Capítulo 7

— Sua mãe acha a idéia maravilhosa.

Mentirosa, pensou Brittany. E embora não pudesse ver o sorriso de Melaine, pôde senti-lo, completamente. Rachel estava decidida a fazê-la parecer uma heroína diante da filha.

— É um gato ou uma gata? — sussurrou Melaine. Houve uma pausa, uma risada, e então, a resposta:

— É uma gata, querida.

Três presenças femininas a mais na casa. Como ela podia suportar aquilo? Ainda assim, encostado no batente da janela, Brittany desejou estar com elas. Queria ver o rosto de Melaine, segurando a gatinha. E a dor sufocou-a, mais uma vez.

— Os olhos dela parecem os seus, Rachel.

— Não acho que os meus sejam tão castanhos, ou tão lindos. Mas eram, pensou Brittany. Cor de chocolate e misteriosos, como os de um felino.

— Vamos mantê-la aquecida. Pobrezinha, está tremendo. Vamos para a sala, acender a lareira. Só tem que mantê-la enrolada na toalha e deixar que se acostume com você.

— Como nós vamos chamá-la?

Nós. Ela já estava apegada a Rachel, pensou Brittany, e quando as vozes desapareceram, não conseguiu ficar parado. Precisava ao menos ouvir o que diziam, já que não podia ver a menina, pensou, descendo pela escada de serviço.

— ...mas nunca soube de um gato que atendesse quando chamado pelo nome — ouviu ela, alguns minutos depois.

— Já teve gatinhos? — perguntou Melaine, e Brittany, deslizou pela porta escondida, entrando na cozinha e espiando. Rachel acendia o fogo na lareira.

— Sim. Quando eu era criança tínhamos pelo menos uns três, além dos cachorros e das cabras. — Ela sorriu para a menina, fazendo o sangue de Brittany ferver nas veias. — Gado, galinhas e montes de amendoins.

— Amendoins?

— Meu pai é fazendeiro. Planta amendoins. O rosto de Melaine se iluminou.

— Ele faz manteiga de amendoim?

— Não. Ele vende a colheita para as fábricas. — A risada de Melaine encheu o ar, e Brittany sentiu uma estranha emoção percorrê-la. — O que acha? — perguntou, apontando a lareira.

— Está gostoso, mas a gatinha ainda está tremendo.

— Fale com ela com carinho, até acostumar-se com a sua voz e perceber que não vai machucá-la. Enxugue o pêlo dela devagar, enquanto vou buscar um pouco de leite.

Sentada no canto do sofá, Melaine olhava para Rachel, com olhos muito brilhantes.

— Muito, muito obrigada, Rachel.

— Por nada, querida — disse Rachel, beijando-a, carinhosamente. Rachel afastou-se, parando junto à porta para observar a menina e a gatinha. Animais eram uma das melhores coisas que havia para crianças que cresciam na fazenda.

Na cozinha iluminada apenas pela luz do fogão, ela abriu a geladeira e tirou o leite, virando-se para o armário para pegar um pires. A mão parou no ar.

— Há quanto tempo está aqui? — perguntou, suavemente, percebendo que ela estava ali, atrás dela, do outro lado do balcão. No silêncio, podia ouvi-la respirar. Não tinham ficado tão perto desde o beijo na escada e Rachel estremeceu ao lembrar. Imaginara que ficar longe dela apagaria as lembranças, mas estava enganada. O simples fato de sabê-la tão perto deixava seu corpo em chamas.

— Tempo suficiente para saber que é filha de um fazendeiro.

— Isso mesmo. Sou a mais velha.

— Quantos irmãos tem?

— Cinco. Três meninas e dois meninos. — Ela despejou leite no pires. — A diferença de idade é pequena.

— Deve ter sido bom. Fui a única filha.

Algumas vezes ela desejara ser filha única, mas não muitas.

— Era barulhento, apertado, mas não trocaria minha família por nada.

brittany sorriu, adorando quando o sotaque dela ficava mais acentuado. Tinha curiosidade em saber mais sobre o passado de Rachel.

— Então, por que entrou nos concursos de beleza? Além do óbvio.

Quantas vezes ela ouvira isso? Era óbvio que uma mulher tão linda participasse de concursos. Era óbvio que os homens e mulheres a desejavam apenas pela beleza.

— Que importância tem isso?

— Só queria saber mais sobre a mulher que cuida da minha filha. E também estou curiosa para saber como saiu da fazenda e foi parar no Departamento de Estado.

Tinha o direito de saber, admitiu Rachel. Se fosse filha dela, faria o mesmo.

— Minha família é muito pobre. Minha mãe percebeu que poderia conseguir algum dinheiro se me levasse a concursos, ou para trabalhar em comerciais. Comecei a trabalhar quando era pouco mais velha do que Melaine. — Ela deu de ombros. — Quando cresci o suficiente para entender, percebi que era um negócio impiedoso, com uma competição acirrada e injustiças. E decidi participar de concursos que me proporcionassem o melhor prêmio em dinheiro, ou bolsas de estudos, para poder ir para a universidade, e deixar a fazenda.

—Admirável

Ela franziu a testa, tentando vê-la melhor. Ela continuava parado entre duas portas abertas, uma que levava à frente da casa e outra que conduzia à escada, na parte de trás. A tentação de acender as luzes era grande, mas ela prometera, e costumava manter a palavra.

