A Bela e a Fera
5 Capítulo 5
Capítulo 5
— Acho melhor deixar que se conheçam melhor. Telefono mais tarde.
— Gostaria que fizesse isso — e, baixando a voz, completou: — Já que não há nada de temporário neste trabalho, e sabe bem disso.
— Ela precisa dela, Rachel.
— Eu sei, mas... — Olhando para baixo, viu que a garotinha as observava, curiosa. Rachel trocou um olhar com Quinn, indicando que poderiam conversar melhor ao telefone. Quinn sorriu, e inclinou-se para beijar Melaine.
A criança passou os braços em volta do pescoço de Quinn, agarrando-se com força por alguns instantes. O coração de Rachel apertou-se. Como devia sentir-se insegura e amedrontada, sendo Quinn a única pessoa que conhecia.
Quinn acariciou as costas da menina, dizendo que a amava muito, e logo viria visitá-la. Melaine soluçou, correndo para Rachel, assim que Quinn soltou-a. Com um sorriso, Rachel levou a criança até o carro, colocando-a no banco da frente. Depois de acomodar-se atrás do volante ligou o motor.
— Pronta?
Melaine olhou-a com os olhos muito verdes e assentiu, mordiscando a ponta do suéter. Rachel percebeu o brilho das lágrimas e inclinou-se, abraçando-a e sussurrando:
— Tudo vai dar certo, querida. Sei que está com medo. — Os dedinhos delicados apertaram-na com força.
— Quero ir para casa.
Os olhos de Rachel encheram-se de lágrimas. A menina parecia tão triste e perdida.
— Vou levá-la para casa, e será uma grande aventura descobri-la aos poucos. Não acha que vai ser divertido?
Melaine deu de ombros, e Rachel acariciou os cabelos brilhantes. Tinham um longo caminho a percorrer juntas, e imaginou por quanto tempo ficaria ali. Ou se algum dia desejaria partir. Pois percebia que estava começando a amar aquela garotinha perdida.
No instante em que a casa apareceu na frente delas, Rachel percebeu que Melaine prendia a respiração, maravilhada, esticando o pescoço para ver melhor. Rachel dirigiu pela estrada de terra, cheia de lombadas, até chegar à garagem, esperando que a vista da praia, do estábulo enorme e do grande jardim atraíssem Melaine. E aconteceu, especialmente por causa do escorregador e do balanço, que não se encontravam ali no dia anterior. Parando o carro, desligou o motor.
— Vá, experimente — encorajou ela, e Melaine abriu a porta. Rachel apressou-se a ajudá-la a descer, e logo Melaine corria para os brinquedos. Os brinquedos eram grandes e sólidos, e Rachel sorriu, ao ver Melaine escorregar uma, duas, três vezes, sem cansar da brincadeira. A menina correu para o balanço, experimentando-o, até ver a caixa de areia, cheia de brinquedos. Ela sentiu a presença de alguém, e viu que Troy se aproximara.
— Vou levar as malas para cima — disse, estendendo a mão para pegar as chaves. Ela entregou-as, mas não se mexeu.
— Ela parece com ela — disse, suavemente. E Rachel observou Melaine, imaginando o quanto seria parecida com a mãe.
De repente, Melaine saiu correndo para eles e parou em frente de Troy, observando-o atentamente. Rachel percebeu que ela imaginava que Troy fosse algum parente. Ela apresentou-os, e viu o sorriso da criança desaparecer.
— Como vai, senhorita? — Troy agachou-se na frente da menina, e os velhos joelhos estalaram.
Melaine olhou com surpresa os jeans reforçados nos joelhos.
— Dói?
— Não. Só faz barulho.
— Minha mama foi ferida. Muito ferida.
— Sim, meu bem.
— Conhece a minha mama?
— Claro que sim.
— Acha que ela vai gostar de mim? — A voz dela tremia, e Troy trocou um olhar com Rachel.
