A Bela e a Fera
10 Capítulo 10 - O milagre
Notas iniciais

A manhã brilhava do lado de fora do quarto do marquês, em contrapartida, dentro do cômodo a sensação era de que a noite continuava a imperar. As cortinas de veludo completamente fechadas proibiam a entrada de qualquer indício de sol, de som ou de vida. Atirado sobre a colcha, ainda vestindo os mesmos trajes da noite anterior Dominic encarava o dossel da cama, com olhar perdido conjeturando ações para os fatos recém descobertos.
Só havia uma coisa a ser feita em tal situação. Falar com as pessoas envolvidas.
A primeira talvez devesse ser a senhorita Strang, ele daria a ela a ilusão de que poderia chegar a cortejá-la, talvez desta forma ganhasse algum tempo até resolver o outra questão, aquela que obrigara Mabel a procurá-lo no meio da noite.
De alguma forma ela se mostrava preocupada e atenta a possibilidade de vê-lo envolvido em um problema sem solução, se arriscara para tentar ajudar. E isso o perturbara de forma profunda. Precisava retribuir a atenção que a garota lhe oferecera, mesmo que com isso, acabasse de vez com qualquer possibilidade de um dia se aproximar dela.
Sentou na cama sentindo o corpo doer, a cabeça pesar, efeitos do péssimo uísque ingerido sem restrições na noite anterior. Caminhou até a cabeceira e puxou o cordão alertando seu criado de que precisava de ajuda. Um banho, roupas limpas e talvez um café puro o ajudasse a fazer o que deveria.
Cerca de uma hora depois, Dominic amarrava a gravata quando seu criado pessoal parou ao lado dele escovando a lateral da casaca. Estava tudo pronto. Parecia outra vez, ao menos por fora, um ser humano normal e sem problemas.
— Avise sir Elliot que desejo lhe falar... esperarei por ele no escritório. – ordenou em voz profunda e seca.
— Sim senhor. – o rapaz concordou imediatamente já se aprumando para realizar a tarefa.
Dominic conferiu sua aparência e finalmente saiu do quarto sem se preocupar em ser visto, a manhã ia já pela metade, havia muita gente transitando pelo hall, pelas salas, pelos corredores. Enquanto caminhava o marquês foi obrigado a cumprimentar um número bem grande de pessoas, mas só se sentiu afetado pela presença de uma. Mabel estava sentada junto a Sophie, logo abaixo da janela que dava para o jardim sul, um breve impulso de se aproximar o invadiu, mas ele sabia que não deveria. Agora que tinha conhecimento da condição da garota, seria irresponsabilidade impor sua presença.
Sophie o viu também, acenou delicadamente com a mão, sua irmã lhe parecia diferente, os olhos mais tristes, sem a presença do inconfundível sorriso. A face pálida. Ele era o responsável por aquilo constatou com pesar. Ao afastar Duffy da irmã imediatamente a conduzira para a infelicidade. Entretanto, a única coisa que aliviava seu sentimento de culpa era saber que aquela tristeza seria passageira, o que certamente não aconteceria se a garota cassasse com Duffy.
Em passos cadenciados e firmes Dominic cruzou pelo hall, tomando a direção do escritório. Ele não sorriu, não se aproximou, nem se mostrou cortês como vinha fazendo constantemente em seus últimos encontros. Mabel teve medo pelo que viria. Não sabia o que o marquês pretendia fazer. Que tipo de atitudes pretendia tomar?
O escritório estava vazio, as cortinas ainda fechadas, ele não queria luz, mas era preciso ao menos iluminar parcialmente o espaço repleto de prateleiras, mesas e cadeiras escuras. Num movimento rápido abriu apenas a lateral de uma delas onde a sombra do carvalho não permitia que os raios do sol cruzassem até o vidro da janela e viu a penumbra levemente se dissipar.
Se serviu de uma dose de brandy e já se acomodava na cadeira atrás da mesa gigantesca quando ouviu as batidas na porta. Deveria ser quem ele mandara chamar.
— Entre! – ordenou em voz firme.
Sir Elliot cruzou pela fresta aberta e encarou o primo. Dominic como sempre estava lá, em sua posição de comando, aquela que ele apresentava desde que era um menino obrigando tudo o todos a satisfazerem seus mais estúpidos desejos.
— Precisa de alguma coisa? – perguntou parando no meio do cômodo com as mãos largadas ao longo do corpo. Eles eram primos, foram criados juntos, brincaram juntos, estudaram na mesma escola. Deveriam ser amigos, mas isso não era exatamente verdade apesar de terem se dado razoavelmente bem por algum tempo.
Dominic apertou os olhos.