— Estava tentando fugir das suas raízes?

— Não. Só não queria ser mulher de um fazendeiro, com cinco filhos, economizando cada centavo e rezando todas as noites para que a chuva viesse, ou a colheita se perderia.

A amargura na voz dela a surpreendeu,

— Sinto muito...

— Não sinta. — Ela suspirou. — Foi difícil, mas não sabíamos que éramos pobres. Todos à nossa volta viviam do mesmo modo. — Ela riu, mas o som não revelava alegria. — Hoje, mamãe e papai estão bem. Mas mamãe ainda remenda roupas velhas, economiza e aproveita todas as sobras de comida. — Rachel sacudiu a cabeça. — Parece que algumas coisas nunca mudam.

Pegando o pires de leite, foi para sala, sem saber se Brittany estaria ali quando voltasse. Ou se iria voltar. Ao colocar o — pires no chão de pedra, perguntou a Melaine se gostaria de chocolate quente. O sorriso da menina foi à resposta, e ao voltar para a cozinha, Rachel percebeu que ela continuava lá.

Parte dela vibrou de prazer, vendo que ela não se fora. A outra a lembrou de Troy e das lições que aprendera sobre ela.

Pegando o pacote de chocolate, virou-se para ela.

— Quer uma xícara?

— Não, obrigado.

Como aquelas simples palavras podiam ser tão sedutoras no escuro? E como podiam fazer de conta que nada acontecera entre elas? Era mais fácil agir assim na semi-escuridão.

Rachel pigarreou, tentando afastar as lembranças eróticas.

— E seus pais, sua família?

— Melaine é tudo que tenho. Meus pais morreram, com seis meses de diferença, antes de eu me casar.

Como devia ter sido triste viver sozinho, imaginou, sabendo que ela detestaria sua piedade.

— Mais uma razão para conhecê-la melhor, Brittany. Logo estarão sozinhos.

Brittany não podia sequer imaginar aquilo. Para ela, Rachel tinha que ficar. E a tentação de tê-la por perto era algo com que teria de se acostumar. Não podia deixar que Melaine a visse. A menina já tinha uma imagem dela, e aos quatro anos de idade jamais poderia pensar no que o acidente fizera com ela. Ela a rejeitaria, e era exatamente isso que Brittany queria evitar. Santana não se importara de disfarçar o choque e a rejeição, quando as ataduras tinham sido retiradas. Com uma criança não poderia ser diferente. Rachel talvez tivesse um pouco mais de tolerância, mas não podia arriscar. Não depois de tê-la abraçado. Não depois do beijo que a tocara tão profundamente. A rejeição seria insuportável.

Era em Melaine que devia pensar, e não nas reações do seu corpo, no desejo por uma mulher. Era melhor continuar no escuro e ficar distante de Rachel. Para evitar o perigo.

— E a família da sua esposa?

— Ex-esposa — corrigiu ela. — Ela também não tinha família. Pelo menos, nunca mencionou ninguém.

Rachel assentiu, curiosa sobre a mulher com quem ela se casara, mas sem querer tocar feridas profundas. O tom da voz dela era suficiente para mostrar como ainda estava magoada. O mais importante era que Melaine não tinha parentes e jamais saberia o que era ter avós, ou primos. Isso a deixou ainda mais decidida a fazer Brittany sair da escuridão. As duas precisavam uma da outra. Não tinham mais ninguém.

Depois de preparar duas canecas de chocolate, dirigiu-se para a porta.

— Por que deixou de ensinar os filhos de diplomatas e foi trabalhar na Wife Incorporated?

Ela virou-se para o lugar onde Brittany continuava escondido nas sombras.

— Por causa de uma mulher — respondeu, com sinceridade. — Uma mulher que amei de verdade.

Brittany sentiu a dor e a angústia na voz dela, e isso a feriu profundamente.

— Rachel. O que ela fez?

— Mentiu, enganou, traiu. E o pior... Ela me queria só pela aparência. Como vê, Brittany — continuou, amarga —, temos mais em comum do que você imagina.

— Não concordo.

— Não? Então não me quer apenas por minha beleza?

— Droga, Rachel, é muito diferente. Não tem ideia do que é ser tão medonha.

— Não, não tenho. Mas sei muito bem o que é ser julgada pela aparência.

De repente, Melaine apareceu correndo na sala de jantar, e Rachel parou.

— Está falando com a mama? Ela está aqui? Posso vê-la? — Ela aproximou-se, e ao olhar para a cozinha, Rachel soube que ela tinha desaparecido.

— Sim, querida, era ela.

A menina ergueu o olhar, abraçando a gatinha contra o peito.

— Ela não quer me ver? — Os lábios tremiam, e os olhos verdes encheram-se de lágrimas. O coração de Rachel apertou-se. Como Brittany podia fazer aquilo com a filha?

—Sim, querida, ela quer. Só que não pode vê-la... ainda.

— Quando vai poder?

A tristeza na voz da menina era tão intensa que os olhos de Rachel se encheram de lágrimas.

— Logo — sussurrou, imaginando se Brittany Pierce sairia do esconderijo para ficar com sua princesinha.

Notas finais
Ate....