
— Arrependido?
Sem pestanejar e deixando-me feliz mais uma vez, Bruce assegura com um brilho carinhoso no olhar:
— Nem um pouco. E isso é... assustador, na verdade.
— Pois é! Não é? Nem me fala! — exclamo, ainda meio nervosa, rindo.
Preciso, urgentemente, retomar o controle da situação. Mesmo sendo algo novo para mim, porque Bruce me afeta de um jeito diferente do que outros caras já afetaram, preciso voltar a ser eu mesma. Corajosa, atrevida, direta. E não essa idiota cuja respiração falha toda vez que ele diz algo fofo que me agrada profundamente. Tenho que seduzi-lo, não o contrário.
Ao ponderar isso, tenho uma ótima ideia e olho para a pista lá embaixo. Penso em como me sinto livre, relaxada, segura e poderosa enquanto danço. Além de ser uma ótima estratégia para envolver meu possível parceiro. É praticamente um ritual de acasalamento no meu dicionário de conquista.
Volto a encarar Bruce e abro a boca. Porém, antes que eu formule a bendita frase, ele ergue um pouco as mãos e alerta sem jeito:
— Se você está pensando em me convidar para dançar, por favor, repense. Eu sou horrível nisso, um verdadeiro desastre, acredite.
Sua resistência é como uma injeção de coragem em minhas veias. Fico mais à vontade e convencida de que minha tática vai funcionar.
Determinada a arrastá-lo para a pista de qualquer jeito, rio com descrença e argumento:
— Duvido. Dançar não tem o menor segredo, Bruce. Não tem nenhuma regra específica. Nesse contexto pelo menos não. Você apenas sente a música, segue a música, se sacode feito louco ao som da música e se liberta com a música. Vai por mim, é divertido.
Levanto-me e termino a bebida com um longo gole, o que potencializa a minha segurança. Bruce, por sua vez, parece apavorado com a ideia; o que é bem fofo e me deixa ainda mais obstinada.
— Eu sou horrível nisso. Mesmo. Só reforçando.
— Eu não acredito que você possa ser horrível em alguma coisa. Talvez só em arranjar desculpas esfarrapadas. — Estendo minha mão, rindo por dentro e com uma expressão desafiadora por fora. — Então, levante o traseiro daí e me dê a honra dessa dança.
Bruce me encara. Ainda parece receoso. Aos poucos, seu semblante muda para indeciso. Torna-se mais suave. Alguns segundos depois, percebo resignação em seus olhos, como se soubesse que eu não vou mudar de ideia.
Venci.
Entrelaço sua mão mais uma vez, quando ele, por fim, levanta da mesa.
Tomada por uma euforia cada vez maior, intensificada pelo toque caloroso de Bruce em meus dedos, faço o trajeto de volta ao andar de baixo, empurrando algumas pessoas idiotas pelo caminho para abrir passagem sem cerimônia. E tudo estaria perfeito se, de repente, Something just like this não fosse bruscamente interrompida, assim que alcançamos a pista.
Vaias soam em alguns cantos da boate, porém logo são silenciadas por uma batida bem lenta somada a frase entoada por uma rouquidão masculina:
Something about you... it's like an addiction, hit me with your best shot, honey.
E esse fatídico acontecimento é como um balde de água fria no meu plano de sedução.
— Oh, não... — Reviro os olhos e, de repente, estou ficando brava. — Ótimo! Que maravilha! Sensacional! Quem teve essa ideia brilhante! Eu mato!
Sem entender nada, Bruce sibila:
— Qual o problema?
Incapaz de disfarçar minha insatisfação e como acho essa situação um absurdo, explico:
— O problema é que sempre tem um engraçadinho que agrada o DJ e pede música água com açúcar em homenagem à namorada. Às vezes, é só a paquera da noite e ele quer impressionar a pobre coitada para se dar bem no final. Tão típico! Esquece, vamos esperar a próxima música. Algo no mínimo decente.