— Você mandou me chamar. – Elliot explicou ainda muito sério. Aquela seria a primeira conversa deles desde a chegada na casa. Antes disso foram trocas de palavras e alguns comentários no grupo masculino. Se, por acaso estivessem no mesmo grupo.
— Preciso conversar com você sobre um assunto... embaraçoso. – explicou se erguendo e tomando a direção da garrafa, o copo estava vazio novamente. – Quer uma dose de brandy?
— Não! — sir Chowes respondeu rapidamente vendo o primo se servir de uma dose generosa da bebida.
— Sente-se... – foi a ordem rápida antes que Dominic também se sentasse, tomasse um longo gole do líquido e finalmente encarasse o primo.
Perdido com o comportamento do outro Elliot apoiou as mãos sobre as coxas mantendo as costas eretas. Não conseguia atinar que assunto embaraçoso Dominic tivesse para tratar com ele.
Mas, logo saberia.
— Nunca fui de fazer rodeios, -Dominic começou sem desviar o olhar de Elliot — por isso vou direto ao assunto. Você, pelo modo como me olha não faz ideia do que possa ser.
O sorriso irônico confirmou o comentário.
— É sobre a senhorita Nagle, – assim que ouviu o nome da noiva Elliot se empertigou – sobre o noivado de vocês.
O primo simplesmente empalideceu diante dele quase obrigando Dominic a sorrir, poucas coisas poderiam lhe trazer algum prazer depois dos últimos acontecimentos, mas com certeza ter o poder de atingir seu primo era uma delas.
— Não precisa me perguntar como fiquei sabendo. – adiantou-se, era óbvio que não entregaria Mabel — Só precisa saber que não foi a senhorita Nagle quem me contou... e que você deveria tomar mais cuidado se pretende realmente se casar com ela algum dia. – ele ainda duvidava que os sentimentos de Elliot fossem fortes o suficiente para enfrentar a família – pois se assim como eu outras pessoas ficarem sabendo antes que possamos resolvê-lo, sua mãe não lhes dará sossego. Ela detesta a senhorita Nagle...
Quase recuperado do susto Elliot tentou se manifestar:
— Possamos resolve-lo? – Elliot repetiu em tom debochado, acreditando que Dominic perdera completamente a noção da vida. Nem ele conseguiria resolver aquela questão — Como acha que posso resolver esse problema sem me tornar o visconde?
Sir Deeping puxou o ar com força, estava cansado, com dor de cabeça e sem qualquer espírito para discussões. Pensara no assunto o que restara da noite, o que queria dizer que não dormira, mas acreditava ter chegado a uma solução adequada. Era preciso livrar Mabel da chantagem que a segurava à senhorita Strang, era preciso prover meios de conduzi-la a Elliot sem que a garota fosse obrigada a passar pelo constrangimento de ser humilhada pela sogra e por outras pessoas por não ter uma posição adequada. E no final, acreditou que havia uma forma de fazer isso.
— Mandei chamar dois dos meus advogados. Eles devem chegar em algumas horas. – explicou sem explicar.
Elliot não entendia o que os advogados de Dominic tinham a ver com o noivado dele. Mas logo o marquês continuou:
— Vou conceder um dote a Mabel, como se fosse de um tio, um parente qualquer distante. Também tenho meios de resolver o problema da falta de título do pai dela... você acha que sua mãe se incomodaria que se casasse com a filha de um lorde?
Elliot estava boquiaberto. Completamente pasmado diante da proposta inusitada e inesperada que Dominic lhe fazia.
Sem obter resposta sir Deeping continuou o monólogo.
— Creio que meus advogados conseguirão resolver essas duas questões rapidamente, só precisamos buscar por parentes distantes, aqueles que não se vê há muito tempo e de quem apenas ouvimos falar. Alguém que já tenha morrido de preferência, para evitar algum contato... o título, bem, isso é bem mais fácil e rápido de se resolver... acredito que vocês precisarão esperar em torno de um mês mais ou menos para anunciar o noivado.
— O que deu em você Dominic? – Elliot perguntou assim que o primo parou de falar.
Os olhos azuis do marquês passearam rapidamente pela peça. Pensara em tudo, menos em como justificar sua ajuda. Mas, não foi tão complicado descobrir como engambelar o outro.
— Tenho percebido que Phoebe não gosta muito de sua noiva pela forma como a trata. Inclusive ontem, ela, mamãe e eu tivemos uma conversa rápida onde ela anunciou claramente que considera a senhorita Nagle perigosa.
Elliot desviou o olhar. Parecia encabulado diante do comentário.
— E quando soube do compromisso de vocês... achei que poderia ajudar.
— Ajudar por quê? – era isso o que sir Chowes ainda não compreendera.
