A Bela e a Fera
17 Capítulo 17
Capítulo 17
Nos últimos dias, Rachel aprendera muito sobre Brittany. Além de uma amante fantástica, mãe carinhosa e atenta, era uma mulher de negócios muito bem-sucedida. Embora soubesse que tinha algumas empresas de informática, que dirigia de casa, não imaginava que ela mesmo, tivesse criado os softwares. Programas de segurança, jogos, antivírus. Não havia nada que não pudesse criar, decidiu, depois de vê-la trabalhando. Tinha ganhado uma fortuna, sem sair de casa.
Estavam entrando no estacionamento do supermercado quando a música do rádio parou. Rachel franziu a testa quando ouviu a interrupção para uma notícia urgente. A tempestade tropical na costa da Flórida tinha se transformado num furacão e vinha na direção da ilha.
Brittany afastou a cortina, olhando a escuridão que cobria a ilha. O vento soprava furiosamente, mas havia pouca chuva. Mas ela viria, e forte, pensou, imaginando por que Rachel ainda não chegara. Já fazia muito tempo que tinham saído.
Tentara ligar para ela no celular, mas estava na caixa postal. Como sempre acontecia, pensou, decidindo que realmente os celulares eram algo que Rachel não conseguia entender.
Estava impaciente para vê-las em casa, seguras, e já discara o número da polícia, sem resultado. A linha estava ocupada, e com o furacão a caminho não iriam procurar uma mulher e uma criança perdidas. Sem pensar duas vezes, Brittany pegou um casaco e saiu, pedindo a Troy que lhe emprestasse a picape. Entregando-lhe a chave, Troy ofereceu-se para acompanhá-la, mas Brittany recusou, pedindo-lhe que cuidasse da proteção da casa.
Minutos depois dirigia pela estrada principal, numa velocidade excessiva, a chuva batendo forte no teto e no pára-brisa. Acendendo os faróis, tentou enxergar na escuridão. Areia e lama já tinham atolado alguns carros, e ela imaginou se aquilo teria acontecido com Rachel.
Então ela as viu. Aliviada, parou e desceu. Acima do ruído da chuva e do motor ouviu alguém cantando e aproximou-se da janela.
Rachel abaixou o vidro, surpresa.
— Brittany! O choque no rosto dela revelava que nunca imaginara que saísse do castelo para resgatá-la.
Inclinando-se, beijou-a.
— Graças a Deus!
— Olá, mama.
— Vocês estão bem? — Ela abriu a porta do carro e fechou o vidro.
— Sim. O motor morreu e parou de vez — explicou Rachel, saindo e pegando Melaine. — Tentei ligar do celular, mas a bateria acabou.
Brittany tirou Melaine dos braços dela, ajudando-as a entrar na picape aquecida, antes de voltar ao carro para pegar os pacotes.
— Puxa, Rachel — resmungou, arrumando os pacotes no chão, à volta dos pés deles. — Precisava de tudo isso?
— Ouvi a notícia sobre o furacão e achei melhor nós estarmos preparados.
Nós, pensou Brittany. Será que Rachel também pensava nelas como uma família?
— Talvez não chegue até aqui, como da última vez. — Furacões eram um pesadelo para quem vivia no litoral, mas eram terríveis para quem morava na ilha. Era o preço da solidão e da linda paisagem, pensou ela.
Depois de fechar o carro, entrou na picape e olhou para as duas. Não queria nem pensar no que faria se algo acontecesse a elas. De repente, Melaine atirou-se em seus braços.
— Eu sabia que viria nos buscar, mama.
Brittany abraçou-a, olhando para Rachel. O sorriso dela era cheio de ternura.
— Você saiu de casa por nossa causa. — Rachel ainda estava surpresa.
— Não podia deixar minhas garotas enfrentarem a tempestade sozinhas.
Rachel estendeu a mão, acariciando os cabelos molhados. Estava orgulhosa de Brittany, mas não precisava dizer. Ela sabia. Tinha dado mais um passo na direção do mundo exterior.
Segurando a mão dela, BRittany beijou-a carinhosamente.
— Serabi está bem, mama?
Brittany soltou a mão de Rachel e sorriu para a filha. Só mesmo uma criança ficaria tão alheia ao perigo.
— Estava dormindo perto do fogo quando saí — respondeu, dirigindo para casa.
— Acho que vamos ter uma noite de chocolate quente, pipocas e desenhos animados — disse Rachel, enquanto Melaine batia palmas, sentada entre os dois adultos.
Mas a conversa daquela noite não aconteceu. A tempestade foi ficando cada vez pior e havia muito que fazer. Vestindo jeans e camiseta, Rachel ajudou Troy e Brittany a proteger o pátio e os estábulos. Troy já rebocara o carro para a garagem, insistindo que iria consertá-lo, já que era responsável por sua manutenção.
Brittany alimentou os cavalos e abrigou-os nas cocheiras, reforçando as portas. Tinham sorte, já que a casa e as demais construções ficavam no alto da colina, e a enchente não poderia alcançá-las. Mas quando Brittany disse a Rachel para arrumar uma mala, já que ela e Melaine partiriam na próxima balsa, ela fingiu não ouvir. Não partiria sem ela, de jeito nenhum. E ela não iria.