Já estou puxando a mão de Bruce a fim de nos afastarmos daqui o mais rápido possível, quando ele aperta a minha com certa força, levando-me a estancar no lugar. Dessa vez, sou eu quem não entende o que está rolando. Franzo o cenho, confusa.
— Espere. Talvez a gente possa... — Bruce para de falar, como se a sugestão fosse óbvia, olha em volta por um breve instante e torna a me encarar, unindo as sobrancelhas.
De fato, é bem óbvio o que ele está sugerindo. Óbvio e um completo absurdo. Pior que a balada romântica e melosa tocando é ele pensar que seria uma boa ideia dançarmos ao som dela.
— Não. Definitivamente, não. Sem chance — digo resoluta, mas rindo de nervoso.
Bruce, entretanto, não se dá por vencido. Ao invés disso, argumenta:
— Eu acho que serei menos ruim em música lenta. Tenho alguma chance de não parecer tão ridículo pelo menos.
Estranhando a sua tentativa de me convencer, uma ideia vem a minha cabeça. Espantada com a possibilidade de ser verdade, exclamo:
— Ai, meu Deus! Não foi você que pediu essa música, foi?
Bruce ri um pouco, insinuando que errei o palpite, o que me deixa mais tranquila. Em seguida, indaga intrigado:
— Não, juro que não, mas qual o problema com ela afinal?
De fato, é uma ótima pergunta. A música não é ruim, longe disso. O difícil será explicar como minha cabeça funciona para Bruce. Algumas vezes, nem eu mesma me entendo muito bem.
— Nada, só não faz muito o meu estilo — resumo, meio sem jeito e na esperança que seja suficiente.
Pela cara que ele faz, percebo que não é. Respiro fundo e exponho melhor:
— Essa coisa romântica demais, lenta demais, sentimental demais, vulnerabilidade exposta... demais, nada disso é o meu forte.
Ignorando-me categoricamente, ainda segurando minha mão e sorrindo de um jeito discreto como se tivesse ouvido algo extremamente engraçado, mas não pudesse rir por respeito, Bruce me conduz mais para o centro da pista.
Meu desconforto cresce. Situações românticas assim tendem a me deixar com a pulga atrás da orelha e um pé atrás, sem chão e sem saber como me comportar exatamente. É por isso que as evito ao máximo, preferindo ser direta e prática com o sexo oposto, seduzindo antes de me sentir muito envolvida.
— Bruce... — tento relutar.
Meu apelo de nada adianta. Ao invés de aceitar minha recusa, o alter ego do Hulk repousa as mãos na minha cintura com delicadeza, causando um certo calor na região e, ao mesmo tempo, um frio no meu estômago.
— Amelia. — Ele me encara com uma firmeza acolhedora. — Abaixe o seu escudo também. Não era isso que você queria?
Seu pedido me atinge em cheio e é como um momento de revelação. Percebo que Bruce está certo. Eu estou relutando em me abrir essa noite — agora, para ser mais específica —, evitando que ele veja a verdadeira Amelia.
No fundo, estou com medo porque essa situação é nova para mim. É diferente e realmente importante. Bruce é diferente e importa, não é qualquer um, por isso está me deixando tão nervosa.
Mas se eu quiser descobrir aonde essa história vai dar, tenho que seguir o seu conselho. Tenho que me permitir descobrir também, afinal era e ainda é o que eu quero. Tenho que abaixar o meu escudo, experimentar algo novo e impensado como essa situação embaraçosa e clichê.
Ponderando tudo isso, finalmente vou saindo da defensiva. Aos poucos. Tento relaxar. Passo os braços pelo pescoço de Bruce, aproximo-me um passo e me preparo para o papel surpreendente que estou prestes a viver.
A música segue tocando, casais se posicionam a nossa volta. Pelo menos não estamos sozinhos nesse circo que dominou o clima de balada anterior.