Empurrando a cadeira para trás Dominic achou que seria melhor atacar e acabar de vez com aquela conversa.
— Se você não precisa ou não quer a minha ajuda, me avise logo.
Um breve titubear indicou ao marquês que tomara a decisão correta.
— Não sou dado a atos de gentileza, mas Mabel é amiga de Sophie e Lily, considero que minhas irmãs ficariam satisfeitas se eu fizesse algo por alguém que elas gostam muito.
Sir Chowes de repente acreditou que talvez, uma das irmãs do marquês tivesse feito aquele pedido em nome da amiga. O que justificaria o fato de Dominic saber sobre o noivado escondido. Mas, isso também queria dizer que Mabel contara a uma delas sobre o segredo deles, burlando sua confiança de que ninguém saberia até que pudessem formalizar o relacionamento.
Estava se sentindo incomodado, primeiramente por saber que Mabel fora capaz de contar seu segredo. Depois por ter de aceitar a ajuda de Dominic, algo que ele detestava fazer. E terceiro porque talvez nem mesmo assim acreditava que seus pais aceitassem sua noiva. Um lorde? O que um lorde era? Nada! A garota continuaria sem linhagem ou nome. E o dote precisaria ser muito generoso para que Phoebe não se importasse em ter uma nora como Mabel.
Mas, era a única coisa que talvez lhe permitisse manter o noivado em prolongada suspensão enquanto convencia a mãe de que Mabel era adequada para ocupar seu lugar, até que ele se tornasse o novo visconde e então, pudesse finalmente se casar.
— Você contou a Mabel? Ela sabe?
— Não falei a ninguém.
— Me permita contar a ela... – Elliot pediu ainda se sentindo constrangido por ter de aceitar a ajuda do primo.
— Preferia que ela não ficasse sabendo que estou fazendo esses arranjos...
Novamente o olhar desconfiado brilhou nos olhos de sir Chowes. Dominic tinha uma boa explicação para o pedido de anonimato:
— Será mais convincente se ela se surpreender quando receber o comunicado de que um parente lhe deixou dinheiro para o dote... – antes de continuar tomou o último gole da bebida e largou o copo sobre a mesa – e também é melhor que você evite perturbar Phoebe. Mantenha a mesma postura e espere pelo desenrolar dos acontecimentos.
— Minha mãe precisa ser convencida de que Mabel servirá como nora.
Dominic tinha certeza de que o mesmo não se daria com Frances. Ela conhecia bem a garota, a aceitaria prontamente. Mas, esse não era o caso. O caso era que Elliot seria o marido dela e não ele. Então, era preciso convencer Phoebe de que Mabel era a garota perfeita para seu amado filho.
— Podemos tentar resolver isso também... – Dominic falou mais baixo – Vou pensar em como...
Frances lhe dissera que se ele dançasse e desse atenção a Mabel outros rapazes poderiam seguir seu exemplo. Então, o que tinha de ser feito era dar a senhorita Nagle a chance de convencer a sogra através de suas qualidades. Nisso Frances seria perfeita. Decididamente ele precisava convencer a mãe a fazer algo em favor da amiga das filhas.
Eles se calaram, cada qual com seus próprios pensamentos. Então Elliot se ergueu, encarou o primo de cima e em tom solene agradeceu pela ajuda garantindo que nada faria para atrapalhar os planos tão bem montados pelo marquês e imediatamente se retirou.
Sozinho outra vez Dominic voltou à mesa das bebidas, largou o copo e decidiu também sair do escritório. Cruzou pelo hall, saiu pela porta lateral, desceu até o jardim e tomou a direção da cavalariça. Queria sossego, entretanto não seria aquele o momento em que ele teria sossego.
— Sir Deeping! – ouviu e continuou a caminhar como se não tivesse escutado – Sir Deeping! – a pessoa repetiu e repetiu até que ele decidiu parar de caminhar e se voltar para se deparar com Abigail Strang.
— Senhorita Strang. – falou sério esperando que ela se aproximasse.
— O senhor caminha rápido... – ela falou sorrindo.
— Estou com pressa. – ele mentiu, queria mesmo era ficar sozinho. Já bastava se ser cortes e gentil por um dia. Estava em seu limite.
— Não quero perturbá-lo... apenas gostaria de saber se o senhor comparecerá ao evento desta noite...
Ele olhou o céu azul desejando que o mundo desabasse sobre sua cabeça. Que maldito evento aconteceria naquela noite?
— Refresque minha memória senhorita Stang. Que evento mamãe preparou para hoje?
— Um sarau... e amanhã teremos um piquenique.
