A Bela e a Fera
31 Epílogo
Notas iniciais
Era final de tarde. Costumeiramente ele ficava inquieto naquela hora do dia. A agitação dentro de seu peito o perturbava de tal modo que era impossível ficar sentado dentro de casa, precisava sair, passear, caminhar, cavalgar até que aquela sensação fosse embora. Geralmente só retornava para o lar quando o sol novamente surgia no horizonte. Mesmo que estivesse acompanhado, a sensação de solidão gritava ao redor perturbando sua pouca paz.
Há pouco mais de cinco meses tudo mudara. Ele estava sempre acompanhado, seu desejo mais profundo não mais se voltava para a fuga, para o vazio, para o escapar da realidade. Pois sua realidade era outra. Mais feliz e completa do que um dia imaginou que seria.
Guardou os papéis na gaveta em frente, acomodou a caneta junto ao tinteiro, seu trabalho estava terminado por momento. Ele queria fazer outra coisa, ocupar o tempo com coisas mais alegres e divertidas. Em poucos minutos saia do escritório para ir em direção a sala particular da esposa.
Mabel lia um livro de poesias acomodada no sofá macio e repleto de almofadas. Quando o viu se aproximar em passos silenciosos ergueu o olhar e sorriu.
— Está tão tranquilo aqui! — Dominic falou se ajustando no espaço diminuto do sofá, puxando o corpo da esposa para cima, acomodando-o sobre as pernas longas.
Mabel embrenhou os dedos nos cabelos do marido enquanto se ajustava no colo masculino.
— Lili saiu com a amiga, a senhorita Wentworth! — respondeu com um jeitinho maroto.
Erguendo os olhos Dominic exclamou:
— Graças aos deuses! Não aguentava mais aquelas duas falando falando falando o tempo todo sobre vestidos, fitas, plumas e afins!
Enlaçando o pescoço do marido com os dois braços Mabel lhe ofereceu uma informação não muito agradável:
— Pois espere o retorno delas para só depois se sentir aliviado.
— O que acontecerá no retorno delas?
Mabel sorriu feliz com o olhar desconfiado do marquês.
— Será o momento em que discutiremos modelos de vestidos, e qual tecido cada uma delas considerará adequado com esta ou aquela fita.
— Isto deve ser um pesadelo! — ele comentou brincalhão – Quanto tempo mamãe disse que essas duas ficariam por aqui? Quando teremos nossa paz de volta?
— A apresentação da filha do visconde de Wentworth se dará em dois meses. Acredito que elas retornarão em uma semana, no máximo.
— Até lá estarei maluco com tanto barulho e falação.
O som de um beijo estalado cruzou o ar.
— Ah! Não seja tão ranzinza... Lili é um doce de menina, e Mia é muito espirituosa. É uma delícia conversar com elas.
Dominic retorceu o nariz fino com ar de desdém. Mabel continuou o ataque:
— Além de que elas são lindas. Cada uma a sua forma é verdade, mesmo assim lindas. Não me surpreende que sua irmã já esteja noiva e a senhorita Wentworth, se descontarmos aquele temperamento determinado, logo seguirá pelo mesmo caminho...
— É um perigo ter filhas tão lindas! — ele falou pensativo. — Acho que prefiro ter filhos.
A marquesa foi obrigada a discordar:
— Não diria isso meu amor... veja o seu caso. Frances passou trabalho com você. Com seu temperamento arredio e irritadiço. Com sua teimosia.
— Isso não é verdade! — ele tratou de retrucar – Sempre fui um filho atencioso, respeitoso e obediente.
— Certamente que sim. Porém, sei que sua mãe passou bastante trabalho quando você era pequeno e também na sua adolescência com suas escapadas para as reuniões masculinas.
Espantado Dominic a observou boquiaberto.
— Como você sabe disso? — entretanto não foi necessário ouvir uma resposta, pois logo sua mente astuta entendeu – Sophie!
— Sim... Sophie. Sua mãe reclamava com ela e ela me contava tudo.
— Não fico admirado que você não simpatizasse muito comigo pois...
— Quem lhe falou que eu não simpatizava com você? — ela sabia que era verdade.
Ele balançou a cabeça recostando-se no sofá enquanto Mabel se ajustava em seu ombro.
— O seu jeito. — Dominic respondeu demonstrando perspicácia.
— Eu tinha medo de você! — ela salientou cada palavra e com essa frase obrigou Dominic a mudar de posição para encará-la.
— Medo de mim? Oras! Mas por quê? Fui sempre um cavalheiro com a senhorita Nagle e com qualquer outra amiga de minhas irmãs.
— Oh sim, cavalheiresco e atormentador.
— Atormentador! — ele se sentia ultrajado com aquela palavra.
— Você não gostava de mim. Nunca me queria por perto. Vivia reclamando de minha presença nos grupos e expedições.
Ele tinha uma boa explicação para essas afirmações:
— Você era miúda e estava sempre se machucando. Atrapalhava as brincadeiras. Era apenas isso...
Mas havia mais:
— Admita que você só me acompanhou durante os eventos na casa de campo porque Frances o obrigou.
Oras que ele jamais imaginara que aquilo pudesse perturbar sua esposa.
— No começo... devo admitir que sim. Mas depois. Passei a considerar sua companhia muito agradável e a única que desejava ter por perto.
Um leve rubor tingiu as faces pálidas de Mabel. E ela sorriu feliz.
— Mas, você estava comprometida com Elliot.
Os olhos escuros de Mabel perderam levemente o brilho por alguns instantes. Ela não sentia mais nada por Elliot, Dominic tinha total certeza disso, mas também compreendia o que a lembrança dele significava.
— O que foi um erro total! Mas, como poderia saber? — ela acariciou o rosto masculino com a ponta do dedo – Como poderia saber que aquilo que eu sentia era um arremedo de amor?
— E agora você sabe o que sente?
— Oh! Sim. Eu sei o que sinto. Eu amo você. É um sentimento profundo e incomparável. Agradeço aos céus todos os dias por aquele bendido encontro no jardim...
Dominic roçou a ponta do nariz na face feminina.
— E eu agradeço a sua falta de sono que propiciou aquele encontro.
— Eu amo você. — ela sussurrou baixinho.
— Eu sei... também amo você. — ele respondeu antes de soltar um beijo nos lábios dela.
Segundos depois ouviu-se vozes que vinham da entrada.
— Elas chegaram! — Mabel falou saltando do colo do marido a tempo de ver as garotas ingressarem no cômodo seguidas de perto por serviçais carregados de compras.
— Céus! — Mabel exclamou com as mãos no rosto.
— Temos muitas coisas para mostrar! — Lilli falou entre risadinhas e saltos miúdos, batendo palmas.
Aquilo seria um momento de tortura. Dominic pensou passando as mãos pelos cabelos fazendo menção de levar-se para sair do cômodo.
— Não não não – Lilli falou sorrindo segurando o braço do irmão – O senhor também deve ficar, queremos uma opinião masculina para completar a de Mabel.
Os olhos azuis se fixaram no rosto da amiga que estava parada poucos passos atrás.
— Certamente que a opinião do marquês é muito importante. — Mia Wentworth completou com seu ar sério e compenetrado.
Estava perdido. Dominic disse a si mesmo e logo sentiu a mão da esposa sobre a sua, conduzindo-o de volta para o sofá. Onde eles sentaram lado a lado e trocaram carinho por no mínimo uma hora enquanto uma dupla de jovens falava sem parar sobre cada caixa e pacote que ia lentamente sendo aberta.
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