A Bela e a Fera - Livro 1

6 Capítulo 5: Caminhos que se cruzam - parte 2


[P.O.V. Bela]

Eu estava refugiada na cozinha. Se eu possuía alguma chance contra meu perseguidor, era ao lado de um fogão e gavetas lotadas de talheres afiados. O próprio líder do lugar me chamava para ficar e encolhi-me em um dos poucos cantos daquele lugar.

Não demorou muito em minutos marcados, mas para mim era uma eternidade estar ali. “Bela?” ouvi uma voz baixa e discreta do fogão que eu não conhecia dirigir-se a mim e ouvi pegadas firmes e pesadas se aproximarem. Tremi um pouco, mas levantei-me para entender o que acontecia. Fui em direção à porta junto com os objetos-amigos e como um solavanco, correram em direção à cena. Agradeci à cozinha pela ajuda antes de segui-los.

Chegando ao salão principal, vi-o no chão e um grande monstro de pedra seguindo adiante pelas escadas. Madame Samovar já dava algumas ordens e seu carrinho correu dali para obedecê-la. Sem saber muito como agir, me aproximei olhando a criatura caída que acabara de me salvar. Culpa, pena e nervoso me tomaram... até que nossos olhos se encontraram pela segunda vez em todo aquele tempo.Estava claramente sentindo muita dor.

Aproximei-me em frente ao seu rosto, atrevendo-me a tocar seu ombro. “Você vai ficar bem. Eu vou cuidar de você.” Tentei dizer com a voz mais amorosa possível. Ouvi algo que estava entre um bufar e um murmúrio, mas os olhos fecharam-se em aceitação.

“Madame, por favor, me traga uma bacia de água gelada não filtrada e seu pote de sal marinho de cozinha.” Ela concordou, indo providenciar o que eu pedia e mais algumas coisas, mesmo sem entender perfeitamente meus motivos. Olhei o corpo com cuidado, encontrando os ferimentos; ombro direito, coxa direita, barriga, costas e focinho. Não seria rápido ou fácil.

Logo que Madame chegou junto aos outros, agradeci, trazendo a bacia e o sal para perto. Fiz a mistura com paciência e deixei perto, voltando, primeiramente, para os outros materiais a fim de limpar as feridas.

Assim que tudo estava limpo e desinfetado, claramente visível à minha frente, larguei a toalha e pus as mãos com cuidado na bacia, fechando os olhos por um momento. Até ele observava como podia. As células da pele agitaram-se, em mutação. A cor mudou do branco humano para um levemente acinzentado, os dedos ficaram mais compridos e firmes, finas membranas unindo-os, sem retirar os movimentos. Os olhos dos objetos arregalaram-se e o queixo de Horloge caiu. Eu nada disse.

“Isso pode arder um pouco...” falei baixo e gentil a ele. Foquei o olhar na ferida que tocava, repetindo o processo em cada uma delas. Para quem olhava, nada estava acontecendo, mas a criatura poderia sentir. As feridas fechavam-se aos poucos, comigo lavando as mãos e colocando-as no sal a cada vez que mudava o local de foco. Cada uma delas ia fechando-se completamente, mesmo que a pele, no final, ficasse ainda sensível e sem a camada de pelos. Este último processo dependeria de seu próprio organismo. Estava fora das minhas capacidades. Limpei para retirar o sal dos lugares, enfaixando seu corpo com sua ajuda.

Quando conseguiu mover-se, sua poltrona grande veio rápido ao nosso encontro e ele conseguiu sentar-se, soltando um suspiro. Continuamos no mesmo luar, mas ele já estava melhor, com um olhar mais consciente.

“Onde ele está?” perguntei em voz alta, olhando para cima das escadas. Após a adrenalina de curar, meu cérebro permitiu-se pensar e perguntar por meu perseguidor que já demorava demais a aparecer.

Os objetos trocaram olharem silenciosos e preocupados como se já soubessem a resposta. Esperei que me dissessem, mas apenas baixaram os olhos tristes, Lumière retirando seu “chapeuzinho”. Levei as mãos – já que começavam o processo de volta para a forma humana – à boca para abafar meu espanto e não consegui conter um choro silencioso. Tapei, assim, os olhos, sofrendo o mais quieta possível. Os objetos continuaram ali comigo como em um luto compartilhado. Pareciam entender que querer me livrar dele era diferente de achar sua morte algo positivo.

