Capítulo 6

Deslizando os dedos pelos livros nas prateleiras, leu os títulos, continuando até a escrivaninha e sentando-se na cadeira de couro. Será que ela lia todas as noites? Será que a presença dela lhe roubara toda a liberdade?

Será que, algum dia, se aproximaria dela e de Melaine e teria uma vida normal? Ela conhecia bem as crianças e sabia que a menina não aceitaria aquela situação por muito tempo. Por isso, temia o momento em que Melaine perguntaria pela mãe. Só porque escolhera viver escondida, não podia esperar que a garotinha aceitasse a mesma vida. Rachel disse a si mesma que só deixaria o castelo quando tivesse certeza de que mãe e filha podiam viver juntos.

Virando-se, parou ao ver os porta-retratos, arrumados num canto da escrivaninha. Inclinando-se, pegou a foto do casamento.

— Meu Deus... — murmurou, afundando na cadeira.

Ali estava Brittany, antes do acidente. Ela era maravilhoso... A ex-esposa era linda, perfeita, mas era ela quem se destacava na foto. Os cabelos loiros, os olhos azuis, como os de Melaine, o sorriso lindo. Os traços do rosto pareciam ter sido esculpidos por um artista clássico e eram perfeitos, aristocráticos. Não era apenas bonita. Era fascinante, e o coração de Rachel deu um salto, ao pensar que aquela mulher sentia-se atraída por ela.

No outro lado do corredor, escondido nas sombras, Brittany ouviu as palavras sussurradas e mal pôde suportar a dor. Tinha se esquecido da foto. Desde o colegial, tivera mais mulheres do que podia contar, graças a sua aparência. Até o acidente.

O olhar dela pousou nas pernas nuas, quando Rachel mexeu-se na cadeira. Ela vestia apenas uma camisa preta e comprida, e o corpo dela enrijeceu, sabendo que apenas alguns metros as separavam.

Mas a distância não fazia diferença. Se visse o rosto dela, saberia que a mulher da foto tinha morrido, quatro anos atrás.

Rachel franziu a testa, colocando a foto no lugar. Mais uma vez, olhou ao redor. Havia uma sombra no corredor e ela se levantou depressa, caminhando até a porta.

— Apareça, onde estiver, apareça.

Ninguém respondeu. Mas tinha certeza de que havia alguém ali.

— Pare com isso, Sra. Pierce. — advertiu Rachel, andando até o centro do saguão e tentando enxergar na semi-escuridão. — Só é um fantasma porque quer. Se tiver algo a dizer, fale!

O silêncio ecoou no vazio, mais uma vez.

— Pois bem, eu tenho algo a dizer!

Um movimento no fim do largo corredor atraiu-lhe a atenção, e Rachel correu, entrando na cozinha a tempo de vê-la sair, fechando a porta atrás de si. Ela correu para fora.

— Brittany!

Por um instante ela hesitou, e então, protegido pelo agasalho preto com capuz, começou a correr para a praia. Ela observou-a até que os desenhos fluorescentes nos tênis desapareceram na escuridão.

Não pode viver nas sombras para sempre, pensou.

Crianças eram muito mais resistentes do que os adultos, pensou Rachel, na manhã seguinte.

Imaginara que a filha de Brittany estaria assustada e com medo na manhã seguinte, mas se enganara. Melaine aparecera no quarto dela, bem cedo, com um sorriso no rosto e cheia de curiosidade. Queria ver a nova casa, brincar, e Rachel decidiu esquecer o trabalho de casa e dedicar-se a menina.

Melaine riu muito quando Rachel tentou descer pelo escorregador, que por certo não fora feito para adultos, e acabou caindo de um modo desastrado.

Meline correu para ela, rindo sem parar.

— Acho que estou meio enferrujada.

— Vá de novo! — pediu Melaine, saltitando.

— Não. Acho que a Rainha do Escorregador é você — declarou Rachel, levantando e limpando a calça jeans.

