Capítulo 4

— Diga a ela o que achar melhor.

— Sei que se importa, Sra. Pierce. Vi o quarto dela.

— Só porque não quero vê-la, não significa que não quero que fique confortável aqui.

Não percebe? Ela é uma criança. Um simples olhar para o que sobrou do meu rosto, e terá pesadelos por uma semana. — Ela sacudiu a cabeça. — Acho que devo poupar a nós dois dessa situação.

Rachel chegou mais perto, e viu que ela cruzava os braços à frente do peito, numa atitude defensiva. O gesto era claro. Não poderia alcançá-la. Não agora.

— Acha mesmo que uma criança vai se satisfazer com isso?

— Terá que ser assim.

— Mas sou uma estranha.

— Eu também.

Rachel suspirou, frustrada, cerrando os punhos.

— É uma mulher muito difícil.

Houve um instante de silêncio, antes que ela respondesse:

— Só quero protegê-la.

— Impedi-la de conhecê-la não é proteção.

— Por acaso é uma autoridade em crianças? — A voz dela revelava descrença.

— Tenho alguma experiência.

— É mesmo?

Pouco importava o tom crítico na voz dela, pensou Rachel.

— Não gosta que outras pessoas vejam o que lhe aconteceu, e então se esconde. Só vê aquilo que quer. Não tive filhos, mas gostaria de ter. Fui professora na escola da embaixada por vários anos, e cursei psicologia infantil na universidade. Além disso, sou a mais velha de cinco irmãos. Não acha suficiente?

Com raiva, afastou-se da grade e já ia entrar, quando Brittany segurou-a pelo braço. Os dois foram envolvidos pelas dobras das cortinas que flutuavam ao vento.
Rachel mal conseguia respirar, e seu coração batia acelerado. Ela era uma mulher forte, e os dedos circundavam lhe o braço, impedindo-a de mover-se. Estava consciente da proximidade dela, do perfume feminino, do corpo que quase tocava o dela, fazendo-a estremecer.

Ela era misteriosa, intensa.

O que a atraía não era a solidão dela, nem a amargura. Era a mulher que sofrera muito, mas sobrevivera. Que não deixara ninguém se aproximar. Rachel viu a sombra da cabeça dela aproximar-se e soube que desejava beijá-la. E quase desejou que o fizesse.

— Você tem perfume de... liberdade — sussurrou ela, cada célula do corpo gritando que era uma mulher, e que ela era uma linda mulher.

Mesmo sabendo que devia fazer anos que ela não estava com uma mulher, que devia afastar-se depressa, Rachel foi incapaz de resistir ao desejo de tocá-la. Erguendo a mão, colocou-a no colo.

A respiração dela ficou ofegante, e num gesto brusco afastou-se, subitamente consciente do que acontecia.

— Não quero sua piedade, e isto é errado.

Ela afastou-a e Rachel perdeu o equilíbrio, enquanto Brittany entrava depressa, desaparecendo na casa, de volta à sua caverna escura.

Queria dizer-lhe que a última coisa que sentira em seus braços era piedade. Mas ela já se fora.

Era uma tola. O abandono da mulher não lhe ensinara nada, ou não teria tocado Rachel.

Sentado na escrivaninha, o sol nascendo atrás dela, Brittany bateu nas teclas, fazendo uma porção de erros, até desistir, empurrando o teclado. Recostando-se na cadeira de couro, fechou os olhos, e quase pôde sentir a maciez daquele corpo que tanto desejava tocar.

E que homem ou mulher não desejaria fazê-lo, pensou. O corpo de Rachel era curvilíneo, e ela tinha um jeito de andar que quase a enlouquecia. Ela sacudiu a cabeça. Seria mais difícil do que tinha pensado, e sabia que a lembrança de tocá-la seria tão torturante quanto a própria ação.

Era a babá, lembrou a si mesmo. Fora contratada para ajudá-la.
Levantando-se, foi até a janela. Que Deus me ajude, pensou. Rachel era o sonho de qualquer homem ou mulher. E estaria ali por muito tempo, provocando-a.