“Eu sinto muito...” ouvi a voz rouca do dono do castelo sentida para mim. Demorei um pouco para conseguir controlar as lágrimas para olhá-lo mais uma vez. Assenti a ele para responder, mesmo que nada mais conseguisse sair de mim naquele momento.

O que eu havia acabado de viver? Eu só queria que ele fosse embora e eu pudesse viver em paz, encontrando a felicidade em alguém que não quisesse me desposar em menos de dois dias. Desejava conhecer o amor... e que ele também conhecesse. Não consegui fazer nada por um tempo e meus amigos respeitaram. Apenas os vi se retirando, sem saber se haviam sido ordenados a isso ou foram resolver outras coisas.

Um silêncio ainda mais forte pairou no ar, apenas entrecortado pelo barulho das chamas da lareira.

[P.O.V. Fera]

Não compreendi quando fui deixado ali, e não tinha condições de questionar ou protestar. Senti seu cheiro e ouvi sua aproximação antes de vê-la. Aquilo estava bem longe do que gostaria para nosso segundo contato. Quando se ofereceu para me ajudar, só pude consentir; eu precisava desesperadamente de ajuda.

A limpeza dos ferimentos foi dolorosa, apesar da infinita delicadeza com que a fazia. Sei que mal sentiria seu toque se a pele estivesse saudável. Consegui me manter imóvel com enorme esforço, mas não podia evitar alguma tensão nos músculos,e virei a cara para longe o quanto pude, para não parecer que minhas caretas fossem uma ameaça para ela. Não tive sucesso quando veio limpar meu focinho, mas Bela parecia indiferente às minhas expressões, concentrada apenas na tarefa.

Fiquei observando o que pretendia com a mistura de água salgada, não muito seguro, e fiquei bastante surpreso quando vi sua pequena transformação, meu lado lógico tentando encaixar o entendimento da cena apesar de toda a situação. Ainda estava processando a visão quando o contato da mão gelada e do sal sobre o ferimento me distraiu, sem que eu conseguisse evitar um grunhido de dentes trincados daquela vez.

Para além da primeira dor, senti um formigamento crescente na região ferida e da área ao redor, que durou algum tempo. Quando retirou a mão, notei a pele fina que cobria a lesão já fechada, ainda delicada e sensível, mas com uma dor muito menor. Entendi que Bela estava me curando, sem que eu soubesse como o estava fazendo. Fiquei um tanto fascinado, acompanhando enquanto passava pacientemente de um local a outro, cada vez mais esquecido das dores iniciais e do tempo que passava. Foi especialmente estranho lidar com o formigamento no focinho, e fechei os olhos com força enquanto durou a aflição do “tratamento”.

Já estava conseguindo ficar sentado, e ajudei desajeitadamente enquanto me enfaixava. Rasguei quase todo o resto da perna da calça, já em boa parte destruída, para podermos enfaixar a coxa; me livraria do resto quando estivesse sozinho em meus aposentos. Eu fazia uma figura estranha, meio torto, as faixas atrapalhando os movimentos e cobrindo tufos de pelos, mas sentia um alívio enorme quando me acomodei na poltrona, suspirando.

Eu reunia coragem para lhe agradecer depois de alguns instantes quando Bela perguntou pelo homem que a perseguira. Fui pego desprevenido, sem saber como dar a notícia à moça que acabara de me tratar. Os servos do Castelo tampouco disseram qualquer coisa, mas suas expressões diziam que adivinhavam qual havia sido o destino de Gaston.

A tristeza da jovem me deixou desarmado, incapaz de adivinhar qual a extensão dos sentimentos que nutria pelo homem morto. Eu não sabia até então os detalhes da história, e o tamanho da dor que aquela cena violenta poderia ter causado. Embora quisesse protegê-la, teria ido longe demais?

Foi nesse espírito de confusão e culpa que as palavras “Eu sinto muito...” escaparam de minha boca, as primeiras que lhe dirigi, enquanto a via chorar sem saber como reagir. Quando conseguiu me olhar, vi por sua expressão que não me culpava... mas o nó em minha garganta não diminuiu. Não notei os demais se afastando silenciosamente, até que estivesse sozinho ali, com meu constrangimento.

“Não foi como eu esperava. Eu não o... matei.” Senti-me pressionado a dizer, de qualquer maneira. A última palavra foi especialmente difícil. “Ele caiu das masmorras, atirando. Foi um acidente. Tem a minha palavra. Eu... não sei mentir.” Completei, sem ter coragem de enganá-la.

