A Bela e a Fera
6 Capítulo 6 - Dominic desconfiado
Notas iniciais

Ainda parada no meio do hall Mabel enfiou o bilhete no bolso lateral do vestido quando sentiu a presença de alguém se aproximando. Eram Sophie e Lily, parecendo preocupadas. Na verdade as filhas da marquesa passavam horas agitadas desde a chegada. Sempre havia algo que a mãe lhes pedia para coordenar ou ajeitar. Naquele momento, a principal função da dupla era abafar o comentário desagradável que surgira entre os convidados. Entretanto, com a velha amiga poderiam ser sinceras:
— Mamãe está furiosa! – Lily explicou sem realmente precisar. Mabel podia muito bem compreender o que significava para a mulher ter um acontecimento assim em uma atividade promovida por ela.
— Quem começou essa história? – Mabel quis saber, estava curiosa quanto a origem da falação. Mas, especialmente queria saber quem os vira juntos.
— Parece que ouviram os empregados falando. – Sophie explicou suspirando. – “Alguém”, isso quer dizer que ninguém sabe quem, viu Dominic com essa garota perto das trepadeiras.
— Dizem que estavam se beijando. – Lily completou num sussurro.
Empregados? Mabel pensou. O único empregado com quem topara fora o jardineiro, mas, Dominic já não estava mais com ela no momento em que o homem apareceu. Então, ela acreditara que não os vira juntos. Mas... ao que tudo indicava, estava errada.
— Qual? – ela perguntou agitada. Se fora mesmo o jardineiro poderia facilmente reconhecê-la pois se viram claramente.
— Não sabemos. Mamãe tentou descobrir, entretanto não conseguiu. Esse alguém que viu Dominic com a tal moça estava comentando com um empregado quando outra pessoa ouviu e espalhou a história. – Sophie estava muito chateada. Aqueles deveriam ser dias agradáveis, mas pelo jeito não seria desse jeito. – E temos muitos alguéns, porém, nenhum nome definitivo.
Lily concordou com a cabeça antes de concluir:
— Você sabe como é Mabel, agora ninguém quer ser aquele que diz: Eu ouvi. Ou, eu falei. É sempre: fulano me contou.
Ela sabia como era.
— E... Dom... sir Deeping? O que ele diz?
— Absolutamente nada! – Lily exclamou com os belos olhos azuis arregalados. – Até parece que o assunto não é com ele.
Mabel quase suspirou aliviada. Ela supunha que assim seria. De nada serviria a ele dizer com quem estava. Ninguém mais acreditaria que eles não estavam realmente se beijando e a situação sairia do controle. A jovem nem queria imaginar o que Elliot faria se tomasse conhecimento.
— Você sabe de alguma coisa Mabel? – Sophie lhe perguntou direta e o coração da garota morena imediatamente se apertou por ter de mentir à amiga.
— Não sei de nada, nada além disso que falam... mas, acho que é mentira. Não acredito que uma pessoa como seu irmão, que está fugindo de todos, marcaria de se encontrar com alguém no jardim onde qualquer um os veria.
Poderia até ser. Mas, agora que a fofoca estava armada, ninguém levaria em consideração o comportamento esquisito e a personalidade arredia do marquês.
— Venha conosco. – Lilly convidou atraindo a amiga para que as seguisse em direção ao pátio sul onde a atividade da noite estava sendo organizada.
Sem atinar em algo para falar Mabel as seguiu, e caminhava rapidamente ao lado das duas quando viu a figura do marquês surgir diante delas como que surgido do nada.
— Dominic! – Sophie falou olhando diretamente para o irmão. — Mamãe quer falar com você urgentemente.
Ele suspirou, encarou o trio de cima, com olhar determinado, e informou direto:
— Agora não posso. Diga-lhe que retorno em duas horas.
E já ia passando quando Sophie insistiu:
— Onde você vai?
— Dar uma volta a cavalo... – e seus olhos correram para Mabel, foi um rápido olhar, mas ela soube o que ele queria dizer. Que a esperaria.
E pedindo licença, o rapaz escapuliu das vistas do trio.
Ele ficaria lá esperando por ela? Mas, nada havia que conversar. Ela tinha certeza de que o marquês nada diria sobre o assunto. Ela também nada diria. Então, não havia razão para o encontro. Porém... a medida que o tempo passava Mabel não conseguia se concentrar nos movimentos dos empregados a arrumar mesas, luminárias, e especialmente o tablado de madeira onde as danças aconteceriam, percebeu imediatamente o porque disso. Porque saiba que Dominic a esperava e se não fosse até ele, se sentiria... culpada.
