A Bela, o Outro Cara & Eu
31 Algo não faz sentido
Notas iniciais
Não consigo dormir. Por mais que eu tente me desligar e assim permitir que o sono me encontre, minha mente está em constante alerta, num estado de agitação impossível de controlar.
Ainda não acredito que estive com o General Ross hoje, depois de tantos anos, depois de tudo. Mesmo que não tenha sido pessoalmente, e sim por meio de uma videoconferência.
Ele estava lá, espectral, como um fantasma me assombrando, um holograma no meio da sala de reunião da Torre, diante de mim e dos outros Vingadores. E, apesar da tensão do reencontro, o resto foi estranhamente... normal.
Isso é uma das coisas que está me tirando o sono agora. Ross se comportou de maneira normal comigo. Ou pelo menos bem razoável, tendo em vista nosso passado tumultuoso e o presente ditado pelo seu misterioso plano de vingança.
Ele me tratou exatamente como se dirigiu aos outros, apenas como o seco e firme Secretário de Segurança Nacional. Alguém que está indignado pelo fiasco da missão Ossos Cruzados e sendo o portador de uma péssima notícia, mas apenas isso. Não me pareceu nada pessoal.
Mesmo quando ele formalizou a péssima notícia para Tony, enviando a este um arquivo intitulado Tratado de Sokovia, não me pareceu parte de um plano maligno para me atingir. Só uma consequência que, no fundo, já estávamos esperando depois da vasta cobertura na mídia sobre os efeitos colaterais de nossas ações pelo mundo.
O acordo é uma reação da ONU em conjunto com diversos países, incluindo os Estados Unidos. E não se dirige apenas ao Hulk, mas a todos os Vingadores.
Eu não consigo entender se Ross está se aproveitando da situação, se é muito dissimulado para isso ou se Kurt Lockwood mentiu sobre o homem que o contratou para me rastrear. Só sei que algo não faz sentido nessa história. E me irrita não saber o quê.
Volto ao passado, tentando entender o presente...
Antes de hoje, a última vez que nos vimos foi durante a batalha contra o Abominável, no Harlem, há muitos anos. Um pouco antes, Ross vinha me perseguindo de forma implacável com o intuito de me capturar, dissecar, usar como arma e possivelmente recriar o soro do supersoldado usando a radiação Gama presente em cada molécula do meu corpo.
Ao mesmo tempo, queria se vingar pessoalmente já que, durante a explosão de radiação Gama que deu origem ao Hulk, Betty ficou gravemente ferida. Quando ela se recuperou e descobriu que o pai me mandou embora, cortou relações com ele por um bom tempo.
Apesar do passado conturbado, uma parte de mim acreditava que havíamos superado nossas diferenças naquela noite no Harlem. Porque, no fim, o Hulk lutou contra o Abominável, venceu e Ross nunca mais me importunou.
Achei que tínhamos um acordo silencioso, uma espécie de trégua, pois derrotei o segundo monstro criado por ele, que Ross não pôde controlar por si mesmo. Naquela noite, eu salvei a vida do desgraçado, além de Betty. Nem mesmo um homem como ele poderia ignorar que estava em dívida comigo.
Então, há poucos dias, o ex-namorado de Amelia contou que Ross o incumbiu de hacker meu celular. Eu e a S.H.I.E.L.D. deduzimos que foi Ross quem plantou aquelas bombas em Nova York e o gás venenoso para me atingir. A trégua entre nós não existia afinal.
Só que agora, depois de revê-lo... Não sei, não tenho mais tanta certeza de que estamos no caminho certo. Talvez Ross não seja dissimulado, talvez não esteja se aproveitando da situação, talvez ele... não seja o inimigo que está me caçando.
Ou, o mais provável, talvez eu esteja sendo muito ingênuo e ele seja sim pior do que imaginei.
O ruído da maçaneta girando me desperta desses pensamentos.
O quarto é momentaneamente iluminado pela luz suave do corredor quando alguém entra. Assim que a porta é fechada, apenas as luzes de Nova York lá fora e da Lua fazem esse papel, através de uma brecha nas cortinas.
Pé ante pé, ouço Amelia se aproximar da cama. Ela ergue a ponta do cobertor com cautela, pensando que estou dormindo, e deita colada nas minhas costas. Um cheiro leve de sabonete pairando no ar. Ela suspira, enterrando o rosto no meu ombro.