Assim, RAchel se preparou para enfrentar a tempestade. Já tinha colocado lanternas e velas por toda a casa. Embora Brittany tivesse um gerador, no caso de a luz acabar, achava melhor estar prevenida.
O furacão ainda não estava perto, mas já podiam sentir seus efeitos. Melaine tinha sua própria lanterna, e Rachel precisava insistir para que a desligasse, ou acabaria sem pilhas. Por fim, colocou-a sobre a geladeira.
Ao voltarem para dentro de casa, Melaine assistia a um vídeo, com Serabi no colo, e nem prestou atenção nelas. Rachel pendurou os casacos molhados e preparou um bule de café.
— Quero que pegue a próxima balsa e saia da ilha. Fique num hotel.
— Não há mais quartos de hotel disponíveis. Todos estão saindo da ilha. — E virando-se para Brittany, perguntou: — Você irá conosco?
— E claro que não.
— Então, esqueça.
— Rachel, você precisa sair daqui.
— Não vou deixá-la sozinha, Brittany.
— Sou bem crescida.
O olhar de Rachel percorreu-a dos pés à cabeça.
— Eu sei. Mas não vou assim mesmo.
— Vai, sim! Eu já disse.
Ela cruzou os braços a enfrentou-a.
— Então me obrigue.
— Que droga, Rachel. Será que não vê o perigo?
— Não grite comigo, Pierce. Se Melaine e eu formos, você e Troy terão que ir conosco.
— De jeito nenhum. — Ela pegou o telefone e discou. — Nem que eu tenha de amarrá-las e colocá-las no barco, irão para um lugar seguro.
— Estamos seguras aqui. Muito mais do que dirigindo nessa chuva para encontrar um hotel. E com certeza mais seguras do que o resto da ilha.
Brittany falava com os policiais responsáveis pela balsa, perguntando quando partiria a próxima, e quase gritou com o homem, pedido desculpas em seguida.
— Conseguiu o que queria.
— Não há mais balsas.
— Não me admira. Olhe a água.
Brittany olhou pela janela. As ondas enormes batiam no cais, e o vento soprava cada vez mais forte.
— Você fez de propósito. Discutiu comigo, inventou coisas para fazer, até que fosse tarde demais.
Rachel deu de ombros, disfarçando um sorriso. Brittany franziu a testa, muito séria.
Rachel foi até a ela e abraçou-a pela cintura.
— Estou exatamente onde quero estar, Brittany. Se estivéssemos separadas, você passaria o tempo todo sem saber se Melaine e eu estaríamos a salvo.
— Acho que tem razão — admitiu, sem sorrir.
— E, além disso — continuou ela, sorrindo ao ver que Brittany continuava séria —, ainda temos muitos quartos para percorrer.
Brittany sorriu.
— E eu adoro tempestades.
— É mesmo?
— Os trovões abafam meus gritos quando você faz... você sabe o quê...
— Oh, Brittany — Rachel gemeu, beijando-a e deslizando as mãos sob a camiseta.
Ela puxou Brittany para mais perto.
— Já é hora de ir para a cama? — sussurrou Brittany.
— Falta pouco.
— Que droga!
Rachel riu, e quando Melaine chamou, as duas se separaram.
Brittany deu um passo para trás, encostando-se no balcão.
— E melhor ir ver o que está acontecendo.
— Já estou vendo — respondeu Rachel, com um sorriso malicioso, saindo para atender à menina.
Brittany também sorriu, imaginando como tinha conseguido viver sem aquela mulher até então.
Na enorme cama da torre, Brittany a penetrava com os dedos, cada investida levando-a para mais perto do clímax. Ela fitava o rosto perfeito, observando cada reação.
Lá fora a tempestade rugia. Dentro do quarto, a paixão era avassaladora.
Rachel forçou os calcanhares contra o colchão, erguendo-se para recebê-la, num ritmo intenso, perfeito. Logo o êxtase refletia-se no rosto dela, e Brittany também atingiu o clímax, abraçada a ela, prendendo-a. Nunca havia se sentido tão vulnerável. Nem tão poderosa.
Rachel estremeceu de prazer, entregue às sensações deliciosas e à felicidade que inundava sua alma.
— Oh, Brittany — gemeu, passando as pernas à volta dela.
Ravhel beijou o pescoço, o rosto marcado, enquanto a paixão lentamente se acalmava, trazendo-as de volta há terra. Nenhuma delas falou. Nem saberiam que palavras usar.
Mas Rachel admitiu, em silêncio, que estava loucamente apaixonada por Brittany. A fera terna e gentil, a princesa ferida. E tinha medo de sofrer de novo. Porque, se isso acontecesse, sabia que, dessa vez, nunca mais se recuperaria.
O furacão foi chamado de "Helen" era devastador. As ondas erguiam-se a mais de cinco metros de altura, arrebentando na praia e subindo para o vilarejo. Era como se a natureza punisse aqueles que ousavam viver tão perto do oceano.