A marquesa estava totalmente envolvida no assunto, bem como as duas garotas, e em dado momento ela não pode mais suportar a agitação que ia dentro de sua mente. Pediu licença dizendo que pretendia descansar antes do almoço mas, pretendia se dirigir à cavalariça.
Dominic entrou no longo corredor e sentiu o aroma dos cavalos, de feno, de madeira crua e rapidamente dispensou os dois garotos que lá estavam com a incumbência de exercitar e depois banhar seu cavalo.
Assim que se viu sozinho sentou sobre um monte de feno e colocou a cabeça entre as mãos, suspirando. Esperava que aquela menina aparecesse. Precisava de respostas. Entretanto, a medida que os minutos passavam, uma ideia maluca lhe veio a mente, e ele não mais conseguiu dispersá-la.
Será que fora a própria Mabel quem espalhara a fofoca?
O primeiro impulso lhe garantiu que não.
Depois pensou:
Com que intuito?
Era claro! Óbvio!
Obriga-lo a algo. A casar com ela!
A mão socou a parede de madeira produzindo um som oco no espaço vazio. Sabia que a moça não tinha dote, casar-se sem dote não era incomum, porém, havia muitas moças solteiras pobres. Talvez Mabel não quisesse ser uma delas.
A medida que o tempo passava ele se agitava mais diante das dúvidas que o atormentavam. Será que ela não viria? O que aquela menina estava pensando? Será que recusaria a atender a ordem? Ansioso passou a caminhar de um lado para o outro, em breve os dois meninos voltariam com seu cavalo e a bendita garota não surgia. Com raiva chutou um balde que voou, bateu contra a parede de uma baia e estourou no chão. Imediatamente ouviu o som de passos atrás de si. Se voltou ansioso e topou com um par de olhos escuros nervosos.
— Sir... – a voz quase não saiu ao perceber a raiva estampada no rosto masculino. Os olhos apertados, a ruga acima do nariz, a boca espremida.
— A senhorita demorou! – falou firme, com a voz travada na garganta.
— Não... foi fácil escapar. – ela confidenciou. Até poderia ser para ele que estava habituado a não dar satisfação para ninguém, mas o mesmo não acontecia com ela. E prova disso era o que eles estavam passando.
Ele deu um passo em direção a ela. Intimidador a encarou.
— O que o senhor deseja? – ela perguntou erguendo o rosto sem desviar o olhar do rosto sisudo.
— A senhorita contou a alguém sobre nosso “encontro”? – os olhos se fecharam um pouco mais enquanto ele falava. Ela imediatamente compreendeu o que ia pela cabeça do homem diante dela.
— Quem o senhor pensa que sou?
— Não faço ideia. Mas, — ele deu a volta nela como se a estivesse medindo – se há alguém para quem esta história pode ser útil, este alguém é a “senhorita”.
Ela se voltou e parou diretamente de frente para ele.
— Nunca faria tal coisa! – exclamou em tom indignado. – O senhor está me ofendendo ao pensar isso de mim.
Ele não se daria por vencido:
— Me diga se estou errado: primeiramente a encontro sozinha no jardim, trocamos meia dúzia de palavras, a casa ainda dormia quando ingressei, depois, surge esse boato. Quem mais poderia saber o que aconteceu?
— O jardineiro. – ela falou travando as lágrimas na garganta. Dominic não merecia toda a sua preocupação em não deixa-lo esperando.
Ele deu passo para trás. Mais desconfiado do que nunca.
— Apenas agora a pouco lembrei... – Mabel começou a explicar lentamente, tentando não chorar – que ele me viu no jardim logo depois que o senhor saiu...
Dominic não respondeu. Continuou calado a encará-la. Sem suportar o silêncio Mabel insistiu:
— É verdade! – ela falou o mais firme que pode. – Não tenho motivos para mentir. Essa história me afeta tanto quanto afeta o senhor.
— Mas, a senhorita pode sair ganhando com ela.
— Ganhando? O que poderia ganhar?
— Você não é estupida Mabel! – oras que agora ela era Mabel?
— Pois saiba sir Dominic Deeping, que não o considero, nem nunca o considerei como adequado para um pretendente.
Ele sorriu de lado, debochando dela.
— Simplesmente porque o senhor, só pensa no senhor... – ela completou ainda mais zangada.