Tentando romper certa tensão que paira no ar, questiono em tom divertido:
— Tem certeza que você quer fazer isso? Porque eu sou horrível, já vou avisando.
Sem pestanejar, sem pensar por um mísero instante, Bruce afirma com o olhar cravado em mim:
— Tenho.
A palpitação aumenta. Minhas bochechas queimam pela milésima vez.
— Eu vou pisar no seu pé — alerto, tentando desviar a atenção de alguma forma ou quem sabe dissuadi-lo no último instante.
Bruce sorri discretamente, estreita o olhar e me tranquiliza:
— Eu sobrevivo.
Certo. Parece que não tenho mesmo para onde correr. Não me resta alternativa a não ser aceitar a situação embaraçosa na qual me meti. Paciência. Independentemente do clichê envolvido, é do Bruce que estamos falando. Estaria mentindo para mim mesma se dissesse que, no final das contas, não é bom tê-lo assim, bem perto, ao meu alcance.
Enquanto dançamos, seu olhar me aquece feito o Sol, seu toque me arrepia como uma brisa suave e sua constante proximidade dispara meu coração a um nível sufocante, quase insuportável.
Faço um careta involuntária ao me dar conta dos pensamentos de mulherzinha que rondam minha cabeça. Escondo o rosto no ombro do Vingador e me torturo baixinho:
— Eu me sinto ridícula.
Sua voz soa muito próxima do meu ouvido quando se opõe de um jeito gentil e certeiro:
— Está aí uma coisa que você não é.
Sorrio de leve. Decido acreditar nele. É o melhor que faço para me acalmar um pouco.
Logo fico distraída com um aroma envolvente e delicioso. Suave e ao mesmo tempo marcante. O cheiro de Bruce Banner. Algo como sândalo, acho.
De repente, ele me desperta com uma pergunta:
— Não é tão ruim assim, é?
Demoro mais do que o normal para decodificar suas palavras, para entender que ele está falando da música lenta e da dança. Sorrio contra o seu ombro e respondo cheia de uma surpreendente certeza:
— Não. É até bom. Constrangedor, mas... muito bom.
Não acredito que vou admitir isso, mas sabem quando dizem que o tempo para em momentos românticos? Pois é, pura verdade. Realmente é como se o mundo tivesse parado de girar e as pessoas a nossa volta não existissem. Quais pessoas, aliás? Só há duas pessoas aqui. E só uma que consigo enxergar.
Quando dou por mim, estou concentrada demais nessa pessoa. Ora no seu olhar, ora em sua boca. De repente, estamos nos aproximando de forma natural, meio instintiva. Nossos rostos ficando mais próximos. Cada vez mais e, ainda assim, muito devagar para o meu gosto.
Dou um passo desajeitado para terminar de vez com a mísera distância, mas acabo pisando em alguma coisa. Um sapato! Um pé! Bruce recua por instinto e eu o largo de imediato.
— Desculpe! Eu avisei! Não fique verde! — despejo, tensa de novo e temendo que ele tenha ficado irritado com a pisada acidental.
No entanto, Bruce me lança o mais tranquilizador dos sorrisos, se recompõe em poucos segundos e eu torno a relaxar.
— Não se preocupe, eu não vou virar o Hulk só por causa disso.
Quando me estende sua mão e eu começo a lhe dar a minha, a música termina, frustrando qualquer chance de retomar de onde paramos. O clima propício se foi, levando com ele a possibilidade de um primeiro beijo que eu senti que estava quase rolando.
Que saco... Na trave!
Logo, Sweet dreams are made of this toma conta do ambiente, mas não me vejo inclinada a dançar dessa vez. Ao invés disso, indico o bar no mezanino, fazendo menção para que voltemos para lá.
Bruce me olha de um jeito indecifrável. Depois, me segue.