Sem me mover, checo o horário no relógio digital sobre o criado-mudo. Passa das cinco da madrugada. Amelia deve ter voltado da boate há pouco tempo e tomado um banho antes de se espreitar até o meu quarto.
Às vezes, ela faz isso no meio da noite. Com bem mais frequência, eu vou até o dela. Nenhum de nós reclama.
A ideia do casamento e de termos um único quarto, nosso, me faz sorrir apesar do dia ter sido tão difícil. E agora me dou conta de que foi ontem, na verdade.
Quando Amelia tenta me abraçar, mas hesita ainda imaginando que estou dormindo, decido dizer alguma coisa:
— Você chegou tarde.
Mais tranquila, ela passa um braço pelo meu abdômen e se cola mais um pouco ao meu corpo.
— Ou muito cedo. Tudo é relativo, Dr. Banner.
Mesmo com o tom divertido, capto o cansaço em sua voz. Viro-me, ficando de frente para ela. Os olhos estão fechados, porém sei que ainda não foi vencida totalmente pelo sono. O cabelo, um pouco úmido do banho recente.
Deslizo o indicador pela lateral do seu rosto.
— Tudo bem no Inferno?
Ela abre os olhos e um sorriso surge. Meu coração reage de imediato.
— Essa pergunta ficou engraçada. Tudo bem, sim. Depois te conto tudo. Lúcifer mandou lembranças. E você? Como foi a reunião?
Nada me deixaria mais aliviado do que dividir os últimos acontecimentos com Amelia agora. Entretanto, ao constatar que ela está mesmo exausta da jornada de trabalho, esboço um meio sorriso para tranquilizá-la e digo:
— Depois te conto tudo também.
Geralmente, ela teria captado a preocupação em minha voz e não se daria por satisfeita até que ouvisse o motivo que a originou. Mas, hoje, Amelia apenas assente com um meneio de cabeça e suas pálpebras pesam, fechando-se um segundo depois.
Trago-a para mais perto de mim e dou um beijo carinhoso em sua testa. Ela respira fundo e, logo, de forma cadenciada. Uma das mãos sobre o meu peito. Uma das pernas enroscada em mim. Meu lar.
Enquanto ela dorme profundamente, fico olhando para o teto e volto a remoer tudo.
Quando os primeiros raios de sol começam a iluminar o quarto, ainda não sei o que pensar sobre Ross. Mas ao menos sei o que decidir sobre o Tratado de Sokovia quando chegar a hora.
Com Amelia nos meus braços, não é tão difícil perceber que só tenho uma escolha possível.
Mas não se trata apenas dela e do futuro que queremos construir juntos. Mesmo se não houvesse nada disso na minha vida, eu não poderia assinar o Tratado de Sokovia. Não quando Ross é o Secretário de Segurança Nacional, responsável por fazer o documento vigorar e por tomar medidas caso ele seja burlado.
Também não posso deixar que o Hulk aja por conta própria de agora em diante, é muito arriscado. Posso parar numa prisão embaixo do oceano, se isso acontecer. Prisão controlada por — adivinhem só! — Thaddeus Ross também.
Mesmo que ele não seja o inimigo que estou procurando, nunca seremos amigos tampouco. Nunca confiarei nele.
Não posso mais ser um Vingador. Nem sob a lei, nem acima dela. É por isso que só resta uma escolha possível.
O Hulk, o Gigante Esmeralda, precisa se aposentar. Para sempre.
E eu tenho que me esforçar para mantê-lo assim, enquanto apenas eu, Bruce Banner, o Cientista, existir.
Horas depois
— Eu não acredito que você e o Ross se encontraram! — Amelia diz, recostada à cabeceira da cama, visivelmente perplexa com tudo que lhe contei tão logo me bombardeou de perguntas ao acordar.
O relógio ao seu lado marca meio-dia agora. Levantei bem mais cedo, tomei um banho, me forcei a comer alguma coisa e, enquanto zanzava pela Torre, esperei que ela despertasse para conversarmos sobre os últimos acontecimentos. Fingi não ouvir uma discussão entre Steve e Tony, os dois parecem ter visões conflitantes quanto à assinatura do Tratado de Sokovia.
— Não foi pessoalmente, era um holograma.