A menina não hesitou, e Rachel sorriu ao vê-la subir depressa, as perninhas escalando os degraus altos. Melaine passou do escorregador para o balanço e dali para a caixa de areia. Depois, as duas correram para a praia, Rachel carregando a pá e o baldinho, até chegarem à beira-mar. Para surpresa de Melaine, Rachel sentou-se no chão, ajudando-a a construir o castelo de areia.

— Estou toda suja de areia — disse a menina, mais tarde, enquanto observavam a maré desmanchar o castelo.

— Não faz mal. Vamos tomar um banho — disse Rachel, dando de ombros.

— Não vai brigar comigo?

Ela, parou, abaixando-se ao lado da menina.

— É claro que não, meu bem. É impossível brincar na areia sem se sujar.

— Minha mãe não gostava de areia.

Pobrezinha, pensou Rachel, ao ver que a menina estava prestes a chorar. Carinhosamente, pegou-a no colo.

O coração de Brittany apertou-se ao ver como Rachel carregava a menina nos braços, trazendo-a para casa. O olhar dela não conseguia afastar-se das duas, enquanto se aproximavam, e desejou poder estar com elas. A angústia cresceu, ao observá-las. Não fizera outra coisa o dia inteiro, mudando de uma janela para outra, atraído pelas risadas das duas.

Rachel parou nos degraus da entrada, olhando-a diretamente. Brittany afastou-se da janela tarde demais. A expressão dela dizia claramente que era ela quem deveria estar ali.

Rachel carregou Melaine para cima e ajudou-a a tirar as roupas molhadas. Logo a colocava num banho cheio de espuma perfumada.

Meia hora mais tarde, Melaine estava limpinha e cheirosa, pronta para uma soneca, embora insistisse que não estava com sono. Na cozinha, no entanto, acabou adormecendo sobre o sanduíche de geléia que Rachel preparara. Ao carregá-la para cima, a menina passou os braços no pescoço de Rachel, que a colocou na cama de princesa, cobrindo-a carinhosamente. Depois de acender o pequeno abajur de cabeceira, saiu silenciosamente do quarto e desceu para a cozinha para lavar a louça. Preparou uma bandeja para Brittany, um prato para Troy e ligou o interfone.

— O almoço está servido, Senhora.

— Obrigado.

— Não vou levar aí em cima. Terá que se arriscar e descer.

— Rachel...

— Tenho trabalho a fazer, Sra. Pierce. Trabalho que não fiz porque estava brincando com sua filha.

Houve um breve instante de silêncio.

— Obrigado, Rachel.

— De nada. Ela é uma criança adorável. Agora saia do seu esconderijo e venha comer.

— Está agindo como uma tirana.

Ela ignorou o sorriso que percebia na voz dela.

— Essa sou eu: Rachel, a Impiedosa. — Desligou o interfone e afastou-se, mas depois de alguns segundos, voltou. — E quero que esteja aqui quando eu pedir desculpas pela noite passada.

Ela não respondeu quando a ouviu chamar seu nome. Brittany ia descer, pensou Rachel. Mesmo que fosse a última coisa que fizesse naquela casa, iria tirá-la do esconderijo, nem que tivesse de arrancá-lo de lá aos berros.

Brittany ouviu os gritos de Melaine, cada vez mais altos, enquanto descia depressa a escada que levava ao quarto da filha, amarrando o roupão. Abrindo a porta, viu a criança que se debatia sob as cobertas.

O pequeno abajur de cabeceira proporcionava apenas um brilho pálido, e os gemidos explodiram num grito, assim que ela a alcançou. Tomando a menina nos braços, sussurrou que tudo estava bem, e que estava ali para protegê-la. Ela tremia, as mãozinhas agarradas ao tecido do roupão.

— Mama está aqui, querida — sussurrou, acariciando-lhe as costas. Logo ela relaxou, começando a chorar baixinho.

— Eu... estava com medo.

— Eu sei, querida, eu sei.

— Ah, mama, mamãe se foi — gemeu Melaine, e o coração de Brittany apertou-se. Como uma criança de quatro anos podia lidar com morte e pensar, coisas que nem os adultos aceitavam?

— Eu estou aqui, Melaine.