Pode ser pretensão ou imaginação minha, porém acho que ele também se sentiu frustrado.
Conversamos mais e rimos de coisas aleatórias. Não sinto o tempo passar.
Mais tarde
Deixamos o Inferno há meia hora. Pegamos um táxi, pois Bruce disse fazer questão de me levar até em casa. A princípio, achei atencioso e cavalheiro de sua parte, mas agora me pergunto se é apenas isso.
Ele parece preocupado, em alerta, olhando a todo momento para as ruas e avenidas lá fora. Talvez só esteja desconfortável com o silêncio sepulcral no táxi ou repassando a noite em sua cabeça.
Seja o que for, aproveito a chance para observá-lo sem que perceba meu olhar. Atentamente.
Constato que poderia ficar assim por oras a fio, apenas olhando para Bruce e tentando adivinhar o que se passa dentro dele. É realmente um enigma encantador. Adoraria ser devorada lentamente e decifrá-lo por completo.
Quando suas mãos — até então unidas sobre os joelhos — se separam, encho-me de coragem e alcanço uma delas; a mais próxima, que ele acabou de apoiar no banco estofado do táxi.
Sua reação ao meu toque é imediata. Bruce esquece a paisagem nova-iorquina e olha para mim. Depois para os meus dedos entrelaçando os seus.
Para minha surpresa, ele logo corresponde, segurando minha mão de volta com uma força carinhosa, e torna a me encarar fixamente. Um brilho quente nos seus olhos faz meu coração acelerar e deixa minha garganta seca.
De repente, não dou a mínima se estamos num táxi e, portanto, se temos a companhia de um motorista. Tudo o que quero é colocar um ponto final nesse clima de suspense que se arrastou por toda a noite. Na expectativa que nasceu há um ano e meio, quando coloquei meus olhos em sua versão humana pela primeira vez. Tudo o que mais quero agora é descobrir que gosto Bruce tem.
Qual o sabor dos seus lábios? Qual a temperatura exata do seu beijo?
Arrasto-me um pouco pelo banco, para o seu lado, até ele. Bruce não se opõe, não recua, não se afasta um milímetro sequer.
Sinto a tensão na sua respiração em meu rosto e a ansiedade contida em suas pupilas ligeiramente contraídas. Avanço devagar. Estou quase lá.
Um trovão muito alto estremece o mundo inteiro a nossa volta e me causa um baita susto. Por instinto, me afasto, sacudindo os ombros por puro reflexo. É o suficiente para arruinar a atmosfera sugestiva de antes. Começa a chover muito forte.
— Se por acaso isso for uma aparição relâmpago do seu amiguinho, não me interessa o quão poderoso ele é, Thor vai se ver comigo — sussurro para não chamar a atenção do taxista.
Bruce esboça um meio sorriso, de certo ponderando a ameaça ou o meu trocadilho com Deus do Trovão e aparição relâmpago. Um instante depois, demonstra seu apoio:
— Duvido que seja ele, mas se for, prometo que o Cachinhos Dourados vai se arrepender.
Sinto uma alegria genuína ao constatar que Bruce também não gostou da interrupção. Eu tinha mesmo carta branca. Ele queria mesmo que eu avançasse. Pena que, mais uma vez, o momento se dissipou.
Uma freada brusca em frente ao meu prédio joga o clima romântico num passado ainda mais remoto. Me desequilibro e vou um pouco para a frente. Bruce impede que eu bata com a cara no banco diante de nós no último instante.
— Desculpe. — O motorista infeliz ri baixinho. — Chegamos.
— Aonde? Do outro lado da vida?! — resmungo, fulminando-o com o olhar.
Enquanto Bruce se antecipa e paga a corrida, a chuva aumenta exponencialmente, causando um ruído estridente quando as gotas cortantes atingem a lataria do veículo amarelo.
— Oh não... Mais clichê impossível — resmungo baixinho.