— Mesmo assim. Era Ross, em tempo real, um fantasma só que vivo. Eu odeio esse cara. — A indignação cresce em sua voz e ela segura um travesseiro com força sobre o colo. — Se eu soubesse que a reunião tinha sido com esse demônio, teria ficado com você ontem à noite, Bruce. Por que não me disse nada? Eu teria cancelado com o Danny na mesma hora.
Esboço um sorriso fraco e seguro sua mão.
— E teria sido injusto. Você precisava de distanciamento, tinha compromisso e eu mesmo também precisava pensar. Além disso, você entendeu o que eu disse? Sobre Ross ter sido até razoável comigo?
— Razoável? — ela repete com um sentimento de descrença tangível. — Ele quer a sua assinatura num maldito papel, Bruce! Quer te controlar, possivelmente usar o Hulk sabe-se lá pra quê! Se ele encostar um dedo em você ou no Verdão, eu juro que...
Entrelaço seus dedos com uma força gentil, e Amelia deixa as palavras no ar acariciando minha mão em resposta. Embora lisonjeado por ela querer zelar assim pela minha segurança e do Outro Cara, no fundo sua ameaça me diverte. Entrar numa briga para defender nós dois, mesmo sendo apenas humana, é algo que só Amelia Prescott se atreveria a fazer.
— Nós ficaremos bem, não se preocupe. E corrigindo, Ross quer a assinatura de todos os Vingadores, não só a minha. O Tratado de Sokovia é uma consequência de uma série de eventos que terminou com a missão do Cap ontem, não tem a ver só comigo.
Ela pensa um pouco. Está mais calma quando volta a se manifestar:
— Claramente uma jogada de mestre. Ross está se aproveitando da situação. Assim ele não levanta suspeitas e ainda neutraliza todos aqueles que poderiam te ajudar no futuro.
— É... eu pensei nisso também.
Amelia me encara em dúvida, parecendo muito surpresa ao absorver meu comentário.
— E descartou a ideia? Eu não estou te entendendo, Bruce. Você está defendendo ele?
— Nem de longe. Só tentando enxergar além do óbvio. Talvez não seja Ross por trás dessa história. Talvez Lockwood tenha mentido ao acusá-lo. Talvez esteja protegendo outra pessoa. Você acha possível?
— Kurt mentindo? — Ela ri sem o menor humor. — Sim, totalmente possível. Para proteger alguém? Só a si mesmo porque deve ter muito medo dessa pessoa.
Amelia fica um pouco distante enquanto avalia a possibilidade. Depois, torna a olhar para mim com um olhar preocupado:
— Se for isso, o seu inimigo é alguém ainda mais poderoso e influente. E nós estamos no escuro de novo. Quem poderia ser? Pense.
Faço exatamente isso. Penso. Assim como venho pensando desde ontem, quando o reencontro com Ross plantou na minha mente a dúvida do seu real envolvimento nessa história. E de novo não chego a nenhum novo nome.
— Não existe mais ninguém que quisesse me atingir tanto. Eu não consigo pensar em outra pessoa.
Amelia balança a cabeça e leva o indicador ao queixo, concentrada.
— Não, você só não consegue se lembrar dessa pessoa, é diferente. Se não é o Ross, tem que ser outra pessoa. Logo, esse alguém existe sim.
Sei que o assunto é sério e admito que suas palavras fazem sentido, porém o jeito como se expressa me diverte mais uma vez e acabo brincando:
— Muito perspicaz, Sherlock.
Amelia faz uma careta e retoma o foco:
— Talvez seja alguém que você não chegou a conhecer de fato, mas que conhece você porque foi atingido de alguma forma pelo Hulk e agora quer vingança. E a HYDRA? Você disse que teve uns pesadelos com a base dela em Sokovia.
Sim, há várias noites — isso quando consigo dormir — sou transportado para aquele dia, quando recuperamos o Cetro de Loki, rendemos o Barão von Strucker e prendemos seus seguidores.
— Eu não sei se tem algum significado. É um flashback, o Hulk lutando ao lado dos outros Vingadores, esmagando os bunkers do inimigo, lançando os soldados pela neve e só. É uma memória, tenho certeza, só não tenho ideia por que fica se repetindo.
— Pode ser uma pista, uma mensagem do Hulk. E se ele não consegue ser mais específico, eu conheço alguém que pode ajudar a esclarecer o enigma.