Os soluços diminuíram, e quando ela passou os braços à volta do pescoço dela, Brittany ficou tensa. Ela não pareceu notar as cicatrizes e ela relaxou um pouco, ninando a filha e desejando nunca mais se afastar dela. Queria tanto protegê-la, ajudá-la a livrar-se dos sonhos maus! Tinha que fazê-la sentir-se segura.

Beijando a testa da menina, falou com ela, disse-lhe como estava feliz por tê-la ali e que iria protegê-la, sempre. Ela estremeceu mais uma vez e adormeceu. Mesmo assim, Brittany continuou a segurá-la. Era a terceira noite que tinha pesadelos. Rachel sempre viera socorrê-la, e ela imaginava onde estaria agora. O ouvido dela parecia ser mais aguçado do que o seu. Devia estar exausta, imaginou, ainda mais depois de ter brincado com a menina o dia todo. Colocando Melaine na cama, cobriu-a carinhosamente, lembrando das cenas que vira pela janela. Rachel ensinara Melaine a fazer um carrinho de madeira, e depois as duas haviam desaparecido no estábulo. Auxiliadas por Troy, elas tinham aparecido montando uma égua mansa. Trotaram pela praia, mas ela percebera que Rachel gostaria de cavalgar contra o vento. E não pudera deixar de notar como as duas estavam ficando cada vez mais próximas. Brittany admitiu que estava com ciúme, embora estivesse grata ao ver como se davam bem. Rachel seria uma mãe maravilhosa, e mais uma vez imaginou por que não teria se casado.

Ela ouviu a porta ranger ao abrir-se. Depressa, endireitou-se e deslizou rapidamente pela passagem secreta.

Rachel entrou no quarto, com a testa franzida. Podia jurar que tinha ouvido alguma coisa. Olhou ao redor e de novo para a criança adormecida, inclinando-se para beijá-la. Ao fazê-lo, percebeu um perfume diferente, que não era do xampu de Melaine.

Era feminino, picante, e logo ficou alerta.

— Sra. Pierce? — sussurrou. Não obteve resposta, mas de fato não esperava uma. Mesmo com Melaine adormecida, ela estivera ali. E isso era algo importante. Significava que não era tão distante quanto fingia ser.

Deixando o quarto, percebeu que tinha perdido o sono e decidiu descer para preparar um chá de camomila. Os corredores estavam escuros, iluminados apenas pelas pequenas lâmpadas junto ao chão, enquanto se dirigia para a cozinha. Estava esquentando a água para o chá quando ouviu o barulho de madeira estalando. Correndo para a sala de estar, viu as chamas ardendo na lareira. Ela a acendera, pensou, aproximando-se do fogo para aquecer os pés nus. Podia sentir que estava atrás dela, em algum lugar.

— Venha até aqui — disse a voz feminina.

Ela virou-se. Brittany estava sentada numa poltrona de espaldar alto, longe o bastante das chamas para que não pudesse vê-lo. Tinha certeza de que ela conhecia cada sombra da casa, e sabia como impedir que a visse. A constatação irritou-a profundamente. Ao fitá-la, viu apenas o roupão de seda marrom e a calça de pijama combinando.

— Por que não está dormindo?

— Pouco exercício, suponho. — Ela levou aos lábios o copo de cristal, que cintilou à luz da lareira.

Rachel pôde ver que a mão direita era lisa, sem cicatrizes, e a outra continuava escondida, ao lado do corpo.

— Bem, a culpa é toda sua. Ninguém lhe disse que deve ficar escondida na torre.

— Não quero recomeçar essa discussão, Rachel. Ou me deixa em paz, ou fica aqui comigo. Tem vinho na mesinha. — Brittany fez um gesto com o copo.

Ela hesitou, imaginando se seria prudente ficar tão perto dela.

— Está com medo? — perguntou Brittany, num tom rouco, que fazia Rachel experimentar sensações perturbadoras.

Ela riu baixinho.

— De você? Não... Nunca ouviu o ditado "Cão que ladra não morde"?

— Como pode ter certeza?

— Porque nunca chega perto o suficiente para morder — retrucou ela.