Espero um pouco, torcendo para que passe logo, mas parece ser uma tempestade das grandes. Repentina e intensa, encharca o mundo lá fora cada vez mais.
Preparo-me para deixar o táxi de qualquer forma, afinal não sou feita de açúcar. Quando dou por mim, Bruce saiu primeiro, deu a volta e abriu a porta para mim. Para arrematar a fofura extrema, tira o próprio casaco e faz uma espécie de cobertura para me proteger da tempestade gélida e violenta.
Me digam, como não querer agarrar um homem desses? Por muito menos, levei um cachorro para casa, lembram?
Saio do táxi e aceito sua proteção sem pestanejar. Em pé, na calçada, muito próximos, com a chuva caindo intensamente sobre nós, o instinto natural seria correr para dentro do prédio o quanto antes. Ao invés disso, ficamos estagnados, feito duas estátuas, duas pessoas presas a algum feitiço inexplicável ou que levaram uma pancada forte na cabeça e esqueceram quem são, para onde estavam indo e que dia é hoje.
Que dia é hoje mesmo?
Estou tentando lembrar, mas Bruce interrompe meu pensamento:
— O que você quis dizer com clichê?
Eu devia ponderar melhor antes de responder, mas acabo revelando sem rodeios mesmo:
— Você sabe, aquela situação clássica. Casal na chuva, o clima da chuva, possível beijo embaixo da chuva...
Me calo tão logo minha respiração falha. Falei demais. Falei sem pensar. Fico ansiosa com a sugestão que acabei deixando implícita sem querer. Meu rosto enrubesce diante do olhar ligeiramente surpreso de Bruce. Surpreso, mas sem dúvida interessado.
É isso! Aí vamos nós! Agora vai!
No último instante, entre a mínima distância física e o que viria depois dela, somos atingidos em cheio por um tsunami. Só pode ter sido um tsunami, pois é muita água.
Acontece que um veículo que passou quase rente ao meio fio, espalhou uma poça recente, fazendo a onda de infortúnio subir em nossa direção. A água empurrou assim o resquício do clima de romance bueiro abaixo.
Passado o susto inicial e a raiva, só consigo rir da situação em si. Dispenso o casaco ensopado de Bruce e o puxo pela mão. É melhor sairmos daqui antes que uma tragédia maior aconteça. O próprio fim do mundo, quem sabe.
Aos risos, entro no prédio e aciono o botão do elevador, ignorando o olhar insatisfeito do porteiro. Bruce está bem ao meu lado, pingando água pelo piso, assim como eu.
Só lembro de soltar sua mão quando entramos na cabine compacta de aço. Aos poucos, paro de rir e me vejo atraída por ele de novo. Sou correspondida com um olhar doce e firme.
Tenho que dizer, Bruce fica ainda mais irresistível assim, depois de uma boa chuva. É uma imagem bonita de se admirar. Se eu soubesse, tinha deixado ele lá fora mais um pouco. Um resfriado a mais, um a menos... Ele sobreviveria, tenho certeza.
Assim que entramos no meu apartamento, somos recebidos por ninguém mais ninguém menos que o enorme, carinhoso e estabanado cachorro são bernardo que adotei recentemente. Ele não estranha Bruce em nenhum momento, nem sequer late ou rosna, o que comprova a minha teoria de que cachorros apenas são hostis com quem merece, com quem não é um ser humano digno de respeito, com as pessoas ruins de uma forma geral. Mesmo assim, decido que é melhor levá-lo para a área de serviço a fim de deixar Bruce mais à vontade.
— Vamos lá, Hulk. Os adultos precisam de privacidade, não me leve a mal. — Seguro em sua coleira e o guio devagar até os fundos. — Bom menino. Depois te dou um petisco. — Faço um carinho em seu dorso macio antes de fechar a porta que separa a área do restante do apartamento.