Demoro a compreender o que exatamente Amelia quis insinuar com isso. E não consigo esconder certo choque ao finalmente adivinhar.
— Você está sugerindo que eu deixe a Wanda ler a minha mente?
Ela dá de ombros e sorri amarelo.
— O mundo dá voltas, eu sei. Depois de ontem, eu meio que... passei a confiar nela. Até a gostar, só não conta pra ninguém.
Fico feliz ao tomar conhecimento disso. Sei que Amelia nutria certo ressentimento pela Feiticeira Escarlate ter mexido com meus piores medos, justamente durante os eventos de Ultron, levando o Hulk ao completo descontrole. Isso foi um fator determinante para que eu fosse embora no final da batalha, desaparecendo por um ano. É bom saber que ela virou essa página porque eu mesmo já virei há muito tempo. Wanda se arrependeu daquilo e já provou o seu valor. Ela se redimiu comigo tão logo abandonou Ultron e se juntou aos Vingadores.
Por tudo isso, até aceitaria a sugestão de Amelia na esperança de que funcionasse. Porém, em virtude do que Wanda passou há menos de vinte e quatro horas...
— Eu não acho que ela esteja em condições de ajudar alguém no momento.
Amelia sorri, arqueando uma sobrancelha, e aconselha:
— Não subestime aquela garota, ela é mais forte do que você pensa. — Depois, respira fundo e percorre meu rosto com a ponta dos dedos. — De qualquer forma, a cabeça é sua, Bruce, portanto, a escolha também. Só pense a respeito. — Ela me encara de um jeito mais firme e com certa expectativa. — Por falar em escolhas...
Amelia não precisa terminar a pergunta, leio em seus olhos.
— Eu não vou assinar.
Seus ombros relaxam e ela respira com alívio. Acho que no fundo, já sabia que eu não poderia fazer parte disso, mas queria ter a confirmação.
— Imaginei. Por causa do Ross?
— Também. Por mim principalmente. E por você. Nós ainda temos aquele futuro para construir juntos, lembra? — Seguro sua mão de novo, beijo a palma e mantenho-a junto ao meu rosto. — Entre o Hulk e a minha liberdade, entre ele e a minha felicidade com você, só existe um caminho possível agora. Acredite, é uma forma de proteger o Hulk também.
Amelia dá um sorriso fraco antes de me abraçar com força.
— Eu entendo. E apoio a sua decisão, Bruce, de verdade. — Depois de se afastar e reencontrar meus olhos, ela acrescenta: — Mesmo assim, é triste saber que você nunca mais poderá ser ele. O Hulk ainda poderia fazer tanto bem, ajudar tantas pessoas, lutar tantas batalhas como o Vingador mais forte que é, esmagar tanto e... estão tirando isso dele. Não é justo.
— Não, não é — concordo de imediato, com desânimo também. — Eu gostaria que fosse diferente, que existisse uma forma de continuar como Vingador e Bruce Banner. Só que não há. É como se não existisse mais espaço para o Hulk na Terra.
— Quer saber? Ele merecia um planeta melhor do que esse.
A ideia me faz sorrir e fico curioso.
— E como seria esse lugar?
Amelia comprime os lábios, pensando, também parece se divertir ao imaginar o tal cenário.
— Seria... — Ela se deita na cama e apoia a cabeça no meu colo. — Bom, um planeta onde o Hulk fosse admirado por todos e aplaudido de pé a cada vez que esmagasse alguma coisa.
Franzo o cenho.
— Pra mim parece um planeta um tanto caótico.
Amelia ri, concordando, e fecha os olhos.
Enquanto faço um carinho suave nos seus cabelos — e apesar dos últimos acontecimentos, sinto-me leve e feliz nesse momento —, conto a ela algo que, no fundo, já deve saber:
— Além disso, o Hulk gosta daqui. Muito. Eu posso sentir. Quase chego a ficar com ciúme quando me pergunto o motivo.
Ela abre os olhos e me encara de um jeito enternecedor. Um olhar não só direcionado a mim, mas ao Outro Cara também. Um olhar que, de alguma forma, sei que chega até ele.
Eis o motivo.
Ainda me olhando desse jeito, ela sussurra como um segredo:
— Eu amo os dois.