— Tão corajosa — murmurou Brittany, tomando mais um gole de vinho e desejando que ela sentasse bem longe. As chamas iluminavam o roupão de seda preta, delineando as curvas do corpo perfeito. Ela tentou controlar a frustração, mas não conseguia deixar de fitá-la. Ela era perfeita, e a tensão de seu corpo era algo que não podia negar. Não queria desejá-la, mas era humana, nem um pouco diferente das outras mulheres e homens. E Rachel tinha um corpo deslumbrante, pernas longas, seios fartos... e estava ali, à frente dela.

— Sente-se, Rachel — disse, por fim, incapaz de suportar aquela visão tentadora.

— Vou pegar o meu chá.

Ela foi até a cozinha e voltou, e ao perceber que ela continuava ali, sentiu um estranho prazer. Sentando-se na ponta do sofá, em frente à lareira, tomou um gole do chá e percebeu que ela se mexia na cadeira.

Ouço sua respiração se acelerar, sinto seu corpo pulsar quando estou perto, ele dissera na outra noite.

Será que tinha noção do que estava fazendo com ela agora? Rachel tomou um gole de chá, tentando afastar as sensações perturbadoras, sem resultado. Fechando o roupão junto ao pescoço, lembrou-se da foto. Como devia ser difícil para ela, uma mulher que fazia as mulheres e homens suspirar com sua beleza, perceber que agora estremeciam de repulsa ao vê-la.

— Peço desculpas pelo que disse na outra noite — disse, olhando na direção dela.

— Por quê? Era verdade.

As palavras dela fizeram-na estremecer.

— Fui muito rude.

Brittany sentiu o coração dar um salto.

— Aceito suas desculpas.

— Obrigada, Sra. Pierce.

— Acho que já agredimos um ao outro o suficiente para podermos nos tratar pelos nomes.

— Oh, Brittany — sussurrou ela, baixinho, virando-se para ela. — Não pretendia magoá-la.

— A verdade feriu mais a você do que a mim.

— Pare de ser tão fria! — Ela colocou a caneca de chá sobre a mesa com um gesto brusco.

— O que quer que eu faça? Que negue que sinto atração por você? Você é linda, droga!

— E daí? Minha aparência é apenas obra da natureza. Não o que realmente sou. — Rachel levantou-se, furiosa por perceber que ela podia perturbá-la tanto. Principalmente porque jurara nunca mais se envolver com uma mulher que desse tanta importância às aparências. — Sabe o que eu acho?

— Tenho certeza de que vai me dizer de qualquer modo. Ignorando a observação, ela continuou:

— Acho que não confia em si mesmo o suficiente. Esqueceu-se como agir de modo normal, em vez de comportar-se como uma ursa ranzinza que foi acordada, sem querer, da hibernação.

— Sei o que quer, Rachel, mas não posso permitir.

Com as mãos nos quadris, ela olhou-a diretamente, percebendo que os dedos apertavam o copo de vinho.

— Então, minha vontade não conta?

— Minhas experiências no passado já foram suficientes — disse ela, paciente, desejando que ela estivesse usando mais roupas. — Apenas não gosto do que me faz sentir.

— Detesta? Qualquer mulher ficaria encantada ao ouvir isso, Brittany! Mas deixou seus sentimentos muito claros na outra noite. Acho que é bom saber que só ficarei aqui até que se relacione com Melaine como um mãe de verdade — disparou, passando por ela.

— Então nunca irá embora.

Rachel parou bem atrás da poltrona dela, fitando-a com um misto de raiva e simpatia. As chamas refletiam-se nos cabelos loiros, nos ombros largos, e parte dela desejava sentar-se no colo dela, aninhar-se em seu peito. A outra parte queria fazê-la ter um mínimo de bom senso.

— Não posso ficar aqui para sempre, Brittany. Ela levantou-se de repente, virando-se para ela.

— Temos um contrato.

Ao ouvir o pânico na voz dela, Rachel percebeu que não devia tê-la ameaçado. Mas era tão teimosa...

— Temos, sim — assegurou, baixinho, e ao erguer a mão para tocá-la, Brittany agarrou-lhe o pulso.