Oh céus! Uma tortura sobre a outra. Mas, ele ainda tinha uma missão a cumprir, resolver o problema com a senhorita Strang. Talvez, e lá ia ele por um caminho provavelmente perigoso. Dar corda para a garota se enforcar fosse a trilha mais correta.
— Provavelmente estarei presente aos dois... – falou tentando mostrar alguma cortesia na voz, quando a vontade que sentia era exigir que a garota deixasse de ser dissimulada.
— Fico muito satisfeita em saber... – Abigail comentou mostrando seu mais belo sorriso.
— Aguardarei ansioso. – outra mentira necessária ele pensou. Era preciso ganhar tempo, muito tempo. – Agora, se me der licença, tenho um compromisso importante e já estou atrasado...
Abigail voltou a sorrir seu mais belo e sedutor sorriso antes de liberá-lo finalmente de sua presença e retornar em passos rápidos para a casa. A menina não era feia, na verdade era bem graciosa, entretanto, era o tipo manipulador e desse tipo ele queria distância.
Em passos rápidos ele seguiu pela estrada de cascalho, mas antes de chegar a cavalariça algo lhe atraiu a atenção. Seus olhos rapidamente foram atraídos pela figura de alguém sentado em um dos bancos solitários no caminho das roseiras. Era um lugar reservado, quase escondido, bom para ficar só. Mesmo sem querer seus passos o conduziram em direção à pessoa.
Mabel ouviu passos e ergueu os olhos do livro. Dominic se aproximava em passos lentos, com as mãos nas costas, e com os olhos fixos sobre ela e imediatamente foi invadida por uma onda de calor. Ele lhe sorriu obrigando-a a sorrir de volta.
Ela o encarava tranquilamente e sorria de forma encantadora. Era verdadeiramente um perigo se aproximar assim dela num lugar onde eles ficariam sozinhos e isolados do restante da casa. Mabel largou o livro sobre o banco e ficou em pé.
— Bom dia... – falou encabulada lembrando da forma como o interpelara na noite anterior.
— Bom dia. – ele respondeu parando diante dela pensando que não se incomodaria de passar o que restava da manhã ali, parado, a observá-la.
— Como está? – ela ainda estava preocupada e ele sabia que tinha o poder de tranqüilizá-la.
— Com quase tudo resolvido.
Os olhos escuros se abriram levemente indicando surpresa.
— Já? – comentou quase sorrindo e se inclinando para a frente – Verdade sir Deeping? O senhor já conseguiu resolver o problema com Abigail?
Ele deu um passo para o lado, ficar tão perto dela não era uma boa ideia.
— Pode ficar tranqüila senhorita Nagle. Em breve a senhorita Strang não representará mais perigo para nenhum de nós dois.
Um suspiro rápido escapou dos lábios bonitos enquanto Mabel voltava a sorrir abertamente.
— Fico tão satisfeita em ouvir isso! — e encarando os olhos azuis dele completou: — Não apenas por mim... seria um inconveniente para o senhor ter de se casar com... é claro que se o senhor se interessa por Abigail... – ela não havia pensado nessa possibilidade ainda.
— Não tenho qualquer interesse na senhorita Strang. – ele afirmou em tom determinado voltando a se aproximar dela obrigando Mabel a erguer um pouco mais o rosto.
— Sophie comentou que o senhor não pensa em se casar... – não sabia porque estava tocando naquele assunto, mas era verdade que aquela informação lhe parecera surpreendente e não conseguia esquecê-la desde que a ouvira.
— A senhorita pensa...
O comentário não tinha a intenção de provocar, mas foi impossível reter o tom de ironia.
— Mas não sei se algum dia poderei me casar... – ela falou sinceramente. Se dependesse da espera, talvez levasse mais tempo do que desejava. Isso se Elliot não fosse obrigado a casar com alguém antes de herdar o título. – Apenas um milagre pode mudar meu futuro.
Ele suspirou baixo, desviou os olhos do rosto dela, queria dizer para ter esperanças, que o milagre viria, mas não podia. Não sem contar tudo o que fizera. Só que ele não queria nem deveria contar.
— Bem... não sou especialista em milagres, por isso não posso dar qualquer parecer a respeito. – se fosse, com certeza exigiria seu próprio milagre pensou encarando os olhos escuros em absoluto silêncio. Depois, lentamente o olhar caiu sobre os lábios femininos, um desejo ardente de tomá-los para si o consumiu, era a hora de sair dali.
Empertigando-se Dominic se afastou um ou dois passos, passou as mãos para as costas, assim controlava o desejo de tocá-la e finalmente se despediu. Em passos rápidos e mais agitados do que o normal retornou pelo caminho de onde viera, finalmente entrando na cavalariça.
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