“Não fique aí no chão! Vamos a algum lugar mais... confortável.” Foi o que consegui dizer, ainda nervoso, sem saber como lidar com seu silêncio, mas sem lhe dar muito tempo para responder. “E obrigado. Sou... muito grato pelo que fez. Por mim.”

[P.O.V. Bela]

Sua voz voltou a manifestar-se – para a minha surpresa. Tentei me acalmar, respirando fundo algumas vezes enquanto o olhava. Não sabia mentir? Senti que isso poderia querer dizer mais do que o óbvio, mas senti alguma satisfação por sua necessidade de me explicar o que acontecera.

“Por favor, não entenda mal meu choro.” Minha voz ainda saía um pouco sofrida, mas doce. “Além de não desejar nunca a morte de ninguém, eu me sinto um pouco culpada. Foi alguém que desejou me fazer o mal, mas se foi por minha causa...” dizia baixinho, torcendo para que a criatura percebesse que eu não a culpava.

Levantei-me rápido quando disse para eu não ficar no chão. Meus olhos aliviaram-se quando agradeceu. Mesmo um pouco sem jeito, assenti com um pequeno sorriso, olhando para baixo.

“Você precisa se alimentar para o corpo ter forças. Podemos tomar... um chá... naquela lareira com coisas bonitas?” mexi nas unhas, nervosa. Concordou à sua maneira e lhe dei, mesmo que sem querer, um sorriso mais animado. Queria deixar esvair aquele sentimento.

A poltrona começou a levá-lo para o local e eu corri novamente até a cozinha, colocando algumas coisas em uma bandeja grande para levar. Esforcei-me para apenas pegar objetos que não falavam. Cheguei o mais rapidamente que pude ao seu encontro. Arrumei as coisas como estava aprendendo na mesa e me sentei à sua frente.

“Antes... de tudo acontecer, o fogão estava me ensinando a fazer umas coisas. Madame também. Isso é tão... e isso é bolo... eu acho que é isso.” Acabei dando uma risadinha educada. “Experimenta! Não está ruim, eu prometo. Eles ajudam muito.” Cortei um pedaço grande para ele e o servi de chá.

Esperei-o começar a comer, mexendo novamente nas unhas, pensando em como dizer: “A propósito... obrigada também. Você salvou a minha vida e até mesmo se arriscou para isso. Obrigada.”

Tentava manter a calma. Queria poder conversar um pouco com ele, não perder a oportunidade, mesmo que delicado fosse aquele momento. Poderia aquilo ter nos aproximado um pouco de alguma forma? Resolvi arriscar por nós.

“Qual o seu nome?”

[P.O.V. Fera]

Vi em seus olhos que Bela acreditava em mim, e isso era tudo o que eu poderia pedir no momento. Se eu não tomasse cuidado, a culpa criaria raízes em mim, por isso tentei fazer de suas palavras minha absolvição. Concordei com a cabeça, seguindo para a sala indicada, sem esperar que seria ela mesma a me trazer os alimentos.

Depois de tanto tempo convivendo apenas com objetos encantados e servos do Castelo, não sabia me comportar diante de alguém... como ela. Sentia-me exposto, a sensação acentuada pelo fato de estar usando apenas os farrapos do que foi uma calça. Nervoso, enrolei a cauda ao redor das pernas e curvei o corpo, no intuito de não parecer tão grande. Não sabia se puxava os cabelos para trás ou se os deixava cobrindo minha expressão confusa.

“Obrigado.” Falei, quando os alimentos feitos por ela me foram servidos. Eu já estava com o pedaço de bolo na pata quando me passou pela mente que talheres existiam. Dei uma mordida pequena, não querendo mostrar mais dentes do que o necessário. Não estava tão doce, mas percebi que ela seguiu as instruções da cozinha com bastante cuidado. A massa fresca estava macia, saborosa e com um cheiro delicioso. “Está ótimo. Você... aprendeu bem. Obrigado.” Repeti, sem saber como continuar.

Ouvi seu agradecimento, ainda olhando para a comida, e os cantos de meus lábios se ergueram minimamente. “Agi por impulso. Não conseguiria ter agido de outra forma. Aquilo parecia errado.” Comentei, sem querer trazer de volta por muito tempo o assunto que ainda pesava sobre nós.