— Nunca tente me tocar. E parte do trato.

As duas ficaram em pé, muito próximas, e Rachel sentiu a pele arrepiar-se, antecipando o que podia acontecer. Um só gesto e poderia puxá-lo para a luz, mas não queria destruir a confiança dela. Brittany não mudaria de ideia da noite para o dia.

— Vou fazer um acordo com você — disse, baixinho, percebendo que os dedos dela relaxavam em seu pulso. — Você pára de falar nos meus títulos de beleza, e eu prometo que não tentarei mais vê-la.

Ela riu, e o som rouco e vibrante fez Rachel estremecer.

— Concordo.

Ela soltou-a. Rachel assentiu, dando um passo para trás e apoiando-se na poltrona. Brittany sentiu que ela estava fugindo e apertou com tanta força o copo que quase partiu O cristal delicado. Rachel já ia saindo, quando parou junto à porta.

— Só mais uma coisa.

Ela virou-se. Ela estava de costas.

— Sim?

— Sou uma pessoa sincera. Costumo dizer o que sinto. Se me deixar furiosa, vou dizer porque... — ela virou-se, olhando para a mulher escondido nas sombras —, não vou pagar pela traição dela... nem pela fraqueza.

Estava falando de Santana, e Brittany entendeu muito bem. As duas mulheres não se pareciam em nada, mas mesmo assim não queria vê-la olhar para ela como Santana fizera no passado.

— Não preciso vê-la, Brittany, para saber que tipo de mulher que realmente é. — Ela saiu para o corredor, e os pés nus mal haviam tocado o primeiro degrau da escada quando ela a alcançou. Rachel gelou, mas não se mexeu.

O calor do toque dela penetrava o tecido do roupão, e fechando os olhos, ela esperou. Seus joelhos fraquejaram ao senti-la tão perto, e apoiou-se no corrimão.

— Acha que sou tão correto... — sussurrou, junto ao ouvido dela, a respiração cálida tocando-lhe o pescoço.

— Sei que é.

— Bem, talvez deva se lembrar que não tenho uma mulher há muito tempo.

— Que elogio — sussurrou ela, com a garganta seca.

— E mesmo — retrucou Brittany. — Porque é a única coisa que me fez desejar sair das sombras.

Ela estremeceu, sentindo a boca seca.

— Que droga, Rachel — disse ela, num tom que expressava o mesmo desejo que ela sentia. — Quando olho para você, tudo que quero é sentir seu gosto e...

Um calor intenso a envolveu, e Rachel colocou a mão sobre o coração, que batia disparado.

— Sentir sua pele nua sob a minha boca... Ela sufocou um gemido.

— E estar... — a voz dela baixou ainda mais —, dentro de você...

Dentro de você. As palavras de Brittany evocavam imagens de corpos ondulantes, beijos ardentes, e ela apoiou-se nela. Ela segurou-a pelos ombros, enterrando o rosto na curva do pescoço macio. Ela se mexeu, e Brittany gemeu baixinho.

— Rachel... — O perfume doce a invadiu como chuva fresca num deserto árido.

Molhando os lábios com a ponta da língua, ela ergueu a mão para tocá-la, mas parou. Brittany segurou-a pela cintura e virou-a, agarrando as duas mãos de Rachel e prendendo-as atrás das costas, com uma só mão.

O movimento fez os corpos se tocarem e ela pôde sentir completamente Brittany, agora que estavam de frente uma para a outra.

— Sente o que faz comigo?

Ela ergueu o olhar para fitar o rosto escondido na escuridão. .

— Não é mais do que você faz comigo — sussurrou, o corpo ardendo de desejo.

O rosto dela aproximou-se ainda mais.

— Seria capaz de fazer isso sem me ver? — disse ela, os lábios tocando de leve os dela.

Uma emoção intensa os envolvia.

— Sim.