Rachel admirava aquela força, mas sabia que seria diferente se não estivesse segura no castelo. A chuva estava cada vez mais forte e a previsão era de que iria piorar. Assim, não desviava a atenção das notícias do rádio. As portas e janelas balançavam com o vento. Os vidros tinham sido reforçados e protegidos. Do lado de fora, sacos de areia alinhavam-se junto às portas do salão. Do lado de dentro, Rachel colocara toalhas para absorver a água que o vento jogava por baixo das portas. Aquele era o único lugar da casa que os preocupava.
Melaine brincava com as bonecas, enquanto Brittany percorria a casa, checando tudo, verificando o telhado para garantir que não haveria vazamentos.
Rachel entrou no quarto amarelo, sem acender as luzes, e como a energia já tivesse ameaçado acabar várias vezes, acendeu a lanterna. Olhando pela janela, observou a cidade deserta. A última balsa partira no dia anterior, levando todos, exceto os policiais.
Um relâmpago clareou o céu, iluminando a cidadezinha abaixo. Meu Deus, pensou Rachel.
— Brittany! — chamou. — Venha depressa. — Ela entrou correndo no quarto.
— Não devia ficar perto da janela — disse, aproximando-se. — Não está protegida.
Ela ainda olhava atentamente para a vila.
— O vento vem do outro lado — observou, olhando-o por cima do ombro. — Mas ainda há gente lá embaixo.
— O quê? — Brittany correu para a janela.
— A cidade está inundada. Quando o relâmpago clareou tudo, vi os policiais tentando colocá-los em segurança. — Ela apontou, mas não era possível ver nada no escuro. — Precisamos fazer alguma coisa.
— Pensei que todos tivessem ido para o continente.
A cada furacão, durante os últimos cinco anos, a ilha era completamente evacuada, com exceção dos policiais. E dela própria. Brittany não podia ficar de braços cruzados, na segurança do castelo, vendo-os lutar contra a tormenta. Tirando do bolso o rádio que usava para se comunicar com Troy, explicou-lhe a situação.
— Pegue a picape. Ainda tem aquele rádio para comunicar-se com a polícia?
— Sim. E ouvi que a casa da sra. Demmer está debaixo d`água, e a enchente já chegou à rua Magnólia.
— Então precisamos ser rápidos. Chame os policiais.
— Certo. Vou buscá-los.
Brittany guardou o rádio e virou-se para Rachel.
— Venha. Precisamos de travesseiros e cobertores. — Ela saiu do quarto, caminhando para a escada. — E alguns medicamentos. Faça café, também. — Brittany parou, virando-se para fitá-la. — Ainda temos comida para mais uns dias?
— Sim, e posso fazer com que dure bastante.
— Que bom. Não tenho idéia de quantas pessoas estão lá. — Ela continuou a descer a escada. — Eu me sinto uma tola por não ter pensado nisso.
— Nem poderia. Pensávamos que todos tivessem partido.
— Isto aqui vai ficar uma confusão por uns dois dias.
— Querida você nunca teve que manter um bode na sua cozinha, tentando evitar que comesse as melhores toalhas de mesa de sua mãe.
Rachel passou por ela, dirigindo-se para a cozinha. Brittany riu, baixinho.
— Um bode, RAchel? O que o pessoal dos concursos diria, se soubessem?
— Acho que pegariam de volta as minhas coroas. — Ela parou, virando-se e beijando-a na boca. — E acha que eu me importaria?
Brittany sorriu, dando um tapinha nas nádegas firmes. Rachel olhou-a intensamente antes de entrar na cozinha, acendendo as luzes.
— Há cobertores e travesseiros no armário lá em cima. E mais alguns no meu quarto.
— Talvez haja mais alguns na biblioteca — disse Rachel, começando a fazer sanduíches.
Brittany foi buscar lanternas e velas. Não tinha coragem de dizer a Rachel que quando as pessoas chegassem cuidaria delas sozinha.
Rachel serviu o café olhando para Katty, uma jovem adorável que chegara à ilha com o marido, para passar a lua-de-mel. Não tinha sido uma boa escolha, pensou. Mas pelo menos teriam algo diferente para contar aos filhos. Katty logo começou a ajudar, assim como o marido, um jovem oficial da Marinha, servindo café e bebidas, ajustando o vídeo e acalmando a todos. No chão, Melaine brincava com a única criança do grupo, Anna, uma garotinha de cabelos ruivos. Os pais sentavam-se num sofá próximo, enquanto as crianças coloriam uma revista. Havia mais três pessoas, incluindo os dois policiais, San e Will, que saíam periodicamente para checar em volta da casa, embora não houvesse, de fato, necessidade, uma vez que a ilha estava deserta e os poucos que haviam restado se encontravam no castelo.
As pessoas se dividiam entre o salão, a sala de jantar e a cozinha. Com exceção de Brittany. Era a oportunidade que Brittany precisava. Tinha aberto a casa para eles, e por certo não zombariam dela. Não na frente de Melaine. Ninguém seria tão insensível.
Mas Rachel estava tensa, imaginando por que ela demorava tanto.
— Onde está a Sra. Pierce? — perguntou Will o policial.
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