Senti sua insegurança também ao lidar com a situação, e mesmo assim reuniu coragem para perguntar meu nome. Ergui os olhos para encontrar os dela, baixando as orelhas em seguida, me mexendo desconfortável na poltrona. “Eu não... me lembro do meu nome. Na verdade, não me recordo de quase nada de antes de eu chegar ao Castelo, anos atrás. Os servos só me chamam de ‘amo’ e ‘senhor’, porque tampouco sabem. Há muito tempo só me considero a ‘Fera do Castelo’.” Foi tudo o que consegui responder, com sinceridade, sem mergulhar tão fundo na parte delicada de nossa situação.

“Os servos disseram que o chamam de Bela, mas que esse não é seu nome original.” comentei, sem conseguir lembrar-me de qual era o nome que ouvi apenas uma vez. Enquanto pegava desta vez o pão, também perfumado e com uma massa saborosa e leve, pensei de novo nos acontecimentos anteriores e na facilidade com que a jovem lidava com os elementos mágicos.

“Você é... uma sereia, não é?”

[P.O.V. Bela]

Acabei ficando feliz por ele ter gostado do que eu havia feito, mesmo não querendo demonstrar muito disso. Mas logo o cenho se franziu e eu não soube o que responder em primeiro momento. Isso devia ser horrível. Esquecer seu próprio nome. Mexi no cabelo, comovida, enquanto ele falava.

“Nossa!” exclamei com compaixão, mas ainda estava disposta a tentar fazer com que aquela primeira conversa não se resumisse a tristezas. Sabia como ele também se esforçava. “Ah, que coisa péssima! Ser chamado de Fera assim! A gente pode escolher um nome para você. Deve ter alguma coisa que ajude nisso! Qualquer coisa é melhor do que ficar carregando um peso desses.”

Eu já pensava em algumas opções possíveis que conhecia quando ele se dirigiu a mim novamente. Acabei dando uma risadinha. Eu não tinha me apresentado! “Meus queridos costumam me chamar assim. Como seus empregados são um amorzinho, é bom ser chamada assim por eles. Mas o meu nome mesmo é Artemísia. Artemísia Black.” Sorri mais doce. “Mas...” corei um pouco. “Se você também quiser me chamar de Bela...” desviei o olhar. Queria alguma intimidade com ele, se permitisse.

Peguei também um pedacinho de bolo, sem saber como agir no momento por ter ficado envergonhada, mordendo os lábios quando ouvi sua pergunta. Não largava meu cabelo:

“Sim... sou. Sereia de oceano. Achei que não teria problema em curá-lo assim, me mostrando um pouco... já que também não é humano, arrisquei que também trataria minha condição com naturalidade... como trato a sua.” Sorri de novo, ainda insegura.

[P.O.V. Fera]

“É um... prazer conhecê-la.” Respondi, quando se apresentou com o nome completo, a coisa mais educada que me veio à mente, embora não tivesse meu nome para corresponder. Também não peguei sua mão, sem saber se ela ia querer ser tocada por minhas patas. Ainda pensava sobre por que ela se importaria em me dar um nome (seria apenas por simpatia? Quantas vezes ela realmente esperava me chamar?), quando sua confirmação às minhas suspeitas me distraiu. “Eu sempre achei que sereias fossem apenas lendas. Li sobre seu povo em livros. Mesmo que já esteja ciente de que há muito mais coisas e seres do que as pessoas acreditam...” fiz um gesto com o braço bom que incluía a mim e ao Castelo. “... nunca soube dizer o que mais existe e é real. Acho que, a partir de hoje, vou presumir que tudo é... ou foi real.” Comentei.

Vieram à mente memórias constrangedoras, e me mexi na cadeira, fazendo depois uma careta pelo corpo ainda um tanto doído. “Sinto muito pela... maneira como nos vimos pela primeira vez. Se o que li está correto... eu estava... sob efeito do seu canto...” minha voz foi baixando até quase virar um resmungo incompreensível. De repente, o estalo: se tudo o que contaram a respeito dela era real...

“Então, é verdade que você é uma princesa? Nesse caso, não deveria se preocupar com pães ou... me servir. Peço desculpas por todo o tratamento que tenha recebido e que não condiz com sua posição.” Falei às pressas, nervoso, inclinando a cabeça ao terminar, sem saber se ainda concluía com “alteza”, depois de tanto tempo.

[P.O.V. Bela]

Sorri por sua resposta. Achava realmente interessante a criatura não acreditar em tudo. Pensei em perguntar o que de fato era, já que suas características físicas não me lembravam de nada do que eu já havia visto, mas deixei para perguntar depois, achando meigo ele ainda querer comentar daquele primeiro encontro.