Atrás dela, o e-mail soava, o fax gemia, e Brittany ignorava tudo, os olhos presos à faixa de areia lá embaixo. Havia pegadas no solo úmido, e imediatamente soube que eram de Rachel.

Será que levaria Melaine para longos passeios, à procura de conchas? Será que Melaine gostaria dali? E do quarto, dos brinquedos? Ou ficaria assustada, com medo? As perguntas surgiam-lhe na mente, e teve que admitir que não sabia nada sobre a filha de quatro anos. Mas Melaine era tudo que tinha no mundo, e faria o possível para que nada lhe faltasse.

Exceto você mesmo, disse uma voz interior, e a culpa dominou-a.

E se nada daquilo fosse suficiente, e traumatizasse a menina? Era tão pequena, inocente.

No momento, não tinha dúvidas de que Rachel cuidaria de tudo. Era encantadora, mesmo com aquela língua afiada, e suspeitava que Melaine acabaria se divertindo, depois de ter passado de um amigo para outro, após o acidente. Tanto ele quanto Santana não tinham família. Soubera da morte da mulher por um policial, e cinco dias depois um advogado, executor do testamento de Santana, a informara da existência da filha. Com a permissão dela, Quinn Fabray tirara Melaine do abrigo do Serviço Social, e tomara providências para arranjar uma babá, e trazer a menina para a ilha. Era tudo tão frio, formal. Santana escondera a criança até a tragédia acontecer. Mas ela tivera tempo suficiente para pensar na mulher que havia conhecido num baile de caridade, e com quem se casara, sete anos atrás.

Santana tinha sido linda, como uma boneca de porcelana, embora durante o casamento tivesse ficado cada vez mais egoísta e exigente, gostando muito mais do estilo de vida que tinham do que Brittany. Agora percebia que ela gostava das empregadas e cozinheiros, e que quanto mais lhe dava, mais queria. Até que Brittany desejara ter filhos, parar de viajar o tempo todo. Ela havia discutido e reclamado, até Santana ceder. Devia ter engravidado no segundo procedimento de inseminação, na véspera do acidente. Apesar disso, quando o acidente a privara da beleza que a atraíra, Santana a abandonara. Não a culpava por tê-lo feito. Ela era frágil, imatura, e Brittany por certo não fora mais a mesma mulher. Nem por fora, nem por dentro. Tentava imaginar o que Santana dissera a Melaine sobre ela, mas logo desistiu. Não fazia diferença. Suspirando, voltou a trabalhar no computador, até que uma voz suave soou no interfone:

— Muito trabalho sem comer, deixa a Sra. Pierce de mau humor.
Brittany sacudiu a cabeça, com um meio sorriso. Apertando o botão do interfone, perguntou:

— Preparou alguma coisa? — O estômago dela roncou, diante da perspectiva de uma refeição.

— Sim. E Troy não vai conseguir comer tudo. — Houve uma pausa, mas logo ela continuou: — Nunca fui capaz de cozinhar para menos de seis pessoas. Ainda bem que gosto de sobras, não é?

Brittany imaginou se alguma vez ela ficava de mau humor, e sentiu-se grato por não mencionar a noite anterior. Não queria a piedade dela. Já aprendera o suficiente a esse respeito com a ex-mulher. Não podia esquecer o modo como ela se encolhia, cada vez que tentava tocá-la. Sacudindo a cabeça, pensou em como fora tola na noite anterior. Mas parte dela queria saber se Rachel sentira o mesmo calor que a invadira. Nem Santana conseguira provocar uma reação como aquela, e ela a amara.

— Estou com fome.

Rachel tentou não gostar tanto da voz dela, nem lembrar-se de como parecera sedutora na tênue luz da varanda. Mais uma vez se perguntava como podia sentir tanta atração por uma mulher que nunca vira, embora soubesse que a aparência, o dinheiro ou o charme, pouco tinham a ver com o que o corpo dizia. E o corpo de Brittany Pierce dizia muita coisa. Rachel só esperava que o seu não entendesse.