— Sim, princesa. Ela vai gostar muito.
— Mas onde ela está?
Troy endireitou-se e olhou para as janelas, no alto do castelo.
— Lá em cima.
Melaine ficou ao lado dele, olhando para o alto.
Brittany olhou para a filha, e amou-a de imediato. Ela a vira brincando, os cabelos tão louros quanto os dele, os olhos da mesma cor. Ela também tinha o mesmo sorriso. Como devia ter sido difícil para Santana, olhá-la todos os dias, e vê-la à sua frente, pensou, aproximando-se mais da janela.
Melaine ergueu o bracinho e acenou, e Brittany desejou descer correndo para apertá-la nos braços, dizer o quanto a amava, como iria protegê-la e como estava feliz em tê-la ali. Mas não podia. Mantendo-se um pouco afastado, acenou, o olhar desviando-se para Rachel. Ela também olhou, apoiando-se no carro, de braços cruzados. O olhar dela dizia tudo, que deveria vir e brincar com a filha, e acima de tudo, indagava como podia resistir à criança? Será que ela não entendia como gostaria de descer? Como gostaria de estar ali, abraçando-a e fazendo com que esquecesse toda dor? E que ficar longe dela a feria mais do que à própria filha?
Troy já estava entrando com as malas, e Rachel dizia algo para a menina. E quando Melaine segurou a mão de Rachel, quase esmurrou a janela. Devia ser eu. Melaine, era filha dela.
Rachel preparou o almoço para Melaine antes de subirem para o quarto, imaginando que depois de ver as coisas maravilhosas que a mãe preparara perderia a fome. Depois, disse à menina que o quarto dela era em frente ao seu, do outro lado do corredor, e que poderia ir até lá quando quisesse, de dia ou à noite. Enquanto desfazia as malas, Melaine examinava os brinquedos, o enorme urso de pelúcia, quase do tamanho dela. Ao subir na cama, apertou urso contra o peito.
— Está com medo? É muito alta? — Melaine olhou-a diretamente.
— Não. — Ela parecia deslumbrada, e bocejou. — E tão lindo.
— É mesmo. Eu gostaria de ter tido um quarto assim, quando era da sua idade.
— E que tipo de quarto você tinha?
— Era pequeno e escuro — respondeu Rachel, continuando a arrumar as coisas.
E eu o dividia com minhas irmãs. — Ela não disse que o telhado era de zinco, e que gotejava forte quando chovia, muitas vezes sobre a cama.
— Irmãs?
— Tenho três, mas duas são casadas — explicou. Eram mais novas do que ela, pensou, sentindo uma pontada de inveja. Ela quase se casara com a mulher errada. Uma mulher que a desejara apenas pelo rosto bonito, pelos títulos de beleza, como a ouvira dizer ao padrinho. Queria mostrá-la como um troféu, e continuar com a amante.
Rachel fechou os olhos, afastando o sentimento de humilhação. Cassandra fora o ponto culminante de uma vida em que todos viam apenas sua aparência. Sabia que também era responsável por isso, já que participara de muitos concursos, desejando usar os prêmios para conseguir uma vaga na faculdade, e construir uma carreira. Ainda assim, acreditara que ela a amava, e quando o sonho se desmanchara, tinha perdido muito mais do que a noiva. Perdera a auto-estima, já que Cassandra lhe dera tudo o que podia desejar, como se desejasse comprá-la. Tudo, menos amor.
— Talvez possa conhecê-las — disse, por fim. — Minha irmã, Marley, tem uma filha pouco mais velha do que você. — Quando não teve resposta, Rachel virou-se e viu Melaine adormecida, agarrada ao enorme urso. Sorrindo, ajeitou um travesseiro sob a cabeça da menina, tirou-lhe os sapatos, e cobriu-a com um acolchoado. Melaine suspirou, mostrando que o dia fora longo demais para uma menina tão pequena.