“Sim... estava! Como cantava para os objetos, me considerei inofensiva, mas posso ter me empolgado um pouquinho. Que bom que ele tem efeito... nunca cantei... se não para outros de minha espécie.” Mexi os dedos nas mechas.

Olhei-o quando fez o outro comentário, achando alguma graça. “Sou, sim. Sou princesa. Mas não... por favor, não me peça para agir perfeitamente como uma! Seu castelo é incrível, seus empregados já me tratam com um cuidado até um pouco exagerado.” Dei uma risadinha. “Quase não saía do meu castelo e por isso estou aprendendo a fazer coisas legais... cozinhar é intrigante e estou adorando as possibilidades. Amo escovar meu próprio cabelo, sabe? Me sinto livre aqui.” Sorri a ele.

“Você disse que leu livros sobre meu povo! Eu também gostaria de saber o que está escrito sobre nós se eu soubesse ler...”

[P.O.V. Fera]

Ouvi suas explicações e vi verdade no que dizia. Não fazia questão das minhas desculpas, e estava gostando do que o Castelo estava lhe proporcionando. Não consegui disfarçar minha confusão. “Se sente... livre.” Repeti, a expressão incrédula, seguindo um momento em silêncio. Aos poucos algo mais ameno desenhou minhas feições, embora não tivesse a certeza de estar sorrindo. “Se ficar aqui está lhe fazendo bem... continue, enquanto quiser. Está livre para partir se um dia mudar de ideia, mas... só poderá fazer isso uma vez, provavelmente. Este Castelo não quer ser encontrado. Só chega aqui quem precisa de proteção para sobreviver, por isso tivemos menos de meia dúzia de visitantes desde que estou aqui. E ninguém voltou.” concluí.

“Esteja à vontade para circular por aqui o quanto quiser, princesa Bela. Como se este fosse seu lar. Como já sabe, a equipe ficará sempre feliz em servi-la. Só peço que evite os aposentos do fim da Ala Oeste. E que também avise se... for cantar novamente.” Hesitei, baixando os olhos novamente. “Se quiser, posso mostrar alguns livros que falam de sereias. Ah, eu posso ler para você, ou...” interrompi-me.

Ergui os olhos para as portas fechadas. Ouvia os cochichos e sentia o cheiro de parafina queimando.

“Horloge, Lumière, peçam a Chevet para pegar roupas para mim.” Dirigi a palavra para além da sala; passinhos apressados, estalos e saltinhos me responderam.

[P.O.V. Bela]

Fiquei levemente pensativa quanto ao assunto do castelo. Aquela decisão precisaria ser tomada apenas uma vez... que dramático! O que exatamente acontecia ali? Eu ficaria presa? Precisaria escolher entre o lado de dentro e o lado de fora dos portões? Que coisa louca. Mas e se...? Não consegui evitar um sorrisinho com a ideia que havia tido... claro, se não fosse fazer nenhum mal a ninguém dali.

Concordei com a restrição àquele lugar específico. Pensei que poderia ser alguém reservado com seus aposentos e não prolonguei o assunto. Estava tudo bem. Sorri a ele mais uma vez. “Desejará se juntar a nós quando formos cantar novamente? Madame de Garderobe pediu que repetíssemos. Acho que todos gostaríamos de mais alguém. Mas prometo, sim, pedir para avisar quando eu for cantar novamente.”

“Você leria para mim? Faria isso? Uau, eu adoraria!” realmente me animei com a ideia, não deixando de soltar uma risadinha com os amigos bisbilhoteiros. Raro seria se não tivessem curiosidade por algo. Eram tantas perguntas...

“Você está precisando repousar e se alimentar muito bem... se desejar voltar aos seus aposentos, compreenderei e tomarei conta para que receba os alimentos necessários.” disse, doce.

[P.O.V. Fera]

“Bom, eu...” hesitei, quando recebi o convite para participar das reuniões musicais do grupo. Lembrei-me também do que vi pelas portas entreabertas da sala de jantar e de quão magnífico havia sido. “Sim. Eu gostaria de assisti-los alguma noite. Obrigado. Quando acharem melhor.” Respondi, interessado, mas discreto. Não conseguia imaginara cara dos servos quando soubessem que eu estaria presente em algo assim.