— Muito justo. – ele falou dando alguns passos em volta – De alguém que foi carregada por quase um quilômetro.
Mabel rebateu de imediato.
— O senhor não fez isso por mim! Fez pelo senhor. Seu pai... – assim que mencionou o antigo marquês Mabel percebeu uma leve mudança nos traços do homem diante dela – não aceitaria que tivesse outro tipo de comportamento.
Dominic silenciou novamente.
— Acredite no que desejar, mas, lhe garanto que jamais tive a intenção de que nosso breve e inesperado encontro tivesse se transformado nessa confusão toda. – completou em tom mais suave, arrependida de ter mencionado sir Charles, principalmente como meio de atingir o bom senso do marquês.
Um segundo de indecisão, mas o movimento dos olhos dele lhe informaram que ao menos o marquês estava considerando a explicação dela. Quando as íris azuis se fixaram sobre o femino novamente, ele não parecia mais calmo, nem mais compreensivo, nem menos irritado.
— Precisamos acabar com essa fofoca! Vou falar com o jardineiro. Como era o homem?
— Baixo... magro, cabelos grisalhos.
— Mais ou menos da sua altura? – ele perguntou erguendo a cabeça, segurando as mãos nas costas, como se esse simples gesto pudesse evitar um ataque de fúria.
— Sim... – ela confirmou – Mas... – Dominic não a olhava, seus olhos estavam fixos no chão como se ele estivesse planejando algo. – Não creio que deva falar com ele... – sugeriu.
— Por quê? – a voz saiu firme como um trovão.
— Porque, minha mãe sempre diz que não se deve dar ouvidos a boatos, quanto mais nos preocupamos com eles, mais causam problemas. Se deixarmos para lá. Se o senhor...
— Eu? O quê? – o que ela estava querendo dizer?
— Se agir como se fosse mentira, logo ele morre. – pronunciou firme.
— Você acredita que assim será? – ele estava admirado com a inocência dela sobre o quanto as pessoas conseguiam ser mesquinhas – As pessoas vão falar, falar, falar sobre o assunto até que alguém diga: Foi a senhorita Nagle... ou outra qualquer.
— Ninguém fará isso... eu não farei. O senhor não fará...
Ele bufou alto e estendeu as mãos para cima.
— Sim! Eu sei, a senhorita sabe, mas, na minha posição, ficaremos preso... estão falando que, por Deus, nos beijamos! – ele mencionou o beijo e ela imediatamente corou. Não conseguia se imaginar beijando aquele homem.
Ele continuou no mesmo tom imperioso:
— Isso precisa acabar!
Ela se moveu imaginando se uma artimanha mais amena não surtiria efeito. Talvez as pessoas deixassem de falar em uma coisa se tivessem outra.
— E se fizermos como sugeri? Se o senhor passar a frequentar algumas atividades, dançar, conversar com algumas moças, não com as mesmas... talvez o assunto mude. – ele sorriu. Novamente aquele sorriso sarcástico e grosseiro.
— Não posso crer que a senhorita tenha vivido mais do que eu nesta sociedade! Como pode considerar que esta artimanha estúpida dará certo?
Ele a chamara de estúpida? Erguendo ainda mais o rosto e entesando as costas, ela decidiu ir embora dali, já chegava de ser ofendida. Mas antes de sair ainda lhe ofereceu um aviso:
— De minha boca ninguém nunca saberá de nada! Faça como considerar melhor.
E já saia quando ele a chamou de volta.
— Mabel! – onde estava o “senhorita Nagle”? Desistira totalmente dele? Ela se voltou e o encarou.
— O que fez com o bilhete?
— Amassei.
— Rasgue... – o tom era de ordem. Ela nada respondeu, apenas saiu da cavalariça rapidamente, desejando não encontrar com ninguém. Se alguém a visse ali, estaria realmente perdida.
Algumas lágrimas escaparam por seus olhos. Eram lágrimas de raiva. De impotência sobre aquela situação. Dominic acreditava que ela espalhara o boato, e se descobrissem que se tratava dela, outros também pensariam assim. A marquesa, Sophie... seus pais... Elliot!
Oh céus! Como pudera se meter em tamanha confusão? Pensava enquanto caminhava apressada em direção a casa. E de repente ouviu o sino. Era o primeiro aviso para o almoço e ela nem teria tempo para se arrumar.
Antes de seguir pela via estreita que levava a lateral da casa deu uma última espiada na cavalariça, se havia algo do qual se arrepender, era desse maldito encontro.
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