No mesmo instante a boca feminina cobriu os lábios de Rachel, num beijo ardente e apaixonado. O beijo tornava-se cada vez mais exigente, e ela aceitou, entregando-se à gloriosa sensação que a envolvia, como uma onda ardente e avassaladora. O coração batia disparado, e quando ela apoiou-se contra a parede, acomodando-a entre as coxas definidas, Rachel não protestou. Era tudo tão erótico... A escuridão, o fato de não poder tocá-la, quando desejava enterrar os dedos nos cabelos macios, mostrando-lhe tudo o que provocava nela.

A língua exigente invadiu-lhe a boca e Rachel abriu os lábios, fazendo Brittany gemer de desejo. Uma das mãos dela segurava-lhe os dois pulsos, mas a outra lhe acariciou as costas, puxando-a para mais perto. Ela se mexeu, gemendo de frustração por não poder tocá-la.

Brittany quase perdeu o controle quando a língua de Rachel acariciou-lhe os lábios, cheia de paixão. Era exatamente o que as duas pareciam querer extinguir com os beijos. Mas ela só aumentava. Cada vez mais.

A mão dela subiu até o ombro de Rachel , a ponta dos dedos tocando a pele nua, sob o roupão. O simples toque provocou uma reação intensa, como se fogo liquido lhe percorresse as veias, e ela arqueou o corpo. A mão deslizou, tocando o seio macio, e Rachel beijou-a de modo selvagem, apertando o corpo contra o dela. Se não podia tocá-la, tinha que expressar a paixão de outras maneiras. Os dedos femininos acariciaram o mamilo ereto, enquanto os beijos se tornavam mais ardentes. Brittany sentia-se viva e louca de desejo. Queria mais. Queria sentir as mãos dela em seu corpo, o corpo dela nu colado ao seu. Queria sentir o toque de uma mulher. Daquela mulher. Só ela.

Mas não podia. Aquilo era tudo que poderiam ter, e sabia que tinha cruzado uma barreira que jamais deveria ter ignorado. Bruscamente, afastou os lábios dos de Brittany.

— Não — gemeu ela, sabendo que iria deixá-la. Estava louca de desejo.

— Não posso. — Ela mal podia respirar. Afastando-a dela, endireitou-se. Com um suspiro, soltou-a, e Rachel cambaleou, sentindo as pernas fracas. Ela amparou-a e Rachel apoiou as mãos nos ombros dela. Brittany enrijeceu.

— Rachel, não...

Ela não obedeceu e deslizou as mãos pelo seios, coberto pelo roupão de seda, sentindo o coração dela disparar, os músculos enrijecendo quando ela tocou o cinto do roupão.

Ela ficou imóvel, cada fibra do corpo tensa sob o toque delicado.

— Não fiz isso por piedade, Brittany — disse, num tom suave. — Seus dedos deslizaram mais para baixo. — Eu quis. —A mão delicada tocou-a, antes de virar-se para subir a escada. — Ou será que não percebeu?

Brittany continuou ali, imóvel, incapaz de responder ou de fazer qualquer movimento. Observou-a subir a escada, o roupão meio aberto, expondo boa parte dos seios. Ela não fez nenhum gesto para tentar cobrir-se, e parou no meio da escadaria, voltando-se para ela.

— Ainda detesta o que faço você sentir? Ela apoiou-se na parede.

— Sim... e não.

— Que parte de você vencerá, Brittany? A mulher cujos beijos me levaram ao céu, ou a fera que está trancada dentro dela? — Com essas palavras subiu correndo os degraus, como se tivesse medo de ceder e voltar correndo para os braços dela.

Quando ela desapareceu de vista, Brittany esmurrou a parede. Tinha sido uma tola em tocá-la. Tinha que ficar longe dela. Mas apenas o pensamento de não vê-la já era doloroso demais...

Brittany a evitara por alguns dias. Dois, para ser exato, e isso a deixava louca para ter companhia. O ruído de passos e as risadas de Melaine não estavam ajudando nem um pouco. O som competia com a chuva do lado de fora. O ruído, a música e as risadas chegavam até ela, provocando uma enorme vontade de ver o que acontecia. Mas continuava dizendo a si mesmo que tinha muito trabalho a fazer.

Olhou para os três computadores, através dos quais gerenciava as empresas e comunicava-se com os empregados, e então pegou o controle remoto, ligando a tevê. Colocando o volume bem alto, tentou abafar o som das vozes femininas que brincavam na casa.