— Vou levar aí em cima — disse, por fim. Ela detestava estar isolada ali.

— Obrigado — agradeceu.

Um momento de silêncio, e então ela disse:

— Recebi seu e-mail com as regras.

— E estou certo de que quer fazer algum comentário — retrucou ela, e quase podia ver como ela cerrava os lábios, furiosa.

— Alguma delas é negociável?

— Por exemplo?

— Esta sobre não ir ao terceiro andar. Como a empregada vai fazer a limpeza?

— Ela conhece as regras. Avisa antes de subir, e eu simplesmente vou para outra parte da casa.

— Entendo. — Brittany ouviu-a suspirar. — Essa comunicação pelo interfone é tão impessoal.

— É assim que tem que ser Rachel.

Lá embaixo, na cozinha, ela encostou a testa na parede. Cabeça dura.

— Nada é imutável, sabia?

— Não. — Ela parou por alguns instantes. — O que você quer, Rachel?

A irritação dela atingiu-a, provocando uma reação imediata. O que queria? Apenas uma vida normal. Antes que Melaine chegasse. Mas sabia que Brittany continuaria resistindo.

— Nada — respondeu, suavemente. — Acabarei dando um jeito de contornar as regras.

Especialmente esta, de não andar pela casa a noite. Gosto de tomar chocolate quente, olhando as estrelas.

— Então deve estar se sentindo em casa aqui.

— É verdade.

Brittany queria que ela se sentisse à vontade, especialmente com Melaine chegando na manhã seguinte. Estava desesperada para que ficasse, especialmente depois que Quinn ligara naquela manhã, dizendo que não encontrara uma substituta qualificada. Brittany achou que estava zangada com ela, e não estava fazendo muito esforço.
Alguns minutos mais tarde, ouviu uma batida na porta. Brittany aproximou-se, espiando pelo visor. Ela era mesmo persistente.

— Deixe aí mesmo.

Ela mostrou a língua para a porta.

— Encantadora, Srta. Berry — disse, secamente. Rachel sorriu, sem jeito, e colocou a bandeja de lado.

— Sobre a noite passada...
Brittany gemeu, baixinho, e apertou o botão do interfone, junto à porta.

— Foi errado tocá-la.

— Por quê? -ela perguntou e ela piscou, surpreso.

— E a babá da minha filha.

— Muito conveniente, não é?

— O quê?

Ela recuou um passo, diante do tom da voz dela.

— Bem, estou aqui, sou mulher e...

— E linda demais.

Os lábios dela apertaram-se, revelando toda a amargura que sentia. Quase desejou ter cicatrizes, como Brittany. Pelo menos saberia que os homens e mulheres não a desejavam só pela beleza.

— Não é o que quis dizer.

— Está imaginando há quanto tempo não tenho uma mulher? — A voz rouca fez os joelhos dela fraquejarem.

— É claro que não!

— Mentirosa.
Ela cruzou os braços, olhando para a porta.

— Ofender o outro é uma atitude infantil.

— Desculpe-me.

— Esqueça.

— Está bem.

Mas Rachel duvidava. Especialmente depois que a evitara cuidadosamente, e depois a agarrara como se fosse a tábua de salvação de um náufrago. Ainda assim, não podia ignorar a eletricidade que as envolvera, o calor que percorrera seu corpo. E a vontade que sentira de tocá-la, de provar a força daquele corpo alto e rijo. Brittany a fizera sentir-se pequena, indefesa, e naqueles poucos segundos, protegida.
Não era algo que pudesse esquecer facilmente.

— Se quiser mais, é só pedir — disse ela, afastando-se e descendo a escada.

Brittany pegou a bandeja, e admirou a enorme variedade de comidas: ovos, panquecas, salsichas, bacon, café, torradas, geleia e biscoitos. Teria que correr mais alguns quilômetros para queimar tudo aquilo, pensou, saboreando as delícias. E tentando não pensar na mulher que as preparara.

Durante o resto do dia o contato entre elas foi mínimo. E Brittany esperou, impaciente, que a noite chegasse. As sombras a protegiam e lhe davam liberdade. Sentia-se como uma vampira, condenada à escuridão. A noite era sua amiga, embora amasse o dia, o sol.