Ao notar que estou molhando tudo, passo pelo toalete, me enxugo um pouco e pego uma toalha seca para Bruce. Por um instante, imagino a cara de Josh em pânico se visse a pequena bagunça que fizemos ao entrarmos pingando água da chuva por toda a parte. Para nossa sorte, ele não parece estar em casa ou já teria surgido do nada e feito um escândalo desnecessário.
Assim que volto para a sala, Bruce estreita o olhar em minha direção e inquere:
— Hulk? Sério? O nome do seu cachorro é Hulk?
Tenho que controlar uma súbita vontade de rir enquanto me aproximo dele.
— Não fique ofendido. Encare como uma homenagem.
Bruce não diz nada. Apenas me encara de um jeito indecifrável. Imagino que ainda está intrigado com a escolha do nome do animal, mas na verdade é outra coisa que parece ter chamado a sua atenção. Eu não havia percebido até esse instante, mas ao invés de lhe entregar a toalha e me afastar, como seria o óbvio, comecei eu mesma a enxugá-lo com cuidado. Quase ritualmente. Sentindo um prazer natural em cuidar dele.
Claro que ao perceber a gafe, paro de imediato. Uma mistura de ansiedade e atração fazem minha respiração oscilar, enquanto retribuo o olhar intenso sem conseguir esconder o quanto essa proximidade mexe comigo.
Meu coração acelera mais uma vez sob o efeito apaixonante que Bruce Banner exerce em mim. E, de alguma forma, sei que também estou exercendo alguma influência nele. Bruce parece tenso e hipnotizado ao mesmo tempo.
— Eu vou pegar uma camisa do Josh pra você — anuncio, ciente de que é falta de educação encarar alguém por tanto tempo assim, mas sem conseguir evitar. — Deve servir.
— Ok — Bruce sibila, ainda me encarando do mesmo jeito.
Talvez esse olhar, talvez o que sinto e tentei aprisionar e esquecer durante um ano, talvez as duas coisas. O fato é que não me movi um centímetro até agora. Para ser bem sincera, é como se minhas pernas tivessem congelado no mesmo lugar ou meus pés tivessem sido colados no chão. Cada parte de mim protesta contra a ideia de deixá-lo.
— Assim que eu conseguir me afastar de você — esclareço, brincando com minha própria incapacidade de fazer isso no momento.
Para minha surpresa, Bruce entra no jogo, replicando baixinho, mas cheio de uma convicção que eu desconhecia:
— Não tenha pressa.
Não consigo evitar uma pergunta que vem à minha mente ao comparar sua postura agora com a estrada pedregosa que percorremos até aqui, com pequenos avanços e cheia de grandes recuos e desvios.
— Desde quando você responde os meus flertes, Bruce?
Um sorriso tímido surge em seu rosto.
— Aparentemente, desde hoje.
Reflito mais uma vez. Não posso negar que é bom ouvir isso. Tampouco negar o quanto fiquei feliz por Bruce ter dado um passo importante, por termos saído e nos aproximado mais. Nunca me senti tão conectada assim a alguém. Nunca foi tão natural e incrivelmente bom estar perto desse alguém. Por outro lado, também é impossível não desconfiar um pouquinho das suas intenções e dessa onda de sorte que me surpreendeu hoje.
E se Bruce mudar de ideia daqui a dois minutos? E se algo acontecer e ele desaparecer de novo? E se ele não tiver a mínima noção do que realmente sinto? E se pensar que, por não ser algo forte como é, eu vou dar a volta por cima no final? E se o meu jeito aparentemente descompromissado lhe deu todas essas ideias erradas?
A possibilidade de que alguma dessas sentenças tenha passado pela sua cabeça faz um alerta de autopreservação se acender dentro de mim.
Por mais que a noite tenha sido ótima até aqui, percebo que um momento bom não é suficiente para apagar o passado mal resolvido. Preciso ter certeza de que Bruce não pretende me machucar, mesmo sem querer como acho que seria num cenário assim.