Um riso me vence diante do tom de confissão, mas estou incrivelmente sério quando retribuo:
— Os dois amam você.
Ficamos assim por mais algum tempo, até que Amelia me conta sobre o trabalho de barman na boate ontem.
Ela claramente gostou de relembrar a experiência no preparo de drinks e se divertiu, mas acaba revelando algo que roubou um pouco do brilho da noite. Ao que parece, o lugar está enfrentando dificuldades financeiras por conta de má administração. Apesar de ter recebido oferta de emprego efetivo, ninguém sabe exatamente por quanto tempo mais a boate irá funcionar.
— Então o Inferno corre o risco de fechar as portas? Para onde os demônios irão se isso acontecer?
Amelia abre um sorriso que, juro, eleva meus batimentos no mesmo instante, é como um salto num precipício.
— Você acabou de fazer mais uma piada sobre isso, Dr. Banner?
— Eu gosto do nome do lugar — admito. — E do lugar em si porque foi lá que te vi pela primeira vez, como Bruce ao menos. Você parecia um anjo.
Amelia me lança um olhar carinhoso. Depois, pega minha mão que ainda estava nos seus cabelos e dá um beijo nela. Meu coração acelera mais um pouco.
De repente, algo cintila nos seus olhos. Uma chama misteriosa.
— Sabe de uma coisa? Eu preciso de um bom banho para começar o dia.
Pego de surpresa com a interrupção, faço menção de me afastar, para que ela possa levantar da cama e ir até o banheiro.
— Me acompanha? — Amelia propõe direta, e enfim entendo a chama que vi arder nos seus olhos.
Posso ter sete doutorados, mas meu raciocínio se mostra muito lento às vezes. Principalmente quando ela está envolvida na equação. Rio de mim mesmo antes de dar a única resposta possível:
— Você sabe que sim. Sempre.
Acho que não preciso dizer que eu e Amelia não tomamos banho exatamente, mas é bem revigorante.
Por um momento, me dou ao luxo de esquecer as preocupações. Não, minto. Não preciso fingir que os problemas não existem, porque agora eles simplesmente evaporam como mágica ou ficam em suspenso em algum mundo paralelo. Enquanto estou nos braços dela, e ela nos meus, é como se nada mais existisse ou importasse. Clichê, eu sei, mas muito verdadeiro.
Sei que não podemos ficar assim para sempre, mas fazemos cada minuto valer a pena como se fosse.
E então, inevitavelmente, voltamos à realidade.
***
Eu só não esperava que uma nova tempestade fosse se formar tão depressa. E que toda a equipe fosse se ver diante de um novo baque, sendo que mal tínhamos nos recuperado do último.
Acontece enquanto eu formalizo para Tony que, ao contrário da dele, o Tratado de Sokovia não terá mesmo minha assinatura e que estou ciente das implicâncias da decisão, resolvido a aposentar o Hulk.
Todos estão na sala nesse momento, exceto Amelia que iria ligar para Josh. É quando a inteligência artificial Sexta-Feira comunica que uma explosão do outro lado do oceano sacudiu Viena, na Áustria.
Uma tela é projetada por Tony e, sob o olhar atento de todos os Vingadores, tomamos ciência do ocorrido através de uma ampla cobertura da mídia.
O prédio onde uma conferência da ONU era realizada — o Tratado de Sokovia, um dos principais temas abordados, foi ratificado —, foi atingido por uma bomba. Entre muitos feridos e muito caos, um homem deu seu último suspiro. O rei T'Chaka, de uma nação africana pouco conhecida, Wakanda.
O pior vem a seguir. No meio da cobertura, é revelado que imagens de câmeras de segurança registraram o responsável pelo ataque em ação. O antigo sargento James “Bucky” Barnes, ou Soldado Invernal.
Uma rápida olhada para Steve, tenso do outro lado da sala, e percebo que a tempestade acabou de ganhar um elemento catastrófico a mais: a lealdade por um velho amigo.
Nesse momento, sei que o Capitão também não assinará o acordo, algo que ele já vinha dando indícios desde ontem. Algo me diz que ele estará ocupado demais indo atrás de Bucky. Fará de tudo para encontrá-lo, entender o que aconteceu, salvá-lo nem que seja de si mesmo. Ainda que isso o coloque em conflito com a Lei.
E, consequentemente, com o Homem de Ferro também.
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