Agora olhava para a mulher que dormia no sofá, com um livro aberto sobre o peito. Ela inclinou a cabeça para ler o título. Crianças e Pensar. Mais uma vez, pensou em como Melaine iria se apoiar em Rachel, enquanto Brittany desejava confortá-la. Como queria abraçar a filha, acariciá-la, saber tudo sobre ela, vê-la crescer e aprender. Mais uma vez amaldiçoou Santana por não ter lhe permitido compartilhar a vida de Melaine. Então percebeu, com enorme pesar, que estava confiando em Rachel, para amar a filha no lugar dela.

Rachel viu a balsa chegar e a grade de segurança ser levantada. As pessoas começavam a sair do barco, e ela procurou a garotinha na multidão, com a acompanhante que a traria até ali.

O que viu foi à criança mais linda que jamais vira, de cabelos loiros, rosto angelical, agarrada à mão de Quinn.

Olhando para a ex-colega de faculdade, Rachel sorriu.

— Fico feliz que você a tenha trazido. — Quinn olhou para a garotinha e sorriu.

— Achei que alguém familiar seria melhor do que um estranho.

Rachel podia ver as perguntas nos olhos de Quinn, desejando saber como iam as coisas com Brittany Pierce. Sem querer lhe dar qualquer indicação do que acontecera na noite anterior, ficou grata ao ver que um homem se aproximava e pegava as malas de Melaine .

Rachel acompanhou-o até o carro que Brittany lhe permitia usar, e ele colocou as malas no banco de trás. Depois de pagá-lo, voltou para o lugar que a aguardava. Rachel ajoelhou-se e sorriu para Maleine. A garotinha enterrou o rosto na saia de Quinn.

— Olá, sou Rachel.

— Olá — respondeu a garota, sem mostrar o rosto. Quinn afastou-se um pouco, forçando Melaine a fitá-la. Rachel sentou-se no chão, com as pernas dobradas sob o corpo, como se tivessem todo o tempo do mundo.

— Foi uma semana bem difícil, não é?

— Sim.

— Bem, agora vou cuidar muito bem de você, Melaine. — A menina ainda parecia pouco à vontade. — Eu prometo. Sei fazer uma porção de coisas. Podemos brincar na praia, andar de bicicleta, e talvez andar a cavalo.

A ideia pareceu agradar, e Rachel rezou, baixinho, para que ainda se lembrasse de como cavalgar.

— Sua mãe tem três cavalos, e não acho que façam muito exercício. Teremos que cuidar deles.

— Viu minha mama?

A esperança na voz da menina fez o coração de Rachel se apertar.

— Sim. Ela é muito simpática.

— Mamãe disse que ela foi ferida.

— Sua mãe tinha razão. Foi sim. Mas agora está bem. — Não pretendia assustar a menina com detalhes assustadores. — Só não gosta que fiquem olhando para ela.

As sobrancelhas de Melaine ergueram-se, como se estivesse tentando entender por que não queria que olhassem para ela, se estava bem. Rachel pretendia adiar o encontro dos dois, até que Melaine estivesse acomodada e à vontade.

— Então, está pronta para ver sua nova casa?

Melaine assentiu, mastigando a ponta do suéter que vestia. Rachel estendeu a mão, tirando-o delicadamente da boca da menina.

— Fale. Não consigo ouvir o que está dentro da sua cabeça. — A garotinha quase sorriu.

— Sim, Senhora.

— Vai adorar, Melaine. É um castelo, como o da Cinderela.

— Verdade?

— Verdade.

Rachel levantou-se e estendeu a mão. Melaine olhou para Quinn, suspirou, e então segurou a mão de Rachel, que mal pôde esconder a alegria.

— Não gostaria de vir até a casa? — convidou. — Tomar um café, antes de pegar a outra balsa? — Algumas pessoas já passavam por elas, a caminho do barco.

Quinn sacudiu a cabeça.

Notas finais
Ate......