Beijando-a na testa, desligou as luzes e saiu, fechando a porta. Imediatamente sentiu a presença dela e virou-se para a escadaria, no fundo do corredor. Na semi-escuridão podia ver-lhe as pernas, dos joelhos para baixo, e a mão, apoiada no corrimão.
— Ela está bem?
— Sim, mas está exausta, e adormeceu.
— Obrigado, Rachel.
— Por nada. Ela quer vê-la.
— Sabe que não posso fazer isso.
— Ela precisa da mãe.
— Rachel... Por favor.
A dor, por negar a si mesmo o contato com a filha, expressava-se na voz dela. Naquele instante, Rachel percebeu o quanto aquela mulher era solitária, e como devia ser difícil ter duas mulheres naquela casa, depois de ter andado por ali, quando e como desejasse, por quatro anos.
— Ela está se sentindo sozinha e com medo. Tudo é novo para ela, e embora esteja adorando as novidades, ainda quer vê-la.
— Mas não pode. Não quero amedrontá-la ainda mais. E não sei nada sobre garotinhas, ou como cuidar delas. Mas você sabe.
Ela não queria discutir, não com Melaine tão perto.
— Não vou ficar aqui para sempre — retrucou, entrando no próprio quarto e fechando a porta.
Brittany suspirou. Ela continuaria ali por quanto tempo ela desejasse, e só de pensar que poderia partir, ficava nervosa. Ela observou as pequenas luzes junto ao chão, que iluminavam o corredor, e a porta do quarto da filha. Não queria que nenhuma das duas a visse, mas a vontade de ver a filha foi mais forte. Descendo os últimos degraus, atravessou o corredor e abriu a porta do quarto de Melaine, entrando silenciosamente. Bem devagar, aproximou-se da cama, olhando a criança adormecida. Parecia tão inocente, tão indefesa. E era tão pequena.
Estendendo a mão, tocou uma mecha de cabelos, e então, incapaz de resistir, acariciou o rosto macio com as costas da mão. A pele era macia, fresca. Ela era linda, e o coração de Brittany apertou-se. Queria tomá-la nos braços, beijá-la.
— Mama?
A palavra quase a fez chorar.
— Sim, princesa, estou aqui. Volte a dormir.
Melaine mexeu-se na cama e Brittany cobriu os ombros delicados, carinhosamente.
— O mama ama você — sussurrou.
Meio adormecida, Melaine segurou a mão dela. Por um instante, Brittany ficou imóvel, temendo que ela percebesse as fundas cicatrizes no pulso, mas já voltara a dormir.
Não querendo arriscar-se a encontrar Rachel, pensou em usar a passagem secreta, mas a raiva foi mais forte. Afinal, aquela era a casa dela. Saindo do quarto, subiu a escada, e já estava quase chegando em cima, quando Rachel abriu a porta e saiu depressa. Apressando o passo, ela penetrou na escuridão, sabendo que os olhos dela levariam alguns segundos para ajustar-se à falta de luz.
— Sra. Pierce — chamou, suavemente. Imediatamente sentiu-lhe o perfume e estremeceu. — Sra. Pierce. — Ela parou.
— Estou ignorando você. Indo embora. Será que não entendeu?
— Psiu. — Ela aproximou-se. — É claro que percebi.
— Não dê nem mais um passo.
— O que vai fazer? Me despedir? — perguntou, sabendo que ela não poderia fazê-lo.
— Há outros modos de fazê-la ficar longe — disse, ao vê-la desobedecer, aproximando-se ainda mais.
— Por exemplo?
— Deixá-la ver meu rosto.
— Não tem uma boa impressão a meu respeito, não é? — sussurrou ela, olhando fixamente para a sombra, onde ela se escondia.
Havia compaixão na voz dela, talvez piedade.