— Você acha divertido brincar comigo, não é? — digo por fim, sondando seu rosto em busca de qualquer sinal que desminta a sensação incômoda e de insegurança que me abateu.
O sinal vem através do seu olhar ofendido e confuso. E também em suas palavras pausadas e aparentemente sinceras:
— Eu não estou brincando com você, Amelia. Eu sei que te magoei e sinto muito por isso, de verdade. Me desculpe. Por tudo. Se eu pudesse voltar no tempo...
— Teria feito a mesma coisa — interrompo seu discurso, soando mais ríspida do que gostaria.
Minha acusação direta lhe causa um inegável choque. Bruce até se esforça para abrir a boca e desmenti-la, entretanto desiste no instante seguinte e olha de maneira resignada para a toalha em suas mãos.
Eu não queria estragar a noite trazendo esse assunto à tona de novo. Pensei que o passado já estava morto e enterrado, que eu e o homem complicado diante de mim já tínhamos discutido à exaustão. Imaginei que o tempo se encarregaria do resto, que eu esqueceria que ele desapareceu por um ano.
Agora percebo que não é bem assim. Ainda estou magoada com Bruce. Ainda não lhe disse tudo. Minha intenção não é brigar, longe disso, mas tenho que deixar claro como me senti e como me sinto agora.
É com esse propósito que mantenho a calma sei lá como e exponho devagar:
— Tudo bem. Você precisava daquilo, se afastar, desaparecer, do seu tempo recluso. Eu te odeio por ter ido embora, Bruce, mas a verdade é que também consigo te entender. E então eu me odeio por te entender. Faz algum sentido?
— Não sei. — Ele parece zonzo ao tentar acompanhar meu raciocínio. — Mas com certeza a sua compreensão é bem mais do que eu mereço.
Esqueço a calma que consegui manter até aqui quando ele reconhece algo tão elementar e perco um pouco as estribeiras ao retrucar:
— Ah! Sem dúvida! Você tem muita sorte! Fique sabendo que eu não sou boazinha assim com todo mundo!
Bruce une as sobrancelhas e me observa com um sorriso contido. Parece querer rir do meu jeito estourado, porém deve constatar que não é uma boa ideia brincar com fogo. Deve ter captado a seriedade de tudo que eu disse até aqui.
De qualquer forma, procuro me recompor. Expiro com força e conto até dez em minha mente. Organizo os pensamentos e percebo que de nada adianta remoer o que, de fato, passou. Tenho que olhar para frente. Mas tenho que saber se posso olhar, se estou vendo algo real ou apenas uma miragem.
Por incrível que pareça, estou bem mais tranquila quando dou de ombros e pontuo:
— Eu só quero saber qual é a sua. O que você quer?
E, por incrível que pareça, Bruce soa muito resoluto e franco quando responde com os olhos doces cravados nos meus:
— Eu quero o que não posso ter. E quero mesmo assim. Quero cada vez mais. — Ele faz uma breve pausa. Quase penso que vai voltar atrás, mas então arremata com um peso especial: — Eu não consigo mais dizer pra mim mesmo que não quero você, Amelia. Muito menos que não posso te ter. E isso? Faz algum sentido?
Respirar se torna estranhamente difícil nesse momento. Para piorar, minha garganta fica seca como o deserto do Saara, minhas bochechas parecem pegar fogo de tão quentes, minhas mãos suam como se eu tivesse corrido uma maratona.
Não sabia que simples palavras pudessem causar uma reação química tão esquisita no meu corpo. Mas não tem nada de simples no que Bruce me disse, na verdade. E não é novidade alguma que meu corpo, meu coração, tudo em mim reage de um jeito intenso e diferente quando se trata dele. Ainda mais agora, quando a desconfiança que senti perde força e importância até se reduzir a nada.