“Por favor, não pretendo que se sinta proibida de cantar. Se puder cantar sem o efeito... mágico... pode fazê-lo sempre que quiser...” acrescentei. Logo depois, o cabideiro chegou com um novo par de calças dobradas e um longo casaco bordado, grande o suficiente para mim sendo apenas necessário amarrar à cintura. Estavam melhores do que a maioria das peças que usava; imagino que soubessem que queria estar um pouco mais apresentável diante da jovem, mas não conseguiria lidar com uma fileira de botões. Fiquei bastante grato com a escolha.

Levantei-me para colocar o casaco com alguma ajuda de Chevet, enquanto Bela me dirigia a palavra novamente. “Claro, posso ler para você. Se quiser, depois do almoço, amanhã. Na... biblioteca. Podemos... almoçar e a levo lá.” Falei, e quase mordi a língua. Hoje nos conhecemos e já a convido para o almoço? O que estava dando em mim? “Não se preocupe comigo. Já fez mais por mim do que eu ousaria pedir, e sou muito grato por tanta generosidade. Tenha também uma boa noite de repouso, procure se preocupar o mínimo possível e não hesite em pedir o que precisar.”

Fui até ela, andando lentamente para não apoiar muito peso sobre a perna sensível. Depois de um momento de dúvida, repousei a pata sobre sua mão em um gesto de carinho. “Boa noite, princesa.”

Retirei-me da sala com um nervosismo peculiar. Estava para subir as escadas, distraído, quando Plumette me alcançou, com uma expressão séria e incomum para ela.

“Senhor, as estátuas retiraram o jovem das masmorras inferiores e o levaram para fora. Nós já deixamos tudo no lugar.” Disse, com respeito.

“Obrigado, Plumette. Sinto muito que precisassem lidar com este tipo de coisa.”

“Não é a primeira vez, senhor. E a culpa não foi sua.” Ela me respondeu. Quase nunca falavam da época do dono anterior do Castelo, e nunca procurei insistir. Não pareciam boas recordações.

“Quero que as estátuas o enterrem com dignidade, do lado de fora dos muros. O local pode ser marcado, e coberto de flores.”

Ela aquiesceu com um gesto e se preparava para sair.

“Avise à Madame Samovar e a Chef Bouche que o almoço será servido na mesa junto à lareira, para Bela e eu, amanhã.”

Ela virou-se rápido, agitando as pluminhas, os olhos brilhando. “Sim, avisarei!” e depois de um momento. “Fico feliz que esteja bem, senhor. Todos nós ficamos.”

“Obrigado, Plumette.” Agradeci outra vez com um leve sorriso antes de começar a subir as escadas vagarosamente, de quatro, para reduzir o peso e os incômodos. No trajeto até chegar a meus aposentos, pensei em todas as coisas inacreditáveis que se passaram naquele único dia. Minha lareira já estava acesa e convidativa. Quando cheguei à minha cama no chão, a exaustão me pegou em seus braços, e parti para o sono mais rápido do que supunha.

[P.O.V. Bela]

Fiquei claramente animada com seu convite para o dia seguinte. Aceitei sem qualquer delonga. Queria muito conhecer mais do castelo e ele me mostrar seria uma aventura a mais. Qualquer coisa é completamente diferente dependendo de quem narra. Sua forma de se dirigir a mim ficava cada vez mais aveludada... e eu adorava isso. Será que meu encanto resumia-se ao canto? Será que ele poderia de fato ter gostado de mim assim? Eu ficaria feliz se pudéssemos ser amigos.

“Boa noite...” falei doce, esperando o tempo do carinho com um sorrisinho. Corei de leve, deixando-o ir. Ainda fiquei alguns segundos ali, pensativa, antes de me levantar. Cobri-me o melhor que podia antes de pedir a Lumière que me acompanhasse ao lado de fora. Protestou um pouco pelo horário, querendo que eu fosse para a cama.

“Por favor, Lumière... preciso falar com Ouragan.” Compreendeu finalmente, permitindo que eu o levasse.

Chamei pelo cavalo quando cheguei ao estábulo onde o havia deixado e o ouvi relinchar fracamente. Cheguei perto, pondo a mão em seu focinho com carinho.

“Amigo, seu dono se foi. Posso cuidar de você...” ele parecia não saber o que fazer, deitando a cabeça no feno. “Certo. Deixarei você pensar... e sinto muito, amigo...” beijei-lhe a cabeça antes de voltar para o castelo.

“As coisas vão ficar bem, mademoiselle. Eu prometo.” foi o que o candelabro disse para se despedir de mim na porta do quarto.

“Até amanhã.” Sorri, fechando a porta, esperando já ansiosa pelo dia seguinte.