— Pelo contrário. Tenho uma impressão boa demais. — Brittany deu um único passo, aproximando-se perigosamente, e o calor do corpo alto penetrou instantaneamente as roupas dela. O desejo de apoiar-se nela era muito forte, e o modo como seu corpo respondia ao dela fazia imaginar que já a conhecera em outra vida, outros tempos. Era como uma fome, um desejo incontrolável. Mas não podia. Já fora usada antes por sua beleza, e ali estava uma mulher que desejava usá-la, novamente, só que desta vez como uma barreira entre el e a filha.
— E tem raiva por precisar de mim. Desejaria que fosse outra pessoa, não é?
— Sim — silabou ela, como uma serpente pronta para o ataque. — Vejo seu rosto, perfeito, e sinto cada cicatriz, como se tivesse acontecido ontem. — A voz dela tornou-se ainda mais baixa. — E então sinto como sua respiração acelera quando me aproximo, sinto seu corpo pulsar, como agora e...
As palavras saíram antes que pudesse ela controlá-las.
— Faz você sentir-se como uma mulher, não uma eremita. — Ela gelou, como se cada músculo do corpo estivesse paralizado. O desejo de tocá-la era tão forte, que mal podia resistir.
— Brittany ... — ela chamou por ela aproximando-se
A palavra pareceu despertá-la. Virando-se depressa, subiu a escada, de volta ao santuário.
A porta batendo foi como um tiro no escuro, fazendo-a recuar contra a parede, cobrindo o rosto.
Agora ela não viria mais para a luz. Estragara tudo.
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Rachel sentia-se muito mal. Na verdade, não tão mal assim, admitiu, parando no saguão do térreo, com as mãos nos quadris. Mas mal o bastante para ficar acordada, vagando por aquela casa enorme à meia-noite. Como gostaria de ter mantido a boca fechada! Esse era o resultado de ter sido criada numa casa cheia de crianças, onde precisava elevar a voz para que prestassem atenção nela. Agora queria uma chance para se desculpar, mas Brittany não respondia ao interfone.
Muito bem. Era uma mulher teimosa, embora soubesse que ela dissera a verdade. Sabia que despertava nela sentimentos e emoções esquecidos, já que vivendo reclusa no castelo não tinha a chance de sentir coisa alguma, havia muito tempo. Agora ela estava ali, e também a filha, o que tornava o isolamento ainda mais intenso e difícil de suportar.
Mas ela também fazia Rachel sentir emoções perturbadoras. Ao lado dela sentia-se ainda mais feminina, mais desejada. E de repente percebeu como evitara tudo isso depois que rompera o noivado com Cassandra. Mas estar perto de Brittany provocava sensações que nunca experimentara antes. O coração batia forte, a pele ficava quente, rosada, e um desejo intenso de que a tocasse surgia de forma incontrolável.
Só não tinha certeza se gostava disso.
Cassandra quase destruíra sua autoconfiança, e ela aceitara o emprego na Wife Incorporated para afastar-se dela. Será que queria envolver-se com outra mulher que dava tanta importância às aparências? Porque era exatamente o que Brittany fazia.
Suspirando, acendeu a luz da biblioteca e entrou. Era um lugar muito bonito. As paredes eram cobertas de estantes repletas de livros, havia um sofá e uma poltrona diante da lareira e uma escrivaninha num dos cantos. Era um aposento feminino, pensou, sentindo o perfume de tabaco de boa qualidade que vinha do cachimbo, apoiado no cinzeiro de cristal. O olhar dela percorreu a sala, parando na porta.
— Sra. Pierce?
A ideia de vê-la era ao mesmo tempo amedrontadora e excitante. Não houve resposta .
Olhando a sala, tentou imaginá-la ali. Será que se sentia confortável, rodeado por livros? Será que eram os únicos companheiros que tinha, além de Troy? Um sentimento de piedade a invadiu, mas Rachel afastou-o depressa, sabendo que Pierce detestaria isso.
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