Mesmo olhando para o programa de entrevistas, não podia deixar de se admirar ao ver como Rachel se envolvera com a menina, em poucos dias. Não eram apenas as brincadeiras, as risadas, mas os pequenos cuidados que percebia, como as fitas nos cabelos de Melaine, combinando com as roupas, o modo como arrumava a mesa. E também como deixava de lado qualquer coisa quando a menina precisava. Só que ela desejava estar lá para abraçá-la, para amarrar os sapatos, enxugar as lágrimas.

Ela ligou o interfone, no volume no máximo, para poder ouvir o som da casa toda. Era estranho, depois de tanto tempo vivendo no silêncio.

— Rachel, veja!

Ela ouviu passos e um gemido... de Rachel. Da última vez que ouvira aquele som, ela estava em seus braços, entregue aos beijos ardentes. Esfregando os lábios, tentou afastar as lembranças.

— Oh, Melaine, coitadinho!

— Se ficar no estábulo pode ser pisoteado, não é?

— Sim.

— Posso pegá-lo?

— Ah, temos que pegá-lo. Vista a capa. Vai ter que se agachar e ser paciente. Se ele vier até você, podemos trazê-lo para dentro. Se não vier é porque não está pronto para ficar conosco, e pode arranhar você.

— Está bem — disse Melaine. — Mas ele virá. Franzindo a testa, Brittany levantou-se e foi até a janela que dava para o pátio de trás. A filha correu na direção do estábulo, vestindo uma capa amarela. Ali, bem na porta, estava um gatinho minúsculo, branco como neve. Melaine ajoelhou-se e estendeu a mão, esperando, como Rachel ensinara. Brittany apertou o botão do interfone.

— Um gato, Rachel?

— É um gatinho, e eu imaginei que estivesse trabalhando. Ela ignorou o comentário.

— Não acho uma boa idéia. Ela tem apenas quatro anos.

— E precisa de algo para cuidar. Vai aliviar a dor da perda, Brittany. Precisa sentir que é capaz de lidar com as situações, e o gatinho é inofensivo.

— Gatinhos miam fora de hora, e isso não vai diminuir a dor.

— E, não vai. Ela precisa que a mãe deixe a caverna e venha ficar com ela. Mas não pretende fazer isso, não é?

A culpa dominou-a e, sem querer, olhou para a mão coberta de cicatrizes.

— Droga, Rachel, sabe que não posso fazer isso.

— Não, Brittany, eu não sei. — A exasperação era evidente na voz dela. — Só sei que está descontando a reação de algumas pessoas em mim e em Melaine. E está negando a si próprio muito amor.

Brittany passou a mão pela nuca dolorida.

— Veja! Veio até ela!

A excitação na voz de Rachel atingiu-a como um golpe.

— Rachel...

A voz dela soou mais baixa:

— Ande devagar, querida. O chão está escorregadio. Segure-o com cuidado, ele é um filhotinho. — Ela estava na porta dos fundos, e sua voz misturava-se ao ruído da chuva. Então Rachel aproximou-se do interfone, a voz rouca de emoção:

— Se pudesse ver o rosto dela, não questionaria nada. E prometo, vou ensiná-la a cuidar do gatinho. Será minha responsabilidade. Está bem assim, minha Senhora?

Como poderia recusar, sem parecer cruel?

— E também cuidarei para que o gatinho jamais a veja. Ela olhou para o interfone com expressão séria.

— Muito engraçada. Está bem. E sua responsabilidade. Brittany desligou, mas ainda podia ouvir a voz de Rachel, vinda do alto-falante. Estava ajudando Melaine a tirar a capa e os sapatos molhados.

— É lindo! — disse Rachel.

— Posso ficar com ele? — perguntou Melaine, num sussurro.

— É claro que pode. Ele precisa de uma casa.

— Mas... o que a mama vai dizer? — A voz da menina expressava medo, e Brittany não gostou nem um pouco disso. Não queria que tivesse medo dela.

Notas finais
Ate....