Nesse instante decisivo, acredito em Bruce. E ao confiar nele, consigo deixar meu medo para trás e voltar a viver o momento. Não é uma miragem.
De repente, sou eu mesma de novo. Cheia de coragem e atrevimento, dou um passo à frente e toco seu rosto. O calor da sua pele se espalha em meus dedos. Encaro os olhos apreensivos por um instante. Fecho os meus e beijo seus lábios com um selinho demorado e carinhoso.
Não sei onde consigo controle para me afastar alguns centímetros logo depois, pois tenho que dizer uma última coisa.
— Você pode ter o que quiser, Bruce. Só precisa pegar.
Ele me encara com seriedade por um instante. Olha para a toalha e a deixa sobre o sofá do nosso lado logo depois. No momento seguinte, as mãos totalmente livres alcançam meu rosto e Bruce avança num claro rompante de coragem e rendição, mediante o incentivo que recebeu. De repente, sua boca encontra a minha mais uma vez. Fecho os olhos por puro instinto.
Então seu beijo pressiona e envolve meus lábios de um jeito gentil, cheio de ternura e veneração. Ainda assim, com um ardor desconcertante, movido por um desejo reprimido finalmente liberto e que ganha força.
Bruce se entrega. E eu o recebo de coração aberto.
Agarro-me a sua camisa, o desejando mais e mais perto de mim a cada segundo. Depois resolvo jogar os braços no seu pescoço mesmo para facilitar a proximidade ideal e o encaixe perfeito.
Fervor e ternura. Tímido e marcante. Calor e arrepio. Carinhoso e profundo. Bruce me envolve com seu beijo urgente e sem pressa. E eu correspondo à altura porque não tenho escolha. Mergulho nessa dualidade contraditória, quente e prazerosa sem pensar em mais nada.
Mãos alcançam minha cintura, causando um arrepio vibrante que me subjuga ainda mais. Não tenho mais controle de coisa alguma nessa história. E não me importo com isso. Nem um pouco. Tudo o que sei é tudo o que sinto. E é só isso que importa de verdade.
Minhas pernas fraquejam. O coração dispara num ritmo inconcebível de paixão. Eu mal consigo respirar contra o rosto que me esmaga sem perceber.
Não que eu precise mesmo de oxigênio. Quem precisa? Coisa mais desnecessária...
As roupas molhadas de Bruce e as minhas parecem não existir nesse mágico e envolvente momento. Tudo o que sinto com meu corpo junto ao seu agora é um calor crescente, aconchegante e, sem dúvida, muito lascivo me dominando com fúria e torpor.
Em dado momento do tempo que simplesmente parou de transcorrer, mordo seu lábio com uma punição indireta e exijo sem fôlego:
— Nunca mais desapareça... Nunca mais pense em ir embora... Eu acabo com você, Bruce Banner. Te trago de volta... nem que seja arrastado pelo cabelo.
Ele acaricia meu rosto. Cola a testa na minha ainda de olhos fechados. Tenho a impressão que sorri quando responde em tom afirmativo:
— Nunca mais.
Guardo sua promessa e parto para mais um beijo. Uma nova onda de euforia nos envolve com mais força e calor dessa vez. Perdemos o controle de novo. E de novo é maravilhoso.
Tudo estaria perfeito se Bruce não mudasse de repente. Da água para o vinho. Ele diminui o ritmo de forma abrupta, parecendo tenso com alguma coisa.
Deslizo as mãos por seu pescoço, numa tentativa de manter o contato e aprofundar o beijo que estava tão delicioso, ao mesmo tempo em que procuro os botões da camisa a fim de livrá-lo da peça logo. Mas quando noto que suas veias estão mais saltadas, desisto por ora e abro os olhos.
Elas estão incrivelmente verdes também. Mais do que seria o normal em uma pessoa normal. Exibem o mesmo tom perigoso que, apesar da fraca iluminação na sala, consigo enxergar nas íris em pânico que me encaram de volta.
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