Ouço o tilintar do sininho preso a porta da livraria, avisando que alguém acaba de entrar. Ignoro o ruído e continuo a prestar atenção na estante a minha frente. Não se tem muito o que fazer se você tem 17 anos e mora num pequeno vilarejo do século 18. Então eu lia. Belle, a gentil dona da livraria simpatizava comigo, e sempre deixava eu emprestar quantos livros quisesse. Alguém me arrasta da livraria em meio a risadas. Ao olhar pra cima, percebo que são meus melhores amigos, Neal e August. Os dois palhaços me tiraram da livraria!

-Hey! Qual é a graça? Eu estava lendo!

-Nós sabemos! –os dois responderam juntos ainda gargalhando.

-Você disse que ia ficar só cinco minutos na livraria. Já se passaram vinte. E como nós apostamos, você está nos devendo dez moedas de ouro! –Neal riu.

Eu fiz cara de cachorro abandonado.

-Ah, qual é, vocês sabem que eu não consigo não ficar pouco tempo lá…

-Continua nos devendo moedas! –os dois exclamaram, rindo.

Eu bufei irritada e saí andando sem esperá-los. Escutei eles me chamando, mas ignorei e segui meu caminho até a fonte da praça central (e única) do vilarejo onde moro. Sentei-me observando as pessoas que transitavam pelas apertadas ruas: o padeiro com seus pães e bolos, o fruteiro com suas frutas e verduras, o pastor com as suas ovelhas… Neal e August não tardaram em me alcançar e se sentaram comigo.

-Você esqueceu isto-diz August me entregando o livro que eu estava lendo na livraria quando eles chegaram.

-Obrigada-eu agradeci pegando o livro e o admirando pela milésima vez. Era um livro de capa dura, marrom, com o título em dourado: Once Upon A Time. Eu não era do tipo que acreditava em fadas e príncipes encantados, ou até mesmo amor verdadeiro. Mas aquele livro tinha um significado maior para mim. Ele mostrava que no final, tudo dava certo, todos tinham seu final feliz (a não ser, é claro, os vilões). Ele me fazia ter esperança. Esperança de que algum dia eu pudesse sair daquele lugar, esperança de que algum dia eu achasse alguém que eu amasse e que me amasse, esperança de poder finalmente ser livre. Por que liberdade era algo que eu não experimentava a tempos.

Eu não tinha o que se possa chamar de família perfeita. Era adotada. Meus verdadeiros pais estavam em alguma parte do mundo, provavelmente sem lembrar que um dia, há 17 anos, eles tinham abandonado uma criança de poucas horas de vida na frente de uma porta. Quando Marie e John me recolheram, eu não tinha do que me queixar. Nos primeiros anos, tudo era maravilhoso. Nos amávamos, éramos uma família feliz. Mas quando eu tinha quase seis anos, veio a doença de Marie. John começou a ter problemas com a bebida e o fato de estar perdendo a mulher para a morte piorava ainda mais a situação. Quando chegava em casa, tarde da noite, descontava a sua raiva em nós. As discussões se tornaram parte da rotina. Dois anos e meio depois, Marie faleceu. Deixando a John e a mim sozinhos. Ele ficou depressivo e agressivo, e nossa relação não era das melhores. Ele trabalhava em casa mesmo, era ferreiro. E eu tentava me ocupar ao máximo para não passar muito tempo em casa. Acordava cedo, fazia as tarefas domésticas, e saía para cuidar da horta e das poucas vacas e cabras que possuíamos. Não era fácil, mas dava para sobreviver. Eu fui crescendo, e deixei de ser a garotinha órfã de mãe da qual todos tinham pena. Os moradores da vila começaram a me olhar “torto”. Afinal, que tipo de mulher passava o dia inteiro rindo na rua com seus amigos? Eu já deveria estar casada, ou pelo menos arrumando pretendentes.

Mas eu não me importava. Brincar com Neal e August era o que me deixava feliz. E, na minha opinião, tudo o que eu tinha que fazer naquele momento era ser feliz.

Nós três passamos na loja do padeiro, onde os garotos me compraram um bolo, já que era meu aniversário. Comemos sentados na praça, e depois passamos novamente na livraria, para que eu devolve-se o livro. Belle, porém, ao saber que era meu aniversário e lembrando que era o meu livro favorito, me deu ele de presente.

Quando anoiteceu, voltei para casa, feliz, e com um pedaço de bolo nas mãos. Eu pretendia dividi-lo com meu “pai”, ler um pouco e me deitar. Porém, parecia que “papai” tinha outros planos. Pois assim que cruzei a soleira da porta e o vi reunido com outro homem na sala, escutei as palavras que eu mais temia:

-Arrume as suas malas, Emma. Pois daqui a quatro dias você estará casada.